domingo, 17 de setembro de 2017

DEUS NÃO MORREU, MATOU-SE! O SUICÍDIO DO GRANDE CASTRADOR
Os homens foram criados à imagem e semelhança de deus, porém uns mais que os outros. Paul Lafargue, André Gorz, Ernest Hemingway, Wladimir Maiakovski, Virginia Woolf, Mario Monicelli e Torquato Neto entre os mais semelhantes. Seres humanos são antes de tudo criaturas criadoras, que se fazem e desfazem continuamente. Mas se por definição uma criatura é um ser criado, como lhes pode ser permitida a criação e seu contrário, a destruição? Ainda mais porque a capacidade destrutiva humana implica na negação da criação divina. O auto-assassinato humano, por exemplo, nega a onipotência divina em sua maior dimensão, a concessão da vida. A condenação aberta do suicídio pela maioria das religiões nos diz muito. O mínimo que se pode afirmar é que existe algo como um Complexo de Édipo entre homens e deuses. Sísifo e Prometeu que o digam.
A relação com deus é dupla: ame-o ou deixo-o. Deus é o limite, para bem e para mal. É o grande sintetizador na medida em que pode representar o princípio, a unidade e o fim; mas, pela mesma razão, é também o grande castrador já que oferece uma solução externa e inacessível aos homens. À humanidade caberá se libertar de deus ou ser castrada por ele. A divindade é a pedra no caminho do fazer e desfazer-se humano, é o limite. Alguns caminharão para o deicídio, outros se anularão nos braços do criador.
Das duas uma, ou deus não é onipotente ou aos homens não se concedeu o livre-arbítrio. Pela simples razão de que uma opção inviabiliza a outra. O livre-arbítrio humano se choca com a onipotência divina.
Na concepção cristã as implicações deste problema são demolidoras. Para haver pecado é preciso existir livre-arbítrio e escolha, mas assim abre-se a possibilidade de se negar inclusive o próprio criador.
Uma questão quiçá mais interessante do que determinar a medida do livre-arbítrio humano é mensurar a autonomia criativa de deus, que teria forjado a possibilidade da sua própria negação: o homem. Como o livre-arbítrio é sempre relativo a algo, seríamos forçados a terceirizar ou hierarquizar a divindade. Mas suponhamos o pior, quais a implicações de imaginarmos um deus todo poderoso e livre de qualquer arbítrio que lhe fosse externo? Como o deus cristão. Se assim fosse, deveríamos cobrar-lhe a conta de todas as chagas do mundo, incluindo os campos de concentração, Hiroshima, Nagasaki, Gaza e por aí vai. Se o homem escolhe o pior é porque essa opção lhe foi disponibilizada pelo criador.
O contrário dessa obviedade é o cinismo mais meia-boca, ultra-hollywoodiano, que consiste em afirmar que todo mal deriva unicamente das escolhas humanas. Transforma-se deus no mocinho redentor e os homens em vilões. Mas a questão é: quem criou a possibilidade de escolha humana? Quem colocou o ovo de serpente no cesto? Deus é um pai que deixou um revolver entre os brinquedos de seu filho. A quem responsabilizar pelo crime cometido com a arma-brinquedo?
O protagonismo de deus é duplo: primeiro suicida em potencial da história e guru da auto-ajuda. Matou-se ao criar o seu assassino: homem. Por outro lado, inaugurou a arte do auto-engano, conhecida atualmente por auto-ajuda, que consiste em acreditar no que é mais conveniente. Como na canção: “não há crença sem recompensa.” Crença e recompensa se tornam diretamente proporcionais, e utilitaristas. A crença religiosa não é um em-si é um para-íso. Abolido este, extingue-se aquela. Quem perderia tempo rezando à toa? Deus existe na exata medida em que o crente carece de graça.
Da poesia à literatura, o Complexo de Édipo homens-deuses deixou marcas. Millôr Fernandes indagou: “Mestre, respeito o Senhor, mas não a sua obra; que paraíso é esse, que tem cobra?” Mas é nas páginas de Dostoievski que a relação edipiana vai aos píncaros, na fábula de Ivã Karamazov, o Grande Inquisidor, em nome de um determinado projeto de humanidade, condena o representante de deus na terra.
O livre-arbítrio humano é tão livre que chega a aprisionar-se, tão amplo que fabricou o próprio deus, não sem desconstruí-lo depois, num contínuo fazer-se desfazendo-se. Enquanto a crença em deus é utilitarista, posto que fundamentada nos prêmios futuros, a sua mais firme negação é ética, não negocia princípios, recusa uma criação que admite o mal em nome da redenção futura, os fins não justificam os meios.
No caminho da desconstrução, seguindo os passos de Ivã Karamázov, Albert Camus recusa a salvação: deus não existe, mas isso pouco importa, não seriam legítimas as benesses oferecidas por uma divindade que aceita o mal. Recusar a salvação torna-se um imperativo ético.

domingo, 10 de setembro de 2017

FILHO


Meu filho que não veio
voa no vento

e suga o seio da noite,
em estado de ausência.

