segunda-feira, 16 de abril de 2012

anaCrônica da pré-história ideológica

Despertador. Sono interrompido. Noite mal dormida. Chuveiro, leite, pão amanhecido, ônibus. Oitenta minutos no trânsito. Calor. Fumaça. Cansaço. Trabalho. Café. Barulho. Mais café. Mais cansaço. Mais barulho. Almoço.

Marmita: arroz, feijão e bife.

Retorno. Corredor. Dor de cabeça. Mal súbito. Visão nublada. Tontura. Queda. Vômito. Convulsão. Espera por socorro. Espera por socorro. Espera por socorro. Não compensa esperar socorro. Remoção improvisada. Hospital. Novo desmaio. Outra convulsão. Aguardar: não há médicos. Aguardar: não há médicos. No hospital público não há médicos.

Nova remoção. São Paulo: engarrafamento, chuva, xingo, tensão. Noventa minutos no trânsito. Outro hospital público. Ficha. Senha. Espera. Previsão: cinco horas de espera. Sala de espera de hospital tem televisão barulhenta que transmite a rede globo. O corpo declina, prefere morrer em casa. Última remoção. Casa. Cama. Sono.

Dia seguinte pela manhã. Todos concordam que foi um absurdo. Seria preciso exigir direitos. Bater o pé. Xingar. “Eu nunca teria deixado você sair sem atendimento. Quando é assim tem que fazer raios-X, tomografia. Eu chamaria o responsável. Eu chamaria a polícia e a imprensa. Queria ver se eu tivesse lá. Ah, se eu tivesse lá!” Consenso.

Almoço. Marmita: arroz, feijão e bife.

Todos continuam achando que foi um absurdo, que seria preciso gritar e xingar. “Eu nunca teria deixado você sair sem atendimento. Quando é assim tem que fazer raios-X, tomografia. Eu chamaria o responsável. Eu chamaria a polícia e a imprensa. Queria ver se eu tivesse lá. Ah, se eu tivesse lá!” Consenso.

Na pré-história ideológica, protestar é um verbo que se conjuga sempre à distância, na condicional e em primeira pessoa. Quem grita mais chora menos, ou quem pode mais chora menos, de qualquer forma fica estabelecido que alguém vai ter que chorar. Furar fila não é problema, se tomamos a frente. A falta de médicos não é problema, se não estamos precisando de atendimento. Na pré-história ideológica a corrupção se instalou em cada um. Na pré-história ideológica a palavra povo ficou oca, sem miolo. O outro é uma abstração. Dente por dente, olho por olho: mundo cego e banguela.

Retorno. Banheiro. Barulho. Café. Tédio. Mais barulho. Mais café. Mais tédio. Fim do expediente. Ônibus. Oitenta minutos no trânsito. Calor. Fumaça. Casa. Televisão. Cama. Sono.

Cândido Portinari: Os retirantes (1944)


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