terça-feira, 25 de novembro de 2014

O MORALISTA

Aconteceu no começo do século XXI, depois do desenvolvimento da telefonia móvel e da música da dupla Kleiton e Kledir.

Rodrigues era casado. Tinha esposa, filhos e amantes. A Carol entre estas. Ele costumava repetir para os amigos: “Minha mulher serve para esfregar minhas cuecas, minhas amantes servem para tirar minhas cuecas”.  Rodrigues se dizia bacharel em artes amorosas. Os sujeitos que acreditam nas bobagens que dizem costumam ser engraçados, o Rodrigues entre estes. Quando contava suas aventuras eróticas, ele respirava fundo, batia no peito e soltava sua frase preferida: “Eu sô bom nisso!”. Os amigos brincavam dizendo não saber se o Rodrigues era melhor como amante ou como contador de histórias. Fato é que, para ele, não havia nada mais belo do que contar vantagem. Certa vez, numa roda de amigos, alguém perguntou se o Rodrigues frequentava bordéis, ao que ele respondeu de pronto: “Nunca! Eu nunca pagaria pra transar com uma mulher, elas que deveriam pagar pra transar comigo!”. Quando os amigos conseguiram parar de rir, Rodrigues emendou sua frase preferida: “Eu sô bom nisso!”.

Carol estava namorando e, por isso, havia rompido com o Rodrigues. Mas não há barreira que não possa ser superada pela ousadia de um amante somada às possibilidades da telefonia móvel. Ela respondeu a mensagem dele, que pensou: “Eu sô bom nisso! Agora vai!”. Dias depois, se reencontraram.

Algumas palavras jogadas fora e decidiram ir para um lugar mais tranquilo para conversar melhor. Mais palavras jogadas fora e a Carol levantou e debruçou na janela. O Rodrigues – que raciocinava por meio de metáforas futebolísticas – pensou: “A bola do jogo. É agora!”. E abraçou a parceira por trás. Sem soltá-la e sem saber bem o que fazer ou dizer, improvisou, cantou baixinho um trecho do Kleiton e do Kledir: “Esse quarto é bem pequeno / pra te suportar / tanto amor / tanto veneno / pra pouco lugar”.

Ela se surpreendeu com a novidade:

- Que é isso? O que cê tá fazendo? Tá maluco?

Mas, lá no fundo, Carol aprovou a novidade, também ela gostava do Kleiton e do Kledir. Percebendo a conjuntura favorável, Rodrigues emendou:

- Tô maluco por você. Malucão. Eu sei o que tô fazendo! Confia em mim! Deixa comigo! Vai ser como nos velhos tempos. Baby, confia em mim! – Empolgado, Rodrigues quase soltou sua frase preferida: “Eu sô bom nisso!”. O que, com certeza, teria posto tudo a perder. Mas o pior não aconteceu.

Ele avançava e, ao mesmo tempo, começava a comemorar a vitória sobre os amigos, que não acreditavam na possibilidade dele reatar com a Carol. Rodrigues via a cara de espanto dos amigos quando soubessem dos versos do Kleiton e do Kledir. Não é difícil imaginar as frases que ele utilizaria para narrar aquela aventura: “Gol de placa. Jogada de craque. Eu sô bom nisso!”. 

Existem as leis do amor, a gramática das coisas do coração espera por ser redigida, mas existe. A debruçada na janela da Carol prova a existência das leis do flerte. E prova que o Rodrigues conhecia a legalidade do amor. Claro que o emprego da canção do Kleiton e do Kledir ajudou, mas não era só isso. Ele gostava de dizer que “no amor, assim como no futebol, o improviso ajuda, mas não resolve sozinho, é preciso dominar todos os fundamentos do jogo”. Se fosse um pouco mais teórico, Rodrigues poderia escrever a gramática das coisas do coração, mas ele era um homem de ação, preferia a prática e a narração das práticas.

Machista, canalha, reacionário, estúpido... Digam o que quiserem do Rodrigues, mas, uma coisa é certa, ele dominava os tempos de bola do amor. Essa metáfora é dele, mas tem a ver, era assim que ele explicava suas conquistas para os amigos. Com certeza, Rodrigues diria que aquele abraço aconteceu no momento exato, que um segundo antes ou depois seria fatal.

Os amantes se conheciam, tinham sido parceiros. Aquele debruçar na janela era a senha, a luz verde, o siga em frente, o venha agora ou nunca mais. Como um toque de truco, aquele gesto sinalizava e autorizava a próxima jogada do parceiro.

Empiria ou não, é inegável que o Rodrigues identificou corretamente a simbologia do debruçar na janela, antes daquele gesto, qualquer passo seria um salto no abismo. A Carol mantinha uma superioridade total até aquele debruçar, até aquele “venha”. Na corrida do amor, queimar a largada é fatal. Depois daquele “siga em frente” ela se integrava às batalhas do amor, se perdia a ponto de confundir o toque do celular com as batidas do coração do Rodrigues. Os amantes vibravam e emitiam sons na cama, o telefone da Carol também, até que... Pof!

- Meu telefone caiu. Calma home, calma! Quem tá me ligando? Meu namorado! Caramba!

- Desliga isso, Carol.

- Alô. Oi coração. Como cê tá? Tudo bem? Já jantou? Tem que se alimentá bem, hein.... Hein... Beijo! Beijo! A gente se fala então! A gente se fala depois! Te ligo! Beijo!

- Rô, vem Rô! Vem, seu safado! Cachorro!

