UMA TARDE EM 1993

O que mais pesa nos ombros de um garoto de 14 anos? O tabu da virgindade? O cabaço? Não. Pior que isso é tabu da falta de títulos do time do coração. Este mal se abateu sobre uma geração de palmeirenses, mais precisamente os nascidos depois de 1976 e antes de 1993, eu entre estes.
      
Eram tempos difíceis. Ainda mais para um menino chamado Júlio César. Júlio de Julinho Botelho (o ponta direita que deixou Garrincha no banco em pleno Maracanã) e César de César Maluco (nosso segundo maior artilheiro). Peso comparável a este não há, salvo existir por aí algum Marcos Ademir, Marcos (goleiro) e Ademir (da Guia).
       
Desgraçadamente, os torcedores das épocas de vacas magras são sempre os mais fanáticos, eles elegem seus times por convicção e teimosia. É o meu caso. Não foi um grande craque ou título que me fez palmeirense, pelo menos não que eu tivesse visto ao vivo. “Escolhi” meu time no quintal de casa, ouvindo as histórias do meu pai, que falava do Santos de Pelé e do Botafogo de Garrincha, mas sempre ressaltando que apenas a nossa Academia era capaz de derrotá-los. Porque se não fosse o Julinho Botelho, o Ademir da Guia, o Dudu... O Santos teria sido campeão não sei quantas vezes seguidas.         
      
E a mudança de Palestra para Palmeiras então? Essa emociona. Os são paulinos, apoiados num decreto-lei de Getúlio Vargas, alegavam que éramos uma equipe da comunidade italiana e, portanto, ilegal. Isso porque o Brasil estava em guerra contra a Itália e demais países do eixo. Nossos adversários usaram esse pretexto para tentar tomar nosso estádio. Não conseguiram. E o pior. O futebol é ardiloso. O Palestra foi forçado a mudar de nome, virou Palmeiras para poder continuar existindo. Mas quem disputaria o título do Paulistão na mesma semana? Palestra e São Paulo FC. Ou melhor, Palmeiras e São Paulo FC. Tínhamos 34 pontos, eles 32. A bola rolou, fizemos um, eles empataram, depois outro nosso e mais outro e uma penalidade para nós. Eles se recusaram a continuar a partida. “O Palestra morre líder, o Palmeiras nasce campeão.” Este feito é conhecido como Arrancada Heróica 1942, e hoje dá nome à passarela que atravessa a Avenida Antártica.
      
Claro que a nossa arrancada heróica, por tudo que envolve,  vale mais do que mil conquista, mas nos anos 1980 era difícil comentar um acontecimento de 1942. Era época dos “Menudos do Morumbi”, prenúncio inequívoco do pós-modernismo. As grandes narrativas e fatos históricos estavam em baixa. O “fim da história” estava para ser decretado. Vivia-se num presente vazio que excluía o passado e o futuro. Somente alguns dinossauros como nós insistiam em viver das coisas findas. Nossos adversários de 1942 estavam por cima. Por esses tempos ganhei um companheiro de tortura, meu irmão. Tínhamos as figurinhas dos times, os jornais. Comparávamos a altura dos atacantes adversários à dos nossos zagueiros. Imaginávamos esquemas táticos. 4 – 4 – 2, 4 – 3 – 3. Mas no final... Ganhavam os “Menudos”. Aquela torcida pós-moderna sequer sabia escalar seu time, só aparecia na reta final, como quem chega na hora do bolo, mas ganhavam, nós não. Parecíamos condenados a viver no passado. Se uma máquina do tempo transportasse a nossa Academia para o presente...  Aí ninguém poderia com a gente. Mas enquanto isso não acontecia... Em 1978 perdemos para o Guarani, em 1986 para a Inter de Limeira, nesse dia olhei para meu pai, esperei ele falar, ele precisava explicar o que tinha acontecido, mas faltaram-lhe as palavras. Depois de tudo, o silêncio.
       
Um trauma? Quando algum moleque sem vergonha dizia:
      
- Você nunca viu seu time ser campeão!
      
