sábado, 23 de fevereiro de 2013


Milan Kundera – O livro do riso e do esquecimento – Terceira parte – Capítulo 6


Também dancei em roda. Isso foi em 1948, os comunistas acabavam de triunfar em meu país, os ministros socialistas e democrata-cristãos tinham se refugiado no estrangeiro, e eu segurava pela mão ou pelos ombros outros estudantes comunistas, nós dávamos dois passos no lugar, um passo para a frente e levantávamos a perna direita de um lado, depois a perna esquerda do outro, e fazíamos isso quase todos os meses, porque tínhamos sempre alguma coisa para celebrar, um aniversário ou um acontecimento qualquer, as velhas injustiças foram reparadas, novas injustiças foram cometidas, as fábricas foram nacionalizadas, milhares de pessoas foram presas, os tratamentos médicos eram gratuitos, os donos de tabacaria tiveram seus negócios confiscados, os velhos operários iam pela primeira vez passar as férias nas villas desapropriadas e nós tínhamos no rosto o sorriso da felicidade. Depois, um dia, eu disse alguma coisa que não devia dizer, fui expulso do partido e tive que sair da roda.

Foi então que compreendi a significação mágica do círculo. Quando nos afastamos da fila, ainda podemos voltar a ela. A fila é uma formação aberta. Mas o círculo torna a se fechar e nós o deixamos sem poder retornar. Não é por acaso que os planetas se movem em círculo e que a pedra que se desprende de um deles afasta-se inexoravelmente, levada pela força centrífuga. Semelhante ao meteorito arrancado de um planeta, eu saí do círculo e, até hoje, não parei de cair. Há pessoas a quem é dado morrer no turbilhão e existem outras que se arrebentam no fim da queda. E estes outros (entre os quais estou) guardam sempre consigo uma tímida nostalgia da roda perdida, porque somos todos habitantes de um universo onde todas as coisas giram em círculo.

Era um aniversário qualquer, e mais uma vez havia nas ruas de Praga rodas de jovens que dançavam. Eu vagava por entre eles, chegava bem perto deles, mas não me era permitido entrar em nenhuma de suas rodas. Era junho de 1950 e Milada Horakova tinha sido enforcada na véspera. Ela era deputada do partido socialista e o tribunal comunista a tinha acusado de intrigas hostis ao Estado. Zavis Kalandra, surrealista tcheco, amigo de André Breton e de Paul Éluard, tinha sido enforcado ao mesmo tempo que ela. E jovens tchecos dançavam, sabendo que na véspera, na mesma cidade, uma mulher e um surrealista tinham ficado balançando numa corda, e dançavam com mais frenesi ainda porque sua dança era a manifestação de sua inocência, que contrastava, com brilho, com a escuridão culpada dos dois enforcados, traidores do povo e de sua esperança.

André Breton não acreditava que Kalandra tivesse traído o povo e sua esperança e, em Paris, chamara Éluard (numa carta aberta datada de 13 de junho de 1950) para protestar contra a acusação insensata e tentar salvar o velho amigo. Mas Éluard estava muito ocupado dançando numa gigantesca roda entre Paris, Moscou, Praga, Varsóvia, Sófia e Grécia, entre todos os países socialistas e todos os partidos comunistas do mundo, e em todos os lugares recitava seus belos versos sobre a alegria e a fraternidade. Depois de ler a carta de Breton, ele dera dois passos no lugar, depois um passo para a frente, balançara a cabeça negativamente, recusando-se a defender um traidor do povo (na revista Action de 19 de junho de 1950), e pusera-se a recitar com voz metálica:

Vamos alimentar a inocência
Com a força que por muito tempo
Nos faltou
Nunca mais ficaremos sós.


E eu vagava pelas ruas de Praga, em volta de mim giravam as rodas de tchecos que riam dançando, e eu sabia que não estava do lado deles, mas do lado de Kalandra, que também saíra da trajetória circular e caíra, caíra, para terminar sua queda num caixão de condenado, mas, mesmo não estando do lado deles, eu os olhava dançar com inveja e nostalgia, não podia tirar os olhos deles. E nesse momento enxerguei-o bem na minha frente!

Ele os segurava pelos ombros, cantava com eles duas ou três notas bem simples, levantava a perna esquerda de um lado, depois a perna direita do outro. Sim, era ele, o filho querido de Praga, Éluard! E de repente aqueles que dançavam com ele calaram-se, continuaram a mover-se num silêncio absoluto, enquanto ele entoava um de seus poemas no ritmo das batidas das solas de seus sapatos:

Fugiremos do descanso, fugiremos do sono,
Tomaremos de assalto a madrugada e a primavera
E prepararemos dias e estações
Na medida de nossos sonhos.

Em seguida, bruscamente, todos recomeçaram a cantar aquelas três ou quatro notas bem simples e aceleraram o ritmo de sua dança. Fugiam do descanso e do sono, tomavam o tempo de assalto e alimentavam sua inocência. Todos sorriam, e Éluard inclinou-se para uma moça que segurava pelos ombros: "O homem possuído pela paz tem sempre um sorriso".

