COMUNICADO Nº 001/2018

Considerando os princípios da legalidade, moralidade, impessoalidade, publicidade, eficiência, razoabilidade e liberdade de expressão; comunicamos que este blogue voltará a ser atualizado apenas em 06 de agosto de 2018.


Dando tudo por bom, firme e valioso; paramos por aqui.

No ano de 12.018 os mitos serão terríveis. Sísifo, a montanha e a pedra serão esquecidos. Sísifo deixará, finalmente, de rolar a pedra montanha acima.

No ano de 12.018 um mito dará conta de uma geração que viveu curvada sobre aparelhos eletrônicos, que carregavam nas mãos. Quando tentavam espiar as pessoas, os bichos, as montanhas e até as pedras no meio do caminho; recebiam mensagens, e se mantinham curvados sobre os aparelhos: como gado no pasto.

Sísifo, do alto da montanha, podia, pelo menos: espiar a vista.



AS DESCULPAS POR DESCARTES

Lendo Não Há Lugar para Lógica em Kassel, de Enrique Vila-Matas, encontrei uma referência à Insustentável Leveza do Ser, as desculpas por Descartes, que me fizeram voltar ao romance de Milan Kundera, mais precisamente à sétima e última parte, intitulada O Sorriso de Karenin, que é o cão que se chamaria Tolstói, se não fosse menina, ou Ana Karenina, se não tivesse o focinho engraçado. Pelo tema e pela localização no livro, O Sorriso de Karenin lembra o capítulo Baleia, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, mas essa fica para outra oportunidade.

A Insustentável Leveza do Ser é um romance misterioso que se transforma a cada leitura. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio (Heráclito), ninguém lê duas vezes o romance de Milan Kundera. A sensação é que o texto é um rio circular, que vai e vem, cristalino, profundo, renovado, sempre.

Kundera se vale da agonia da cachorra para refletir sobre a relação entre homens e animais, cita o começo do Gênese e provoca: “Nada nos garante que Deus desejasse que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo.” Na sequência, o bardo traz uma informação intrigante, na antiga Tcheco-Eslováquia, após a Primavera de Praga, o terror começou pelos pombos, passou pelos cães para só depois chegar aos homens, como se a repressão precisasse agir aos poucos e por partes. Primeiro exigiu-se o extermínio dos pombos. Depois os jornais, o rádio e a televisão denunciaram os cães, que sujavam calçadas e jardins ameaçando a saúde das crianças. Por fim, o ódio foi usado contra os homens, que foram processados, demitidos e presos.

Discutindo a relação homens-animais, Kundera contrapõe Descartes a Nietzsche. O francês fez do homem “mestre e dono da natureza”, além de negar que os animais tivessem alma. O alemão foi se distanciando da humanidade e enlouqueceu, sendo que, em 1889, em Turim, viu um cocheiro chicoteando um cavalo, e correu em direção ao animal, abraçou-lhe o pescoço e chorou. Numa daquelas sacadas que valem por centenas de tratados, e só cabem no romance, Kundera afirma que o divórcio de Nietzsche com a humanidade começou quando o filósofo chorou sobre o cavalo, como se pedisse perdão por Descartes.

Vila-Matas retoma a passagem de Nietzsche por Turim. Para o escritor catalão, o caráter contido, elegante e sereno da cidade poderia criar disparates imprevistos e assombrosas explosões de loucura, como a do filósofo alemão, que, na esquina da Via Cesare Battisti com a Via Carlo Alberto, abraçou o cavalo chicoteado e chorou, ou, segundo Kundera, pediu desculpas ao animal em nome de Descartes. Vila-Matas retoma a passagem de Nietzsche por Turim no romance em que explora sua própria passagem por Kassel, cidade alemã que abriga exposições quinquenais de arte contemporânea. O escritor personagem principal do romance passa uma semana escrevendo em público, num restaurante chinês da cidade alemã. Ele pensa em celebrar o sono com uma frase sobre a mesa do escritório improvisado: “Ao dormir, mais perto se está de Duchamp”. Mas, por fim, opta pelas “Desculpas por Descartes”.