Ao que eu respondia:
      
- E a sua mãe? Aquela vaca. Aquela puta.         
      
Era preciso desconversar e mudar de assunto.
      
A história era nossa, o presente não. Meu pai falava do primeiro campeonato mundial interclubes, muito antes do Palmeiras reivindicar essa conquista na Fifa. Em 1951 derrotamos a Juventus de Turim, éramos os primeiros campeões mundiais. Tínhamos vingado a seleção brasileira de 1950. Como se não bastasse, em 1965 representamos a própria seleção canarinho, metemos três a zero no Uruguai. No mesmo ano nossos arquirrivais também representaram a seleção brasileira. Resultado? Arsenal 2 x 0 Corinthians (Brasil). Essa história eles não gostam muito de lembrar.
      
Por falar nos nossos arquirrivais. Lembro-me do meu pai narrando o nosso título paulista de 1974. O Corinthians estava há 20 anos sem nada. Eles tomaram o Morumbi. Acharam que sairiam da fila atropelando a gente. Mas... No meio do segundo tempo, um cruzamento na área, Leivinha escora de cabeça e Ronaldo estufa a rede. O caneco era nosso. Meu pai não comentava o título do IV Centenário, que perdemos para o Corinthians em 1954. E estava correto. Já colecionávamos decepções suficientes.
      
Um salto no tempo. Final do Paulistão de 1992. Palmeiras contra o São Paulo de Raí, Müller e Cafu. Perdemos. 4 x 2 e 2 x 1. Dizia-se que só perdemos porque era o São Paulo, se fosse qualquer outro adversário... Mas então por que tinha que ser o São Paulo? Que desgraça. 
      
No ano seguinte nosso time estava mais forte e encararia o Corinthians de Viola, Neto e Ronaldo na finalíssima. Éramos superiores, mas isso não resolvia nada. Primeiro jogo. Falta na ponta direita, Neto cobra de canhota, a bola cruza toda a nossa área, Viola se atira e marca. Bola na rede. Na nossa rede. Como se não bastasse o sujeito ainda comemora engatinhando e imitando um porco chorão.
      
Segundo e decisivo jogo. Nossa única chance era ganhar no tempo normal e pelo menos empatar na prorrogação. Ou seja, o risco de enfarte era altíssimo.  O radinho de pilha tagarelou o dia todo. No final da tarde nos postamos em frente à tv: eu, meu pai e meu irmão. Minha mãe caminhava pela casa para não ver o nosso sofrimento. Apreensão. 0 x 0 no placar. Aí Edmundo arranca pela esquerda, o zagueiro tenta cortar, mas a bola sobra para Evair, que faz a parede e lança Zinho, que entra pela direita e bate cruzado, levantamos do sofá, a pelota passa pelo goleiro, bate no pé da trave e vai para a rede. Gol. Um a zero para nós já no primeiro tempo. 15 minutos de apreensão. E recomeça a partida. E Mazinho recupera no meio campo, penetra pela esquerda, bate cruzado, Evair... É gol. Dois a zero. E viria mais. Daniel Frasson entra pela esquerda, cruza para Evair, que domina e bate, a pelota resvala no rodapé do poste e volta para Edílson... Gol. Três a zero no tempo normal. Outro intervalo. A peleja vai para prorrogação. Só uma tragédia nos tiraria o caneco, mas a tragédia sempre nos acompanha. O Palmeiras é um tango. Apreensão total. Dedos cruzados. Tremedeiras. Até que Edmundo invadiu pela direita, o beque segurou e... Penalidade para nós. Coração gelado. Evair bate, goleiro de um lado, pelota do outro... É gol. Quatro a zero. Silêncio glacial. Mas pela primeira vez o tempo jogava para nós. O desespero estava do outro lado. Até que o juiz apita. Não tinha mais jeito. O caneco era nosso. Silêncio.
      