Rodrigues estranhou, mas não se intimidou com a situação. Avançou. Mordeu o pé da parceira. Essa técnica, no jargão dele, era uma jogada ensaiada, que ele repetia porque funcionava. “Em time que tá ganhando não se mexe” – dizia.

- Carol, você não anda, levita. Que pezinho! Posso fazer cosquinha?

Drim. Drim. Drim.

- Carol, que que é isso? Meu estômago tá roncando?

- Não, não. É o meu celular tocando debaixo de você. Afasta aí pra eu ver quem é. Outra vez. Espera. Rô, espera.

- Oi meu amor. Jantou? O quê? Hum... Que delícia. Ops. Vou entrar no Metrô. Não tô te ouvindo. Oi? Não tô te ouvindo. Oi? Oi? Vai cair. Beijo. Vai cair. Beijo. Até. Também te amo.

- Vem, Rô. Vem.

Carol passou os dedos entre os cabelos do Rodrigues, segurou firme e puxou com força. Ele quase gritou de dor. Esses detalhes das aventuras não costumavam ser contados para os amigos.

Drim. Drim. Drim.

- Outra vez! Deixa eu tomar um ar. Rô, afasta um pouco. Espera. Espera.

Ela controlou a respiração e atendeu:

- Oi coração! Também te amo. A ligação tá ruim. Te amo. Beijo. Até.

- Vem Rô. Rô, cadê você?

Estava na janela. Olhou para o horizonte, acendeu um cigarro e começou a matutar. Há quem diga que começar a pensar é começar a broxar. Como pensar não era o forte do Rodrigues, ele não considerou esse risco.

Drim. Drim. Drim.

Mais conversa dos namorados. Da janela Rodrigues ouvia e pensava. Como ela podia fazer aquilo? Ficar jogando conversa fora sem passar a bola para ele. Que fominha! Por que não desligou o telefone? Que canalhice. Os maus pensamentos do Rodrigues sobrevoavam como aves de rapina. Teria ela atendido alguma ligação dele na cama com outro homem? Pior ainda, teria alguma ligação dele tocado debaixo de algum amante dela? Teve náusea só de pensar na pele suada e na pulsação de outro homem. Que mania! Levar o telefone para a cama, onde já se viu isso? E que cara chato esse namorado dela, tinha que levar chifre mesmo, não dá um tempo, marcação sob pressão no campo adversário o jogo todo, parece time alemão, assim não tem jogo, a bola não rola. Retranqueiro. Covarde. Nem joga nem deixa os outros jogarem. O ciúme crescia junto com a raiva. Rodrigues teve uma ideia terrível, seria ele reserva do namorado da Carol? Logo ele: que sempre dizia “sô bom nisso”, que conhecia os tempos de bola do amor, que armava jogadas tão bem quanto finalizava. Reserva de um perneta? Teve vontade de falar essas verdades. Carol trocava frases batidas com o namorado: “também te amo”, “tô com saudade”... No jargão do Rodrigues, aquilo era fazer cera. Carol conversava com um e sorria para o outro. Rodrigues se irritava. No jargão dele, aquilo era catimba. Ele tentava se controlar, sabia que o pior erro de um amante experiente é cair na catimba do adversário. Mas não teve jeito. A raiva só aumentava. Reserva de um perna de pau... Onde já se viu isso?

- Então tá, amor. Minha bateria tá acabando. Desliga você primeiro. Te amo, viu. Te amo. – Disse Carol para o namorado ao mesmo tempo em que piscava para o Rodrigues.

O namorado não desligou, mas ela sim. Depois encarou Rodrigues com olhar provocador e disse:

- Rorô, vem. Te quero! Quero você! É hoje!

Rodrigues se animou, subiu do inferno para o céu. Olhou para a parceira e pensou: “Eu sô bom nisso!”. Mas, no caminho da janela para a cama, ouviu o toque do celular.

Drim. Drim. Drim.

- De novo! – Reclamou a Carol.

O pior tombo é o que o sujeito leva quando está se reerguendo. Rodrigues despencou do céu para o inferno. Como ela podia fazer aquilo com ele? Que canalhice. Sem vergonha. Logo a Carolzinha... Logo a sua pequena preferida... A que ele mais gostava. Cada “eu te amo” dito para o outro era uma cusparada na cara do Rodrigues. A ideia de ser o reserva imediato do namorado da Carol voltou a atormentar. Como ele contaria aquela aventura?

Parênteses para uma metáfora à la Rodrigues: o último chamado da Carol, aquele “Te quero! Quero você!” foi a bola do jogo, ele empurraria a pelota para a rede se não tivesse sido anotado impedimento, ou seja, se o telefone dela não tivesse tocado outra vez.

Tomado de fúria, Rodrigues contraiu os músculos do rosto e avançou com raiva nos olhos. Tomou o telefone da mão da amante e ouviu a voz que vinha do outro lado da linha:

- Amor. More. Môr, cadê você? Tá tudo bem?.

Considerando-se injustiçado, autopromovido ao topo do edifício da superioridade moral, Rodrigues fuzilava sua parceira com o olhar. Encheu o peito para falar, queria colocar os is nos pingos. Mas não conseguiu dizer nada. Bufou como burro cansado e respirou fundo. Tinha que falar, precisava retomar a rédea das coisas, mas foi novamente driblado pelas palavras, que lhe escapavam. Os pensamentos mordiam os miolos do Rodrigues: “Como a Carolzinha faz isso comigo? Logo a minha pequena preferida?”.

Desesperado, jogou o telefone na cama, bateu a porta e partiu: com os olhos marejados, soluçando. 

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