quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

LAMENTO PAULISTANO

Dos quatrocentos e sessenta e três anos de São Paulo, vivi trinta e alguns e me lembro dos últimos trinta e poucos.
          
O Morro da Forca já tinha sido transformado em Praça da Liberdade. Já havia milhares de homens e mulheres morando nas calçadas e praças, debaixo de pontes e viadutos. Carrego uma imagem da infância: homens dormindo em camas de papelão, no pé das portas fechadas das igrejas. Esta fotografia absurda continua exposta na Catedral da Sé, na Igreja Nossa Senhora de Fátima e tantas outras.

Os rios já estavam mortos e os córregos canalizados. Alguns milhões de seres humanos e nenhum peixe. As bandeirinhas coloridas de Volpi viraram as garrafas de plástico que boiam no Tietê e no Pinheiros. Assassinaram o Tamanduateí, o rio do tamanduá verdadeiro, lembro-me de ter ouvido um senhor dizer que pescava no Tamanduateí com o guarda-chuva. Pintura surreal, tempo da delicadeza em extinção.

O mosaico de garrafas de plástico boiando nos rios mortos de São Paulo pinta um quadro pós-moderno, de inigualável feiúra, como a fileira de luzes dos autos imóveis. Os veículos se movimentam no ritmo das águas paradas e mortas dos rios da cidade.

Nada acontece no meu coração de asfalto quando cruzo a Ipiranga com a São João. A cara de São Paulo é o pixo, a cidade tem a cara pixada. Pixo: estética da barbárie, idioma intraduzível de São Paulo. Pixo: grito dos córregos enterrados em nome do “progresso”, berro da juventude pobre assassinada pela polícia. Meu coração bate em todo pixo, para o bem e para o mal. Meu coração pixado. Meu coração asfaltado.
           
Havia e há muitas pipas, ou papagaios, ou quadrados. Onde encontram brechas na fiação, moleques empinam seus brinquedos de voar e sumir.
           
A garoa virou tempestade de verão e seca de inverno: enchente e secura.

Espiando por entre os prédios, ainda se vê a Serra da Cantareira, parede viva ao norte da cidade. Demorei para reparar na Cantareira. Talvez porque o verde escapa da visão adaptada às escalas de cinza. São Paulo tem cor de asfalto.
           
Havia hortas nos quintais. O manjericão do molho de tomate do almoço do domingo vinha do quintal da nona. Os primos e tios vinham das suas casas. Todos se juntavam para a refeição com molho e macarrão feitos à mão. Até que os almoços de domingo se transferiram para as steak houses e os molhos foram enlatados, com claro prejuízo gastronômico e humanísticos. O piso cobriu os jardins. Os muros subiram e foram pixados.
           
Nos bairros como o meu, a Vila Anglo, se ouvia pelas ruas o espetaculoso falar dos italianos. Até que aqueles imigrantes tardios (da segunda metade do século XX) começaram a morrer – meia centena de anos depois da chegada – e a língua calou-se com eles. Em bairros como o Paraíso e Ana Rosa se via e ainda se vê grupos de japoneses. Em todos os cantos da cidade se encontrava e ainda se encontra uma multidão de nordestinos, dos quais sequer se reconhece a naturalidade, são todos agrupados no coletivo “baiano”, ainda que sejam paraibanos, piauienses, sergipanos e por aí vai. Latino-americanos de cabelos escuros, especialmente bolivianos, estão cada vez mais presentes, seus cabelos desbotam nas tecelagens do Brás e do Bom Retiro.
           
Na hora do almoço e do jantar, o perfume dos temperos escapava das panelas para as janelas e destas para as ruas. Caminhar pelas calçadas nessas horas era uma jornada aromática, às vezes ainda é, apesar do avanço das fast foods. O inglês de empresários e executivos tenta substituir o italiano e o português dos imigrantes.

Trocaram-se as praças de brincar pelas de alimentação, dos shoppings. Os campos de futebol de várzea viraram prédios, ou condomínios fechados, ou igrejas evangélicas. Os videogames substituíram as peladas. Adeus futebol jogado na rua, com chinelos demarcando as metas.

Aqui o capitalismo chegou com força, transformando tudo em mercadoria, inclusive as desgraças, sempre tão lucrativas para a mídia sensacionalista.

São Paulo segue sendo construída e demolida pelo capital: soterrada pelo entulho e asfixiada pela fumaça. A cidade é cinza e chamuscada.

O amor por São Paulo é estranho e se manifesta pelo avesso, está justamente no ataque à cidade, como nos pixos. São Paulo agride seus habitantes, que agridem a cidade, como nesta crônica. Quem sabe um dia a cidade e seus habitantes – a cidade e seus rios – possam se reencontrar.

São Paulo é um lixão cheio de tijolos, carros, latas, garrafas, ratos, baratas, urubus, indigentes, ossos e sonhos. São Paulo é grande e não cabe no coração, em todos os sentidos. São Paulo: 463 anos de solidão!   

