segunda-feira, 12 de dezembro de 2016




PARA UM IRMÃO QUE SE FOI POR CONTA PRÓPRIA

I
a vida não tem graça
vamos brincar de morrer

vamos brincar de forca
na árvore da vida

vamos com calma
vamos dançando

vamos pedalar
para além da vida

sem filosofias
sem desespero

vamos pedalar
sem olhar para trás

vamos pela estrada
da deslembrança


II
dança menino
vai dançando

atravessa brincando
a fronteira da vida


 III
deitado no mato
no meio da noite

debaixo da lua
no pé da palmeira

o vento lambendo
a  testa da mata

folhas caindo
dança das sombras


IV
quanta beleza
na música dos bichos

na brisa leve 
no perfume da terra

como é belo
o chamado do vazio

  
V
fecha os olhos
abraça o vento

dorme
meu irmão

o canto dos pássaros
não te despertará


VI
meu irmão
mora na mata

meu irmão
dorme na mata

e vai virando pó
e vai virando pedra

e vai virando saudade
e vai desvirando homem





sábado, 19 de novembro de 2016

AQUELAS HORAS NO ARAÇÁ

Acontece quando os passarinhos estão escondidos,
antes de apontar o dia,
nos momentos em que as nuvens realçam a lua.

Os mortos saltam dos monumentos funerários
(também chamados jazigos)
Escolhem-se as esquadras
e rola a bola.
É o recreio dos finados,
a hora mais feliz.

Os dias se reduzem à espera
e à escolha dos esquemas
e posicionamentos.

As escolas se apresentam.
A retranca italiana é briosa
e joga no bote.
A ginga brasileira dribla as sepulturas,
dança e encanta.
Os platinos são elegantes,
avançam tabelando a bola nas árvores.

Prevalece a alegria
e poucos problemas,
salvo alguma vidraça quebrada.

Mas um moço chora,
e acompanha tudo com movimentos de pescoço.
É o menino Jesus,
crucificado sobre um sepulcro,
cristo não pode jogar.




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

CAROLINA E JESUS

I

Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel...

Jesus: O trem.

Carolina: Catá papel. Desossá o papel. Comê sopa de osso de papel. Dá sopa de osso de papel pras crianças. A fome é amarela. A fome amarela. A fome é professora.

Jesus: A vida é mais importante do que a comida.

Carolina: Bilhões de pessoas no mundo, nem todos comem todos os dias. Quem não come não caga. Barriga vazia é tortura.

Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia...

Jesus: Lá vem o trem.

Carolina: Metê o pé na lama. Metê o pé na água pra buscá água, às 04:30 da manhã. Lavá ropa no rio. Candidato canalha pedindo voto na porta do barraco. Surra de marido em mulher. Cachaça, muita cachaça.  Muita cachaça, muita merda. Prostituição. Peixeira cortando gente. Polícia, muita polícia. Quanto mais polícia, mais merda. Vizinho jogando merda nos meus filhos. Fome. Tenho três crianças pra alimentá. É fogo ouvi filho perguntá se tem mais comida. Nunca tem mais. Esse “tem mais comida” é uma mosca na minha orelha. Tontura de fome é fogo. Tortura.

Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia...

Jesus: Olha o trem!

Carolina: Quero morrê! Vô me jogá na frente do trem.

Jesus: Nunca diga isso!

Carolina: Jesus, cadê você?

Jesus: Estou sempre contigo. Quem crê em mim nunca estará sozinho. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai, senão por mim. E bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Se você estiver em mim, e as minhas palavras estiverem em ti, peça o que quiser.

Carolina: Metê palavra no papel. Quero ganhá dinheiro com meu livro, com minhas palavras. Quero saí desse inferno. Quero alimentá as crianças.

II

Jesus: Tudo é possível para quem crê. A fé remove montanhas. O reino de Deus tá dentro de você. E agora você tá no jornal, na revista, na imprensa. Vai vendê muito livro. Parabéns.

Carolina: Metê palavra no papel. Comê carne de palavra. Dá de comê pras crianças.

