sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Contra-rebate

Caro amigo JC

Antes os conceitos correntes de nossos debates eram ‘mais-valia’ e ‘taxa de lucro’ porque não discutíamos as premissas gerais, procedimento elementar. Normal, visto que nossa vontade de mudar a vida era maior que a vontade de pensar nas contingências. E talvez nem seja mais ou menos certo mudar essa ordem, visto que a anteposição de uma e outra diz mais sobre nós do que nós mesmos. O Pessoa disse num poema que toda a metafísica era uma conseqüência de se acordar mal disposto. A metafísica dos costumes.

Pensamentos que chegam no “ser ou não ser” têm mesmo como pré-condição a independência de qualquer forma de compromisso consciente com qualquer coisa. E se é legítima e pertinente a dúvida, se é ela também uma contingência, não há como ser de outra forma. A exigência de compromisso ético e engajamento é a moral secular que ocupa o trono de Cristo como redentor do pecado original. Mudam-se os deuses mas a moral e o mecanismo da chantagem são os mesmos. É o caso de se imaginar, em nossa vã filosofia, se a morte de Deus pode resultar em algum grau de liberdade para o homem.

Eu penso que é sempre preciso que superemos o esquema maniqueísta de ver as coisas, ainda que o “esquema maniqueísta de ver as coisas” não signifique a mesma coisa que perceber o maniqueísmo de fato.

O MANIQUEÍSMO COMO CHARME E APELO KITSH

Você começa afirmando, ou melhor, reafirmando a idéia do fechamento de seu primeiro texto sobre o livro, de que “o livro de Kundera é muito mais do que uma simples crítica ao socialismo degenerado (nota minha: que outros chamariam de ‘real’), trata-se de um embate contra o acordo categórico com o ser, que é o ideal estético-filosófico da direita”.

Quando eu elaborei meu comentário sobre esse primeiro texto eu usei algumas vezes esse conceito, acordo categórico com o ser, para designar uma relação de acordo do ser com a ordem determinada, seja ela qual for, e que afirmo ser a mesma definição de Kundera. Ele não especifica ou limita o conceito a uma questão apenas teológica e/ou de direita (a partir da criação, no Gênesis), como fica claro nesta passagem: “Por trás de todas as crenças européias, sejam religiosas ou políticas, está o primeiro capítulo do Gênese, a ensinar que o mundo foi criado como devia ser, que o ser humano é bom e que, portanto, deve procriar. Chamemos essa crença fundamental de acordo categórico com o ser”.

O conceito está presente em todas as crenças européias, como ele afirma, sejam religiosas ou políticas. Portanto, o acordo categórico com o ser é de amplo uso e manipulação política, e como tal não se filia ideologicamente e nem se resume a um ideal-estético-filosófico exclusivo da direita . E a questão teológica é apenas o arcabouço geral de toda a idéia, um esboço. Portanto me utilizei do conceito tal como o próprio Kundera o define e utiliza.

Creio que ao atribuir essa postura de Kundera a um comportamento única e exclusivamente de “direita” é participar do conceito que ele mesmo dá de Kitsh. Porque é que não se pode fazer essa crítica à esquerda sem ser de direita? Porque ela, a crítica, é radical demais e quase não permite uma fuga honesta? Segue-se que o acordo categórico com o ser tem por ideal um mundo no qual a merda é negada e no qual cada um de nós se comporta como se ela não existisse. Esse ideal estético se chama kitsch. Pois o Kitsh afasta de seu horizonte de visão tudo o que é problemático e indesejável para a harmonia de seu mundo.

Se a direita faz uso dessa crítica (e é ela mesma o próprio Kitsh universal, já que é a própria situação) é essa uma outra questão, não se pode responder a uma questão assim apenas afirmando que a crítica é de direita, com a gravidade de se saber que esse ideal estético está presente na história de todo o século XX até hoje. Foge-se do problema, protege-o com a máscara do Kitsh ao invés de encará-lo. É como se, ao ouvirmos do assassino da própria mãe a acusação de que o agente da lei que o prendeu também participou do crime para tirar vantagens, mandássemos executá-lo (o assassino) imediatamente sem dar qualquer ouvido a acusação. Por decreto o sujeito, que transpôs a fronteira do Kitsh ao invadir o domínio da lei, torna-se metafisicamente incapaz de dizer a verdade. É uma postura perigosa, digna somente sob totalitarismos bizarros. Basta lembrar, como em Kundera, que os agentes do estado Tcheco se esquivaram de acusações semelhantes afirmando que não sabiam do que acontecia, se isentando assim de qualquer responsabilidade. E talvez não fossem mesmo os assassinos, porém o que garantiu que tais fatos ocorressem foi justamente a postura de negar o universo Kitsh que eles próprios criaram, mas segundo se acreditava esse era um ideal exclusivo da direita.

