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MILAN KUNDERA

 

Quarta-feira, 12 de julho de 2023. Acordei mais ou menos às 06:00. Li normalmente. Como costumo fazer. Mais ou menos às 08:30 tomei café da manhã. Depois liguei o telefone celular e o computador. A primeira mensagem que li dizia “rip Kundera”. Confirmei na internet. O gênio tcheco estava morto. A notícia que chegaria mais dia ou menos dia – um homem nonagenário não tem muito tempo pela frente – havia chegado. Curiosamente, recebi mensagens de amigos. Era como se estivessem se solidarizando comigo pela perda de um familiar. É compreensível. Sou um leitor de Milan Kundera que, não raro, avança para o papel de defensor e divulgador voluntário. Não sei se com sucesso. Tenho dúvidas. Afasto ou aproximo as pessoas dos livros do escritor tcheco? Mas, enfim, pouco importa. Naquela quarta-feira escrevi apenas: “O mundo encolheu! Adeus, Milan Kundera!” Agora, com tempo, dá para completar a mensagem.

 

Desde que comecei a frequentar sebos, lembro da presença dos livros de Milan Kundera. Eram muitos e relativamente baratos. Mas nosso encontro demoraria uns dez anos para acontecer. Faltava um “empurrãozinho”. Minha intuição de leitor – que falhou feio – me dizia que Kundera era um escritor de best sellers que as pessoas compram, não leem e descartam. Nunca havia ouvido falar de dele nem tinha lido nada sobre ele. Tudo começou a mudar num final de semana em que assisti o filme A insustentável leveza do ser (Philip Kaufman). Fiquei intrigado. Tempos depois um amigo me entregou o romance A insustentável leveza do ser e disse “você precisa ler esse livro”. Era o “empurrãozinho” que faltava. Na verdade, foi um empurrão duplo: o filme e a indicação do meu amigo. Começava ali meu encontro com Milan Kundera. Li tudo que achei dele, sobre ele e mais. O que me fascina em Kundera é a erudição e a sagacidade que confluem para uma espécie de lucidez zombeteira, qualidades que passei a procurar em outros romancistas tchecos e no que no Brasil ficou conhecido como Novelle Vague Tcheca. Li Jaroslav Hašek (O bom soldado Švejk); Ivan Klíma (Amor e lixo); Bohumil Hrabal (Eu servi o rei da Inglaterra); Josef Skvorecky (A história do saxofonista e Engenheiro de almas). Assisti filmes maravilhosos: As pequenas margaridas (Věra Chytilová); Um dia, um gato (Vojtěch Jasný); O baile dos bombeiros (Miloš Forman); A pequena loja da rua principal (Ján Kadár e Elmar Klos), Valerie e sua semana de deslumbramentos (Jaromil Jireš); Amores de uma loira (Miloš Forman); Trens estreitamente vigiados (Jiří Menzel); A piada (Jaromil Jireš); Ninguém vai rir (Hynek Bocan) [1]. Tanto nos romances como nos filmes encontrei a tal lucidez zombeteira, ainda que nem sempre com tanta erudição e sagacidade, como em Kundera.

 

Como explicar a lucidez zombeteira dos tchecos e, sobretudo, de Milan Kundera? Talvez porque a língua tcheca tenha sido um idioma utilizado em ambientes menos formais, que não se levavam totalmente a sério. Talvez porque o país dos tchecos fica no meio do caminho – no centro da Europa – e costuma ser invadido quando estouram grandes guerras. Se é assim, a brincadeira, a ironia e o humor viram armas dos desarmados e se tornam ainda mais libertários e cortantes, atuam para revelar farsas e desmoralizar invasores. Exemplificando. Durante a Primavera de Praga um soldado invasor vindo de uma república soviética asiática, que nunca tinha visto portas de vidro, chocou-se com uma delas no metrô de Praga. Os tchecos responderam com um cartaz: “Nada detém o soldado soviético.” [2]

 

Quase duas décadas depois da Primavera de Praga e já exilado na França, Kundera escreveu que não estava ligado a praticamente nada. O futuro não representava um valor, nem Deus, nem a pátria, nem o povo. Ele sentia-se ligado apenas à herança depreciada de Cervantes. É uma outra chave para se pensar a lucidez zombeteira, se não dos tchecos, pelo menos de Milan Kundera. “O romance nasceu não do espírito teórico mas do espírito do humor.” [3] No início o romance era sobretudo divertimento, ainda que sem jamais excluir a gravidade. Lucidez zombeteira de Milan Kundera: examinar a existência com humor e sem esperança.

