sexta-feira, 14 de junho de 2013

Passe Livre para a Luta

Virada Cultural, maio de 2013, uma sensação: a cidade vai explodir. Faltava uma fagulha, que veio pouco depois, foi o aumento das tarifas. Outra sensação: grandes incêndios podem nascer de pequenas fagulhas.

Quinta-feira, 13 de junho (13J), sirenes e barulho de helicópteros o dia todo. Vou cruzando a cidade à pé. Levo comigo a sensação de que eles (burguesia, grande mídia, polícia e estado) estavam vencendo a batalha política, fazendo passar a versão de que os manifestantes contra o aumento das passagens são vilões e eles mocinhos.

Chego na Praça Ramos pela Xavier de Toledo, o aparato policial bloqueia o Viaduto do Chá para impedir o acesso à Prefeitura: são uns vinte “homens” do choque, algumas viaturas e motos. Manifestantes detidos são levados para o outro lado do Viaduto, apesar da manifestação já ter avançado. Quem foi pego com vinagre foi pro vinagre. Vinagre virou crime.

Me oriento pelo movimento dos helicópteros midiáticos e pelas informações da população. Corto para a Praça da República, encontro o Ato um pouco à frente: com as costas na Ipiranga e o peito na Consolação. O aparato policial é disparatado, a manifestação é pacífica. Chego a pensar que a violência policial não daria a cara, porque seria um tiro no pé deles, a mídia estava presente e a manifestação era claramente pacífica. Minha ilusão durou 100 metros e 10 minutos. Os “homens” da lei (do capital) fecham a Consolação, uma coluna de “homens” com escudo corta a manifestação pela direita, explodem as primeiras bombas (esse começo foi amplamente divulgado e é incontestável). A manifestação grita “sem violência”, a polícia atira bombas. É o começo da nossa vitória moral e política. Os mocinhos atiram bombas enquanto os violões gritam “sem violência”? Não cola. Dezenas de vídeos mostram quem são os vândalos, os bárbaros, quem começou, quem é violento...

“A burguesia fede” e peida gás lacrimogêneo, são peidos explosivos, com som de bomba. O fedor é insuportável. Desespero. Não vejo nada e não sei para onde ir. Desço para a Amaral Gurgel. Encosto na parede e tento respirar. Mais peidos. Tento encher o peito de ar, dobro a esquina para a Cesário Mota. Um companheiro (ou companheira) não consegue correr, é cercado (ou cercada) e apanha dos fardados. Agonia. Que agonia. Um companheiro ou companheira apanha porque ficou para trás. Impotência e revolta. Bombas e viaturas circulam em alta velocidade. Muito gás. Me abrigo num bar. Um homem bebe cerveja e defende a violência policial. Não digo nada, apenas olho nos seus olhos. Esse homem recalcou toda a história do Brasil, toda violência e todos massacres, tem tanto medo da polícia que passou a amá-la, tem ódio dos que o fazem lembrar daquilo que ele recalcou, é a ética da servidão: amar o opressor sobre todas as coisas e a ordem como a si mesmo. O aparato militar disparatado serve para isso: dissuasão, internalizar a repressão e o medo. A ética da servidão corre nas veias daquele homem, ele vive embriagado pela ética da servidão. Lembro-me das palavras de Euclides da Cunha: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.” Porque não suporta seu temor pelos 5 mil soldados, o homem embriagado pela ética da servidão transforma seu medo em amor, é um amor medroso e covarde.

Viaturas e sirenes arrancam, freiam e derrapam. Barulho insuportável. Bombas. Medo. Mas um copo salta de algum prédio para o teto de uma das viaturas, e estilhaça, nem todos são seguidores da ética da servidão.

Recuperado, tento avançar para a Avenida Paulista: Frei Caneca fechada pelos “homens” de farda, Augusta, Bela Cintra e Consolação idem. Os “homens” da lei do capital param a cidade. Vou sendo empurrado para Higienópolis. De dois apartamentos a burguesia higienopolista nos xinga, porque o barulho de bomba atrapalha a novela. Gás lacrimogêneo sobe para os apartamentos higienopolistas: a burguesia experimenta seus próprios gases.

Um garoto desce carregado, ajudo como posso, ele se recupera uns dois quarteirões depois, fica em pé com as próprias pernas e diz que quer voltar, que quer lutar até a morte.

Tento subir novamente a Angélica rumo à Paulista, vou pela calçada da Praça Buenos Aires. Bombas. Gás. “Homens” com escudos descem a Angélica. Todos correm. O inusitado acontece: um sujeito com fones de ouvido se exercita, faz cooper, corre na direção das bombas, alheio à situação, alerto-o, ele vira e dispara, me ultrapassa e some.

Encontro um grupo de manifestantes, mais ou menos quinhentos, eles dizem que os “homens” de farda estão cercando a região. Sigo com o grupo por alguns quarteirões. São quase 21:30. Estou exausto. Apesar do risco, me separo do grupo e me retiro sozinho. Encontro uma viatura da tropa de elite de SP, aquela que arrota morte, pneus e rodas brilham no escuro, impecavelmente polidos com a cera da morte. Sigo em frente na rua escura.

Resultado final: centenas de presos, jornalistas agredidos, não manifestantes baleados, dezenas de feridos. Mas a verdade explode em vídeos e fotos: policiais quebrando o vidro da própria viatura, atirando em jovens ajoelhados e em moradores que filmavam de suas casas. Uma denúncia para cada bomba. De um lado gritos de “sem violência”, do outro bombas. A força bruta dos cassetetes e microfones perdeu a luta política, os microfones da grande mídia não puderam redimir os cassetetes. Os mocinhos fardados da burguesia apareceram de cara limpa, como são: repressores.

Nos olhos cheios de lágrimas e orgulho de todos se lia “amanhã vai ser maior”. E vai mesmo. Pequenas fagulhas podem causar grandes incêndios, especialmente no solo seco de São Paulo. A impressão é que o problema não é só o aumento nem só o transporte público precário. É tudo isso e muito mais. Os gestores da burguesia, se tiverem siso, recuarão (e assim ganharão algum tempo), se não... Ninguém sabe o que pode acontecer. “Amanhã será maior”. O escudo não pode conter o oceano.

Última sensação: a revolta e a solidariedade dos manifestantes e o tamanho da repressão me fazem pensar que esse 13 de junho pode marca a virada da maré, pode colocar o Brasil no mapa dos levantes mundiais.

Allende: “não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.” Novamente se abrem grandes alamedas para a passagem do homem livre, como previu Allende há 40 anos. Parafraseando Drummond: Uma rua sai de São Paulo e vai dar em qualquer lugar do mundo. “Ó abre alas que eu quero passar. Eu sou da lira, não posso negar”

E por fim. Ernestito, felicitaciones por su cumpleaños.



São Paulo, 14 de junho de 2013






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