COMPANHEIROS, POR FAVOR!
O
grande revolucionário estava no leito de morte. Era questão de tempo. Estava
lúcido. Sabia que o fim se aproximava e que dificilmente sairia vivo do
hospital. Mas, mesmo assim, estava tranquilo. Os militantes do partido se dividiram
para acompanhá-lo e apoiá-lo. Revezavam com a família. Naquela tarde o grande
revolucionário recebeu a visita de dois companheiros de longa data, que não
tinham o mesmo prestígio no partido, mas haviam travado diversas lutas, vivido
muitas experiências e se tornado amigos. Divertiram-se contando causos da vida
e da militância: prisões, frustrações, derrotas, traições (políticas e amorosas),
manobras partidárias, paixões antigas, amores fracassados e por aí vai. A
conversa estava tão boa que o tempo passou rápido.
No
começo da noite chegou um companheiro jovem. Tinha aproximadamente 50 anos a
menos que o grande revolucionário. O companheiro jovem substituiria os outros
dois. Só que, como a conversa estava boa, eles não foram embora imediatamente. Para
encurtar o percurso e não aborrecer o leitor, basta dizer que o papo dos velhos
incomodou o jovem. Era como se ele quisesse aproveitar os últimos minutos com o
grande revolucionário. Queria ensinamentos e sugestões. Queria dicas de
leitura. Queria, sobretudo, demonstrar o carinho e o respeito que sentia pelo
grande revolucionário. Cada segundo perdido com futilidades e brincadeiras, sem
falar da revolução, parecia um enorme desperdício para o jovem. Aqueles causos
de gosto duvidoso sobre outros militantes e sobre o próprio partido irritavam o
companheiro mais novo. Ele tentava mudar de assunto. Não tinha coragem de
cortar a fala do grande revolucionário, apesar da vontade. Mas interrompia os outros.
Quando um deles estava falando, o jovem dizia para todos: “companheiros, por
favor!” Ele não completava a frase, mas era como se dissesse “companheiros, por
favor, vamos mudar de assunto!” Foi inútil. Os outros seguiam papeando e contando
histórias. Riam como se estivessem numa mesa de bar e não num leito de
hospital. Apenas o mais novo não se divertia.
Quanto
mais o jovem militante tentava mudar de assunto dizendo “companheiros, por
favor!”, mais os outros riam e se divertiam. O jovem se viu forçado a elevar o
tom de voz e a completar a frase: “companheiros, por favor, vocês podem me
dizer exatamente qual é a minha tarefa, o que devo fazer? Daqui a pouco vocês vão
embora e eu não sei o que fazer.” Todos se calaram. O silêncio foi rompido por um
companheiro mais velho, que olhou fixamente para o companheiro mais jovem e
perguntou: “não te disseram exatamente qual é a sua tarefa?” O jovem balançou a
cabeça para os lados, negativamente. Depois corrigiu-se dizendo que a tarefa
não estava muito clara, que precisavam discutir a questão, que não podiam
perder tempo. Foi quando o interlocutor opôs o polegar aos outros dedos
formando um círculo – como se segurasse algum objeto – e chacoalhou a mão. O
companheiro mais jovem pareceu não entender. O companheiro mais velho olhou
fixamente e disse: “isso mesmo que você tá pensando, sua tarefa é bater uma pra
ele, ele não dorme sem uma boa punheta, daqui a pouco vamos embora e você pode
começar.” O grande revolucionário conteve o riso. Os companheiros mais velhos
idem. O jovem ficou espantado. Realmente a tarefa não estava clara, ou ele não
tinha entendido bem. Realmente precisavam discutir a questão.
Mas
a conversa esquentou novamente. Os velhos contaram outros causos e piadas. O
jovem ficou calado. Vez ou outra o companheiro mais velho olhava para o
companheiro mais jovem, juntava o polegar aos outros dedos formando um círculo
– como se segurasse algum objeto –, chacoalhava e dizia: “sua tarefa, hein, não
esquece!” O grande revolucionário se
esforçava para conter o riso. O jovem refletia.
No
meio da noite os velhos companheiros se despediram do jovem militante e do grande
revolucionário. Ao sair um deles opôs o polegar aos outros dedos formando um
círculo – como se segurasse algum objeto – e repetiu chacoalhando a mão: “sua
tarefa, não esquece!” Depois foram embora.
O
jovem militante pediu licença ao grande revolucionário, foi até o corredor, se
aproximou dos dois companheiros, opôs o polegar aos demais dedos formando um
círculo – como se segurasse algum objeto –, chacoalhou e perguntou: “por que
eu?” “É que você é novo e de confiança. Tem energia, é discreto e não tem
preconceitos” – disse um. O outro assentiu e, para não cair na gargalhada,
disse apenas “Exatamente!” Despediram-se outra vez. O jovem militante voltou
para o leito do grande revolucionário. Os outros entraram no elevador e foram
embora rindo.
O
jovem militante sentiu raiva e orgulho ao mesmo tempo. Por que ele? Por outro
lado, havia sido escolhido para uma tarefa delicada, o que era uma forma de
reconhecimento. Mas ter o sexo do grande revolucionário entre os dedos não era
o que ele planejava. Mais que isso, ocorreu-lhe que não sabia se devia executar
a tarefa com o grande revolucionário na cama ou se precisaria conduzi-lo ao
banheiro. Considerou a possibilidade de consultar a equipe médica. Mas lembrou
se tratar de tarefa delicada, provavelmente secreta, designada para um
militante “de confiança”, jovem, discreto, com energia e sem preconceitos. Aliás,
quem teria executado a tarefa anteriormente? – pensou. Quem havia aliviado o
grande revolucionário? Devia ter perguntado aos companheiros. Mas, enfim, pouco
importava, o partido sabia o que fazia – tranquilizou-se.
Apesar
do incômodo, a possibilidade de compartilhar um segredo e uma intimidade com o
grande revolucionário parecia-lhe instigante, uma verdadeira honra,
reconhecimento pela atuação no movimento estudantil. Ele não se dizia à
disposição da revolução, do partido e do movimento? Ele não se autoproclamava
livre da moral burguesa? Não daria a própria a vida pela causa? Um punheta era o
mínimo que podia fazer. Além disso, ele realmente amava e admirava o outro.
Estava disposto a dar a vida pelo grande revolucionário, pelo partido e pela
revolução...
Não vou contar o desfecho da noite. O leitor que imagine o que aconteceu no leito do hospital entre o jovem militante e o grande revolucionário. Mas alguém pode perguntar: se ia omitir o final, por que começou a história? É que o desfecho não é o mais importante. O desencontro é o que importa. Seja qual for o final imaginado por cada um, o que ocorreu foi apenas um desencontro – geracional, estético, existencial, político – entre uma esquerda que está morrendo e outra que não sabe rir. Um desencontro – geracional, estético, existencial, político – entre uma esquerda que está desaparecendo e outra que leva absolutamente tudo a sério, não raro se transformando em piada exatamente por isso.
Publicado originalmente no Passa Palavra