Jesus: Isso.

Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel...

Carolina: Catá papel. Metê palavra no papel. Vendê papel com palavra. Vendê palavra e papel. Comê carne de palavra.

Jesus: Milhares de livros vendidos.  Tradução em outros idiomas. É isso aí!

Carolina: Comprá roupa e sapato bom. Comprá casa de tijolo. Adeus, Favela do Canindé. Adeus, quarto de despejo. Adeus, barraco de tábua. Viajá pro Chile e Argentina, Europa e América Latina. Costurá a vida com pedaço de céu, com pedaço de nuvem, com pedaço de estrela. O futuro é azul. Obrigado, Jesus.

III

Carolina: Cadê o jornal? Cadê a revista? Cadê a imprensa? Preciso vendê meu papel. Esqueceram meu livro. Ninguém fala do meu livro. Metê palavra no papel e morrê de fome?

Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda...

Jesus: Que barulho é esse?

Carolina: Meu estômago. De novo não. Jesus, me ajuda.

Jesus: Estarei sempre contigo. Deus não dá mais do que você pode carregar.

Carolina: Barraco de favela é cinza. Lixo é cinza. Fruta podre é cinza. A vida é cinza. O prefeito da favela é o diabo.

Jesus: Cuidado. Essa faca. Carolina, não. Me dá essa faca.

Carolina: Tontura de fome é fogo. É tortura. A fome é amarela. Tá tudo amarelo.
Jesus: Ninguém vai ao ai. Ai. Ai.

IV

Dias depois. Na capa de todos os jornais e revistas: Escritora esfaqueou, matou e comeu partes de um homem ainda não identificado. Familiares e amigos não compareceram para reconhecer do corpo. Peritos estão trabalhando para identificar a vítima.


Igreja de São Francisco de Assis - Salvador/BA



sábado, 1 de outubro de 2016

Poema Pixo
(versos para decorar papel higiênico)

borrifo
indômito
vômito

verborréia diarrética

pixo

peixe no armário
pelo ao contrário

anarcrônica do caos
pequeno-burguesamente
logomarcando muros

cúmulo mercantil
túmulo da fala

anticomunicação
cala a grafia

grito de bicho
no saco de lixo

coice ortográfico

furúnculo
no cu do kitsch

estética da barbárie



quinta-feira, 29 de setembro de 2016


São Paulo não pode parar.
O trânsito não pode parar.
O metrô não pode parar.
Mas o cidadão
(que estava parado)
acelerou o passo
e pulou na frente do trem
(que não parou).



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Al Nakba

Morreu o tempo do poema.
O poeta deliberadamente declina:
da palavra, do verso, da rima.
Quer a métrica da metralhada,
a musicalidade da bomba.
Quer responder ao fogo sionista.
Palestina: poética é a sua luta!







segunda-feira, 15 de agosto de 2016

sábado, 13 de agosto de 2016

CORDEL DO DELEGADO POETA

Quinta-feira de manhã
Que me veio a novidade,
Delegado deu patada
No couro da autoridade.
Reinaldo Lobo seu nome.
Riacho Fundo a cidade.

O preso no meio da cela,
Seu crime? Receptação.
Ladrão de motocicleta
Apodrece na prisão,
Como se fosse poeta
Na doutrina do Platão.

O inquérito da ocorrência
Vai para a promotoria.
É costume corriqueiro
Em qualquer delegacia
Relatar um ocorrido
Conforme a burocracia.

Até aqui vai tudo bem,
Rotina do dia-a-dia,
Se não fosse o Doutor Lobo
Incorrer em rebeldia,
Relatando a detenção
Em forma de poesia.

Essa eu nunca tinha visto,
Mas se mantém o ditado:
A lei nunca é para todos.
Se repete o velho fado.
Proletário é quem trabalha.
Burguês manda no estado.
  
Bandido veste gravata.
Assalta, mata, decreta.
Tem riqueza e capital.
Acumular é sua meta.
Isso todo mundo sabe.
Mas delegado poeta?

