AUTO-DE-FÉ


Domo renascentista,
catedral neogótica,
no centro da cidade.

As torres e os vitrais,
os ângulos e o sino,
comunicam a graça.

O conforto dos bancos
e a força das imagens
redimem pecadores.

A dureza do mármore
convida à penitência
e ao arrependimento.

Música brota do órgão,
pelos doze mil tubos
(todos italianos).

Melodia dos foles
ecoa na rosácea,
penetra os penitentes.

O dourado retábulo
espelha o criador,
sua grandeza e poder.

Mas na praça defronte
dorme o povo de Deus:
em camas de jornal.


PASSAGEM

as palavras estão enterradas
mas se movem
se agrupam
penetram a rocha
e fluem

um rio de palavras corre
sereno

pelo leito de pedra
desce a palavra vida
fugaz
veloz

a palavra juventude
passa

a palavre tempo
corta

a palavra fogo arde
no rio
e passa

apanho a palavra água
ergo-a

mas ela deságua
escorre
e flui





EM POLÊMICA COM NOEL, UM PALPITE FELIZ DE CAETANO

Essa é da época do vinil, literalmente. Houve um tempo, creio que mais ou menos no meio dos anos 1990, em que os cds começaram a substituir os discos de vinil (bolachões), que, por sua vez, passaram a ocupar os sebos.

Com alguns poucos trocados era possível comprar bons bolachões. Digo era porque as relações de produção e distribuição fonográficas entraram em contradição com as forças produtivas, veio a revolução da Internet, nunca mais comprei discos.

Muito bem. Mas o que isso tem a ver com Noel e Caetano? Resposta: o bolachão Totalmente Demais, de 1986. Ao vivo, Caetano canta Vaca Profana, O Quereres entre outras. Depois, Pra que Mentir? (de Noel Rosa e Vadico) e na seqüência Dom de Iludir. Tocadas em seguida, salta aos ouvidos que uma responde a pergunta da outra.

Pra que Mentir? tinha endereço certo: Ceci, a grande paixão de Noel. Caetano, por outro lado, dá voz a Ceci, encara a pergunta e responde por que mentir.  Noel indaga: “Pra que mentir se tu ainda não tens a malícia de toda a mulher”. Caetano responde: “Não me venha falar na malícia de toda mulher. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” Noel pergunta: “Pra que mentir se tu ainda não tens esse dom de saber iludir?” Caetano lhe joga na cara: “Você diz a verdade, a verdade é seu dom de iludir. Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?”

A pergunta é espinhosa para qualquer um: “Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?” Verdade é um substantivo feminino, mas nas sociedades machistas, seu conteúdo é sempre masculino. A verdade masculinizada repele e exclui as mulheres.  

Noel condena Ceci: “Pra quê? Pra que mentir, se não há necessidade de me trair?” Ora, se ao homem cabe inclusive determinar à mulher quando há necessidade de trair, como elas viverão sem mentir? Inclusive porque o não inocente verbo trair é sempre conjugado de forma unilateral, será que para Ceci alguma traição estava em questão? De Ana Karenina a Ceci, nenhuma mulher passará sem mentir, ou melhor, sem o dom de iludir, pelo menos em sociedades em que o homem é senhor do dom de se impor.
           
Como ensina Carlos Drummond: “Entre as diversas formas de mendicância, a mais humilhante é a do amor implorado.” Exatamente como faz Noel: “Pra que mentir tanto assim se tu sabes que eu sei que tu não gostas de mim? Se tu sabes que eu te quero apesar de ser traído.” A questão é: que homem suportaria uma resposta sincera? Imaginemos que, “olhos nos olhos”, Ceci respondesse a Noel: “Tantas águas rolaram, quantos homens me amaram bem mais e melhor que você”. Seria demais. Totalmente demais.

Então há uma dose de machismo e amor possessivo em Noel? Sim. Pra que mentir? Não há necessidade de se iludir. Noel, apesar de sua genialidade, é filho legítimo da sociedade machista, em que o amor vem em conserva, com prazo de validade e contrato de aceitação.

Mas amar é libertar a pessoa amada. É se realizar na realização do ser amado, incondicionalmente. Caminhamos por um beco sem saída. Não há meio termo possível, é preciso levar a realização do ser amado às últimas conseqüências, inclusive quando este se “deite e deleite seja com quem for.” Neste sentido o amor está bem próximo da amizade. O amor, quando sincero, não impõe condições, não exige nada em troca. O amor, se verdadeiro, é autotélico. Amor que não tem fim em si mesmo não passa de individualismo meia boca e doentio, mais ou menos como mostra Drummond: “Um se beija no outro, refletido. Dois amantes que são? Dois inimigos.”

No mesmo bolachão, Totalmente Demais, na canção Nosso Estranho Amor, Caetano dispara: “Não quero sugar todo seu leite nem quero você enfeite do meu ser. Apenas te peço que respeite o meu louco querer. Não importa com quem você se deite, que você se deleite seja com quem for. Apenas te peço que aceite o meu estranho amor.” O amor, se verdadeiro, carrega a propriedade radical de se impor inclusive ao seu portador, não quer ninguém como enfeite de seu ser, nem lhe importa com quem o ser amado se deite e deleite.

Da polêmica de Noel com Wilson Batista ficaram pérolas como Feitiço da Vila e Palpite Infeliz. Cinqüenta anos depois, Noel estava morto e não pôde responder à interlocução de Caetano, é interessante imaginar como seria a tréplica do Poeta da Vila, se é que seria, afinal, pra que mentir?



