segunda-feira, 24 de outubro de 2016

CAROLINA E JESUS

I

Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel...

Jesus: O trem.

Carolina: Catá papel. Desossá o papel. Comê sopa de osso de papel. Dá sopa de osso de papel pras crianças. A fome é amarela. A fome amarela. A fome é professora.

Jesus: A vida é mais importante do que a comida.

Carolina: Bilhões de pessoas no mundo, nem todos comem todos os dias. Quem não come não caga. Barriga vazia é tortura.

Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia...

Jesus: Lá vem o trem.

Carolina: Metê o pé na lama. Metê o pé na água pra buscá água, às 04:30 da manhã. Lavá ropa no rio. Candidato canalha pedindo voto na porta do barraco. Surra de marido em mulher. Cachaça, muita cachaça.  Muita cachaça, muita merda. Prostituição. Peixeira cortando gente. Polícia, muita polícia. Quanto mais polícia, mais merda. Vizinho jogando merda nos meus filhos. Fome. Tenho três crianças pra alimentá. É fogo ouvi filho perguntá se tem mais comida. Nunca tem mais. Esse “tem mais comida” é uma mosca na minha orelha. Tontura de fome é fogo. Tortura.

Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia...

Jesus: Olha o trem!

Carolina: Quero morrê! Vô me jogá na frente do trem.

Jesus: Nunca diga isso!

Carolina: Jesus, cadê você?

Jesus: Estou sempre contigo. Quem crê em mim nunca estará sozinho. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai, senão por mim. E bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Se você estiver em mim, e as minhas palavras estiverem em ti, peça o que quiser.

Carolina: Metê palavra no papel. Quero ganhá dinheiro com meu livro, com minhas palavras. Quero saí desse inferno. Quero alimentá as crianças.

II

Jesus: Tudo é possível para quem crê. A fé remove montanhas. O reino de Deus tá dentro de você. E agora você tá no jornal, na revista, na imprensa. Vai vendê muito livro. Parabéns.

Carolina: Metê palavra no papel. Comê carne de palavra. Dá de comê pras crianças.

Jesus: Isso.

Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel...

Carolina: Catá papel. Metê palavra no papel. Vendê papel com palavra. Vendê palavra e papel. Comê carne de palavra.

Jesus: Milhares de livros vendidos.  Tradução em outros idiomas. É isso aí!

Carolina: Comprá roupa e sapato bom. Comprá casa de tijolo. Adeus, Favela do Canindé. Adeus, quarto de despejo. Adeus, barraco de tábua. Viajá pro Chile e Argentina, Europa e América Latina. Costurá a vida com pedaço de céu, com pedaço de nuvem, com pedaço de estrela. O futuro é azul. Obrigado, Jesus.

III

Carolina: Cadê o jornal? Cadê a revista? Cadê a imprensa? Preciso vendê meu papel. Esqueceram meu livro. Ninguém fala do meu livro. Metê palavra no papel e morrê de fome?

Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda...

Jesus: Que barulho é esse?

Carolina: Meu estômago. De novo não. Jesus, me ajuda.

Jesus: Estarei sempre contigo. Deus não dá mais do que você pode carregar.

Carolina: Barraco de favela é cinza. Lixo é cinza. Fruta podre é cinza. A vida é cinza. O prefeito da favela é o diabo.

Jesus: Cuidado. Essa faca. Carolina, não. Me dá essa faca.

Carolina: Tontura de fome é fogo. É tortura. A fome é amarela. Tá tudo amarelo.
Jesus: Ninguém vai ao ai. Ai. Ai.

IV

Dias depois. Na capa de todos os jornais e revistas: Escritora esfaqueou, matou e comeu partes de um homem ainda não identificado. Familiares e amigos não compareceram para reconhecer do corpo. Peritos estão trabalhando para identificar a vítima.


Igreja de São Francisco de Assis - Salvador/BA



sábado, 1 de outubro de 2016

Poema Pixo
(versos para decorar papel higiênico)

borrifo
indômito
vômito

verborréia diarrética

pixo

peixe no armário
pelo ao contrário

anarcrônica do caos
pequeno-burguesamente
logomarcando muros

cúmulo mercantil
túmulo da fala

anticomunicação
cala a grafia

grito de bicho
no saco de lixo

coice ortográfico

furúnculo
no cu do kitsch

estética da barbárie