sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

“MÍDIA, REALIDADE, SOCIEDADE HIPÓCRITA”

Em dois dos três bilhetes encontrados pela polícia no apartamento de Mateus da Costa Meira, o matador do MorumbiShopping, lia-se a mesma mensagem: “Mídia, realidade, sociedade hipócrita”. No terceiro, lia-se: “Isso é efeito da droga. Eu não sou assim”. Além disso, descobriu-se que Mateus possuía um distúrbio persecutório (mania de perseguição), e que já havia permanecido internado em uma clínica psiquiátrica.

Até aqui tudo bem! Dos males o menor! Para a alegria da classe média, o caso de Mateus é isolado, e apesar do susto os shoppings ainda podem ser considerados seguros. Não é fácil, mas combatendo as drogas e o comércio de armas, tratando os loucos, melhorando a qualidade da TV... Há uma luz no fim do túnel!

Os otimistas pararão por aqui. Apontadas as causas e as soluções do problema eles poderão dormir tranquilos. Contudo, e se continuássemos a refletir? E se considerássemos a mensagem “Mídia, realidade, sociedade hipócrita”? E se lembrássemos que o próprio Mateus é filho da classe média, e que ele tinha “tudo para dar certo”?

No início de 2002 morreu na prisão Fernando Dutra Pinto, o sequestrador que raptou Patrícia Abravanel, a filha de Silvio Santos, e depois voltou à casa do apresentador mantendo-o como refém. Fernando, ao contrário de Mateus, era filho de uma família humilde da periferia de São Paulo, manejava bem armas de fogo e não apresentava nenhum distúrbio.

Ousado e inteligente, Fernando, ao invadir a mansão de Sílvio Santos, protagonizou um daqueles raros momentos em que a realidade supera a ficção, como nos ataques de 11 de setembro. Coerente com os ensinamentos do velho Silvio, o sequestrador “topou tudo por dinheiro”, apostou a vida e a “liberdade”. Perdeu tudo. Cercado pela polícia acabou preso e depois morto de forma misteriosa. Mas por alguns momentos a criação submeteu o criador, e o velho apresentador, acostumado a explorar a intimidade e as desgraças da vida, acabou tendo seu drama transmitido para todo o país, proporcionando entretenimento de qualidade (para os padrões do SBT) ao ser vitimado pela idéia de topar tudo por dinheiro levada às últimas consequências.

O que chama a atenção em ambos os casos é o novo: balas que saem da tela e sequestrador que volta ao local do crime. Contudo, as semelhanças param por ai. Enquanto Fernando era um profissional da violência, Mateus, por outro lado, parecia querer devolver uma violência sofrida. Ele dizia-se perseguido por vozes, teria atirado na platéia da sala de cinema por ter visto seus perseguidores nela. A questão é saber o que diziam as tais vozes. Seria: Onde você mora? Vem sempre aqui? Onde você trabalha? Onde você estuda?

O terrorismo individual, como o praticado por Mateus, costuma acontecer nos locais em que a pessoa sente-se mal. Nos Estados Unidos aconteceram casos em escolas e também em escritórios. O assassino parece querer vingar-se de um Mundo frio e indiferente; é como se ele gritasse: “Olhem, eu estive aqui por tanto tempo e ninguém me deu atenção. Morri aqui dia após dia e ninguém viu. Agora todos pagarão”. O assassino não reivindica nem dinheiro nem nada, apenas vingança. Diferentemente de Fernando que reivindicava os benefícios oferecidos pela civilização inacessíveis a jovens de periferia como ele.

A lição dessa história toda é que raios caem duas vezes no mesmo local, como caíram no jardim da família Abravanel. Da mesma forma outros matadores como Mateus aparecerão mundo afora, e como raios trarão a morte, resta saber se em cinemas, dinâmicas de grupo, academias de musculação ou em praias. Em geral os matadores serão jovens de classe média que sentem na carne o peso do distanciamento entre as possibilidades pessoais e as exigências estéticas, profissionais, culturais etc. Quanto às carreiras de sequestrador, assaltante, entre outras a serem criadas, as vagas estão abertas aos mais ousados que queiram grana; para os menos corajosos, que sejam pagodeiros ou então jogadores de futebol.

De resto, saber se Mateus premeditou o crime ou não é coisa menor, depois de praticado o ato isso nada altera. Preocupante é saber que o rapaz (Mateus) que é maluco esteve tanto tempo entre os “normais” e ninguém o notou. Quanto a saber se os filmes, principalmente os de hollywood, influenciam ou não ações violentas, como disse Contardo Calligaris: “Se o cinema não influência nosso comportamento, quem o faz: os tratados de ética do século 17?” Na verdade a influência do cinema pode ser sentida menos na ação de Mateus e mais na comoção após o ocorrido, já que se fossem milhares de “soldados inimigos”, “terroristas”, ou mesmo civis mortos em uma terra distante tudo bem, o problema é quando morrem pessoas inocentes que nos filmes são sempre salvas no final.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário