segunda-feira, 11 de abril de 2011

Notas da barbárie

Alguém invade uma escola do RJ e dispara contra os estudantes. Chegamos finalmente ao primeiro mundo, pela porta do fundo. Também temos nossos suicidas assassinos.


Na verdade isso não é tão novo assim para nós. Em SP um sujeito já havia invadido e matado três pessoas numa sala de cinema. Em dois dos três bilhetes encontrados no apartamento do atirador, lia-se: “Mídia, realidade, sociedade hipócrita”.

Muito se falou do assassino, das vítimas, do filme... Quase nada se disse da mensagem do bilhete. O que só confirma o quanto a nossa sociedade é hipócrita e caduca.

O primeiro mecanismo de defesa social é a desumanização do assassino, separando-o e diferenciando-o dos demais cidadãos. O fato de que os matadores de SP e do RJ tenham vivido anos entre os "normais" não conta.


Em geral os matadores são figuras à la Dostoiévski, com o agravante de serem criaturas intelectualmente muito inferiores em relação aos personagens do escritor russo. A carta do atirador do RJ é exemplo disso. Mesmo assim, pode-se dizer que os matadores estão menos para Memórias do Subsolo e mais para Crime e Castigo. São seres atormentados que não se contentaram em ver a vida passar entre as quatro paredes de um quarto sujo, resolveram agir e matar.


A pergunta de Rodion Românovitch Raskólhnikov, de Crime e Castigo, é simples e incomoda: o que nos impede de matar? Ele responderia: as leis e a polícia. Raskólhnikov praticou um crime porque achava que não seria descoberto.


Mas se alguém está decidido a se matar, o que impede essa pessoa de assassinar terceiros também? O caso do matador do RJ mostra que a religião não é um freio razoável. O rapaz era religioso e mesmo assim derramou sangue próprio e alheio.


Em última instância se matar é afirmar que o custo de viver é maior que o benefício. Qualquer cidadão pode chegar a esta conclusão. A questão é o que se faz desse ponto em diante, já que não há nada a perder. Muitos optam pelo que se poderia chamar de suicídio anônimo, se matam e ponto. Alguns escolhem um suicídio mesquinho e autoritário. Decidem impor sua decisão de morte a terceiros. É o caso do matador do RJ e dos demais.


A hipocrisia social aparece nas propostas que surgem depois dos massacres: colocar detectores de metal e policiais nas escolas, desarmar a população, impedir a divulgação do nome do assassino na mídia e assim vai. Ora, ora, mas o que gera um suicida assassino? Quais são as circunstâncias que brutalizam e amesquinham um ser a ponto de se chegar a tal extremo de baixeza?


Um matador como o do RJ é alguém que quer devolver uma violência que acha que sofreu. O fato de ter alvejado principalmente meninas é muito significativo. As vítimas são, provavelmente, a imagem das garotas que o assassino desejou na sua época de estudante. Neste sentido o massacre do RJ lembra o de Montreal de 1989, quando um atirador matou 14 meninas em uma universidade, história mostrada no filme Polytechnique.


Enfim. Assassinos como o do RJ são o pus das inflações sociais, não é à toa que são mais comuns nos EUA. Por lá e por aqui outros virão e como raios trarão a morte. São os filhos doentes de uma sociedade que brutaliza e amesquinha. 
JC

2 comentários:

  1. Bom texto, provocador, não nego, alias extremamente provocativo. Não sei se concordo mas tb não discordo, a sociedade cria essas figuras para depois da forma mais fácil se abster da culpa ao taxa-los como monstros. Não acho que por ele ter matado mais meninas seja semelhante ao massacre de montreal, na escola tinha mais meninas mesmo e na sala nas primeiras fileiras eram meninas. Acho que seja sim um caso de fixação religiosa, ou como vc diz, a devolução de uma violência...casos como esses são trsites não pelo massacre mas de ver como as pessoas lidam com isso transformando um ser num monstro e se abstendo da culpa, o ser humano é algo complicado e sinceramente me assusta. Achei interessante o seu marcador "dia-a-dia" pois é isso mesmo, todos os dias acontecem massacres pelo mundo todo Como vi num filme um dia desses "há mais de uma forma de se matar alguém"...Estamos cada vez mais longe da civilização e caminhando para a barbarie.

    abs
    Anônimo

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  2. Ontem o entrevistado do Roda Viva afirmou que nos Eua esse tipo de crime acontece em média três vezes por ano. Isso desde de mil novecentos e sessenta e alguma coisa. Mas não ocorreu a nenhum dos entrevistadores perguntar por que esse tipo de crime é tão freqüente na pátria exportadora de “democracia” e “liberdade”. Quanto ao matador de Montreal, parece que ele separou os estudantes por sexo e disparou principalmente nas meninas, então é diferente mesmo. Por aqui o debate tem caminhado para se rediscutir a questão das armas, acho difícil derrotar os fabricantes de armamento sem derrotar o capitalismo, mas certamente quanto menos armas menos mortes idiotas e isso é positivo. Só que acho hipocrisia limitar esse caso do RJ à questão das armas, é uma forma de não enxergar o quão mesquinha e hipócrita é a nossa sociedade, que transforma seres humanos em assassinos como esse atirador.

    Forte abraço.

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