quarta-feira, 1 de abril de 2015





86 ANOS DE MILAN KUNDERA

Nos últimos anos do século XX comecei a freqüentar sebos. Lembro-me de ter folheado livros de Milan Kundera, mas não cheguei a levar nenhum. Faltou, talvez, uma indicação. Anos depois, já na metade da primeira década do século XXI, assisti o filme A insustentável leveza do ser, dirigido por Philip Kaufman e baseado no romance de Kundera. Num mesmo final de semana assisti Perfume de mulher (o original italiano, e não o pastelão estadunidense) e A insustentável leveza do ser, ambos sensacionais. Mas meu encontro com a literatura de Kundera só aconteceria anos depois, mais precisamente em 2009, quando um amigo me emprestou e recomendou a leitura do romance A insustentável leveza do ser. Foi a indicação que faltava.

A insustentável leveza do ser começa falando do eterno retorno, de Nietzsche. A vida é leve porque é sem retorno. Por mais sublime, por mais torpe que seja, a vida está condenada a desaparecer, é leve como uma pluma. Este tema é recorrente na obra de Kundera.

Com o tempo fui saltando de um livro para outro, descortinava-se para mim um escritor e ensaísta sem igual: capaz de provocar o riso como Machado de Assis, intrigante e provocador como Camus. Quanto sabor nas polêmicas de Kundera, por exemplo:

1º) Com Stravinski e contra Adorno: “O que me irrita em Adorno é o método que vincula com facilidade as obras de arte com causas, consequências ou significações políticas (sociológicas), as reflexões extremamente matizadas (os conhecimentos musicais de Adorno são admiráveis) conduzem a conclusões extremamente pobres [...]” (Os testamentos traídos)

2º) Contra Orwell e seu 1984: “A influência nefasta do romance de Orwell está na redução implacável da realidade ao seu aspecto puramente político e na redução deste aos seus aspectos negativos. Não perdôo esta redução com o pretexto de que era útil como propaganda na luta contra o mal totalitário. Porque este mal é precisamente a redução da vida à política e da política à propaganda. Assim, o romance de Orwell, apesar das intenções, forma ele mesmo parte do espírito totalitário, do espírito de propaganda. Reduz (e ensina a reduzir) a vida de uma sociedade odiada à enumeração simples dos seus crimes.” (Os testamentos traídos)

3º) Em defesa da música de Janácek. Em defesa da literatura de Tolstói, Cervantes, Rabelais, Sterne, Kafka, Gombrowicz, Robert Musil, Hermann Broch e outros.

4º) Sobre a literatura: “descobrir o que só o romance pode descobrir é a única razão de ser de um romance. O romance que não descobre uma parte até então desconhecida da existência é imoral. O conhecimento é a única moral do romance.” (A arte do romance)

5º) Em defesa da Primavera de Praga de 1968: “Ah, os queridos anos 1960. Eu gostava de dizer, então, cinicamente: o regime político ideal é uma ditadura em decomposição; o aparelho opressivo funciona de maneira cada vez mais defeituosa, mas está sempre ali para estimular o espírito crítico e zombeteiro. No verão de 1967, irritados com o congresso corajoso da União dos Escritores e achando que o atrevimento tinha ido longe demais, os chefes de Estado tentaram endurecer sua política. Mas o espírito crítico já havia contaminado até o comitê central que, em janeiro de 1968, decidiu que o presidente seria um desconhecido: Alexander Dubcek. A primavera de Praga começou: hilário, o país recusou o estilo de vida imposto pela Rússia; as fronteiras do Estado foram abertas e todas as organizações sociais (sindicatos, federações, associações), originariamente destinadas a transmitir ao povo a vontade do partido, tornaram-se independentes e se transformaram em instrumentos inesperados de uma democracia inesperada. Nasceu um sistema (sem nenhum projeto preestabelecido, quase por acaso) que foi verdadeiramente sem precedentes: uma economia 100% nacionalizada, uma agricultura nas mãos das cooperativas, nada de pessoas muito ricas, nada de pessoas muito pobres, o ensino e a medicina gratuitos, mas também: o fim do poder da polícia secreta, o fim das perseguições políticas, a liberdade de escrever sem censura e, a partir daí, o desabrochar da literatura, da arte, do pensamento, das revistas. Eu ignoro quais eram as perspectivas de futuro desse sistema; na situação geopolítica de então, certamente nulas; mas numa outra situação geopolítica? Quem pode saber... Em todo caso, esse segundo durante o qual esse sistema existiu, esse segundo foi soberbo.” (Um encontro)

Kundera divide a história do romance em três tempos. No primeiro a literatura oral em extinção abre caminho para a literatura escrita, o romance começa a substituir as histórias contadas verbalmente. Até o final do século XVIII (Cervantes, Rabelais, Laurence Sterne) os narradores se dirigiam diretamente aos leitores, herança das histórias orais. No segundo tempo “a palavra do autor se apaga atrás da escrita” (Um encontro), prevalece o critério da verossimilhança, é a época do realismo de Balzac e outros. O terceiro tempo começa com o modernismo e rompe com a verossimilhança. Parênteses. Mas Kundera não conhece Machado de Assis? Como enquadrar o Bruxo do Cosme Velho? Cronologicamente no segundo tempo, mas herdeiro do primeiro e grávido de elementos do terceiro: como o discurso que fala diretamente com o leitor, a ironia e o humor. Voltando. Kundera evita comentar sua própria obra, talvez para evitar simplificações ou por modéstia, mas ele está no terceiro tempo, com certeza. Como Ernesto Sabato em Abadon, o exterminador, o próprio Kundera virá personagem em A imortalidade. Também Goethe e Hemingway são transformados em personagens. Ruptura total com o realismo e a verossimilhança.

Da literatura à música passando pela filosofia e pela pintura, Kundera dialoga com os maiores de igual para igual, chegou, inclusive, a adaptar Jacques, o fatalista, de Diderot. Dizem que o ponto fraco de Kundera é a sua poesia de juventude, talvez seja mesmo, mas não dá para saber porque seus versos não estão disponíveis em português. O jovem e ingênuo poeta Jaromil, de A vida está em outro lugar, talvez tenha sido o jovem Kundera, que confessa: “Também dancei em roda. Isso foi em 1948, os comunistas acabavam de triunfar em meu país” (O livro do riso e do esquecimento). Depois Kundera passa a rechaçar o regime estabelecido e os arroubos de lirismo, sabe que “as nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia, inclusive a guilhotina.” (A insustentável leveza do ser)

Neste 01.04.2015, Kundera completa 86 anos, seu romance A festa da insignificância foi publicado no Brasil no ano passado. Espero que venham outros, mas não sei se o homem de 86 anos terá forças para escrever. Não sei se pode haver um “feliz aniversário” para um homem de 86 anos. Eis a insustentável leveza do ser, por mais genial e por mais talentoso que seja, o homem está condenado a desaparecer. A vida vai passando e provocando riso e esquecimento.

JC