 

A investigação da existência e dos acontecimentos sociais com humor e sem esperança não raro fez Kundera irritar a direita e a esquerda. É que o romance é uma “sabedoria da incerteza” que costuma se chocar com verdades ideológicas. Aceitar a ambuiguidade do mundo e das coisas não é tranquilo para quem tem a mente travada na ideologia. Eu me divertia repetindo provocações kunderianas para militantes formados com cartilhas partidárias. Provavelmente mais afastei do que aproximei pessoas dos livros do romancista. Mas acho que ele não reclamaria, gostava de escrever contra todos e mais de uma vez ridicularizou militantes que buscam o idílio coletivo. Exemplos. O poeta em A vida está em outro lugar. Franz em A insustentável leveza do ser. Carlos Fuentes: “A ilusão do futuro foi o idílio da história moderna. Kundera ousa dizer que o futuro já aconteceu, bem debaixo do nosso nariz, e cheira mal.” [4] Acrescento: é por essas e outras que o escritor tcheco irritou a direita e a esquerda.

 

Milan Kundera publicou o primeiro romance em 1967. A brincadeira tem o espírito libertário da Primavera de Praga. Tornou-se símbolo do movimento. Kundera tinha 38 anos. Idade relativamente avançada para se publicar o primeiro romance. É que antes havia transitado pelo cinema e pela música. Podia ter seguido qualquer um dos dois caminhos, na verdade nunca abandou nenhum deles. Em 1995, quando a sétima arte completou um século, Kundera publicou um texto cujo título fala por si: Esta festa não é minha. A reflexão sobre os destinos de Fellini e do próprio cinema é daquelas que apenas os grandes romancistas são capazes de formular, porque enxergam o mundo com olhos de criadores. Já a música sempre esteve no radar de Milan Kundera. Além das brilhantes reflexões musicais presentes nos ensaios, ele escrevia romances como se fossem música: com temas, variações, pausas, movimentos. Se Kundera optou pela literatura foi porque viu nela as melhores possibilidades para explorar as ambiguidades da existência. O romance seria capaz de integrar a filosofia e a poesia sem perder a identidade, que passa justamente pela capacidade de absorver outros gêneros e saberes: “a forma do romance é liberdade quase ilimitada.” [5] Além disso, em tempos de especialização e acelerada divisão do trabalho, a literatura ainda permite “guardar relação com a vida em seu conjunto.” [6] O romance é – para Kundera – capaz de dizer sobre a condição humana muito mais que qualquer reflexão sociológica. Em 1969, publicou Risíveis amores, hilária coletânea de contos. Em 1973, publicou o romance A vida está em outro lugar, ironizando e denunciando o lirismo adesista dos que sonhavam com o idílio [7]. Em 1975, foi para a França devido às perseguições do regime estalinista, havia sido do partido comunista, mas acabou expulso duas vezes. Em 1976, publicou A valsa dos adeuses, romance em que brinca com a insignificância e a finitude da vida, questões que retomaria em outros textos. Em 1978, publicou O livro do riso e do esquecimento, composto por variações geniais sobre temas como a memória, o riso, os anjos, a litost [8], a fronteira. Em 1981, publicou Jacques e seu amo, peça de teatro que é uma variação sobre Jacques o fatalista, de Denis Diderot. Em 1984, publicou A insustentável leveza do ser, romance que tornou Kundera mundialmente conhecido. Em 1990, publicou o romance A imortalidade, retomando temas como a memória, a finitude e a insignificância da existência. Publicou ainda os romances A lentidão (1995), A identidade (1997), A ignorância (2000), A festa da insignificância (2014).

 

Mas mesmo um escritor genial, como Milan Kundera, não pode prescindir de bons leitores. Numa leitura rápida e superficial do romance A insustentável leveza do ser aparecem apenas as relações amorosas. É provavelmente o que explica por que o livro se tornou um best seller. Para piorar, o leitor mediano não apenas estanca na primeira camada da leitura, como não lê nada além do livro mais famoso do escritor. Perde, dessa forma, contos, romances e ensaios de primeira qualidade. Nas releituras do romance A insustentável leveza do ser surgem infinitas possibilidades, como se o texto estivesse vivo e em movimento. É uma característica dos clássicos. Kundera escreveu A insustentável leveza do ser a partir de palavras-tema: peso, leveza, alma, corpo, merda, kitsch, compaixão, vertigem, força, fraqueza. Sempre com a Primavera de Praga como pano de fundo. Mas tudo isso só se percebe nas releituras.

