Ernesto Sabato: Auto-retrato
O argentino Ernesto Sabato é, para mim, um escritor fundamental, que consulto com frequência: porque me reconheço em seus personagens, na introspecção de Juan Pablo Castel, por exemplo; e também porque me alimento com as porções humanismo de seus ensaios. De Sabato é preciso falar na primeira pessoa, ainda mais nestes momentos em que o escritor caminha para completar seu primeiro centenário.

Lembro-me de que conheci Sabato através de Albert Camus (outro que considero fundamental). Vale registrar que foi Camus um dos primeiros a reconhecer o talento do escritor argentino. Na Internet encontrei o livro Mensageiros da Fúria – uma leitura camusiana de Ernesto Sabato –, de Janer Cristaldo. Procurava um e encontrei o outro. Desse dia em diante as leituras foram se sucedendo: O Túnel, Homens e Engrenagens, Sobre Heróis e Tumbas, El Escritor y sus Fantasmas, La Resistencia, Uno y el Universo e por aí vai. Tenho livros de Sabato de uma simpática edição do diário La Nación, todos em espanhol. A leitura destes me faz lembrar do outro Ernesto, o Guevara, que dizia que os latino-americanos são o mesmo povo mestiço, somos mesmo, inclusive nós, brasileiros, nossas línguas latinas são parecidas. 

Ernesto Sabato é um homem de transição e movimento. Aproximou-se do marxismo e da ciência, depois afastou-se. Caminhou para a literatura e os ensaios, até que uma doença visual lhe restringiu as possibilidades de escrita e leitura. Teve contatos com os surrealistas franceses nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial. Em 1984, presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), que investigou os crimes da ditadura militar argentina. Atualmente, Sabato se dedica à pintura, seus quadros são sombrios como seus personagens.

Ernesto Sabato: Dostoiévski
Há um eixo sempre presente em Sabato: o humanismo radical. É este humanismo que caracteriza o escritor argentino, e que o aproxima de homens como Albert Camus. Como Camus, Sabato é um estrangeiro: um latino-americano na Europa, ou um europeu na pampa argentina, ou um humanista na ciência, ou o contrário disso.

Para Sabato, os argentinos, principalmente os portenhos, caracterizam-se fundamentalmente por desencontros: são europeus na América e americanos na Europa. O Tango é a expressão mais bem acabada destes homens de prata. Talvez por isso o nascimento do Tango só poderia ter ocorrido em Buenos Aires ou Montevidéu, como afirmou Jorge Luis Borges.

A literatura e as letras são, para Sabato, a melhor forma de enfrentar fantasmas e de derrotar engrenagens mecanicista, ou seja, de caminhar por vias que a ciência pura não pode explorar. A literatura é o campo de conhecimento capaz de promover o encontro e a síntese dos mais diversos saberes: da história à física e da filosofia à geometria etc. Além disso, a literatura não inibe o eu (sujeito), pelo contrário, liberta-o.

O escritor tcheco Milan Kundera (outro fundamental) diz que seus personagens são o conjunto de suas possibilidades pessoais não realizadas. É neste sentido que Sabato percebe a primazia da literatura, os romances são a objetivação do seu ímpeto de construtor. A literatura, ao penetrar a alma dos seres, ilumina o mundo com holofotes únicos. Os ensaios são portadores da mesma potencialidade.

Ernesto Sabato: Alquimista
Segundo Sabato, vivemos um período de transição e de crise de toda a cultura ocidental. Nesta crise se incluem o capitalismo, a racionalidade produtivista que lhe é própria e até mesmo o marxismo. Para ele, a crise do projeto marxista é parte da derrocada da cultura ocidental baseada razão, que se realiza afastando-se do mundo cotidiano e de questões também fundamentais. Os personagens e quadros de Ernesto Sabato são sombrios exatamente por serem parte de um mundo em crise. Sabato rechaça a velocidade produtivista do mundo moderno, que inviabiliza gestos não utilitários à produção, como os bate-papos nos cafés de Buenos Aires. Segundo o escritor argentino: “Não se deve desperdiçar a graça dos pequenos momentos de liberdade que podemos gozar: um mesa compartilhada com pessoas queridas, uma caminhada entre árvores, a gratuidade de um abraço.”  

Mas a questão não é negar e abandonar a racionalidade (o marxismo inclusive). O problema é muito mais sútil. Trata-se de recolocar a razão em seu devido lugar. A questão, para Ernesto Sabato, é romper a preponderância da racionalidade utilitária e produtivista, incorporando outras dimensões ao real, como os sonhos, os desejos e os pequenos prazeres.

