quarta-feira, 27 de julho de 2011

O anjo exterminador (de Luis Buñel)


Mergulho nos meandros do sonho. O anjo exterminador é uma película pesadelo, uma sucessão de imagens incômodas. Sonho mau. Surrealismo. Super-realismo. Asfixia.

Um jantar para mais ou menos duas dezenas de burgueses, pouco importa o número, pesadelos são imprecisos. Hipocrisia de sempre. E o inusitado. Empregados abandonam o palacete antes do jantar, exceto o mordomo; burgueses jantam e ficam presos. Confinados sem explicação. Sem barreira visível, apenas o bloqueio. Quem está fora não consegue entrar, os de dentro não podem sair. Está montada a equação.


Não interessa o porquê do isolamento. O porquê não cabe no sonho. É fato e ponto. Como num pesadelo em que não se consegue despertar, nem mover um músculo, nem gritar. Agonia surda. Um inseto na metamorfose de Kafka, um homem na canoa na terceira margem do rio de Guimarães.


Cenários desabam. Dissolvem-se as convenções. Burgueses são bichos com ternos, gravatas e vestidos de grife. Fedem como qualquer cadáver. Atacam como animais acuados. Golpe de Buñel na burguesia? Com certeza. Mas a crítica é cáustica. Não ameaça apenas burgueses. Atire a primeira pedra quem quer seja indiferente ao confinamento e ao terror. Atire todas as pedras quem for capaz de colocar a moral antes do pão.


Grandes obras dizem mais do que expressam diretamente. As metáforas são perigosas. A peste, de Albert Camus, é o nazismo e mais. O anjo exterminador, de Luis Buñel, ataca o franquismo e mais.


O anjo exterminador é anto e ontológico, é mais do que um filme político. E são superficiais as análises que não ultrapassam horizontes políticos. É por ser mais do que política que a película pesadelo de Buñel continua atormentando meio século depois de sua produção. O pesadelo é um rio circular, se repete no filme e no dia-a-dia.  

O anjo exterminador. México 1962. 94min. Drama. Diretor: Luis Buñel. Atores: Silvia Pinal, Enrique Rambal, Claudio Brook, José Baviera, Augusto Benedico, Antonio Bravo, Jacqueline Andere, César del Campo, Rosa Elena Durgel, Lucy Gallardo, Enrique García Álvarez, Ofelia Guilmáin, Nadia Haro Oliva, Tito Junco, Xavier Loya, Xavier Masse, Ofelia Montesco

Nenhum comentário:

Postar um comentário