domingo, 22 de setembro de 2013

Juan Pablo Castel: o túnel sem saída

“Basta dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou Maria Iribarne; suponho que o processo está na lembrança de todos e que não são necessárias maiores explicações sobre minha pessoa.”

Há personagens literários que fascinam e retêm, Juan Pablo Castel é um deles. Castel veio ao mundo em 1948, pela caneta do argentino Ernesto Sabato, em seu primeiro romance, O Túnel, que começa com a confissão acima citada.

Juan Pablo é um assassino, como Meursault, o estrangeiro de Camus; e como Rodion Românovitch Raskólnikov, de Crime e Castigo, de Dostoiévski. Um túnel infinito – transcontinental e ultramarino – liga estes três matadores. É o túnel da incomunicabilidade.

Por que Castel matou Maria Iribarne? Esta é a pergunta que ele tenta responder ao longo de doze dezenas de páginas chamejantes, registradas em primeira pessoa, como não poderia deixar de ser. A julgar pelo relato do Juan Pablo a   frustração motivou o assassinato. Maria teria sido a única pessoa que compreendeu sua pintura, Castel se apaixou e se frustou. Ele – “atormentado em um minucioso inferno de raciocínios e imaginações” – concluiu pela falsidade de Maria, que seria como uma puta, e a assassinou com um punhal, que poderia ser a machadinha de Raskólnikov.

Mas esta é apenas a versão de Castel, a que ele nos oferece, e isso não é o mais significativo do relato. A questão fundamental é: o que a solidão quase absoluta faz com um homem? Seja num quarto de pensão da Rússia de Dostoievski ou na pampa argentina de Sabato.

Juan Pablo Castel é mais do que um homem ensimesmado, ele se define como um “ser encaixotado”, vive num túnel sem saída e sem acesso a Maria Iribarne. A sensação de asfixia é total. Apesar de aparecer pelo avesso nos pesadelos do pintor assassino. Ele se imagina despertando num quarto escuro e infinitamente grande, sem limites. O subsolo de Dostoievski é o ateliê de Castel, ou as ruas de Buenos Aires, ou a Recoleta.

“Um solitário total” pode “ligar o gás e se matar de solidão, de cansado de viver”, como o homem chamado Alfredo, de Vinicius de Moraes. Ou pode ser um Castel, e afirmar:

“A verdade é que, muitas vezes, havia pensado e planejado minuciosamente minha atitude no caso de encontrá-la. Creio ter dito que sou muito tímido; por isso havia pensado e repensado um provável encontro e a forma de aproveitá-lo. A dificuldade maior, com que sempre tropeçava nesses encontros imaginários, era a forma de entrar em conversação.”

Ou: “É normal que nas noites de insônia sejamos teoricamente mais decididos que durante o dia, ante os fatos.”

O fato inequívoco é que o mundo é muito grande, e escapa dos “raciocínios e imaginações” de Juan Pablo. Mas também é fato que o mundo é grande para abrigar outros tantos Castels: na planície argentina, no planalto paulista e em qualquer lugar.


JC



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