 

É também nas releituras do romance A insustentável leveza do ser que aparece a sacada brilhante sobre a dimensão existencial do kitsch. O romancista divide os homens em dois grupos: os que em alguma medida duvidam e os que aderem à existência sem reservas. Estes se baseiam, conscientemente ou não, na crença presente no primeiro capítulo do Gênese: o mundo é o que devia ser, as pessoas são boas e devem procriar. É o que Kundera chama de “acordo categórico com o ser”. Quem adere sem reservas à existência exclui tudo que contradiz sua crença. É por isso que se substituía a palavra merda por m. A merda é um problema metafísico. Se a merda fosse aceitável, ninguém precisaria se trancar no banheiro. Se a merda é problemática, das duas uma: ou o homem não foi criado a imagem e semelhança de Deus, ou Deus tem intestinos e caga. Nascida na Alemanha, na segunda metade do século XIX, a palavra kitsch tem a ver com uma atitude estético-existencial de negação da merda. Quem firma o “acordo categórico com o ser” sente nostalgia pelo idílio, não importa se o localiza no passado que é preciso restaurar (como costumava fazer a direita) ou no futuro que é preciso construir (como costumava fazer a esquerda). O kitsch é: 1) O ideal estético de quem busca o idílio. 2) Um lirismo adesista e rebaixado. 3) A “mentira embelezadora” mobilizada para sustentar o “acordo categórico com o ser”. Se kitsch e comunismo se encontraram na Tchecoslováquia estalinista foi porque era preciso excluir do campo de visão absolutamente tudo que pudesse comprometer a adesão ao regime e a ilusão no idílio coletivo. A lucidez zombeteira que aprendi a apreciar com Kundera e com os tchecos é, sobretudo, um combate contra o kitsch.  

 

Durante algum tempo tive vontade de escrever uma carta para Milan Kundera. Queria perguntar-lhe sobre Machado de Assis. Onde o gênio tcheco colocaria o bruxo do Cosme Velho na metáfora dos três tempos da literatura? Machado está cronologicamente no segundo tempo, com os realistas, mas é uma espécie de ponte que liga o primeiro tempo (Rabelais, Cervantes, Sterne) ao terceiro tempo (Broch, Musil, Gombrowicz). Mas acabei satisfeito ao encontrar um texto de Carlos Fuentes significativamente intitulado O milagre de Machado de Assis, onde o escritor mexicano, que foi amigo de Milan Kundera, cita o tcheco e diz mais ou menos o que imagino que este responderia sobre a minha pergunta: “E o convite ao jogo, ao sonho, ao pensamento, ao tempo, exclama Kundera em capítulo intitulado ‘A Desprezada Herança de Cervantes’, onde foi parar? A resposta é, se não miraculosa, surpreendente: foram parar no Rio de Janeiro e renasceram na pena de um mulato carioca pobre, autodidata, que aprendeu francês em uma padaria, que sofria de epilepsia, como Dostoiévski, que era míope, como Tolstói, e que ocultava seu gênio sob um corpo tão frágil como o de outro grande brasileiro, Aleijadinho”.

 

Aliás, é também Carlos Fuentes quem deixou uma pista importante para se compreender a Primavera de Praga e, por tabela, a obra de Milan Kundera. O escritor mexicano lembra que a Tchecoslováquia era um país razoavelmente desenvolvido, o socialismo não precisava garantir o mínimo para a população, era necessário dar o passo seguinte. Era possível e urgente “passar do reino da necessidade para o reino da liberdade.” [9] A população começou a ocupar espaços da burocracia estalinista, o que era intolerável e imperdoável. A Primavera de Praga foi a tentativa abortada – pelos russos – de dar um passo em frente. A genialidade da obra de Milan Kundera sugere o conjunto de possibilidades contidas na Primavera de Praga.