Então lanço desafio:
Dr. Lobo, se tens magia,
Como em teu verso foi dito,
Se tu amas a poesia.
Vai prender o bom burguês
Que me rouba a mais valia.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

CENTO E QUATRO ANOS DE JORGE AMADO

Um homem pede uma dose de cachaça, pega o copo, entorna e grita: ÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁGUA. Gargalhadas no boteco. O líquido transparente tinha sido trocado. O poeta pernambucano Carlos Pena contou esse causo numa mesa de pôquer, acabou sendo apelidado de Berro D’água (mesmo não tendo sido seu o berro do causo). Jorge Amado, que estava naquela mesa, passou a chamar Carlos Pena pelo apelido do apelido: Berrito. Berro D’água virou título de novela de Jorge Amado: A morte e a morte de Quincas Berro D’água. O causo do líquido trocado foi atribuído ao personagem principal do livro, Quincas, que também era chamado de Berrito, mas só por sua amante, Quitéria do Olho Arregalado, e apenas nos momentos de “maior ternura”.
Quincas Berro D’água, era Joaquim Soares da Cunha, um pacato funcionário da Mesa de Rendas Estadual, que se aposentou do trabalho e da família. Largou mulher e filha (as “jararacas”) e se lançou na boemia, virou “paizinho” de farrista e desgosto de família. A morte, ou as mortes, de Quincas promoveram o encontro dos dois mundos: o fedor da falsidade da família que se alegra com o passamento e a lágrima da trupe dos becos e ladeiras que chora a perda. As bufas da tia Marocas, ou “saco de peidos”, que era como Quincas dizia; frente a frente com a ligeireza de um Pé-de-Vento e o canto de um Curió. Daí em diante a novela é um voo sobre a Bahia escondida atrás dos pacotes turísticos: cais do porto, ladeiras, botecos, zonas de meretrício. Enfim, o desaparecimento de Quincas continua carregado de mistério, mas uma coisa é certa, ele desapareceu como queria, no mar da Bahia, na rima e na solução.
Vinicius de Moraes disse que Jorge Amado escreveu a melhor novela e o melhor romance da literatura brasileira, respectivamente: A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água; e Gabriela, Cravo e Canela. E isso apesar de Machado de Assis, do seu Dom Casmurro e do seu Quincas, o Borba. Vinicius disse mais, segundo o poetinha, Jorge Amado é um escritor que “fecunda a língua”. Esta afirmação é mais fecunda que a primeira, porque comparações são de menos valia. E para frente com a “bola de bexiga de boi cheia de ar”.
Jorge Amado é um escritor que vale a pena, é pena que vale não apenas pelo cento e quatro anos. É baticum de candomblé e macumba. Sapateado e batuque das águas. Maresia, marulho, cheiro de peixe. Dendê com tomate e leite de coco. Moqueca de arraia. Espinha de peixe no prato vazio. Silêncio das casas coloniais. Povo sem eira nem beira na beira do mar. Ou no “Cu com Bunda”, que é o nome da vila operária no livro Cacau. Melodia de ladeira e violão. O feitiço, a farofa e a foda na areia da praia. A escravidão pós-abolição na lavoura de fumo, ou de cacau, ou no cais do porto. Alma penada arrastando a corrente do tempo da escravidão, corrente que prende o presente. Sopro de vida no lombo do morro e no compasso do samba. Baralho na mesa do bar. Espreguiçadeira dolente. Golpe de capoeira e navalha. O suor, o sonho, a greve. Tudo isso e mais um pouco. Jorge Amado é escritor e fecundador de uma língua em que malandragem significa liberdade. Fecundador: fecunda a dor, ou dor fecunda, ou dor que fecunda. Uma obra que é um trago de cachaça. Uma pena que vai pintando um povo.
Foto de Miguel Rio Branco

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A FLOR E O SONHO

beija-flor
beija-pele
beijo à flor da pele

à flor da pele
pede crase
pede toque
pé de fruta

a pele da flor
pede pão
pede sol
pé de trigo

a flor de pele
pede sumo
pede seiva
pé de sonho


terça-feira, 24 de maio de 2016

TRISTE FIM DE DOM QUIXOTE DE LA MANCHA?

