sexta-feira, 11 de março de 2016

DE VIRA-LATA A PIT BULL: PROLEGÔMENOS PARA UMA TEORIA DOS COMPLEXOS
Era uma vez um país da América do Sul. Na década de quarenta do século XX, um famoso escritor austríaco viu naquelas terras o “país do futuro”, mudou-se para lá e depois se suicidou por ali mesmo.

Era uma terra com muitas águas, que canalizou seus rios e construiu barragens, alagando vales e afogando o povo, tudo para produzir energia e caixa para empreiteiras e outros negócios. Dizia-se que a fartura de água era tanta que até fariam a transposição do rio mais genuinamente nacional: um enxurro de dinheiro encharcou o caixa das construtoras e do agronegócio.


Era uma terra de flora riquíssima, que foi transformado suas matas em pastos e canaviais, foi substituindo suas sementes naturais por outras transgênicas, tudo com a benção do agronegócio multinacional.


Cândido Portinari: Meninos com balões (1936)



Era uma terra de fauna riquíssima, que, no final do século XX, elegeu um presidente que foi mentor de um partido simbolizado por uma ave de bico longo, que habitava as florestas antes de ser extinta. Essa ave de bico longo violava ninhos e se alimentava de ovos de outros pássaros (dizem que por isso virou símbolo do partido, que também se alimentava de ovos de terceiros e também acabou extinto). Depois do homem do partido da ave do bico longo, foi eleito um presidente apelidado com o nome de um fruto do mar, um molusco. Um dos sentidos de molusco é pessoa, animal ou coisa mole (dizem que isso explica o apelido desse presidente). O presidente molusco cunhou uma expressão que ficou famosa: “nunca antes na história desse país”. 

Nunca antes na história daquele país (e do mundo) os preços dos produtos do agronegócio subiram tanto. Aliás, subiram, mas na época latifúndio não era chamado de agronegócio. Tudo que sobe muito despenca depois. Mas... As quedas dos preços do café, do cacau e do açúcar já tinham quebrado muita casa-grande, mas na época casa-grande não era chamada de agronegócio e não era multinacional, enfim, ninguém previu o tombo no futuro do “país do futuro”.  O presidente molusco pegou jacaré na marolinha da alta dos preços dos produtos do agronegócio, e pulou fora antes do tombo.

Em 2012, completou-se o centenário de um escritor e dramaturgo da terra da rica flora. Nos anos cinquenta do século XX, este escritor e dramaturgo cunhou a expressão “complexo de vira-lata” para definir o sentimento de inferioridade do seu povo, que seria uma espécie de “narciso às avessas”, “que cospe na própria imagem”. Mas isso foi antes do presidente molusco e da alta dos preços dos produtos do agronegócio.

Nunca antes na história daquele país (e do mundo) os preços dos produtos agrícolas permaneceram nas alturas, as asas dos preços eram fixadas com cera, e o país despencou como Ícaro, e como Sísifo, já que a tragédia se repetiu como já tinha acontecido com o café, o cacau e o açúcar. A afoiteza juvenil derrubou o país das muitas águas, que caiu como Ícaro.



Em 2062, o presidente molusco e o partido da ave de bico longo já tinham sido esquecidos. O agronegócio passou a ser chamado de agricommerce e os senhores de engenho de businessmen, estes senhores criaram e dominaram outros partidos para lhes servir. Lendo sobre Ícaro e “complexo de vira-lata”, um jovem historiador cunhou a expressão “complexo de pit bull”, que é uma espécie de “complexo de vira-lata” às avessas, e que existiu quando o país da rica fauna começou a se achar forte e poderoso, isso aconteceu na época do presidente molusco e da sua sucessora, que acabou esquecida sem ser melhor estudada. Segundo o jovem historiador, o “complexo de pit bull” teve três causas: a hipertrofia do crédito, da propaganda e dos preços dos produtos agrícolas. O “complexo de pit bull” fez as asas da imaginação voarem cada vez mais alto, até que a cera derreteu e veio o tombo. Falava-se da solidez dos fundamentos da economia. Dizia-se que a musculatura do país era rija como a do pit bull, mas de pit bull só havia a coleira e a focinheira. O país desabou junto com os preços dos produtos que exportava. Então o povo da terra da rica flora teve saudades da época do “complexo de vira-lata”, porque podia, pelo menos, brincar solto pelas ruas, balançar o rabo e correr atrás de bola.

domingo, 6 de março de 2016

UMA TARDE EM 1993

O que mais pesa nos ombros de um garoto de 14 anos? O tabu da virgindade? O cabaço? Não. Pior que isso é tabu da falta de títulos do time do coração. Este mal se abateu sobre uma geração de palmeirenses, mais precisamente os nascidos depois de 1976 e antes de 1993, eu entre estes.
      