 

Além da busca por outros romancistas tchecos e pelos filmes da chamada Nouvelle Vague Tcheca, Milan Kundera potencializou a minha paixão pela escrita ensaística. Os quatro livros de ensaios que deixou (A arte do romance, Os testamentos traídos, A cortina e Um encontro) são tão geniais quanto romances como A insustentável leveza do ser, O livro do riso e do esquecimento, A imortalidade, A brincadeira e A vida está em outro lugar. Leio os ensaios que encontro de grandes romancistas e pensadores em geral. Posso afirmar tranquilamente que muito poucos chegam no nível Kundera. Talvez pela erudição do escritor tcheco, talvez pela sagacidade, talvez pela lucidez, talvez pelo humor e por tudo isso ao mesmo tempo. Compartilho algumas reflexões curtas presentes nos ensaios de Milan Kundera para dar ideia do que estou dizendo.

 

Sobre Dostoiévski e Kafka [10]:

 

“Raskolnilkov não pode suportar o peso de sua culpabilidade e, para encontrar a paz, ele consente voluntariamente na punição. É a situação bem conhecida em que a falta procura o castigo. Em Kafka, a lógica é invertida. Aquele que é punido não conhece a causa da punição. O absurdo do castigo é tão insuportável que, para encontrar a paz, o acusado quer encontrar uma justificativa para a sua pena: o castigo procura a falta.”

 

Sobre o humor [11]:

 

“O humor: centelha divina que descobre o mundo em sua ambiguidade moral e o homem em sua profunda incompetência para julgar os outros: o humor: embriaguez de relatividade das coisas humanas; estranho prazer nascido da certeza de que não há certeza. Mas o humor, para lembrar Octavio Paz, é ‘a grande invenção do espírito moderno.’ Não existiu sempre e tampouco vai existir para sempre. Com o coração apertado, penso no dia em que Panurge não mais fará rir.”

 

Sobre a vida, o Quixote e o romance [12]:

 

“Os heróis da epopeia vencem ou, se são vencidos, conservam a grandeza até o último suspiro. Dom Quixote é vencido. E sem nenhuma grandeza, pois imediatamente tudo fica claro: a vida humana como tal é uma derrota. A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota que chamamos de vida é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance.”

 

Sobre a Primavera de Praga [13]:

 

“Ah, os queridos anos 1960. Eu gostava de dizer, então, cinicamente: o regime político ideal é uma ditadura em decomposição; o aparelho opressivo funciona de maneira cada vez mais defeituosa, mas está sempre ali para estimular o espírito crítico e zombeteiro. No verão de 1967, irritados com o congresso corajoso da União dos Escritores e achando que o atrevimento tinha ido longe demais, os chefes do Estado tentaram endurecer sua política. Mas o espírito crítico havia contaminado até o comitê central que, em janeiro de 1968, decidiu que o presidente seria um desconhecido: Alexandre Dubcek. A Primavera de Praga começou: hilário, o país recusou o estilo de vida imposto pela Rússia; as fronteiras do Estado foram abertas e todas as organizações sociais (sindicatos, federações, associações), originalmente destinadas a transmitir ao povo a vontade do partido, tornaram-se independentes e se transformaram em instrumentos inesperados de uma democracia inesperada. Nasceu um sistema (sem nenhum projeto preestabelecido, quase por acaso) que foi verdadeiramente sem precedentes: uma economia 100% nacionalizada, uma agricultura nas mãos das cooperativas, nada de pessoas muito ricas, nada de pessoas muito pobres, o ensino e a medicina gratuitos, mas também: o fim do poder da polícia secreta, o fim das perseguições políticas, a liberdade de escrever sem censura e, a partir daí, o desabrochar da literatura, da arte, do pensamento, das revistas. Eu ignoro quais eram as perspectivas de futuro desse sistema; na situação geopolítica de então, certamente nulas; mas numa outra situação geopolítica? Quem pode saber... Em todo caso, esse segundo durante o qual esse sistema existiu, esse segundo foi soberbo.”

 

Quando soube do desaparecimento do romancista tcheco escrevi “O mundo encolheu! Adeus, Milan Kundera!” Completo agora. O mundo encolheu porque sempre que se falar daquele “segundo soberbo” da humanidade, conhecido como Primavera de Praga, falarão de Milan Kundera e por meio dos ensaios, contos e romances dele. O mundo encolheu porque perdeu um escritor capaz de transitar, com a mesma genialidade, entre o romance e o ensaio. O mundo encolheu porque em algum canto de Paris morreu um nonagenário que emplacou pelo menos 5 romances e 4 livros de ensaio entre o que se produziu de melhor.