Foi o fidalgo um sonho de Cervantes
E Dom Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
Está ocorrendo que ocorreu muito antes.
(Jorge Luis Borges)

De Dom Quixote e Sancho Pança todos temos um pouco. Coragem e medo. Bravura e pavor. Fervor e desapego. Dulcinéia del Toboso e Teresa Pança. Rocinante e Ruço. Cavaleiro e escudeiro. Elmo de ouro e bacia de barbeiro. Gigantes e moinhos.
            
É da relação desses duplos representados no cavaleiro (primeiros) e no escudeiro (segundos) que brotam as aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança. Mas que fique claro, um nada seria sem o outro.

Quatro séculos depois, Dom Quixote continua cavalgando dentro de cada homem e mulher. Os mais cínicos tentarão ignorá-lo, e desviarão do olhar do cavaleiro.

Mesmo esfarrapado e faminto, frágil e avançado nos anos; o Fidalgo da Mancha será sempre uma pedra nos rins de muitos. Dos que dentro de caças invulneráveis bombardeiam povos inteiros, dos que torturam, dos que em bando agridem homossexuais. Com sua espada, seu escudo de lata e sua barba pintada de ar; Quixote peleja ao lado dos injustiçados. E se ainda não pôde derrotar exploradores, torturadores e covardes; lhes mete muito medo. O fogo dos olhos do cavaleiro andante intimida na exata medida em que reflete a covardia e a pequenez dos fracos de espírito.

O que é a loucura? Armar-se cavaleiro andante e sair à cata de aventuras? Ou despir-se de ideais e esconder-se num escritório? Armadura de combate ou terno de trabalho? Acreditar nos livros de cavalaria ou nos de auto-ajuda? O que é pior? Ver gigantes onde só há moinhos? Ou enxergar a felicidade onde só há consumismo e quinquilharias? “Desfazer agravos?” Ou o contrário disso? Dizemos que Quixote é louco, mas comodamente esquecemos de perguntar o que ele pensa de nós. 

Mas nem tudo está perdido. Enquanto os fracos de espírito desviam dos olhos de Quixote, valentes cavaleiros andantes da pintura e dos versos sentem a necessidade sincera de interlocução com o Fidalgo da Mancha. Portinari e Picasso esboçaram os traços da triste figura do cavaleiro. Drummond e Borges lhe dedicaram versos, muitos melancólicos e amargurados, mas sempre chamejantes.

Quixotes continuam brotando das páginas da literatura. Neste Brasil dos fartos rios e das densas matas, nas páginas de Lima Barreto, tivemos o Major Policarpo Quaresma. Que também pelejou pela justiça. Que plantou para provar a fertilidade do solo brasileiro. Que lutou, venceu e se arrependeu. Denunciou a violência contra os vencidos e acabou preso e submetido às mesmas torturas. E o mais importante, Policarpo amou desmedidamente sua pátria sem que isso implicasse em ter ódio de outras terras.

Nas páginas de carne e osso do mundo real também brotaram Quixotes. Na América Latina tivemos o comandante Che Guevara, sempre coerente e aventureiro do tipo dos que “colocam a vida em jogo para demonstrar as suas verdades.”¹ E tivemos também Joaquim Câmara Ferreira entre tantos outros. Todos “sempre capazes de sentir no mais fundo de seus íntimos qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo”², e sempre dispostos a “sentir as costelas de Rocinante sob os calcanhares.”³