Aliás, o Sr. mesmo afirma em teu primeiro texto o seguinte: “o acordo categórico com o ser é o arranjo estético-filosófico das épocas reacionárias. A República tcheca de Tomas e Sabina vivia sob o tacão do stalinismo e do acordo categórico com o ser”. Não entremos em discussões mais profundas sobre a natureza desses regimes, mas está claro que o kitsh é um fenômeno geral, próprio das religiões, partidos, das multidões e das maiorias silenciosas?

Não afirmo, como Kundera, que a fraternidade entre todos os homens não poderá nunca ter outra base senão o Kitsh, mas creio que essa é uma grande pedra no meio do caminho. Com isso não acho sua generalização absurda, para mim até grandes homens padecem e nada, absolutamente, está acima da crítica. Se sua vontade de ruptura com o acordo categórico com o ser os faz mais homens que autômatos do mercado, seus limites, seus erros, sua vontade que ofusca, também os faz homens naquela dimensão em que se completam. É imperioso afastar de nós o esquema maniqueísta se o que se quer é encontrar o homem para libertá-lo.

A RUPTURA DO HOMEM E DO DESEJO

Se alguém puder dizer que os ditos regimes de esquerda, especificamente os do leste europeu, tinham de poder popular meras aparências, no fundo um grande Kitsh mascarando canalhas que serviram a outros interesses, tratar o fenômeno Kitsh como “mito insensato” corre o risco de ser uma insensatez irremissível. Por isso creio que não analisou de forma mais pormenorizada a observação de Kundera.

A mais recente manifestação do fenômeno Kitsh acaba de ocorrer sob os nossos olhos. A morte do ditador da Coréia do Norte, Kim Jung-Il, causou uma catarse coletiva que o estado norte-coreano insistiu em apresentar como se um verdadeiro Tsunami tivesse varrido o país. Não tem a mínima importância, para o Kitsh, se trata-se de uma comoção verdadeira, mas coerente produto do culto à personalidade, ou comoção coagida ou espontânea. Em todos os casos é a tragicomédia do Kitsh.

Não são os posicionamentos políticos propriamente que Kundera (des)qualifica como Kitsh, mas a forma política, a organização. Esses não derivam do Kitsh, mas o criam como conseqüência da organização política. Portanto o argumento de Kundera, como tal, é a revelação e denúncia do fenômeno Kitsh, não permite que em torno de si se crie e se gravite manifestações festivas com bandeiras de auto-denúncia, seria patético e nessa condição não haveria sequer embrião de tamanha bizarrice. Creio ser por essa razão que não entendeu como é possível que os revolucionários insistam em mudar o mundo (e eu não me oponho a que eles o mudem, desde que mudem mesmo). Das duas questões que coloca para entender o fenômeno do acordo categórico com o ser (o mundo não foi criado como deveria ser?, o homem não é bom e deve procriar?), creio que a esquerda, ainda que possa achar que o ser humano não é essencialmente bom (mas que pode redimi-lo), concorde em princípio com a segunda, e assim se insinua um novo acordo. Por essa razão eu sugiro que há, de qualquer maneira, outra espécie de acordo categórico com o ser. Não é fenômeno exclusivo da direita. Por isso acho ainda mais grave acusar Kundera de promover a despolitização quando é precisamente o esforço contrário o que ele emprega. Fica perceptível, dessa forma, a idéia, instrumentalizada, que você faz de ‘politização’. Essa concepção é amplamente Kitsh. Joga para fora de suas bordas um grave problema apresentado para manter apenas o que cabe sem manchar a beleza impecável da “Grande Marcha”. Alguns teóricos pós-modernos criaram o conceito do homem como ‘máquina desejante’, e eu acho que o homem sempre está onde seu desejo não está. Queremos encontrar o homem? A pista ideal é sempre procurar ao inverso do seu desejo, quase sempre o veremos tal como é. Não é novo esse desencontro do homem e seu desejo. Como canta Caetano, “estive no fundo de cada vontade encoberta, e a coisa mais certa de todas as coisas não vale um caminho sob o sol”.