 

Notas

[1] A piada e Ninguém vai rir são baseados em textos de Milan Kundera, que participou das filmagens.

[2] O caso do soldado soviético que trombou com uma porta de vidro do metrô de Praga foi relatado no ensaio Milan Kundera: o idílio secreto, de Carlos Fuentes, no livro Geografia do romance.

[3] Trecho do discurso O romance e a Europa, publicado no livro A arte do romance.

[4] O trecho citado de Carlos Fuentes está no ensaio Milan Kundera: o idílio secreto, publicado no livro Geografia do romance.

[5] Entrevista concedida por Milan Kundera para Christian Salmon, publicada no livro A arte do romance.

[6] O trecho entre aspas está no ensaio Anotações inspiradas por Os sonâmbulos, publicado no livro A arte do romance.

[7] A lucidez zombeteira de Milan Kundera travou combate contra o lirismo adesista dos que firmam acordos categóricos com o status quo, com a burocracia, com o próprio ego, com o ser.

[8] Os dicionários traduzem a palavra tcheca litost como arrependimento. Mas não é exatamente a mesma coisa. Kundera registrou que a primeira sílaba se pronuncia de maneira longa e acentuada, como o lamento de um cão abandonado. Litost é um estado atormentador nascido do espetáculo da nossa miséria subitamente revelada para nós mesmos. Litost é quando fazemos coisas que nunca nos imaginamos capazes de fazer, como agredir uma pessoa por nos sentirmos diminuídos pelas qualidades e pelo talento dela.

[9] O trecho citado de Carlos Fuentes está no ensaio Milan Kundera: o idílio secreto, publicado no livro Geografia do romance.

[10] O trecho está no ensaio Em algum lugar do passado, publicado no livro A arte do romance.

[11] O trecho está no ensaio O dia que Panurge não mais fará rir, publicado no livro Os testamentos traídos. Em Pantagruel, Panurge se apaixona e tenta possuir uma mulher. Dirigi-lhe obscenidades dentro de uma igreja... Ignorado, se vinga esfregando o sexo de uma cadela no cio na roupa da amada. Seiscentos mil e quatorze cães perseguem e mijam na mulher. Kundera conta que os operários tchecoslovacos riam com Panurge, apesar da moral conservadora que vigorava. Riam das obscenidades e do fracasso amoroso dele. Riam com a vingança mijatória. Não havia condenação, apenas riso e divertimento. A sorte de Rabelais – e dos seus leitores – é que as patrulhas ideológicas do bom-mocismo não leem romances, do contrário já estariam todos condenados e cancelados. No reino sacrossanto do bom-mocismo politicamente correto não há espaço para a arte do romance.

[12]O trecho está no ensaio Pobre Alonso Quijada, publicado no livro A cortina.

[13] O trecho está no ensaio Sobre as duas grandes primaveras e os Škvorecký, publicado no livro Um encontro. 

Publicado originalmente no Passa Palavra

 PESO OU LEVEZA?

 

I

Creio que a maioria dos leitores escolheria, facilmente, o leve e não o pesado. É compreensível, afinal, estamos na “civilização da leveza” [1]. Mas exploremos, de passagem, a contradição pesado-leve, acredito que ela tem algo a nos dizer.

 

A insustentável leveza do ser é um romance misterioso de Milan Kundera. A cada releitura, surgem novas possibilidades, como se o texto estivesse em constante reconstrução. É, provavelmente, uma das características dos clássicos. Numa leitura rápida e superficial, o leitor pode se limitar às relações amorosas. Talvez seja o que ajuda a explicar o fato do livro ter se tornado um best seller. Mas nas releituras, quando ocorrem, aparecem outras possibilidades interpretativas: a Primavera de Praga, aquele “segundo soberbo” da humanidade [2]; a dimensão existencial do kitsch, reflexão que, creio, só poderia ser realizada num romance; o eterno retorno; a contradição pesado-leve, que, de acordo com o romancista [3], “é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições”.

 

Antes de explorar como a leveza e o peso aparecem nas vidas dos personagens, no contexto da Primavera de Praga, Kundera passa por Nietzsche (“o eterno retorno é o mais pesado dos fardos”) [4], Parmênides (“o leve é positivo, o pesado é negativo”) e Beethoven (“só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa”). No romance, a pintora Sabina tende para a leveza, enquanto o cirurgião Tomas tende para o peso. Sabina foge quando os tanques russos invadem Praga; posteriormente abandona o amante, Franz, exatamente quando ele resolve abrir mão do casamento para viver exclusivamente com ela. Tomas é um libertino casado, tortura a companheira, Tereza, com várias traições; foge de Praga com Tereza após a invasão russa, mas retorna e acaba transformado em limpador de vidros. Às vezes a leveza é insuportável para Sabina. Às vezes o peso é reconfortante para Tomas. Se é assim, o que escolher? Peso ou leveza?

