sábado, 21 de julho de 2012

Neruda e Dali


Salvador Dali: O Grande Masturbador (1929)

O Grande Urinador
(Pablo Neruda)

O grande urinador era amarelo
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.

Que era, onde estava?

Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.

Nada se divisava. Onde
estava o perigo?

Que ia acontecer com o mundo?

O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.

Que quer dizer isso?

Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propror guarda-chuvas especiais.

Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.

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