domingo, 18 de dezembro de 2016

O GRÃO, DE PETRUS CARIRY

O Grão é um filme binário. Solidão e silêncio. Amor e indiferença. Movimento e inércia. Morte e vida.

Vegetação rasteira, cabras e bodes, um cão, marido e mulher, avó e dois netos no Sertão do Ceará.

No início percorre-se uma estrada qualquer dentro de um automóvel. A sensação é que se quer decolar.

As vidas são secas, como em Graciliano Ramos. Os diálogos são mínimos. E há um cão que não se chama Baleia.

Vive-se de cabras e bodes. R$ 0,50 por cabeça. Não há retirantes, mas vida e morte são severinas.
        
O detalhe marcante é a atualização do sertão nordestino para o século XXI. O silêncio é rompido pelo palavreado angustiante e vazio da televisão: a solidão se impõe.

O contraponto à solidão televisiva é a relação do neto com a avó. Pequeno grão de poesia entre os trancos e barrancos do Sertão.

O Grão. Brasil 2007. 88 min. Drama. Diretor: Petrus Cariry. Atores: Leuda Bandeira, Verônica Cavalcanti, Nanego Lira, Kelvya Maia.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016




PARA UM IRMÃO QUE SE FOI POR CONTA PRÓPRIA

I
a vida não tem graça
vamos brincar de morrer

vamos brincar de forca
na árvore da vida

vamos com calma
vamos dançando

vamos pedalar
para além da vida

sem filosofias
sem desespero

vamos pedalar
sem olhar para trás

vamos pela estrada
da deslembrança


II
dança menino
vai dançando

atravessa brincando
a fronteira da vida


 III
deitado no mato
no meio da noite

debaixo da lua
no pé da palmeira

o vento lambendo
a  testa da mata

folhas caindo
dança das sombras


IV
quanta beleza
na música dos bichos

na brisa leve 
no perfume da terra

como é belo
o chamado do vazio

  
V
fecha os olhos
abraça o vento

dorme
meu irmão

o canto dos pássaros
não te despertará


VI
meu irmão
mora na mata

meu irmão
dorme na mata

e vai virando pó
e vai virando pedra

e vai virando saudade
e vai desvirando homem