 

II

Peso tem a ver com valor, gravidade, engajamento, atração e amor. Sim, arrisco dizer que peso tem a ver com amor. Existe amor leve? Se estão colocados o valor, a gravidade, o engajamento, a atração e o amor; o peso está no campo da moral e da ética. A força que atrai os corpos para baixo se chamar gravidade nos diz alguma coisa. Se o peso orbita no campo da moral e da ética, tem a ver com a pergunta-chave de ambas: “o que devo fazer?” Posso fazer o bem porque é bom para mim, como um comerciante que não trapaceia por saber que ganhará clientes sendo justo. Posso fazer o bem ainda que não seja bom para mim, mas porque é justo. Posso fazer o bem por amor, por amar o justo inclusive contra mim, se necessário. Aqui entramos no campo da ética: fazer o que é bom e justo por amor [5]. Estamos no quarteto de Beethoven citado no romance A insustentável leveza do ser: “Muss es sein? Es muss sein! Es muss sein! (Tem de ser assim? Tem de ser! Tem de ser!)”. O fardo do peso tem a ver com a escolha. “A decisão gravemente medida” – nos termos de Milan Kundera. Quem quiser eliminar o sofrimento pode tentar excluir a escolha do campo das possibilidades. Não estaria distante do budismo e outras sabedorias. Quem não deseja não sofre. Mas lembremos: “só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.”

 

Leveza tem a ver com vazio, indiferença, desengajamento, ausência de atração e de amor. Não é contrário de atração e amor. É o contrário de peso. Não é repulsa e ódio. É ausência de tudo isso: nem atração, nem repulsa, nem amor, nem ódio.  Quem não ama e não odeia é livre (leve) para escolher ou até para ignorar os termos em questão. Tanto faz. É flutuar livre do valor e da gravidade. É possível? Talvez em espasmos de tempo e de vida. Por isso a leveza é insustentável, mas também insuportável. É libertar-se das escolhas por indiferença. Se é assim, a leveza não orbita no campo da moral e da ética. Ou, para ser mais razoável, a leveza é, em alguma medida, livre da moral e da ética. A pergunta-chave de ambas – “o que devo fazer?” – não se impõe, porque tanto faz. Nesta perspectiva, o quarteto de Beethoven passaria a ser: “Tem de ser assim? Tanto faz! Tanto faz!” Leveza absoluta: colocar sinal de igual entre todas as coisas. Certamente ninguém foi tão longe, mas alguns se aproximaram. É um estado de espírito praticamente sem retorno, porque não sobra nada: nem placas, nem caminhos, nem saídas, nem possibilidades. Se a leveza é o contrário do peso, se o peso tem a ver com gravidade, leveza tem a ver com frivolidade. Invertendo a sentença kunderiana: só é frívolo aquilo que não é necessário, não tem valor aquilo que não pesa.

 

III

No cotidiano peso e leveza não têm o sentido que esbocei. Fala-se em deixar a vida mais leve, em geral quer dizer se livrar de obrigações desimportantes e desnecessárias. Fosse só isso, seria simples de escolher e praticar, como quando liberamos memória inútil dos aparelhos celulares. Estaríamos no campo tranquilo da organização das agendas pessoais, e não no pedregoso campo da moral e da ética.

 

Na fórmula que pode ser extraída do romance de Milan Kundera, a leveza é insustentável porque, no limite, se torna insuportável [6]. É a fronteira que pintora Sabina atravessou algumas vezes, experimentando a insuportável leveza do ser. Gilles Lipovetsky ajuda pensar por que a leveza é insustentável e pode se tornar insuportável: “Quando ultrapassa um determinado limite, a leveza frívola torna-se entediante e repetitiva: leveza em excesso mata a leveza. E como não destacar os fracassos da civilização do leve em relação à felicidade? A leveza é bela e desejável, mas não poderia ser estabelecida como princípio supremo.”