E a moça começou a rir, batendo mais forte com o pé no asfalto, de modo que subiu a alguns centímetros do solo, levando os outros consigo para cima, e no instante seguinte nenhum deles tocava mais o chão, davam dois passos no lugar e um passo para a frente, sem tocar o chão, é, eles voavam sobre a Praça São Venceslau, sua roda dançante parecia uma grande coroa que alçava vôo, e eu corria embaixo, na terra, erguendo os olhos para vê-los, e eles estavam cada vez mais longe, voavam levantando a perna esquerda de um lado, depois a perna direita do outro, e embaixo deles estava Praga com seus cafés cheios de poetas e suas prisões cheias de traidores do povo, e no crematório estavam incinerando uma deputada socialista e um escritor surrealista, a fumaça subia para o céu como um feliz presságio, e eu ouvia a voz metálica de Éluard: "O amor está trabalhando, ele é incansável".

Eu corria atrás dessa voz pelas ruas para não perder de vista aquela esplêndida coroa de corpos planando sobre a cidade, e sabia, com angústia no coração, que eles voavam como os pássaros e que eu caía como pedra, que eles tinham asas e que eu nunca mais as teria.


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Buca

Acontece nas melhores famílias, e com os melhores amigos também.
           
Barzinho, cervejinha, porçãozinha... Foi numa linda tarde de sábado. O céu estava limpo, sem nuvens. Não fazia calor nem frio, a temperatura estava perfeita. Os rapazes vestiam bermuda e camiseta, as meninas vestidinhos, curtinhos. Os raios de sol paravam na copa da árvore, muito raramente algum conseguia chegar até a mesa dos amigos, que conversavam logo abaixo, na sombra. A alegria parecia contagiar até os passarinhos, que cantavam felizes.  
           
Havia fartura de cerveja e de petiscos também. Provolone à milanesa, depois torresminho e por aí vai.

O papo evoluiu rápido. Primeiro amenidades para descontrair e integrar todos:
           
- E o seu time hein? Que papelão! Hehehe.

Do futebol a conversa ganhou um tom de crítica à sociedade e ao sistema, alguém que comentava sobre política foi interrompido: 

- Esses caras são tudo ladrão, bandido, sem vergonha. Tem que mata tudo!

Mas aí emendaram uma piada sobre o senador corrupto da vez. Depois outra sobre traição... Até que um desavisado comparou a piada com a vida real:

- Por falar nisso. Vocês viram a Ju e o Pedro? Separaram!

- Separaram? Não pode ser! Eles namoravam desde a oitava série do ginásio. Você vai me dizer que a Ju traiu o Pedro? Não! Não pode ser!

 - Calma! Calma! A traição foi na piada!

 - Ah bom!

Pronto. A conversa esquentou. Começaram a discutir relacionamento, nesse momento a participação era máxima. As meninas insistiam que não se faziam mais homens de verdade, e que os poucos que ainda existiam estavam comprometidos e, portanto, fora do mercado. Nisso o Rafinha se exaltou:

- Isso é besteira! Eu tô solteiro! Como não tem homem no mercado? Eu sou o quê? Aí não! Tá me tirando?

Mas uma alma feminina conciliadora e filosófica conseguiu contornar a situação dizendo que o Rafinha era a exceção que só confirmava a regra, e que elas estavam falando num nível mais abstrato e não empírico-fenômenico. Foi a sorte, porque alguma garota mais exaltada poderia ter respondido a pergunta do Rafinha, ou ter dito o que lhe faltava para ser um homem de verdade.

Muito bem. Os ânimos foram se acalmando, o papo continuou. E o Carlão percebeu que a Paulinha insistia em estacionar o olhar nos olhos dele. Não. Nada acontece por acaso, um olhar diz mais que mil palavras.

Para a sorte do Carlão as novas tecnologias sempre evoluem mais rápido do que a moral e os bons costumes, o que estes proíbem aquelas sancionam, ou no mínimo viabilizam.

Foi o caso. Orkut, MSN... Uma semana depois lá estava a Paulinha nas batalhas do amor, no meio da cama do Carlão. Experiente e tarimbado, ele tinha até normas para estas ocasiões: se beber não transe! Mas dessa vez relativizou um pouco seus princípios. Era preciso relaxar e descontrair o ambiente, Carlão tomou até uma taça de vinho.

Paulinha! Ah Paulinha! Que marquinha! Que cinturinha! Que loirinha! Sorte do Carlão, novamente.

Mas você deve estar se perguntando. Qual o problema do Carlão sair com a Paulinha ou com quem quer que seja? Isso é crônica ou fofoca barata?

Ok, ok. Recapitulando. Acontece com os melhores amigos, na melhores famílias, moral, bons costumes... Percebeu? Não?

Então vamos lá, alternativas:

a)    Os amantes eram grandes amigos que romperam depois desse casinho;

b)    Eram primos de primeiro grau e cometeram um incesto;

c)      PQA (pior que as anteriores).