Em algum lugar do tempo e da Mancha, Quixote adoeceu e morreu “com siso” e com febre. E com “o juízo livre e claro, sem as sombras caligionosas da ignorância” causada pela “leitura dos detestáveis livros das cavalarias”. Ou seria como no verso de Drummond: “Despido de todo o encantamento”? O final do Fidalgo da Mancha é triste. Mas há o recurso de contestar esse desfecho. Por vaidade, ou por feitiço, ou por seja lá o que for; Cervantes matou e entregou Quixote com febre e “com siso”. Talvez porque assim nenhum aproveitador barato continuaria a história do Cavaleiro da Triste Figura, como já havia acontecido. Mas ocorre que um cavaleiro andante nunca renega suas aventuras e histórias. Um encantador muito malvado deve ter enfeitiçado Cervantes e o forçado a meter juízo em Quixote, para depois matá-lo. Mas é preciso imaginar Dom Quixote de La Mancha vivo e sem siso, pelejando pelos prados e penhas do mundo sempre com  os versos de Drummond na ponta da língua:

Doído,
moído,
caído,
perdido,
curtido,
morrido,
eu sigo,
persigo,
o lunar
intento:
pela justiça no mundo
luto, iracundo.


1º) Carta de Che Guevara enviada a seus pais antes de partir para a Bolívia.

2º) Carta de Che Guevara enviada aos filhos após seu assassinato na Bolívia.

3º) Carta de Che Guevara enviada a seus pais antes de partir para a Bolívia.



Cândido Portinari: Dom Quixote e
Sancho Pança saindo para suas
aventuras
   


segunda-feira, 4 de abril de 2016

GRIPE SUÍNA

Um rifão: com doença não se brinca não, se for a gripe suína então... (E aqui vai rifão mesmo, porque é palavra da época da Dona González e porque rima com ancião e também com então). Segundo Dona González, os vírus que começam com H são os piores, daí sua preocupação com o dos porquinhos, o dito H1N1. E isso tem tudo a ver letra cabalística H, que é a nossa sexta consoante e oitava letra. Na média dá sete. E sete são as trombetas do apocalipse, assim como sete palmos de terra esperam os descuidados.

Toda atenção é pouca, todo cuidado é insuficiente. E a nossa amável aposentada sabia disso, apesar de não receber os e-mails catastróficos que diziam que o governo estaria impedindo a divulgação de informações (conclusão esta que a velhinha alcançou por conta própria, como veremos à frente), que havia vários óbitos de médicos e por aí vai. Dona González tinha vasta experiência de outras epidemias.

Era preciso lavar as mãos, era preciso evitar aglomerações. Ela não chegou a cortar a conversa matinal com o barbeiro da esquina, mas mudou a rotina, agora batia na porta de vidro à espera de que algum desavisado lhe abrisse. Nunca encostar em maçanetas! Esta era sua regra de segurança número 1. O assunto das conversas matinais? Gripe suína, óbvio, desde a evolução da taxa de mortalidade até as teorias dos interesses por trás da criação da doença. Neste ponto Dona González concordava com o barbeiro, muitos lucravam com a doença, que era criada em laboratório. Mas os acordos terminavam por aqui, ele defendia que as multinacionais farmacêuticas haviam forjado o vírus, para ela os criadores seriam os fabricantes de máscaras. Houve até um cliente do barbeiro que chegou a esboçar uma terceira via, a teoria cartelização da criação do vírus, que teria surgido pelas mãos de uma coalizão de fabricantes de máscaras e de remédios. Mas apesar da solução intermediária, não houve acordo. Enfim, falava-se de tudo, menos o porquê dela agora bater na porta em vez de empurrar, o barbeiro não percebeu, ela não contava, melhor assim.

Terror mesmo era o Metrô! Não tinha como fugir. Afinal era preciso comparecer ao médico quinzenalmente. A grande tortura eram as opções de segurança, escolher é sofrer:

Opção 1 – sentar no banco dos idosos e ficar exposta aos vírus despejados de cima para baixo.

Opção 2 – viajar em pé e ter que segurar nos apoios, que certamente estavam todos infectados.