 

Para Milan Kundera [7], a arte do romance é uma “sabedoria da incerteza”, joga luz sobre “a relatividade essencial das coisas humanas” e, exatamente por essa razão, não raro se choca com o “desejo, inato e indomável, de julgar antes de compreender, que funda religiões e ideologias.” Além disso, para o escritor tcheco, o romance é também jogo e brincadeira, e Milan Kundera, assim como Machado de Assis, gosta de pregar peças nos leitores. Certa vez me envolvi em uma longa polêmica com um amigo filósofo [8], sete textos para cada um, em discussão a contradição pesado-leve presente no romance A insustentável leveza do ser. Eu tendendo para o engajamento (peso), ele para a indiferença (leveza). Com o avançar da polêmica, fui percebendo que Kundera não toma partido nem pela leveza nem pelo peso. A ambiguidade e o mistério da contradição pesado-leve estão na pergunta que induz a escolher um dos pólos. Se, com Lipovetsky, “a leveza não pode ser estabelecida como princípio supremo”; o mesmo vale para o peso. São as peças que os grandes romancistas pregam nos leitores, ou, como registrei na polêmica com meu amigo filósofo, são as “cascas de banana” deixadas deliberadamente no meio do caminho, para escorregarmos.

 

A pintora Sabina é leve nos relacionamentos, abandona o amante exatamente quando ele pretende assumi-la como esposa. Mas ela certamente não é leve na arte, nos quadros trava combate contra o kitsch produzido pelo regime. Palavras dela: “meu inimigo não é o comunismo, meu inimigo é o kitsch.” O cirurgião Tomas sente o peso da repressão ao não se retratar sobre um texto que havia publicado num jornal, quando sugeriu que os gestores do regime, assim como Édipo, deviam furar os olhos. Mas, forçado a abandonar a medicina, que amava, e transformado em limpador de vidros, ele segue a vida de libertino, experimenta a doçura da leveza se relacionando com as donas das casas que limpava. Palavras dele: “só uma relação isenta de sentimentalismo, em que nenhum dos parceiros se arrogue direitos sobre a vida e a liberdade do outro, pode trazer felicidade para ambos.” Sabina ser a amante que “melhor compreendia” Tomas sugere que leve e pesado não podem ser separados.      

 

Também na arte pesado e leve não podem ser separados. Ainda que predominem provisoriamente ideais estéticos relacionados ao que é leve ou pesado, uns não podem ser totalmente separados dos outros. Por mais leve que seja a obra (delicada, refinada, suave, doce, elegante), o trabalho do artista é pesado, envolve valor, gravidade, engajamento, atração, amor. Sem isso não se produz nada que sobreviva ao tempo [9].

 

Então, voltemos à pergunta inicial: peso ou leveza? Nem um nem outra! Um e outra! Baltasar Gracián [10] escreveu, em 1647, uma formula que ajuda a resolver a questão: “não levar em conta o que não conta.”

 

Se é assim, a melhor forma de responder a pergunta inicial é: peso (engajamento) com o que conta, leveza (indiferença) com o que não conta. Indiferença em relação às promessas metafísicas das religiões e mercadológicas do capital. Engajamento no amor, na amizade, na arte e na política.


 Notas

 

[1] Lipovetsky, Gilles. Da leveza. Barueri: Amaralys, 2016.

 

Todos as citações de Lipovetsky estão na obra Da leveza.

 

[2] Milan Kundera define a Primavera de Praga como um “segundo soberbo” no belo ensaio Sobre as duas grandes primaveras e os Škvorecký, ver: Kundera, Milan. Um encontro. Companhia das Letras: São Paulo, 2013. Reproduzo o parágrafo completo:

 

