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POEMINHAS ECOLÓGICOS

 

1

velha lagoa

sapos babosos

abraço tântrico

 

2

velha lagoa

abraço dos sapos

é primavera

 

3

o tempo parou

na velha lagoa

abraço dos sapos

 

4

velha perereca

subindo pela parede

solidão úmida

 

5

velha lagoa

uma rã salta

sobre a outra

 

6

velha lagoa

rã sobre rã

som sensual

 

7

rãs na lagoa

uma sobre a outra

olhinhos felizes

 

8

rã no gramado

saltando, saltando

Bashô revisitado

 

9

velho Bashô

sua rã salta

dentro da gente


Publicados originalmente no Passa Palavra


KAIS -1

Estes parágrafos são o fechamento da série (Kais)  que publiquei. A série contém: 1 pequeno ensaio sobre a poética do haikai (prelúdio), 5 fotos, 5 haikais de minha autoria e 5 versões/traduções do haikai da rã, escrito por Bashô em 1686, e retrabalhados por poetas e tradutores de lá para cá. Todas as versões/traduções foram selecionadas na Revista Brasileira de Haicai - Caqui. Estes parágrafos nascidos como epílogo têm um quê de prelúdio, e se a explicação contraria o espírito do haikai, o movimento o caracteriza: partir, chegar, partir para chegar, chegar para partir, sempre.    

Haikai: movimento fotografado, poema curto que fotografa o movimento, em geral demarcando as estações do ano: folhas caindo, andorinhas dançando, o salto de uma rã e até um caramujo escalando o Monte Fuji. É o tal kigo (ki = estação, go = palavra), que demarca as estações com palavras. Nos haikais desta série: férias de verão, folhas secas, manhã de primavera. 

Como publiquei 5 haikais de minha autoria, resolvi selecionar 5 traduções/versões para o haikai da rã, de Bashô, porque dois dos meus poemas fazem referência ao mestre japonês, então, para homenagear e para contextualizar, selecionei 5 traduções/versões. Foi quando o espírito do haikai se impôs, como se o pequeno poema nascido no Japão fosse uma unidade inquebrantável, como se nem as palavras e nem sequer a ordem das palavras pudessem ser alteradas. Forçado a escolher, fiquei com os haikais mais enxutos e mais minimalistas, deixando de fora poetas como Caetano Veloso, Décio Pignatari, Estrela Ruiz Leminski, Guilherme de Almeida, Haroldo de Campos, Olga Savary, João Guimarães Rosa e até Manoel de Barros. 

Relendo a Antologia da Rã fiquei pensando se, na versão/tradução de Leminski, a rã salta dentro da lagoa ou se salta o som da água. Também fiquei pensando se o meu “sua rã salta dentro da gente” saiu a partir de “uma rã mergulha dentro de si”, de Jorge Braga, porque quando escrevi já tinha lido a antologia. Em outros carnavais aprendi que alguns versos nossos podem ser de terceiros: como um gato do vizinho caminhando no nosso quintal, como rãs saltando dentro da gente. Enfim, o certo é que as duas rãs em questão vêm de Bashô. Então, tranquilo. Quem quiser receber a série completa, em PDF, basta solicitar por e-mail enviando mensagem para jancenek68@gmail.com  

Espero que gostem. 


5 VERSÕES/TRADUÇÕES PARA 1 HAIKAI DE BASHÔ

Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água.
(Cecília Meirelles – Escolha o seu sonho, 1974)

O velho tanque -
Uma rã mergulha,
Barulho de água.
(Paulo Franchetti e Elza Doi – Haikai, 1990)

velha lagoa
o sapo salta
o som da água
(Paulo Leminski - Matsuo Bashô: A Lágrima do Peixe, 1983)

O velho tanque
uma rã mergulha
dentro de si.
(Jorge de Souza Braga – O gosto solitário do orvalho, 1986)

Nem grilo, grito, ou galope;
No silêncio imenso
Só uma rã mergulha - plóóp!
(Millôr Fernandes - Hai-kais, 1986)



KAIS 1

Para Marx, os cientistas seriam desnecessários se houvesse correspondência imediata entre a aparência e a essência das coisas. O mesmo vale para arte, se o belo se oferecesse de imediato, os artistas seriam desnecessários. É, talvez, no haikai que esta verdade se coloca com mais força.

