sábado, 20 de outubro de 2012

12º Texto


* Nota preliminar: este texto é parte do debate sobre o livro A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Os textos anteriores podem ser acessados aqui: Polêmica (A insustentável leveza do ser)

Caro JC..

O Acordo Categórico Com o Ser em Kundera é, como a expressão que lhe corresponde, uma afirmação do ser e, evidentemente, da vida. Isso para mim é mais e bem mais do que claro, se há uma divergência sua quanto a esse detalhe fundamental seria bom se pudesse esclarecer.

Argumentei e citei trechos do livro que considero fundamentar meus argumentos para explicar que o Acordo Categórico é quem está por trás do Gênese, e não o contrário. Essa ideia não é minha, é do próprio Kundera, é assim que penso que os trechos do livro citados por mim esclarecem muito bem. Os princípios do Gênese que Kundera cita servem exatamente para explicar o kitsch que legitima o Acordo Categórico Com o Ser, ou seja, a afirmação do ser e não sua negação. Isso eu penso ter respondido com citações do próprio Kundera, que não termina a explicação do conceito do Acordo Categórico no Gênese, continua a desenvolver a ideia mais adiante e, inclusive, num parágrafo todo onde narra um desfile do 1º de maio e lá distingue o Acordo Categórico Com o Ser, um acordo com o ser enquanto tal, de sua forma, o desfile do primeiro de maio: a palavra de ordem do desfile é “viva a vida”, e não “viva o comunismo”. Como em todo apelo das organizações de esquerda, das igrejas, dos partidos e dos movimentos políticos, à direita e à esquerda, as massas.

Portanto:

Acordo Categórico Com o Ser = acordo com o ser enquanto tal (afirmação fundamental do ser).

Gênese = Kitsch, forma pela qual se afirma o ser, forma atrás da qual escondemos aspectos indesejáveis desse ser. Essa forma tem os seus princípios, ou seja, o homem é bom, o mundo foi criado como deveria ser, etc.

Por isso não discutimos coisas distintas, creio que compreendi seu argumento, que nega que marxistas e anarquistas possam ser enquadrados na definição de Kundera. Ocorre que a definição de Kundera, a meu ver, é essa afirmada acima por mim, e não se trata meramente de uma compreensão arbitrária de minha parte, tanto que exemplifiquei com citações do próprio Kundera. Se você discorda, ok, mas então é necessário me apontar meu equívoco na interpretação, afinal, seu argumento é justamente e exatamente o que neguei em meu último texto. Se você acha que lançar marxismo e anarquismo na definição do Kundera significa falsificar ambos, então você continua achando que o Gênese é o fundamento do Acordo Categórico, quando é exatamente o contrário e é o que penso ter demonstrado a partir do próprio Kundera. É aqui que é preciso desenrolar o novelo. Repetindo para engessar a ideia: Kundera não afirma o Gênese como fundamento do Acordo Categórico, mas faz exatamente o contrário. Para que você sustente que Kundera afirma o Gênese como fundamento é preciso exemplificar.

Sobre o acordo categórico, concordo com você. É por isso que Kundera afirma repetidamente que a fraternidade entre todos os homens não poderá ter outra base senão o kitsch: porque sempre se insinua algum tipo de acordo, porque a vida, perfeita ou imperfeita, é inevitável.  Os homens reunidos em grupos, que partem do princípio de que viver é preciso (absolutamente natural que assim seja), precisam igualmente corrigir a vida para permiti-la, e é desse ofício que brotará o kitsch. Esse acordo, de que viver é preciso, é exatamente o de Kundera, acordo com o ser enquanto tal. Ou seja: enquanto SER.

Acreditar que viver não é preciso não é o mesmo que acreditar que morrer é necessário. Viver não é preciso, mas ninguém, a despeito de poder morrer, a rigor, quando bem quiser, tem escolha. Morrer, antes de ser uma opção, é uma condição. Camus não conheceu nenhum suicídio filosófico, mas eu afirmo, com certa tranquilidade de consciência, que eles aconteceram. Não importa se soubemos ou não. Chegar à conclusão de que viver é uma completa inutilidade dolorosa coloca qualquer um a beira do suicídio, e não há como afirmar que tantos não o fizeram. Mas nosso amigo Souzalopes estava certo...normalmente, em suas amplas razões, os suicidas buscam mesmo uma vida ao contrário.

A partir da definição de Kundera, não há dúvida que entre ele e Camus se insinua algum acordo com o ser. Mas é exatamente a partir daquele definido no romance, um acordo que não tem e nunca teve como fundamento o Gênese.

O menor dos problemas da burrocracia stalinista é o kitsch, seu mal foi muito maior. O kitsch é um dado da existência, está no bem e está no mal, no marxismo, no stalinismo, no anarquismo, no fascismo, na religião, em tudo. Sem mistificações.

O kitsch é a máscara com que se afirma o acordo com o ser. É a máscara que encobre aspectos problemáticos, críticos, a ponto de serem indesejáveis. É somente isso o que vi no belo verso de Brecht: ao receber críticas, ao invés de encará-las ou respondê-las, faz um apelo a sua própria bondade: não é outra coisa senão o profundo acordo categórico com o ser e o kitsch kunderianos.

O trecho do parágrafo que cita sobre a definição do acordo categórico com o ser não passou despercebido por mim, sobretudo quanto diz que “(...) muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.” Pouco importa como, por que e por quem.

Sobre Nietzsche, está correto que a transvaloração dos valores é o contrário da relativização dos valores. Ocorre que Nietzsche, para chegar até aí, passou pela denúncia da relativização de todos os valores, teve de entender a construção histórica de todos os valores e de toda a moral (especificamente da tradição judaico-cristã). Conforme ele afirmou sobre o que seja a verdade, “um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são." Nietzsche foi o precursor da pós-modernidade quando colocou em questão o valor dos valores. A partir daí, da compreensão dos valores como construção histórica e por isso mesmo relativos, é que afirmará a transvaloração dos valores, a imposição de novos valores, negação da tradição moral judaico-cristã.

Bem, fico por aqui também...

Abraços do camarada
Olavo

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