segunda-feira, 4 de abril de 2016

GRIPE SUÍNA

Um rifão: com doença não se brinca não, se for a gripe suína então... (E aqui vai rifão mesmo, porque é palavra da época da Dona González e porque rima com ancião e também com então). Segundo Dona González, os vírus que começam com H são os piores, daí sua preocupação com o dos porquinhos, o dito H1N1. E isso tem tudo a ver letra cabalística H, que é a nossa sexta consoante e oitava letra. Na média dá sete. E sete são as trombetas do apocalipse, assim como sete palmos de terra esperam os descuidados.

Toda atenção é pouca, todo cuidado é insuficiente. E a nossa amável aposentada sabia disso, apesar de não receber os e-mails catastróficos que diziam que o governo estaria impedindo a divulgação de informações (conclusão esta que a velhinha alcançou por conta própria, como veremos à frente), que havia vários óbitos de médicos e por aí vai. Dona González tinha vasta experiência de outras epidemias.

Era preciso lavar as mãos, era preciso evitar aglomerações. Ela não chegou a cortar a conversa matinal com o barbeiro da esquina, mas mudou a rotina, agora batia na porta de vidro à espera de que algum desavisado lhe abrisse. Nunca encostar em maçanetas! Esta era sua regra de segurança número 1. O assunto das conversas matinais? Gripe suína, óbvio, desde a evolução da taxa de mortalidade até as teorias dos interesses por trás da criação da doença. Neste ponto Dona González concordava com o barbeiro, muitos lucravam com a doença, que era criada em laboratório. Mas os acordos terminavam por aqui, ele defendia que as multinacionais farmacêuticas haviam forjado o vírus, para ela os criadores seriam os fabricantes de máscaras. Houve até um cliente do barbeiro que chegou a esboçar uma terceira via, a teoria cartelização da criação do vírus, que teria surgido pelas mãos de uma coalizão de fabricantes de máscaras e de remédios. Mas apesar da solução intermediária, não houve acordo. Enfim, falava-se de tudo, menos o porquê dela agora bater na porta em vez de empurrar, o barbeiro não percebeu, ela não contava, melhor assim.

Terror mesmo era o Metrô! Não tinha como fugir. Afinal era preciso comparecer ao médico quinzenalmente. A grande tortura eram as opções de segurança, escolher é sofrer:

Opção 1 – sentar no banco dos idosos e ficar exposta aos vírus despejados de cima para baixo.

Opção 2 – viajar em pé e ter que segurar nos apoios, que certamente estavam todos infectados.

Escolheu a última opção. Carregava álcool em gel e poderia desinfetar as mãos. Além disso, rapidamente desenvolveu uma espécie de surfe metroviário, modalidade que consistia em viajar com as mãos no bolso e, portanto, sem se apoiar. Às vezes dava uma trombada em alguém, mas nada muito grave. Mas havia ainda algum risco (minimizado é verdade, mas não eliminado) de algum “Zé Grandão” tossir e expelir por cima uma quantidade mortal de vírus. Para isso não havia máscara que desse jeito, era preciso proteção divina. Então recorreu a uma bíblia salvadora, fingia que lia, até que alguém ameaçasse espirrar, ela então rapidamente protegia suas vias respiratórias com a bíblia de segurança. Ah! Ah! Ah! Antes do tchin Dona González já estava atrás da sua bíblia protetora. Teve esta ideia no próprio Metrô ao ouvir um pregador inspirado:

- Irmãos, disse o iluminado, tão dizendo que é fim do Mundo. Mas não é não! Não se enganem! Essa gripe não pega em quem crê no nosso senhor Jesus Cristo. Acabei de receber a confirmação da Itália, é notícia fresquinha, direto do vaticano.
           
Dona González chegou a desejar que alguém espirrando sentasse ao lado do evangelizador, só para ver se o dito pregaria com exemplo, ou se discretamente se retiraria (ela julgava esta opção mais provável), mas isto não aconteceu e a dúvida persistiu. De qualquer forma, ela se tranquilizou um pouco depois das palavras do profeta. Se já não pegava nos que acreditavam no nosso senhor Jesus Cristo, os que se protegiam com a palavra divina estavam ainda mais garantidos.
           
Muitas dúvidas existenciais sacudiram a cuca da velhinha. Pagar as compras com dinheiro ou cartão? Se aquele passa de mão em mão, este tem a terrível desvantagem de expor os dedos no momento de digitar a senha. Escolheu a última opção, mas só digitava com caneta e segurando na tampinha, porque assim evitava qualquer contágio. Em alguns casos a lógica privada se chocava com a pública. Ela escolhia a privada, sem pestanejar (e sem trocadilhos). Nunca se arriscou nos banheiros públicos, não queria se contaminar logo após sua higiene. Então simplesmente não fechava as torneiras, a finitude da água era um mal menor, pelo menos neste caso. Se via dinheiro no chão, não pegava, já que aquelas notas certamente teriam sido infectadas por algum desiludido interessado em acelerar a extinção da humanidade.

Com o tempo Dona González aprendeu a calcular o número estimado de infectados a partir dos óbitos e da taxa de mortalidade da doença, e imediatamente constatou que a quantidade de infectados estava subestimada. Se os mortos somavam 1.500 a uma taxa de mortalidade de 0,4%, os infectados teriam de somar cerca de 375.000, e não os 10.000 divulgados. Sim, sim, alguma coisa estava errada, e de qualquer forma para pior, ou as taxas de mortalidade eram muito superiores às divulgadas, ou o era o total de infectados. E não pensem que a amável senhora era incapaz de formular estas deduções, é preciso lembrar que a televisão fazia uma cobertura exaustiva e detalhada da pandemia. De qualquer forma, a única certeza de Dona González é que em governo não se confia, e essa certeza lhe era anterior ao surgimento da televisão, quiçá remontasse a algum período posterior à gripe de 1918 (espanhola) e imediatamente anterior à emigração da velhinha da península ibérica, no período pós-revolução espanhola. Sim, havia um componente anarco-libertário nessa opinião da aposentada: Hay gobierno? Dona González era contra! Desde siempre!

No campo teórico, a velhinha oscilava entre os que enxergavam a nova gripe como desdobramento da espanhola de 1918, e os que opinavam ser a pandemia nova e independente das anteriores. No fundo, no fundo ela torcia pelos primeiros, posto que se assim fosse, não seria impossível ela carregar em seu sistema imunológico as informações necessárias para combater o novo vírus, preciosas informações imunológicas adquiridas em sua terra natal. 

Enfim, os livros de história das pandemias registrarão algum dia quem tinha razão sobre a modalidade da doença. Saber se o sistema imunológico da velhinha já conhecia o novo vírus é impossível. O fato é que Dona Gonzáles sobreviveu. Há quem garanta que ela ainda vive – provavelmente num sítio do interior de São Paulo – e que cria até porquinhos.
 

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