SINCERIDADE

sou
só

sem
céu

sem
sacro

sem
santo

sen
sato

Beira de estrada do RN



Poema Pixo
(versos para decorar papel higiênico)

borrifo
indômito
vômito

verborréia diarrética

pixo

peixe no armário
pelo ao contrário

anarcrônica do caos
pequeno-burguesamente
logomarcando muros

cúmulo mercantil
túmulo da fala

anticomunicação
cala a grafia

grito de bicho
no saco de lixo

coice ortográfico

furúnculo
no cu do kitsch

estética da barbárie



DEUS NÃO MORREU, MATOU-SE! O SUICÍDIO DO GRANDE CASTRADOR
Os homens foram criados à imagem e semelhança de deus, porém uns mais que os outros. Paul Lafargue, André Gorz, Ernest Hemingway, Wladimir Maiakovski, Virginia Woolf, Mario Monicelli e Torquato Neto entre os mais semelhantes. Seres humanos são antes de tudo criaturas criadoras, que se fazem e desfazem continuamente. Mas se por definição uma criatura é um ser criado, como lhes pode ser permitida a criação e seu contrário, a destruição? Ainda mais porque a capacidade destrutiva humana implica na negação da criação divina. O auto-assassinato humano, por exemplo, nega a onipotência divina em sua maior dimensão, a concessão da vida. A condenação aberta do suicídio pela maioria das religiões nos diz muito. O mínimo que se pode afirmar é que existe algo como um Complexo de Édipo entre homens e deuses. Sísifo e Prometeu que o digam.
A relação com deus é dupla: ame-o ou deixo-o. Deus é o limite, para bem e para mal. É o grande sintetizador na medida em que pode representar o princípio, a unidade e o fim; mas, pela mesma razão, é também o grande castrador já que oferece uma solução externa e inacessível aos homens. À humanidade caberá se libertar de deus ou ser castrada por ele. A divindade é a pedra no caminho do fazer e desfazer-se humano, é o limite. Alguns caminharão para o deicídio, outros se anularão nos braços do criador.
Das duas uma, ou deus não é onipotente ou aos homens não se concedeu o livre-arbítrio. Pela simples razão de que uma opção inviabiliza a outra. O livre-arbítrio humano se choca com a onipotência divina.
Na concepção cristã as implicações deste problema são demolidoras. Para haver pecado é preciso existir livre-arbítrio e escolha, mas assim abre-se a possibilidade de se negar inclusive o próprio criador.
Uma questão quiçá mais interessante do que determinar a medida do livre-arbítrio humano é mensurar a autonomia criativa de deus, que teria forjado a possibilidade da sua própria negação: o homem. Como o livre-arbítrio é sempre relativo a algo, seríamos forçados a terceirizar ou hierarquizar a divindade. Mas suponhamos o pior, quais a implicações de imaginarmos um deus todo poderoso e livre de qualquer arbítrio que lhe fosse externo? Como o deus cristão. Se assim fosse, deveríamos cobrar-lhe a conta de todas as chagas do mundo, incluindo os campos de concentração, Hiroshima, Nagasaki, Gaza e por aí vai. Se o homem escolhe o pior é porque essa opção lhe foi disponibilizada pelo criador.
O contrário dessa obviedade é o cinismo mais meia-boca, ultra-hollywoodiano, que consiste em afirmar que todo mal deriva unicamente das escolhas humanas. Transforma-se deus no mocinho redentor e os homens em vilões. Mas a questão é: quem criou a possibilidade de escolha humana? Quem colocou o ovo de serpente no cesto? Deus é um pai que deixou um revolver entre os brinquedos de seu filho. A quem responsabilizar pelo crime cometido com a arma-brinquedo?
O protagonismo de deus é duplo: primeiro suicida em potencial da história e guru da auto-ajuda. Matou-se ao criar o seu assassino: homem. Por outro lado, inaugurou a arte do auto-engano, conhecida atualmente por auto-ajuda, que consiste em acreditar no que é mais conveniente. Como na canção: “não há crença sem recompensa.” Crença e recompensa se tornam diretamente proporcionais, e utilitaristas. A crença religiosa não é um em-si é um para-íso. Abolido este, extingue-se aquela. Quem perderia tempo rezando à toa? Deus existe na exata medida em que o crente carece de graça.
Da poesia à literatura, o Complexo de Édipo homens-deuses deixou marcas. Millôr Fernandes indagou: “Mestre, respeito o Senhor, mas não a sua obra; que paraíso é esse, que tem cobra?” Mas é nas páginas de Dostoievski que a relação edipiana vai aos píncaros, na fábula de Ivã Karamazov, o Grande Inquisidor, em nome de um determinado projeto de humanidade, condena o representante de deus na terra.
O livre-arbítrio humano é tão livre que chega a aprisionar-se, tão amplo que fabricou o próprio deus, não sem desconstruí-lo depois, num contínuo fazer-se desfazendo-se. Enquanto a crença em deus é utilitarista, posto que fundamentada nos prêmios futuros, a sua mais firme negação é ética, não negocia princípios, recusa uma criação que admite o mal em nome da redenção futura, os fins não justificam os meios.
No caminho da desconstrução, seguindo os passos de Ivã Karamázov, Albert Camus recusa a salvação: deus não existe, mas isso pouco importa, não seriam legítimas as benesses oferecidas por uma divindade que aceita o mal. Recusar a salvação torna-se um imperativo ético.