Meu pai levanta, pega um disco de vinil (compacto), rasga o plástico e põe na vitrola: “Quando surge o alviverde imponente...” Aquele disco tinha permanecido mudo e lacrado por anos, como nós. Meu pai nos abraça aos gritos:
      
- Pode comemorar que esse é nosso! Ninguém mais tira! É campeão!

Não sabíamos comemorar.


                         
MERITOCRACIA

– Meu filho faz natação, luta judô
e vai pra escola.
– O meu engraxa sapato, cuida de carro
e cheira cola.

MEMORANDO

O homem murcha,
em camisa de manga,
no bafo da repartição.

Sua pela careca,
exala cheiro oco,
fenece sem dor.

Existência de despacho,
ossada desgastada,
à sombra do formal.

Enfado de escritório.
Mau hálito de café.
Contingência de portaria.

Sapato apertado.
Pés reprimidos.
Vida de carimbo.

Sonho de funcionário:
apodrecer à beira-mar,
boiando na água,
numa morte de areia.
para Mário Quintana

eles passaram
você passarinho
eles choraram
você chorinho




86 ANOS DE MILAN KUNDERA

Nos últimos anos do século XX comecei a freqüentar sebos. Lembro-me de ter folheado livros de Milan Kundera, mas não cheguei a levar nenhum. Faltou, talvez, uma indicação. Anos depois, já na metade da primeira década do século XXI, assisti o filme A insustentável leveza do ser, dirigido por Philip Kaufman e baseado no romance de Kundera. Num mesmo final de semana assisti Perfume de mulher (o original italiano, e não o pastelão estadunidense) e A insustentável leveza do ser, ambos sensacionais. Mas meu encontro com a literatura de Kundera só aconteceria anos depois, mais precisamente em 2009, quando um amigo me emprestou e recomendou a leitura do romance A insustentável leveza do ser. Foi a indicação que faltava.

A insustentável leveza do ser começa falando do eterno retorno, de Nietzsche. A vida é leve porque é sem retorno. Por mais sublime, por mais torpe que seja, a vida está condenada a desaparecer, é leve como uma pluma. Este tema é recorrente na obra de Kundera.

Com o tempo fui saltando de um livro para outro, descortinava-se para mim um escritor e ensaísta sem igual: capaz de provocar o riso como Machado de Assis, intrigante e provocador como Camus. Quanto sabor nas polêmicas de Kundera, por exemplo:

1º) Com Stravinski e contra Adorno: “O que me irrita em Adorno é o método que vincula com facilidade as obras de arte com causas, consequências ou significações políticas (sociológicas), as reflexões extremamente matizadas (os conhecimentos musicais de Adorno são admiráveis) conduzem a conclusões extremamente pobres [...]” (Os testamentos traídos)

2º) Contra Orwell e seu 1984: “A influência nefasta do romance de Orwell está na redução implacável da realidade ao seu aspecto puramente político e na redução deste aos seus aspectos negativos. Não perdôo esta redução com o pretexto de que era útil como propaganda na luta contra o mal totalitário. Porque este mal é precisamente a redução da vida à política e da política à propaganda. Assim, o romance de Orwell, apesar das intenções, forma ele mesmo parte do espírito totalitário, do espírito de propaganda. Reduz (e ensina a reduzir) a vida de uma sociedade odiada à enumeração simples dos seus crimes.” (Os testamentos traídos)

3º) Em defesa da música de Janácek. Em defesa da literatura de Tolstói, Cervantes, Rabelais, Sterne, Kafka, Gombrowicz, Robert Musil, Hermann Broch e outros.

