segunda-feira, 15 de agosto de 2016

sábado, 13 de agosto de 2016

CORDEL DO DELEGADO POETA

Quinta-feira de manhã
Que me veio a novidade,
Delegado deu patada
No couro da autoridade.
Reinaldo Lobo seu nome.
Riacho Fundo a cidade.

O preso no meio da cela,
Seu crime? Receptação.
Ladrão de motocicleta
Apodrece na prisão,
Como se fosse poeta
Na doutrina do Platão.

O inquérito da ocorrência
Vai para a promotoria.
É costume corriqueiro
Em qualquer delegacia
Relatar um ocorrido
Conforme a burocracia.

Até aqui vai tudo bem,
Rotina do dia-a-dia,
Se não fosse o Doutor Lobo
Incorrer em rebeldia,
Relatando a detenção
Em forma de poesia.

Essa eu nunca tinha visto,
Mas se mantém o ditado:
A lei nunca é para todos.
Se repete o velho fado.
Proletário é quem trabalha.
Burguês manda no estado.
  
Bandido veste gravata.
Assalta, mata, decreta.
Tem riqueza e capital.
Acumular é sua meta.
Isso todo mundo sabe.
Mas delegado poeta?

Então lanço desafio:
Dr. Lobo, se tens magia,
Como em teu verso foi dito,
Se tu amas a poesia.
Vai prender o bom burguês
Que me rouba a mais valia.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

CENTO E QUATRO ANOS DE JORGE AMADO

Um homem pede uma dose de cachaça, pega o copo, entorna e grita: ÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁGUA. Gargalhadas no boteco. O líquido transparente tinha sido trocado. O poeta pernambucano Carlos Pena contou esse causo numa mesa de pôquer, acabou sendo apelidado de Berro D’água (mesmo não tendo sido seu o berro do causo). Jorge Amado, que estava naquela mesa, passou a chamar Carlos Pena pelo apelido do apelido: Berrito. Berro D’água virou título de novela de Jorge Amado: A morte e a morte de Quincas Berro D’água. O causo do líquido trocado foi atribuído ao personagem principal do livro, Quincas, que também era chamado de Berrito, mas só por sua amante, Quitéria do Olho Arregalado, e apenas nos momentos de “maior ternura”.
Quincas Berro D’água, era Joaquim Soares da Cunha, um pacato funcionário da Mesa de Rendas Estadual, que se aposentou do trabalho e da família. Largou mulher e filha (as “jararacas”) e se lançou na boemia, virou “paizinho” de farrista e desgosto de família. A morte, ou as mortes, de Quincas promoveram o encontro dos dois mundos: o fedor da falsidade da família que se alegra com o passamento e a lágrima da trupe dos becos e ladeiras que chora a perda. As bufas da tia Marocas, ou “saco de peidos”, que era como Quincas dizia; frente a frente com a ligeireza de um Pé-de-Vento e o canto de um Curió. Daí em diante a novela é um voo sobre a Bahia escondida atrás dos pacotes turísticos: cais do porto, ladeiras, botecos, zonas de meretrício. Enfim, o desaparecimento de Quincas continua carregado de mistério, mas uma coisa é certa, ele desapareceu como queria, no mar da Bahia, na rima e na solução.
Vinicius de Moraes disse que Jorge Amado escreveu a melhor novela e o melhor romance da literatura brasileira, respectivamente: A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água; e Gabriela, Cravo e Canela. E isso apesar de Machado de Assis, do seu Dom Casmurro e do seu Quincas, o Borba. Vinicius disse mais, segundo o poetinha, Jorge Amado é um escritor que “fecunda a língua”. Esta afirmação é mais fecunda que a primeira, porque comparações são de menos valia. E para frente com a “bola de bexiga de boi cheia de ar”.
Jorge Amado é um escritor que vale a pena, é pena que vale não apenas pelo cento e quatro anos. É baticum de candomblé e macumba. Sapateado e batuque das águas. Maresia, marulho, cheiro de peixe. Dendê com tomate e leite de coco. Moqueca de arraia. Espinha de peixe no prato vazio. Silêncio das casas coloniais. Povo sem eira nem beira na beira do mar. Ou no “Cu com Bunda”, que é o nome da vila operária no livro Cacau. Melodia de ladeira e violão. O feitiço, a farofa e a foda na areia da praia. A escravidão pós-abolição na lavoura de fumo, ou de cacau, ou no cais do porto. Alma penada arrastando a corrente do tempo da escravidão, corrente que prende o presente. Sopro de vida no lombo do morro e no compasso do samba. Baralho na mesa do bar. Espreguiçadeira dolente. Golpe de capoeira e navalha. O suor, o sonho, a greve. Tudo isso e mais um pouco. Jorge Amado é escritor e fecundador de uma língua em que malandragem significa liberdade. Fecundador: fecunda a dor, ou dor fecunda, ou dor que fecunda. Uma obra que é um trago de cachaça. Uma pena que vai pintando um povo.
Foto de Miguel Rio Branco

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A FLOR E O SONHO

beija-flor
beija-pele
beijo à flor da pele

à flor da pele
pede crase
pede toque
pé de fruta

a pele da flor
pede pão
pede sol
pé de trigo

a flor de pele
pede sumo
pede seiva
pé de sonho