Procuro seu corpo,
que some no vácuo,

dissolvendo-se
hipoteticodedutivo.

Meu filho que não veio
jaz no campo das possibilidades.



domingo, 3 de setembro de 2017

PASSAGEM

as palavras estão enterradas
mas se movem
se agrupam
penetram a rocha
e fluem

um rio de palavras corre
sereno

pelo leito de pedra
desce a palavra vida
fugaz
veloz

a palavra juventude
passa

a palavre tempo
corta

a palavra fogo arde
no rio
e passa

apanho a palavra água
ergo-a

mas ela deságua
escorre
e flui




segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O LIBERTÁRIO

Torcer ponteiros,
achatar relógios,
libertar as horas.
Amassar o tempo,
rechear o tempo,
meter a dor no tempo.
Viver. Viver.
Abolir o pecado,
revogar o paraíso,
anular a criação
e criar.
Engolir o sentido,
vomitar o sentido
e abandoná-lo.
No caos geral: viver.
Implodir barragens,
afogar o latifúndio.
Multiplicar a libido,
alongar a libido.
Apanhar a borra dos desejos
e tingir as coisas.
Sabotar o não,
tocar fogo no não.
Entre nada e tudo,
entre a chama e o tédio:
dinamitar a propriedade privada,
explodir a vida presente
e viver.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

entre a fruta podre
e a espinha de peixe

entre o rato
e o arroz azedo

entre a merda
e o papel higiênico

entre o urubu
e a carniça:

uma criança come lixo
e caga chorume

que goteja,
goteja, goteja...

terça-feira, 27 de junho de 2017

CEILÂNDIA

A garota de programa se aproxima 
quando o sol começa a se despedir
e há nuvens alaranjadas no céu.
Põe música na máquina
e toma uma dose,
que a noite ainda precisa baixar.
Janta peixe frito
(algumas moscam a incomodam)
Crianças brincam na calçada,
um gato atravessa a rua.
Os engraxates conversam
e bebem cerveja.
Os últimos raios de sol ainda iluminam.
Mas a garota de programa está tensa,
o apetite sexual é crescente no país,
é preciso saciá-lo.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

CRI-CRÍTICA DA RAZÃO TUPINIQUIM

Há uma filosofia brasileira? Sim? Não? Por quê? Esta é a questão fundamental da obra Crítica da Razão Tupiniquim, de Roberto Gomes. O fato é que esta questão implica outras, por exemplo: o que é filosofia? Gomes afirma que filosofia é essencialmente dizer o contrário, ou seja, a filosofia seria crítica e contestatória.  Sendo assim, essas linhas estreitas devem ser consideradas filosóficas, já que em alguma medida contestam o crítico da razão tupiniquim. Muito bem, gracejos à parte, o mais provável é que a definição de Gomes seja demasiadamente ampla. Ou então, sendo este meu humilde texto também filosófico, deixemos o conteúdo mais nobre para o final, comecemos por onde há acordo com Gomes, ainda que relativo.

Ocorre que a tal razão tupiniquim a que se refere Roberto Gomes se inscreve no marcos das escolas de filosofia, das academias. Então, o título correto seria crítica da razão (acadêmica) tupiniquim. Se assim fosse, o título estaria muito mais adequado à obra, mas perderia muito em abrangência, e o próprio autor afirma que não queria perder o título.

Hector Bernabó Carybé: Músicos

O fato é que as academias produzem historiadores da filosofia, comentadores..., mas não exatamente filósofos. Busquemos uma definição simples de filosofia: “estudo que amplia a compreensão da realidade, buscando apreendê-la em sua totalidade." Ora, academias produzem especialistas/comentadores de filósofos europeus, só. Como bem lembra Gomes, para produzir algo é preciso se conceder ampla liberdade de criação, apenas assim é possível tentar apreender a totalidade, mas liberdade de criação não se ensina na academia, muito pelo contrário. Neste sentido é que Gomes afirma não haver uma razão tupiniquim, concordo. Alguém que conheça a filosofia mundial de rabo a cabo, se não se conceder a necessária liberdade de criação, será quando muito um excelente professor, mas não um filósofo. Para tanto se faz necessária a tal liberdade de criação. Concordo.

Muito bem. Para introduzir minha crítica (e fazer filosofia rs), busquemos um segundo acordo com Roberto Gomes. A crítica da razão tupiniquim é uma contestação do pensamento meramente especulativo, para Gomes a filosofia sempre está escorada no “real cotidiano, também matéria de poesia”, e de filosofia. Concordo. Toda filosofia é sempre uma tentativa de apreensão da totalidade real, ou histórica. Neste ponto reside a crítica de Gomes, como filósofos brasileiros se limitam a comentar ideias de terceiros, não fazem filosofia, quando muito produzem história da filosofia, ou se formos um pouco mais complacentes, produzem história comentada da filosofia.