Escolheu a última opção. Carregava álcool em gel e poderia desinfetar as mãos. Além disso, rapidamente desenvolveu uma espécie de surfe metroviário, modalidade que consistia em viajar com as mãos no bolso e, portanto, sem se apoiar. Às vezes dava uma trombada em alguém, mas nada muito grave. Mas havia ainda algum risco (minimizado é verdade, mas não eliminado) de algum “Zé Grandão” tossir e expelir por cima uma quantidade mortal de vírus. Para isso não havia máscara que desse jeito, era preciso proteção divina. Então recorreu a uma bíblia salvadora, fingia que lia, até que alguém ameaçasse espirrar, ela então rapidamente protegia suas vias respiratórias com a bíblia de segurança. Ah! Ah! Ah! Antes do tchin Dona González já estava atrás da sua bíblia protetora. Teve esta ideia no próprio Metrô ao ouvir um pregador inspirado:

- Irmãos, disse o iluminado, tão dizendo que é fim do Mundo. Mas não é não! Não se enganem! Essa gripe não pega em quem crê no nosso senhor Jesus Cristo. Acabei de receber a confirmação da Itália, é notícia fresquinha, direto do vaticano.
           
Dona González chegou a desejar que alguém espirrando sentasse ao lado do evangelizador, só para ver se o dito pregaria com exemplo, ou se discretamente se retiraria (ela julgava esta opção mais provável), mas isto não aconteceu e a dúvida persistiu. De qualquer forma, ela se tranquilizou um pouco depois das palavras do profeta. Se já não pegava nos que acreditavam no nosso senhor Jesus Cristo, os que se protegiam com a palavra divina estavam ainda mais garantidos.
           
Muitas dúvidas existenciais sacudiram a cuca da velhinha. Pagar as compras com dinheiro ou cartão? Se aquele passa de mão em mão, este tem a terrível desvantagem de expor os dedos no momento de digitar a senha. Escolheu a última opção, mas só digitava com caneta e segurando na tampinha, porque assim evitava qualquer contágio. Em alguns casos a lógica privada se chocava com a pública. Ela escolhia a privada, sem pestanejar (e sem trocadilhos). Nunca se arriscou nos banheiros públicos, não queria se contaminar logo após sua higiene. Então simplesmente não fechava as torneiras, a finitude da água era um mal menor, pelo menos neste caso. Se via dinheiro no chão, não pegava, já que aquelas notas certamente teriam sido infectadas por algum desiludido interessado em acelerar a extinção da humanidade.

Com o tempo Dona González aprendeu a calcular o número estimado de infectados a partir dos óbitos e da taxa de mortalidade da doença, e imediatamente constatou que a quantidade de infectados estava subestimada. Se os mortos somavam 1.500 a uma taxa de mortalidade de 0,4%, os infectados teriam de somar cerca de 375.000, e não os 10.000 divulgados. Sim, sim, alguma coisa estava errada, e de qualquer forma para pior, ou as taxas de mortalidade eram muito superiores às divulgadas, ou o era o total de infectados. E não pensem que a amável senhora era incapaz de formular estas deduções, é preciso lembrar que a televisão fazia uma cobertura exaustiva e detalhada da pandemia. De qualquer forma, a única certeza de Dona González é que em governo não se confia, e essa certeza lhe era anterior ao surgimento da televisão, quiçá remontasse a algum período posterior à gripe de 1918 (espanhola) e imediatamente anterior à emigração da velhinha da península ibérica, no período pós-revolução espanhola. Sim, havia um componente anarco-libertário nessa opinião da aposentada: Hay gobierno? Dona González era contra! Desde siempre!

No campo teórico, a velhinha oscilava entre os que enxergavam a nova gripe como desdobramento da espanhola de 1918, e os que opinavam ser a pandemia nova e independente das anteriores. No fundo, no fundo ela torcia pelos primeiros, posto que se assim fosse, não seria impossível ela carregar em seu sistema imunológico as informações necessárias para combater o novo vírus, preciosas informações imunológicas adquiridas em sua terra natal. 

Enfim, os livros de história das pandemias registrarão algum dia quem tinha razão sobre a modalidade da doença. Saber se o sistema imunológico da velhinha já conhecia o novo vírus é impossível. O fato é que Dona Gonzáles sobreviveu. Há quem garanta que ela ainda vive – provavelmente num sítio do interior de São Paulo – e que cria até porquinhos.