4º) Sobre a literatura: “descobrir o que só o romance pode descobrir é a única razão de ser de um romance. O romance que não descobre uma parte até então desconhecida da existência é imoral. O conhecimento é a única moral do romance.” (A arte do romance)

5º) Em defesa da Primavera de Praga de 1968: “Ah, os queridos anos 1960. Eu gostava de dizer, então, cinicamente: o regime político ideal é uma ditadura em decomposição; o aparelho opressivo funciona de maneira cada vez mais defeituosa, mas está sempre ali para estimular o espírito crítico e zombeteiro. No verão de 1967, irritados com o congresso corajoso da União dos Escritores e achando que o atrevimento tinha ido longe demais, os chefes de Estado tentaram endurecer sua política. Mas o espírito crítico já havia contaminado até o comitê central que, em janeiro de 1968, decidiu que o presidente seria um desconhecido: Alexander Dubcek. A primavera de Praga começou: hilário, o país recusou o estilo de vida imposto pela Rússia; as fronteiras do Estado foram abertas e todas as organizações sociais (sindicatos, federações, associações), originariamente destinadas a transmitir ao povo a vontade do partido, tornaram-se independentes e se transformaram em instrumentos inesperados de uma democracia inesperada. Nasceu um sistema (sem nenhum projeto preestabelecido, quase por acaso) que foi verdadeiramente sem precedentes: uma economia 100% nacionalizada, uma agricultura nas mãos das cooperativas, nada de pessoas muito ricas, nada de pessoas muito pobres, o ensino e a medicina gratuitos, mas também: o fim do poder da polícia secreta, o fim das perseguições políticas, a liberdade de escrever sem censura e, a partir daí, o desabrochar da literatura, da arte, do pensamento, das revistas. Eu ignoro quais eram as perspectivas de futuro desse sistema; na situação geopolítica de então, certamente nulas; mas numa outra situação geopolítica? Quem pode saber... Em todo caso, esse segundo durante o qual esse sistema existiu, esse segundo foi soberbo.” (Um encontro)

Kundera divide a história do romance em três tempos. No primeiro a literatura oral em extinção abre caminho para a literatura escrita, o romance começa a substituir as histórias contadas verbalmente. Até o final do século XVIII (Cervantes, Rabelais, Laurence Sterne) os narradores se dirigiam diretamente aos leitores, herança das histórias orais. No segundo tempo “a palavra do autor se apaga atrás da escrita” (Um encontro), prevalece o critério da verossimilhança, é a época do realismo de Balzac e outros. O terceiro tempo começa com o modernismo e rompe com a verossimilhança. Parênteses. Mas Kundera não conhece Machado de Assis? Como enquadrar o Bruxo do Cosme Velho? Cronologicamente no segundo tempo, mas herdeiro do primeiro e grávido de elementos do terceiro: como o discurso que fala diretamente com o leitor, a ironia e o humor. Voltando. Kundera evita comentar sua própria obra, talvez para evitar simplificações ou por modéstia, mas ele está no terceiro tempo, com certeza. Como Ernesto Sabato em Abadon, o exterminador, o próprio Kundera virá personagem em A imortalidade. Também Goethe e Hemingway são transformados em personagens. Ruptura total com o realismo e a verossimilhança.

Da literatura à música passando pela filosofia e pela pintura, Kundera dialoga com os maiores de igual para igual, chegou, inclusive, a adaptar Jacques, o fatalista, de Diderot. Dizem que o ponto fraco de Kundera é a sua poesia de juventude, talvez seja mesmo, mas não dá para saber porque seus versos não estão disponíveis em português. O jovem e ingênuo poeta Jaromil, de A vida está em outro lugar, talvez tenha sido o jovem Kundera, que confessa: “Também dancei em roda. Isso foi em 1948, os comunistas acabavam de triunfar em meu país” (O livro do riso e do esquecimento). Depois Kundera passa a rechaçar o regime estabelecido e os arroubos de lirismo, sabe que “as nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia, inclusive a guilhotina.” (A insustentável leveza do ser)

Neste 01.04.2015, Kundera completa 86 anos, seu romance A festa da insignificância foi publicado no Brasil no ano passado. Espero que venham outros, mas não sei se o homem de 86 anos terá forças para escrever. Não sei se pode haver um “feliz aniversário” para um homem de 86 anos. Eis a insustentável leveza do ser, por mais genial e por mais talentoso que seja, o homem está condenado a desaparecer. A vida vai passando e provocando riso e esquecimento.

JC