A questão é que se a filosofia é essencialmente contestatória, se é o inverso do verso, ou o desdito do dito... Roberto Gomes procura a filosofia onde ela não estará: nas academias. Filosofia entendida como tentativa de apreensão do real e de contestação só pode ser encontrada nos espaços de crítica da ordem vigente, como, por exemplo, os movimentos sociais. Universidades cada vez mais enquadradas e redirecionadas para a produção de saberes mercantis jamais poderão contestar seu Deus (mercado), exceto alguma exceção que confirme a regra. O padrão lógico-dedutivo-estabelecido são as academias apologéticas ao status-quo caduco e, exatamente por isso, produtoras de “conhecimento” parcelado e falsificado.

Perguntas tão simples quanto filosóficas não se farão nestes centros produtores de frutos caducos. Produzir mais? Para quem? Qual a racionalidade da atual sociedade capitalista? Quais as alternativas a esta? Ou mais que isso, e inclusive mais ao gosto de Gomes: qual o projeto queremos para o Brasil?

Questões tão simples não se formulam por que se aceita a ordem vigente, a crítica e, conseqüentemente, a tentativa de apreensão do real só é possível entre os que negam a ordem estabelecida, para negá-la é preciso conhecê-la. Os discursos de louvor ao estabelecido simplesmente aceitam o vigente. Se a história acabou, não precisamos pensá-la, basta que a aceitemos. Nesta aceitação morre o filosofar, que é essencialmente crítico. Morre a possibilidade de pensarmos que história queremos.

Ora, se a perspectiva aqui esboçada estiver correta, Roberto Gomes busca um pensamento social brasileiro, ou até latino-americano (esta última possibilidade se encontra presente em trechos da obra) onde ele não estará. Ou seja, está sugerida a necessidade de tentar apreender o real, mas, obviamente, essa tentativa tende ao fracasso se estiver limitada metodologicamente à filosofia acadêmica, que é parcelada. Para filosofar se faz necessário recorrer aos mais diversos saberes: economia, antropologia, sociologia, cinema, literatura, música e por aí vai.

O crítico da razão tupiniquim está consciente desta necessidade, inclusive se valendo de sacadas de figuras como Oswald de Andrade, Nelson Rodrigues, Mário de Andrade entre outros. Segundo Roberto Gomes, a filosofia não se realizou em solo tupiniquim, mas não se pode dizer o mesmo da canção popular e da poesia, por exemplo. Concordo. Figuras como Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque, Adoniran Barbosa, Noel Rosa... não me deixam mentir. Gomes, por seu lado, tenta captar e transformar em filosofia algo como uma sensibilidade brasileira, que está presente nos poetas, escritores e músicos.  

Ok. Há acordo. Mas neste ponto surge uma interrogação da qual declino, posto que nem a indústria têxtil da China (crescendo a taxas cavalares) poderia produzir pano pra tanta manga: é possível se falar em filosofia brasileira? Ou tupiniquim? Filosofia não é universal? Não sei. Tenho dúvidas. Declino.

Por outro lado, um pensamento crítico brasileiro e até mesmo latino-americano é possível e, inclusive, existe. Se concordamos ou não com ele é outra questão. Para ficarmos apenas em terras e teóricos tupiniquins, listemos alguns: Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Celso Furtado. Este último, por exemplo, publicou um livreto intitulado Um Projeto para o Brasil. Apesar dos pontos polêmicos que contém, trata-se de uma tentativa de compreensão da realidade nacional, acompanhada inclusive de propostas de superação das contradições apontadas. Ou seja, algo parecido com a tal razão tupiniquim. Neste exemplo, ainda que mais econômico, também há filosofia na medida em que se parte de princípios e ideias sobre a sociedade ideal (na visão de Furtado).


Tarsila do Amaral: O mamoeiro 

Enfim, parece-me claro que um pensamento crítico brasileiro só poderá existir se multidisciplinar, respostas puramente filosóficas dirão muito pouco sobre as contradições e possibilidades do país. Por este caminho seguiram os principais textos interpretativos brasileiros, e até a Crítica da Razão Tupiniquim. No caso desta, sua maior debilidade é a escolha de falsos interlocutores. Se é para criticar a razão tupiniquim, necessário seria estabelecer um diálogo com os grandes pensadores brasileiros, como os acima citados. Entretanto, uma simples consulta à bibliografia utilizada por Roberto Gomes mostra que tais pensadores não estão no escopo do trabalho do crítico, com exceção de Sérgio Buarque de Holanda. Sendo assim, a crítica deixa muito a desejar, pela simples razão de que não dialoga com a razão tupiniquim, limita-se à reprodução tupiniquim, às academias.

Porém, se é verdade que a crítica da razão tupiniquim deixa a desejar à medida que não dialoga com a autêntica razão tupiniquim, também é verdade que vale como um sapeca-iaiá na academia.