A escritora personagem de J. M. Coetzee, Elizabeth Costello, denuncia a indústria da morte, que produz milhões de coelhos, frangos e bois exclusivamente para lucrar com seus assassinatos. A escritora esboça uma comparação que ela própria reconhece como complicada: associa os matadouros de animais do tempo presente aos campos de concentração do Terceiro Reich. Costello cita a “linguagem dos currais”: “morreram como animais”; “foram mortos pelos açougueiros nazistas”; “ao tratar seus semelhantes, seres humanos criados à imagem de Deus, como animais, eles próprios se transformaram em animais.” Seja como for, a comparação complicada da escritora personagem não minimiza sua crítica ao morticínio animal, nem suas reservas em relação a Descartes, que enxergava os animais como mecanismos e engrenagens.

Com Descartes condenado em segunda instância, segui minhas leituras e me deparei com O Erotismo, de George Bataille. O autor discute transgressões e interditos, aproxima erotismo e morte. Bataille mostra que “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança”, mas, inicialmente, o homem não fez Deus à sua imagem e semelhança. A completa substituição dos animais por divindades humanas foi um processo demorado. Curiosa exceção seria a cauda do diabo. 

Bataille sugere que o mandamento “não matarás” contemplava os animais nos primórdios da humanidade. Para o autor, as cenas de caçadas presentes em cavernas não se explicam pela esperança de que a representação do objeto desejado contribuísse para a realização do desejo. As pinturas nas cavernas teriam mais a ver com a expiação da culpa dos homens pelos crimes cometidos contra os animais: “As imagens das cavernas teriam por objetivo representar o momento em que, diante do animal, a morte necessária, ao mesmo tempo condenável, revelava a ambuiguidade religiosa da vida: da vida que o homem angustiado recusa e que, no entanto, ele realiza na superação maravilhosa de sua recusa.”

Se o “não matarás” contempla os animais, Descartes está condenado na terceira instância. Mas há um atenuante. Por mais paradoxal que possa parecer, o imenso desenvolvimento das forças produtivas, representado também por Descartes, é o que pode permitir, um dia, a reconciliação do homem com o meio e, por tabela, com os animais. A separação dos saberes, que começou pouco depois do filósofo francês, e o intenso desenvolvimento tecnológico que se seguiu, certamente ampliaram o morticínio animal, mas podem possibilitar o contrário, ou seja, podem possibilitar que a denúncia de Elizabeth Costello prevaleça sobre as justificativas de Rene Descartes. O intenso desenvolvimento das forças produtivas permite, atualmente, que homens e mulheres se recusem a comer carne animal e a transformar bichos em engrenagens, o que reduz o morticínio. Se Bataille estiver correto, os primeiros homens carregaram a culpa pelos crimes que consideravam que haviam cometido contra os animais. Descartes transformou os animais em engrenagens nos primórdios do capitalismo, aparentemente sem peso na consciência. Mas o homem futuro, se derrotar o capital e controlar as forças produtivas, poderá estabelecer outras relações com o meio e com os animais. Para os primeiros homens não havia opção, só restou conviver com a culpa. As desculpas por Descartes seriam então, em alguma medida, também desculpas pelos primeiros homens.  Mas, para os homens futuros, se abrem outras possibilidades, possibilidades que começam a se apresentar no presente. E, se é assim, Descartes, em alguma medida, é parte da possibilidade de libertação: seriam as melhores desculpas. São as ambiguidades da vida. 



Pierre Huyghe: Untilled


TODO DIA – TODO DIA – TODO DIA – TODO DIA

Tem gente com sonho,
tem gente com sono.

Tem criança no colo,
tem filho no bucho.

Tem roupa amassada,
tem gente suada.

É sexo na face
e coxa no braço.

É sovaco no ombro
e tranco no baço.

É joelho entre pernas
e ventre apertado.

Vai arroz na marmita,
vai velho espremido.

Vai mãe fatigada,
vem prole perdida.