C? Exato! Na mosca! A Paulinha era namorada do melhor amigo do Carlão, o Buca, “que não tinha entrado na história”, mas que estava de mãos dadas com a ela na mesa de bar naquela linda tarde de sábado.

Carlão cobiçou e teve a mulher do próximo, logo do mais próximo, na mesa e na consideração, logo daquele que aparece do seu lado na foto de recordação do prezinho. Eram tão próximos, mas tão próximos, que no futebol o Buca era lateral direito e o Carlão beque central, quando um saia o outro cobria, formavam a melhor zaga da várzea, e atacavam também, não raro o Buca cobrava um escanteio para o Carlão fazer de cabeça. Mas apesar da proximidade, ou justamente por causa da proximidade, calhou de dividirem até a namorada.

Talvez fosse vingança da Paulinha contra o Buca por todos aqueles domingos de futebol. Ela não conseguia aceitar que o Buca trocasse a macarronada da sogra por uma coxinha amanhecida, ser trocada pelo Carlão então... É verdade que sendo vingança, não precisava ser justamente com o Carlão, podia ser um goleiro ou até um juiz, mas a Paulinha era geniosa.           

O fato é que o Carlão começou a temer os jogos fáceis, quando ele ficava quase parado sem fazer nada, lado a lado com o Buca na direita da defesa. E se o Buca aproveitasse a monotonia para perguntar algo, por exemplo:

- Carlão, você já ficou com a mulher de algum amigo? Você não faria isso, né? Né?

Não! Não! Definitivamente era melhor enfrentar um ponta esquerda bem arrisco. O beque central começou a afligir-se mais com o seu companheiro de zaga do que com o ataque adversário. Até pediu para jogar na ponta esquerda ou na meia, tudo para evitar o Buca, mas ninguém concordou.

Com o tempo o Carlão foi se afastando do pessoal, não parava no boteco depois do jogo, falava pouco, quase nem orientava a zaga como de costume. Churrasco do time então... Jamais! Dividir o mesmo espaço com o Buca e a Paulinha... Nunca! Ele preferia enfrentar o Ronaldo Fenômeno (dos bons tempos) no mano a mano. Apesar que a Paulinha (sozinha) ele queria enfrentar outra vez se fosse possível.

Mas o inevitável aconteceu. O Buca acabou chamando o Carlão para conversar, disse que seria uma conversa particular, que tinha um assunto urgentíssimo para tratar e que estava indo direto para a casa do amigo.

Carlão tremeu. Mas teve que aceitar o encontro, até quis fugir do país, mas não tinha tempo. Pensou em dezenas de milhares de álibis. Nesse caso a melhor defesa poderia ser o ataque, pensava em alguma das suas namoradas que pudesse ter sido roubada pelo Buca, o que transformaria sua traição em legítimo desconto. Vasculhou suas fichas de memória: prezinho nada, ginásio nada, na rua tampouco.       

Encontraram-se. Carlão, Buca e quem mais? Sim, claro, a Paulinha. O primeiro tremia como se tivesse feito um gol contra no Maracanã lotado. Sabia que nada acontece à toa, se a Paulinha estava lá era para ser testemunha de acusação, e não para os amigos falarem dos tempos do prezinho, da Tia Cotinha ou da nova escalação com três zagueiros.

O Buca não perdeu tempo:

- Carlão, a gente se conhece desde menino, né? Jogamos juntos. Empinamos pipa. Eu fazia as provas de português e você as de matemática, nunca ficamos de recuperação. Tomamos nosso primeiro porre juntos. Eu gravei aquela fita cassete do Guns and Roses pra você? Lembra?

- Sim – respondeu Carlão. Bons tempos né Buca?

- Pois é. Mas crescemos, as coisas foram mudando. Mas, vamos direto ao assunto.

Carlão quase caiu para trás, ficou paralisado.

- Então Carlão, você conhece a Paulinha, né? Bom, eu amo muito ela, você sabe. Não consigo viver sem ela. Né meu bem? Não posso nem imaginar ela com outro. Pois é Carlão, meu irmão, nós vamos casar, e você será padrinho. Tínhamos que falar primeiro pra você.

O pior não aconteceu. Lágrimas desciam dos olhos do Buca. Carlão também chorou, e abraçou o casal. Depois se levantou e pegou uma cerveja, notícia boa tinha que ser brindada:

- Um brinde a vocês! Felicidades! Que casal lindo!

Sim. No jogo de final de ano vestiriam camisas diferentes, um no time dos casados e o outro no dos solteiros, mas isso seria tranqüilo. Carlão mal podia esperar por esse casamento, seria padrinho, e depois das palavras do padre poderia se calar para sempre, finalmente!
         
P.S.: Qualquer semelhança com a realidade e com personagens reais é mera coincidência. Apesar de ter sido um beque central meia boca, o cronista declara desde já que este texto não é autobiográfico. 

JC