sábado, 7 de setembro de 2013

A insuportável leveza do último tango


Uma coisa é procurar um livro, outra, muito diferente, é ser encontrado pela obra. Naquele dia entrei no sebo com espírito livre, pressentindo novidade. Respondi de maneira meio inusitada ao tradicional “o que o senhor procura?”, disse que procurava algo que não sabia ainda o que era, mas que estava perto. Não deu outra. Na quina da prateleira de literatura internacional avistei a obra O Último Tango, de Maxine Rabel.

Cena de Último Tango em Paris

Já tinha assistido e gostado do filme de Bernardo Bertolucci, O Último Tango em Paris, com Marlon Brando e Maria Schneider. Lembrava-me do apartamento fechado, da cena da manteiga. A famosa cena da manteiga... A cena que derramou lágrimas reais da atriz. Mas ignorava e continuo sem saber se o filme é adaptação do livro, curiosamente, nos tempos do google e da informação total, não encontrei nada que relacione filme e livro. Mas é certo que um gerou o outro. O mais provável é que o livro seja a origem do filme. Mas pouco importa. Um e outro são geniais e se justificam por conta própria.

Não foi o filme que me fez apanhar o livro. Talvez tenha sido a força trágica da palavra tango, ou quiçá minha atração pelo que é terminal, último, e todo tango é sempre derradeiro. Enfim,  comprei o livro e iniciei a leitura no mesmo dia.

Tudo ao mesmo tempo. Um suicídio. Um casamento nascendo, outro morto. Traições. Um apartamento fechado. Uma mulher no cume da parábola de sua feminilidade. Um homem de quarenta e alguns anos, envelhecendo, escorregando pela ladeira que leva o jovem ao velho. Ela Jeanne. Ele Paul. Ela francesa. Ele estadunidense.

Jeanne e Paul procurando apartamento para alugar. A coincidência. O encontro casual no imóvel vazio. Sexo nascendo do improvável, rompendo hierarquias, dispensando nomes e histórias pessoais, reposicionando a vida. Grunhidos substituindo sílabas. O prazer pelo prazer.

Prazer que cobra sua carga de dor. O Último Tango é a história de um homem jogado ao solo, é o nocaute do ex-pugilista Paul, morto nas batalhas do amor, derrotado pelo desafio que fez a si próprio. Um libertino vitimado pelas pauladas do amor romântico. Esperança mínima ceifada. Máquina do mundo repelida. Antimelodia do homem que percebe o anúncio de anos de solidão, e sucumbe abatido por sua carência. Carência que ele tenta esconder de todas as maneiras, inclusive com jabs e cruzados.


Cena de A insustentável
leveza do ser


O Último Tango sopra os ventos gelados da insustentável leveza do ser. E aqui a tradução mais exata do texto de Milan Kundera é de mais valia: O Último Tango toca a melodia da insuportável leveza do ser. Paul sucumbe sob toneladas de leveza. Jeanne tem algo de Sabina. Paul tem muito de Tomas, Franz e Tereza. Todos sufocados sob crostas de civilização.

Rabel tem algo Kundera, ou o oposto, posto que o último tango, do primeiro, toca antes da insustentável leveza do ser, do segundo. Mas isso importa pouco. E é igualmente pouco importante que os dois livros tenham sido adaptados e transformados em execelentes películas. O fundamental é que o último tango baila no ritmo da insustetável leveza do ser, que tem som de último tango.

JC

2 comentários:

  1. Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade

    Milan Kundera

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  2. O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser

    Milan Kundera

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