O PESO DE DEUS

De certo que não há possibilidade de mantermos independência absoluta diante da vida, eu concordo com você. Nem a indiferença de Mersault, esse errante estrangeiro da vida a quem deu vida Camus, consegue ser de uma indiferença total. É famosa a passagem em que ele, ao disputar o descanso sob a sombra de uma árvore com um cidadão árabe, o mata. O motivo é fútil e não é, é indiferença mas também não é. Estamos sempre fazendo escolhas, da reflexão mais profunda às trivialidades mais cotidianas. Mesmo quando se argumenta parte-se de algum mínimo conjunto de valores que embasam nosso discurso. Mas quando me oponho a sua exigência de engajamento, ao perguntar se Kundera pode levitar livremente sobre o muro que separa a esquerda da direita, é porque é preciso saber, antes de mais nada, que tudo tem um preço, cada escolha cobra algum tipo de conseqüência. Se tudo tem um preço, não há possibilidade de qualquer tipo de escolha ser vazia ou oca de sentido, esse é subseqüente e se encontra no preço pago, abrimos mão do que poderia ter sido e acatamos o que daí resultar. Para cada escolha que se faz é necessário abrir mão de tantas outras. Posso concordar com a máxima marxista de que a luta de classes é o motor da história e que o mundo se movimenta sobre essa dinâmica geral. Isso significa que eu, você e toda criatura humana do planeta, do agir na vida banal à vida de ação politicamente organizada, necessariamente nos enquadramos em determinado pólo dos valores políticos, esquerda ou direita. Ocorre que eu e você obrigatoriamente nos situamos ‘de cara’ numa delas sem possibilidade de escolha, pois surgimos para a vida em meio ao conflito deflagrado. Pois bem, essa coisa a que chamam ‘livre-arbítrio’ não significou absolutamente nada pois primeiramente é necessário viver. Só que para além dessa fatalidade da qual não escapamos, sei que nossas consciências nos ultrapassam. Sei, também, que a consciência não vai nos livrar da opressão que sofre a mente e o corpo. Mas a consciência que ultrapassa a matéria, que se volta para ela e que pode pensar sobre ela mesma também me dá a liberdade da crítica da consciência, e por meio desta, da auto-afirmação da independência da minha consciência sobre mim. O suicídio talvez seja um indício do que estou falando. É sempre uma pseudo-liberdade, desnecessário dizer, porque essa liberdade crítica da minha consciência parte de uma premissa universal: não nascemos livres, somos matéria da natureza, aglomerado social e parte ínfima de um espetáculo efêmero e eternamente transitório. Se eu aceitar que não tenho escolha (porque sei que não tenho completamente), renuncio necessariamente à única liberdade possível, que é a liberdade que tenho se minha consciência não fizer auto-análise com a exclusiva finalidade de se convencer de que os pensamentos que me perturbam e me põem dúvidas são aberrações a serem evitadas porque questionam uma vida que é sagrada. É como num pleito eleitoral: a representação burguesa dá ao conjunto da sociedade a ilusão de democracia plena porque, dentre outras coisas, permite que escolhamos livremente quem irá nos governar, e que sequer questionemos o fato de alguém nos governar. Mas não nos deixa pensar que aqueles que vão concorrer ao cargo já foram antecipadamente escolhidos, e não o foram por nós. Pois bem: excluí do horizonte das possibilidades da minha consciência a possibilidade de decidir não tomar parte de nenhum lugar na minha existência social, além do que sou, por fatalidade ou por natalidade, obrigado a estar antes da minha consciência. Então as possibilidades são limitadas de qualquer forma: se escolho o engajamento, fundamentado na razão de que não tenho absolutamente escolha, no que penso ser a emancipação política do ser, participo de um jogo que tolhe moralmente a minha consciência, excluindo do seu campo de escolha a dúvida, o “ser ou não ser” shakspeareano, sob o argumento de que se não o faço me situo automaticamente no pólo oposto. Se o que sustenta esse tipo de argumento é o fato de que não temos escolha, o próprio argumento se constrói pela exclusão, denunciando uma concepção da condição manca e negativa do ser e a conseqüente falta de totalidade do argumento moral. O que importa, para a minha consciência, é se minha posição é produto da minha escolha deliberada ou não, argumento também presente em Kundera (“aquilo que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso”).. Se estou numa posição que não escolhi estar e da qual só saio se escolher o que se chama ‘o outro lado’, como posso ser acusado moralmente?  Afinal de contas, não se pode considerar que a merda seja imoral! É uma exigência de natureza fascista. Se escolho não agir, sou acusado; se escolho agir pela direita, naturalmente sou acusado. Só tenho salvação moral se eu fizer o que me exige a esquerda. Portanto é como eu disse no começo desse texto, uma moral secular ocupa o trono do deus redentor e dono de nossas consciências, pois somos portadores de uma culpa ‘pré-consciência’ que guarda alguma relação com o ‘pecado original’. Parece que temos uma necessidade vital de Deus, esse é o peso. Significaria também que o acordo categórico com o ser tem um mecanismo mais geral e oculto que opera por baixo da nossa consciência? A liberdade compulsória da humanidade, estamos condenados moralmente a ela. Penso que a esquerda não pode abrir mão dessa moral (de outro modo já o teria feito) porque isso esvaziaria o valor de sua luta. Mas se for isso mesmo é ela também vítima desse mal estar geral na civilização do qual falou Freud. É uma luta constante consigo mesmo que temos de levar durante a vida. Eu mesmo sei que não estou livre de ser acusado por ousar despejar tais argumentos, mas deixo claro que a escolha pelo engajamento consciente (especificamente o político) é para mim também legítimo na medida em que também se apresenta como uma conclusão e uma possibilidade. Desnecessário seria entrar no mérito da escolha propriamente feita , já que demonstro muito acordo com idéias de Kundera sobre o acordo categórico com o ser e o fenômeno Kitsh. Só vejo problema quando outra postura não pode ser entendida sequer como possibilidade, ainda que possa haver, como em meu caso, desacordo com a escolha propriamente dita. Porque é daí que partem todos os dogmas. Dado todos os pormenores da vida, todas as questiúnculas cotidianas, todas as obrigações da vida e todas as limitações, não consigo admitir que haja qualquer moral superior por natureza.