Nascido no Japão há mais de três séculos, o haikai é um poema curto que capta sutilezas do mundo: rã mergulhando no lago, caramujo escalando o Monte Fuji, gritos brancos dos patos no mar escuro. Para Octavio Paz, o haikai é o instante reconquistado.

É talvez por isso que o haikai conquistou não só instante, mas o Ocidente. Condenado a andar sempre na mesma direção e sem olhar para os lados, o homem ocidental priva-se das sutilezas do mundo. Isso para não falar dos homens contemporâneos, que vivem debruçados sobre telefones celulares, como gado pastando. O barulho dos motores sufocou o canto dos pássaros, os edifícios bloquearam o horizonte, a fumaça dos escapamentos substituiu os perfumes dos jardins, rios e córregos foram canalizados. Se é assim e contra a sua vontade, o haikai ganha ares de resistência, mas esta não é a essência daquele. 

Escrever haikais é fotografar o movimento: neblina cobrindo a serra, borboleta ziguezagueando, chuva tocando a terra seca. Sempre e sempre o movimento: primavera - verão - outono - inverno; menino - homem - velho; vento - nuvens - chuva - sol; vida - morte; e assim sucessivamente. A beleza que vem da leveza da transformação. Exemplo. Hattori Tohô (1657-1730)¹:

O ar tremeluz –
A areia sobre o rochedo
Vai caindo aos poucos.

Sinal dos tempos: há mais “poetas” do que leitores de poesia. É a grafomania: a mania de escrever livros. O pior não deve acontecer, mas se um dia a poesia vier a óbito, a causa da morte será a existência de milhões de “poetas” e nenhum leitor de poesia. E poetas está entre aspas porque não há poeta que não seja leitor de poesia. É preciso viver para a poesia – diria Drummond –, e isso significa inclusive e principalmente: ler poesia – acrescento eu.  

Nada mais avesso à essência do haikai do que a vontade de aparecer característica do tempo presente: grafomania, fotos fazendo biquinho, corpos rasurados por tatuagens. Tudo demasiadamente igual: mercadorias disputando espaço nas gôndolas. Contra a vontade de aparecer a arte de desaparecer? Mirek no Livro do Riso e do Esquecimento, de Milan Kundera? O Dr. Pasavento no romance homônimo de Enrique Vila-Matas?

Não para o haikai, que não quer nem aparecer nem desaparecer, quer se integrar: pé na terra, brisa no rosto, música do vento, viver e morrer. Escrever haikais é se refrescar numa nascente: não é o cais de que se parte, é o cais revelado entre o nevoeiro, descoberto na longa viagem, para onde se retorna, sempre. Os escritores costumam ir do conto ao romance, do menor ao maior; os poetas costumam ir do poema ao haikai, do maior para o menor. Não para desaparecer, mas para se integrar.

Desconfio dos poetas que não foram seduzidos pelo haikai. Talvez porque queiram mais aparecer do que se integrar. Talvez porque não sejam leitores de poesia. A questão não é se adequar a regras pré-estabelecida: métrica, rima e por aí vai. A questão é a precária possibilidade de fotografar o movimento com palavras: a pulsação da terra e a brisa da manhã, o perfume dos jardins e o mistério da noite, o curso dos dias e das estações, o tempo e sua passagem, a música do vento e a dança das águas, ondas quebrando no cais, a vida e a morte.         

NOTAS

1 Este e outro haicais podem ser encontrados em: Portal NippoBrasil