São Paulo: selva de pedras às vezes coloridas, com a Serra da Cantareira ao fundo

   
São Paulo/Vila Anglo: viela sobre o Córrego da Água Preta

São Paulo/Vila Pompéia: um escadão sobre o que, provavelmente, era uma das nascentes do Córrego da Água Preta.
São Paulo/Centro: pixo: estética da barbárie


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

CRÍTICA: BUDAPESTE, DE CHICO BUARQUE


Vou registrar por escrito uma afirmação que costumo fazer apenas e tão somente em mesas de bar: no topo das letras brasileiras estão três sujeitos: Machado no romance, Drummond na poesia, Chico na canção. “Tá legal, eu aceito o argumento”: esse tipo de comparação é esdrúxula, me altere o samba o quanto quiser, mas quem bate esse três em seus respectivos ofícios? Quando digo respectivos ofícios é porque não vale falar do Machado poeta, do Drummond cronista, nem do Chico escritor.
Por que nunca li Paulo Coelho? Já me perguntei e me respondi: porque nunca ouvi comentário nem li crítica positiva sobre o cidadão, nem folhei em sebo alguma contracapa ou página apetitosa do sujeito. Pela mesma razão nunca tinha lido os romances do Chico. Atenção. Não estou comparando Coelho com Buarque, até porque li um único romance deste e nenhum daquele. Chico, para mim, era uma reserva técnica, um autor a ser lido na hora certa, quiçá “no tempo da delicadeza”. Quando ouvi e li elogios ao romance O Irmão Alemão, decidi que conheceria a literatura do menino do Rio.
Comecei por Budapeste, pode ter sido meu erro. Logo no início da leitura passei por arroubos elogiosos de escritores consagrados, que, para mim, tem muito mais a ver com a teoria do homem cordial, do pai do Chico, do que com o livro em si. Para encontrar as primeiras críticas negativas ao romance precisei caminhar para quinta página do Google.
Budapeste é a história de um escritor anônimo, um ghost-writer, que escreve para terceiros famosos ou não. O escrito pode ser uma tese de doutorado ou um bilhete de suicídio, um discurso de posse na academia de letras ou uma receita de bolo. O personagem principal transita pelo Rio de Janeiro, onde é José Costa, e por Budapeste, onde é Zsoze Kósta.
Costa e Kósta são Chicos rebaixados. É fácil notar em ambos as fixações do autor, por exemplo: o amor pelas palavras, o desejo de reconstruir cidades, as caminhadas como método de solução de dilemas criativos. Palavras cantadas por Chico são encontradas no romance, por exemplo: “lépido”; “catatônico”; “já passou, já passou”. Chico é um artista com ampla exposição midiática, há dezenas de documentários com ele e sobre ele, o resultado inevitável é que os romances serão interpretados a partir da biografia do autor. É por isso que Milan Kundera se recusa a dar entrevistas, para o bardo tcheco é a obra quem deve falar, e não o autor: a obra fala pelo o autor, o autor não fala da obra.
Como o personagem, Chico Buarque é infinitamente maior que José Costa e Zsoze Kósta. Só haveria uma maneira de superar este dilema: adotar um pseudônimo. E se Chico assinasse Budapeste como José Costa? Seria uma prova de fogo que, no mínimo, evitaria a cordialidade dos comentadores; mas a resposta da crítica, desconfio, seria um estrondoso silêncio.
De um autor sabidamente apaixonado pelas palavras, que prefere “letras negras sobre o fundo branco ao esplendor do mar”, era de se esperar descrições à lá Flaubert. Esperei sentado e me cansei. Rio de Janeiro e Budapeste, no romance, são cidades sem esgotos, sem pixos, sem mosquitos, sem sangue e sem graça. José Costa e Zsoze Kósta são tipos medíocres que escrevem para leitores medíocres. É o que explica o sucesso literário de ambos. Por vagarem solitários em hotéis e por certo desejo de anonimato, José e Zsoze chegaram a me lembrar o Doutor Pasavento, de Vila-Matas, mas Budapeste passa longe daquele. E como tem como no romance. Chico abusa das comparações que, por isso, soam como corpo estranho, como material pré-fabricado, como prótese ortopédica, como enxerto de massa acrílica nos ossos, como se o texto tivesse que se adaptar às comparações e não o contrário.   
Os personagens de Budapeste são insossos, sem açúcar e sem afeto. Como homens, não têm contradições; como personagens, são contraditórios. José Costa e Zsoze Kósta são escritores, mas poderiam ser gerentes de banco, ou contadores, ou coroinhas de igreja. Como imaginar homens tão apaixonados pelas palavras quanto indiferentes ao que escrevem? Que aceitam escrever qualquer coisa? Quem ama as palavras não escreve qualquer coisa. Se for para escrever qualquer coisa, melhor se calar, por amor às palavras, que o digam os poetas que preferem não cantar.
Chico desperdiça boas sacadas, poderia, por exemplo, explorar melhor a história do homem que escreve no corpo das amantes, talvez misturando Kafka com Kundera com Ks que aparecem em Budapeste (Kósta, Kriska, Kaspar Krabe). Mas, para pintar um tipo medíocre, como o ghost-writer do livro, seria preciso usar “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, é o que separa o defunto autor do autor defunto, José Costa não é Brás Cubas.
Terminei a leitura com a sensação de que Budapeste foi escrito por um ghost-writer medíocre, como Costa ou Kósta, como se um destes tivesse se apropriado do nome Chico Buarque para promover um romance meia-boca.

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