Resta dizer que esses conceitos de Kundera, do acordo categórico com o ser e do Kitsh, que consistem em fenômenos que legitimam e mascaram a realidade, sobrepondo a ela uma superfície oca de aparência harmônica, não é uma novidade, Marx já havia teorizado melhor e mais pormenorizadamente sobre o mesmo fenômeno. O que Kundera faz é ampliar seu emprego na ação política da esquerda, a partir de uma experiência de algumas décadas como militante e como cidadão de um país da cortina-de-ferro.

O KITSH COMO ACORDO CATEGÓRICO LEGÍTIMO

Se há um elemento transcendental no acordo categórico com o ser, Yakov desprezava, ignorava e desconhecia a merda presente nesse acordo. Seu mundo era um grande e verdadeiro Kitsh, e somente quando se rompem, ou quando se apresentam a ele as letras miúdas desse contrato, se vê diante da leveza, insuportável, sem acordo, e opta pelo suicídio. Um contrato pressupõe a existência de diferenças entre as partes, mas que ainda permitem um acordo. Ambas as partes sabem da diferença mas permitem que ela exista e um contrato a regule. Só que Yakov fora maravilhosamente enganado pelo universo Kitsh do deus-seu-pai-todo-poderoso, pois nunca soube da merda. Se afirmo a leveza do caráter de sua morte voluntária, como Kundera apresenta sua metáfora, é porque percebo que entre o Kitsh e o real nunca pôde haver acordo. Quando se deixa de haver acordo sobra a leveza (e eu sei que aqui você discorda, mas é essa a metáfora de Kundera, o que leva a concluir que se há engajamento há acordo, ao menos no nível de se estabelecer uma nova chance e possibilidade de viver; talvez por isso a luta revolucionária seja mortal), e essa pode ser insuportável. O Kitsh é apenas mentira, e só se permite acordo mentindo, negando e mascarando qualquer verdade inconveniente. Não havendo acordo, o que ocorre na morte de Yakov é encarar a trágica e para ele insustentável leveza do ser. É possível aqui um paralelo com o Buda Siddhartha Gautama em seu périplo para entender o mundo após perceber a miséria, ou a merda, e abandonar sua vida de príncipe. Sintomático que quando percebe a merda e o grande Kitsh que era seu mundo também rompa unilateralmente o acordo.