Eram tempos difíceis. Ainda mais para um menino chamado Júlio César. Júlio de Julinho Botelho (o ponta direita que deixou Garrincha no banco em pleno Maracanã) e César de César Maluco (nosso segundo maior artilheiro). Peso comparável a este não há, salvo existir por aí algum Marcos Ademir, Marcos (goleiro) e Ademir (da Guia).
       
Desgraçadamente, os torcedores das épocas de vacas magras são sempre os mais fanáticos, eles elegem seus times por convicção e teimosia. É o meu caso. Não foi um grande craque ou título que me fez palmeirense, pelo menos não que eu tivesse visto ao vivo. “Escolhi” meu time no quintal de casa, ouvindo as histórias do meu pai, que falava do Santos de Pelé e do Botafogo de Garrincha, mas sempre ressaltando que apenas a nossa Academia era capaz de derrotá-los. Porque se não fosse o Julinho Botelho, o Ademir da Guia, o Dudu... O Santos teria sido campeão não sei quantas vezes seguidas.         
      
E a mudança de Palestra para Palmeiras então? Essa emociona. Os são paulinos, apoiados num decreto-lei de Getúlio Vargas, alegavam que éramos uma equipe da comunidade italiana e, portanto, ilegal. Isso porque o Brasil estava em guerra contra a Itália e demais países do eixo. Nossos adversários usaram esse pretexto para tentar tomar nosso estádio. Não conseguiram. E o pior. O futebol é ardiloso. O Palestra foi forçado a mudar de nome, virou Palmeiras para poder continuar existindo. Mas quem disputaria o título do Paulistão na mesma semana? Palestra e São Paulo FC. Ou melhor, Palmeiras e São Paulo FC. Tínhamos 34 pontos, eles 32. A bola rolou, fizemos um, eles empataram, depois outro nosso e mais outro e uma penalidade para nós. Eles se recusaram a continuar a partida. “O Palestra morre líder, o Palmeiras nasce campeão.” Este feito é conhecido como Arrancada Heróica 1942, e hoje dá nome à passarela que atravessa a Avenida Antártica.
      
Claro que a nossa arrancada heróica, por tudo que envolve,  vale mais do que mil conquista, mas nos anos 1980 era difícil comentar um acontecimento de 1942. Era época dos “Menudos do Morumbi”, prenúncio inequívoco do pós-modernismo. As grandes narrativas e fatos históricos estavam em baixa. O “fim da história” estava para ser decretado. Vivia-se num presente vazio que excluía o passado e o futuro. Somente alguns dinossauros como nós insistiam em viver das coisas findas. Nossos adversários de 1942 estavam por cima. Por esses tempos ganhei um companheiro de tortura, meu irmão. Tínhamos as figurinhas dos times, os jornais. Comparávamos a altura dos atacantes adversários à dos nossos zagueiros. Imaginávamos esquemas táticos. 4 – 4 – 2, 4 – 3 – 3. Mas no final... Ganhavam os “Menudos”. Aquela torcida pós-moderna sequer sabia escalar seu time, só aparecia na reta final, como quem chega na hora do bolo, mas ganhavam, nós não. Parecíamos condenados a viver no passado. Se uma máquina do tempo transportasse a nossa Academia para o presente...  Aí ninguém poderia com a gente. Mas enquanto isso não acontecia... Em 1978 perdemos para o Guarani, em 1986 para a Inter de Limeira, nesse dia olhei para meu pai, esperei ele falar, ele precisava explicar o que tinha acontecido, mas faltaram-lhe as palavras. Depois de tudo, o silêncio.
       
Um trauma? Quando algum moleque sem vergonha dizia:
      
- Você nunca viu seu time ser campeão!
      