A obra de Ernesto Sabato é um protesto contra a mecanização da vida e dos homens. Parafraseando os títulos dos seus ensaios, é uma luta dos homens contra as engrenagens, ou do escritor contra seus fantasmas. Em um dos seus últimos textos (La Resistência), Sabato afirma: “é preciso resistir, nos salvaremos pelos afetos.”

Num mundo que padroniza e coisifica, homens como Ernesto Sabato são imprescindíveis.

O DIA QUE OS PORCOS MORRERAM PRAIA: CUBA, 1961

Cuba é bombardeada por aviões B-26, são caças cedidos pelos EUA, mas pintados com bandeiras cubanas, um destes pousa em Miami após o ataque. A mídia estadunidense divulga que há um levante da força aérea “de Castro”. O objetivo do ataque era criar uma zona de exclusão aérea (que é como se diz atualmente).  Na prática se tratava de destruir os poucos aviões de combate cubanos (sete ou oito), e assim facilitar a invasão por terra (que é também o mesmo que se faz até hoje).


Cuba exige o fim dos ataques estadunidenses, estes negam qualquer relação com os bombardeios e mostram fotos do “avião cubano” que havia descido em Miami. Os britânicos apóiam os estadunidenses, dizem que “o governo do Reino Unido sabe por experiência que pode confiar na palavra dos Estados Unidos”.


Os bombardeios continuaram. Aeroportos foram atacados. Mas os sete ou oito caças cubanos não foram destruídos. Estavam espalhados e escondidos na ilha, esperando o melhor momento para contra-atacar. Cuba estava preparada para se defender.


16 de abril de 1961, 23:45, mercenários cubanos treinados pela CIA desembarcam em Praia Girón. A primeira linha de defesa cubana são seus recifes naturais. Os grandes barcos invasores são bloqueados, os botes encontram dificuldades. Milicianos revolucionários recebem os mercenários a bala. O terreno e o mar dificultam o avanço dos invasores. Chegam reforços revolucionários.


Quando o dia nasce, a aviação cubana decola. A estratégia de Fidel é sábia. Primeiro afundar os barcos com os suprimentos do inimigo, depois derrubar seus aviões, para por último derrotar os mercenários em terra.


Dois navios invasores com armas e suprimentos são afundados. Setes caças dos EUA são colocados fora de combate, quatro pilotos estadunidenses morrem.


19 de abril de 1961, pela manhã, o chefe mercenário envia mensagem à CIA dizendo: “Por favor, não nos abandonem”. À tarde a invasão estava liquidada. 1197 mercenários foram capturados.


Os invasores haviam sido treinados na Nicaraguá e na Guatemala por cerca de um ano. O plano da CIA surgiu no governo de Eisenhower (um republicano como Bush), mas foi executado por Kennedy (um democrata como Obama). O que prova que uns e outros faziam e fazem a guerra, inclusive os agraciados com o Nobel da Paz.


O plano da CIA era financiar e apoiar um levante que ocupasse ao menos uma parte da Ilha. Na sequência os golpistas seriam reconhecidos como governo oficial e legítimo, o que possibilitaria o envio de tropas estrangeiras para liquidar definitivamente a revolução do Che, de Fidel e de todo o povo cubano.


Fracassaram os invasores. O povo cubano venceu. A Revolução derrotou os dólares, a CIA e os mercenários. Estava escrito um dos belos capítulos da Revolução Cubana.    


CONVITE DE SUICÍDIO

 

Companheiros,

considerando os últimos avanços

das ciências filosóficas e literárias,

fica estabelecido que a vida não vale a pena.

“A vida é a mais cruel

das doenças sexualmente transmissíveis.”

Assim sendo,

fica decretado que a vida deve ser abolida.

Caminhemos serenos para gesto definitivo.

Escolhamos a rocha mais alta

e saltemos

(a Golden Gate e a Rio Niterói são boas opções também).

Vamos morrer em série,

estraçalhemo-nos uns aos outros,

uns sobre os outros.

Metaforizemos a existência,

esse monte de carnes e ossos retorcidos.

Um tiro seco também serve.

Esqueçam as meninas

e as cervejinhas

(esses agentes da procrastinação).

Vamos de encontro ao trem,

ou deitemos nos trilhos.

Companheiros, vamos!



Vai indo que eu já vou,

me espera lá!