O Kitsh, de ideal estético do acordo categórico com o ser, firma a convicção de que o ideal legitima o acordo, e quando essa união entre ideal e acordo se rompe, a leveza do ser se apresenta como horizonte possível e difícil da escolha humana e lhe restitui sua consciência usurpada, com todas as conseqüências que terá para o indivíduo. Uma para Yakov, outra para Siddhartha.

OUROBOROS, O ETERNO RETORNO DE DEUS

Concluir que a vida não tem qualquer sentido transcendental não implica em optar pelo suicídio, quem assim procedesse apenas expressaria o quanto carece de deus. A vida é uma contingência total. E daí? Não é isso que determina que a vida seja insuportável. O suicídio é uma possibilidade é não um caminho obrigatório, uma conclusão lógica.”

Esse parágrafo é seu e tenho acordo com ele. Se lhe pareceu em algum momento em meus comentários, ou mais do que ‘parecer’ eu tenha dito mesmo o contrário, foi, e o convido a conferir, participando da concepção de Kundera sobre a leveza e o peso, sobretudo na questão da morte de Yakov, que, se não foi uma conclusão lógica, no sentido de única, foi essa a decisão dele e que explico como disse acima. Quanto a uma crítica da visão da vida sem sentido transcendental expressar uma necessidade inconsciente de deus, o que pode ser verdade, já que o inconsciente é ardiloso, vale aqui o que foi dito por mim linhas atrás: a exigência intransigente que se faz do engajamento, que coloca o homem ante uma obrigação moral através de um acordo à revelia pré-ser e lhe açambarca a consciência, essa já não manifesta mais a necessidade de deus, já lhe ocupa totalmente o trono. Ademais, crer que a vida seria um absurdo se existisse o Grande Organizador (deus) permite a possibilidade de se afirmar que a vida teria qualquer outro sentido ontologicamente determinado, absurdo da mesma natureza . Troca-se um por outro, mas participa-se de um absurdo maior porque engendra e perdoa todos os outros. Se deus existe tudo é permitido. E é permissível pensar que pode não ser só deus aquilo que confere algum sentido ou finalidade à vida; por exemplo, o trabalho não alienado, realização humana, daí talvez ver de forma mais humana um estranhamento diante da ausência de sentido e finalidade que não nos conclua. O homem é um animal metafísico.

Eu não neguei que o engajamento (como qualquer participação na vida, em oposição a indiferença absoluta) possa rebater a insuportabilidade da leveza, creio que até expressei por entrelinhas a aceitação dessa idéia, mas neguei que esse engajamento explicasse unicamente a saída para a insuportabilidade, como você pareceu afirmar quando disse que “a leveza é insuportável porque o engajamento é necessário”. Se você chama de engajamento apenas a inércia natural da vida, todo engajamento é quase instintivo e natural.
A vida não é essencialmente insuportável, o que talvez seja é a leveza, e essa é uma condição existencial como tantas outras, mesmo podendo ser determinada historicamente.

Encarar a gratuidade de uma vida sem propósito pode não ser ontologicamente insuportável, mas como afirmei rompe com qualquer tipo de acordo por entendê-la dessa forma, ou então há um terceiro tipo de acordo, já que concordamos que não há indiferença absoluta. A partir do reconhecimento, pelo indivíduo, da existência como grande absurdo do sentido da vida, a leveza torna-se um fardo pesado e sua resistência ante qualquer espécie de acordo pode levá-lo ao suicídio.

SOBRE KUNDERA

Fechando, acho que você tem uma visão do Kundera como de alguém que essencialmente milita pela direita, mas talvez esteja enganado. Não fui procurar saber detalhes minuciosos de sua vida para saber sua posição hoje, mas soube que foi militante fervoroso engajado no PC na juventude e que depois adotou posições reformistas após o episódio da Primavera de Praga, quando já contava com 30/40 anos. Há contra ele inclusive uma acusação de entregar alguém que ele entendeu como sendo um espião para a polícia Tcheca em 1950, e que foi condenado a 22 anos de trabalhos forçados numa mina de urânio, tendo passado lá 14 anos. O homem estava vivo ainda em 2008 e sempre negou espionagem. Alguns dizem que isso teve motivos passionais e não políticos, pois o sujeito delatado foi preso num encontro com uma mulher com quem Kundera saía. Ele nega, porém a pessoa que encontrou os documentos/relatórios da polícia Tcheca assegura que os documentos são verdadeiros e datam da época.

Abraços
Olavo Mosnos

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