quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O GRITO

O rapaz recém separado largou tudo para morar num conjunto habitacional na periferia da cidade – mas isso é o menos importante, até porque ele estava contente e feliz. A periferia e o trem cheio não eram bichos de sete cabeças, dava pra tirar de letra. A temida violência também não era coisa de outro Mundo, conforme ele pensava, ladrão não costuma roubar peão.
E tudo seguia bem, exceto um detalhezinho, exceto um fato que a teoria e a estatística antecipavam, mas que não se observava no antigo bairro do rapaz. Sim. Havia um time verdadeiramente do povo, e não era o do rapaz. Isso o constrangia um pouco. Ele queria se integrar totalmente naquela comunidade que o recebia bem e que ele respeitava, mas havia esse problema. Havia o time do povo, que não era o dele.
Presenciou vitórias do time do povo, e alegrava-se sempre, pela simples razão de que todos ficavam felizes. Os gritos e as explosões de alegria contagiavam o rapaz, que até chegou a ter vontade de comemorar também.
Mas ele lembrava-se de seu nome – derivado de jogadores de seu time do coração – e se reprimia. Lembrava-se das façanhas de seu time – poucas vistas e muitas contadas por seu pai – e se reprimia. Lembrava-se da primeira vez que viu seu time campeão – justamente em cima do time do povo – e se reprimia. Enfim, não comemorava os gols do time do povo, mas se alegrava vendo a vibração nas janelas, nas ruas, calçadas...
Só que havia um probleminha. No fundo do coração do rapaz havia uma dor, todas as vitórias do time do povo, toda aquela alegria não podia compensar a falta de vitórias do seu próprio time, que já acumulava três tropeços. O moço chegou a pensar que seu time poderia ser o do povo, seria maravilhoso. Mas isso não era verdade, era preciso encarar a realidade. Seu pai não poderia ter contado aquelas façanhas para todos os filhos do povo.
Ok. Que fosse assim. Mas, no fundo no fundo, o rapaz sentia muita necessidade de mostrar que seu time também era amado, ainda que não fosse o do povo, e apesar dos tropeços.
Eis que um dia os times do moço e do povo jogaram no mesmo horário, por campeonatos diferentes, mas no mesmo horário. O rapaz ouvia o jogo no radinho, e torcia dentro do trem, balançava os braços e gesticulava. Pensava que o trem era um ótimo lugar para demonstrar amor por um time. Mas terminou a primeira etapa, terminou a viagem e o gol que garantiria a classificação não veio.
O moço acelerou os passos e chegou em casa para assistir a segunda etapa da partida. Mas... Logo de início a decepção. Todos os canais de TV transmitiam o jogo do time do povo. O rapaz sentiu um aperto no peito, sentiu-se minoria. Pensava nos craques que jogaram por seu time, pensava no seu pai torcendo do outro lado da cidade. Aí pensou em ouvir a partida pelo rádio novamente, mas não teve forças, o adversário parecia estar sempre a meio caminho do primeiro gol, que seria fatal.
Decidiu acompanhar tudo pela internet, porque um gol sofrido pela rede de computadores dói menos que um sofrido pelo rádio, apesar de se saber que a rede balançou da mesma forma. É como uma injeção letal, um 1 x 0 pela net seria uma morte sem dor. Então abriu no computador uma tela com os resultados da rodada e as informações atualizadas: tempo, comentários, placar...
Alguns minutos depois houve uma explosão de alegria no conjunto habitacional: xingos, fogos, gritos... Era gol do time do povo. E o computador depois atualizou e confirmou a intuição. O tempo passava rapidamente. O time do moço não levava gols, mas não os fazia também, e a classificação ia ficando com o adversário. E então mais xingos, mais fogos, mais gritos... Outro gol do time do povo, pensava o angustiado rapaz com seus botões. E pouco depois o computador confirmou as suspeitas.
Havia alegria no bairro. Mas o moço estava amargurado. Um golzinho! Só um golzinho! O rapaz queria mostrar seu amor também, queria mostrar que seu time também existia. Mas o cronômetro passava dos 40 e nada. Ele não conseguia mais se manter parado em frente à tela, levantava-se, ia da sala pra cozinha e voltava. Os pensamentos se sucediam. Que histórias do seu time ele contaria? De quais craques falaria? De que vitórias? Haveria um dia somente o time do povo?
E então ele ouve outros gritos. Eram meio estrangulados, meio distantes, meio roucos. Pensou que aqueles não eram gritos de gol do time do povo. É preciso velocidade. O rapaz corre pro rádio, ouve do locutor. É gol:
- Goooooooooooooool!
 Que golaaaaçoooo! Um petardo aos 42 do segundo tempo!
O rapaz vai do rádio pra janela, descontrolado. O verbo se fez carne, a carne se fez verbo, se fez berro, se fez festa, se fez grito:
-  É goooooooooooool! Goooooooooooool! Gooooooooooooooooooool!

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