terça-feira, 26 de abril de 2011

Centenário de Ernesto Sábato

Ernesto Sábato: Auto-retrato
O argentino Ernesto Sábato é, para mim, um escritor fundamental, que consulto com freqüência: porque me reconheço em seus personagens, na introspecção de Juan Pablo Castel, por exemplo; e também porque me alimento com as porções humanismo de seus ensaios. De Sábato é preciso falar na primeira pessoa, ainda mais nestes momentos em que o escritor caminha para completar seu primeiro centenário.

Lembro-me de que conheci Sábato através de Albert Camus (outro que considero fundamental). Vale registrar que foi Camus um dos primeiros a reconhecer o talento do escritor argentino. Na Internet encontrei o livro Mensageiros da Fúria – uma leitura camusiana de Ernesto Sábato –, de Janer Cristaldo. Procurava um e encontrei o outro. Desse dia em diante as leituras foram se sucedendo: O Túnel, Homens e Engrenagens, Sobre Heróis e Tumbas, El Escritor y sus Fantasmas, La Resistencia, Uno y el Universo e por aí vai. Tenho livros de Sábato de uma simpática edição do diário La Nación, todos em espanhol. A leitura destes me faz lembrar do outro Ernesto, o Guevara, que dizia que os latino-americanos são o mesmo povo mestiço, somos mesmo, inclusive nós, brasileiros, nossas línguas latinas são parecidas. 

Ernesto Sábato é um homem de transição e movimento. Aproximou-se do marxismo e da ciência, depois afastou-se. Caminhou para a literatura e os ensaios, até que uma doença visual lhe restringiu as possibilidades de escrita e leitura. Teve contatos com os surrealistas franceses nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial. Em 1984, presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), que investigou os crimes da ditadura militar argentina. Atualmente, Sábato se dedica à pintura, seus quadros são sombrios como seus personagens.

Ernesto Sábato: Dostoiévski
Há um eixo sempre presente em Sábato: o humanismo radical. É este humanismo que caracteriza o escritor argentino, e que o aproxima de homens como Albert Camus. Como Camus, Sábato é um estrangeiro: um latino-americano na Europa, ou um europeu na pampa argentina, ou um humanista na ciência, ou o contrário disso.

Para Sábato, os argentinos, principalmente os portenhos, caracterizam-se fundamentalmente por desencontros: são europeus na América e americanos na Europa. O Tango é a expressão mais bem acabada destes homens de prata. Talvez por isso o nascimento do Tango só poderia ter ocorrido em Buenos Aires ou Montividéu, como afirmou Jorge Luis Borges.

A literatura e as letras são, para Sábato, a melhor forma de enfrentar fantasmas e de derrotar engrenagens mecanicista, ou seja, de caminhar por vias que a ciência pura não pode explorar. A literatura é o campo de conhecimento capaz de promover o encontro e a síntese dos mais diversos saberes: da história à física e da filosofia à geometria etc. Além disso, a literatura não inibe o eu (sujeito), pelo contrário, liberta-o.

O escritor tcheco Milan Kundera (outro fundamental) diz que seus personagens são o conjunto de suas possibilidades pessoais não realizadas. É neste sentido que Sábato percebe a primazia da literatura, os romances são a objetivação do seu ímpeto de construtor. A literatura, ao penetrar a alma dos seres, ilumina o mundo com holofotes únicos. Os ensaios são portadores da mesma potencialidade.

Ernesto Sábato: Alquimista
Segundo Sábato, vivemos um período de transição e de crise de toda a cultura ocidental. Nesta crise se incluem o capitalismo, a racionalidade produtivista que lhe é própria e até mesmo o marxismo. Para ele, a crise do projeto marxista é parte da derrocada da cultura ocidental baseada razão, que se realiza afastando-se do mundo cotidiano e de questões também fundamentais. Os personagens e quadros de Ernesto Sábato são sombrios exatamente por serem parte de um mundo em crise. Sábato rechaça a velocidade produtivista do mundo moderno, que inviabiliza gestos não utilitários à produção, como os bate-papos nos cafés de Buenos Aires. Segundo o escritor argentino: “Não se deve desperdiçar a graça dos pequenos momentos de liberdade que podemos gozar: um mesa compartilhada com pessoas queridas, uma caminhada entre árvores, a gratuidade de um abraço.”  

Mas a questão não é negar e abandonar a racionalidade (o marxismo inclusive). O problema é muito mais sútil. Trata-se de recolocar a razão em seu devido lugar. A questão, para Ernesto Sábato, é romper a preponderância da racionalidade utilitária e produtivista, incorporando outras dimensões ao real, como os sonhos, os desejos e os pequenos prazeres.

A obra de Ernesto Sábato é um protesto contra a mecanização da vida e dos homens. Parafraseando os títulos dos seus ensaios, é uma luta dos homens contra as engrenagens, ou do escritor contra seus fantasmas. Em um dos seus últimos textos (La Resistência), Sábato afirma: “é preciso resistir, nos salvaremos pelos afetos.”

Num mundo que padroniza e coisifica, homens como Ernesto Sábato são imprescindíveis.
JC

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