Ao que eu respondia:
      
- E a sua mãe? Aquela vaca. Aquela puta.         
      
Era preciso desconversar e mudar de assunto.
      
A história era nossa, o presente não. Meu pai falava do primeiro campeonato mundial interclubes, muito antes do Palmeiras reivindicar essa conquista na Fifa. Em 1951 derrotamos a Juventus de Turim, éramos os primeiros campeões mundiais. Tínhamos vingado a seleção brasileira de 1950. Como se não bastasse, em 1965 representamos a própria seleção canarinho, metemos três a zero no Uruguai. No mesmo ano nossos arquirrivais também representaram a seleção brasileira. Resultado? Arsenal 2 x 0 Corinthians (Brasil). Essa história eles não gostam muito de lembrar.
      
Por falar nos nossos arquirrivais. Lembro-me do meu pai narrando o nosso título paulista de 1974. O Corinthians estava há 20 anos sem nada. Eles tomaram o Morumbi. Acharam que sairiam da fila atropelando a gente. Mas... No meio do segundo tempo, um cruzamento na área, Leivinha escora de cabeça e Ronaldo estufa a rede. O caneco era nosso. Meu pai não comentava o título do IV Centenário, que perdemos para o Corinthians em 1954. E estava correto. Já colecionávamos decepções suficientes.
      
Um salto no tempo. Final do Paulistão de 1992. Palmeiras contra o São Paulo de Raí, Müller e Cafu. Perdemos. 4 x 2 e 2 x 1. Dizia-se que só perdemos porque era o São Paulo, se fosse qualquer outro adversário... Mas então por que tinha que ser o São Paulo? Que desgraça. 
      
No ano seguinte nosso time estava mais forte e encararia o Corinthians de Viola, Neto e Ronaldo na finalíssima. Éramos superiores, mas isso não resolvia nada. Primeiro jogo. Falta na ponta direita, Neto cobra de canhota, a bola cruza toda a nossa área, Viola se atira e marca. Bola na rede. Na nossa rede. Como se não bastasse o sujeito ainda comemora engatinhando e imitando um porco chorão.
      
Segundo e decisivo jogo. Nossa única chance era ganhar no tempo normal e pelo menos empatar na prorrogação. Ou seja, o risco de enfarte era altíssimo.  O radinho de pilha tagarelou o dia todo. No final da tarde nos postamos em frente à tv: eu, meu pai e meu irmão. Minha mãe caminhava pela casa para não ver o nosso sofrimento. Apreensão. 0 x 0 no placar. Aí Edmundo arranca pela esquerda, o zagueiro tenta cortar, mas a bola sobra para Evair, que faz a parede e lança Zinho, que entra pela direita e bate cruzado, levantamos do sofá, a pelota passa pelo goleiro, bate no pé da trave e vai para a rede. Gol. Um a zero para nós já no primeiro tempo. 15 minutos de apreensão. E recomeça a partida. E Mazinho recupera no meio campo, penetra pela esquerda, bate cruzado, Evair... É gol. Dois a zero. E viria mais. Daniel Frasson entra pela esquerda, cruza para Evair, que domina e bate, a pelota resvala no rodapé do poste e volta para Edílson... Gol. Três a zero no tempo normal. Outro intervalo. A peleja vai para prorrogação. Só uma tragédia nos tiraria o caneco, mas a tragédia sempre nos acompanha. O Palmeiras é um tango. Apreensão total. Dedos cruzados. Tremedeiras. Até que Edmundo invadiu pela direita, o beque segurou e... Penalidade para nós. Coração gelado. Evair bate, goleiro de um lado, pelota do outro... É gol. Quatro a zero. Silêncio glacial. Mas pela primeira vez o tempo jogava para nós. O desespero estava do outro lado. Até que o juiz apita. Não tinha mais jeito. O caneco era nosso. Silêncio.
      
Meu pai levanta, pega um disco de vinil (compacto), rasga o plástico e põe na vitrola: “Quando surge o alviverde imponente...” Aquele disco tinha permanecido mudo e lacrado por anos, como nós. Meu pai nos abraça aos gritos:
      
- Pode comemorar que esse é nosso! Ninguém mais tira! É campeão!

Não sabíamos comemorar.