“Ah, os queridos anos 1960. Eu gostava de dizer, então, cinicamente: o regime político ideal é uma ditadura em decomposição; o aparelho opressivo funciona de maneira cada vez mais defeituosa, mas está sempre ali para estimular o espírito crítico e zombeteiro. No verão de 1967, irritados com o congresso corajoso da União dos Escritores e achando que o atrevimento tinha ido longe demais, os chefes do Estado tentaram endurecer sua política. Mas o espírito crítico havia contaminado até o comitê central que, em janeiro de 1968, decidiu que o presidente seria um desconhecido: Alexander Dubcek. A Primavera de Praga começou: hilário, o país recusou o estilo de vida imposto pela Rússia; as fronteiras do Estado foram abertas e todas as organizações sociais (sindicatos, federações, associações), originalmente destinadas a transmitir ao povo a vontade do partido, tornaram-se independentes e se transformaram em instrumentos inesperados de uma democracia inesperada. Nasceu um sistema (sem nenhum projeto preestabelecido, quase por acaso) que foi verdadeiramente sem precedentes: uma economia 100% nacionalizada, uma agricultura nas mãos das cooperativas, nada de pessoas muito ricas, nada de pessoas muito pobres, o ensino e a medicina gratuitos, mas também: o fim do poder da polícia secreta, o fim das perseguições políticas, a liberdade de escrever sem censura e, a partir daí, o desabrochar da literatura, da arte, do pensamento, das revistas. Eu ignoro quais eram as perspectivas de futuro desse sistema; na situação geopolítica de então, certamente nulas; mas numa outra situação geopolítica? Quem pode saber... Em todo caso, esse segundo durante o qual esse sistema existiu, esse segundo foi soberbo.”

 

[3] Kundera, Milan. A insustentável leveza do ser. Companhia de Bolso: São Paulo, 2011.

 

[4] Por coincidência ou não, assim como no romance de Milan Kundera, Gilles Lipovetsky cita Nietzsche no primeiro parágrafo do livro que escreveu sobre a leveza: “É bom o que é leve; tudo o que é divino se move com pés delicados.”

 

[5] A reflexão sobre as diferenças entre moral e ética, além da sacada de pensar esta última como o bem que se faz por amor ao justo está em: Comte-Sponville, André. O capitalismo é moral? Martins Fontes: São Paulo, 2005.

 

[6] Milan Kundera escreveu A insustentável leveza do ser originalmente em francês, L’insoutenable légèreté de l’être. Por alguma razão difícil de entender, o adjetivo insustentável foi traduzido como insuportável no espanhol, no inglês e até no tcheco, respectivamente: La insoportable levedad del ser, The unbearable lightness of being e Nesnesitelná lehkost bytí. Salvo um possível engano meu, difícil entender a opção por insuportável no espanhol, no inglês e no tcheco, ainda mais sabendo que Kundera acompanha o trabalho dos tradutores. Se a leveza é insustentável, trata-se de um ideal que pode ser buscado, mas difícil de ser mantido sem ultrapassar limites perigosos. Se a leveza é insuportável, a ambiguidade e o mistério da contradição pesado-leve estariam resolvidos no título do romance.  

 

[7] Sobre a arte do romance como uma “sabedoria da incerteza”, ver: Kundera, Milan. A arte do romance. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

 

Há, em Kundera, algo demasiadamente atraente: ele consegue incomodar a direita e a esquerda (estalinistas, leninista e trotskista com certeza). É um princípio do romancista tcheco: escrever contra todos! Num dos ensaios de Milan Kundera, não lembro exatamente qual, mas aproveito para recomendar todos, ele conta uma história. Já exilado, um jornalista lhe pergunta com insistência, você é de direita ou de esquerda?, ao que o escritor responde sempre da mesma forma: sou romancista! É quando a “sabedoria da incerteza”, própria da arte do romance, se choca com “desejo, inato e indomável, de julgar” – e simplificar, acrescento – “antes de compreender.”

 

[8] Para acessar os textos da polêmica clique aqui.

 

[9] Um exemplo e um juízo de valor sobre o peso da criação artística, cito o trecho completo, está em: Sabato, Ernesto. O escritor e seus fantasmas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982:

 

“A condição mais preciosa do criador. O fanatismo. Tem de ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.”

 

[10] Gracián, Baltasar. A arte da prudência. Porto Alegre: L&PM Editores, 2018.

 

Reproduzo o parágrafo resumido na fórmula “não levar em conta o que não conta”:

 

“Enquanto alguns não se importam com nada, outros se importam com tudo. Falam de seus afazeres como se fossem ministros, tomam tudo ao pé da letra e a tudo atribuem características misteriosas. Poucas dessas coisas aborrecidas merecem o nosso cuidado e tomar a peito o que se deve desprezar é insensatez. Muitas coisas que se acreditava serem valiosas nunca chegam a mostrar valor e outras que pareciam nada valer frutificaram como efeito do trabalho aplicado. No início é fácil levar tudo a termo, mas depois não. Muitas vezes o remédio provoca a doença; assim, deixar passar não é a pior das regras.”

 

Publicado originalmente no Passa Palavra