sábado, 10 de dezembro de 2011

O homem, a leveza e o peso

JC,

Começo afirmando que a leveza é atroz. O que confere peso são todos “significadores humanos” de sentido (“Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora” –Tomas). Quando Kundera utiliza categorias como “leveza” para o que é insuportável e “peso” para o que é doloroso, dá à “leveza” a maior carga de enfrentamento, resistência, insubmissão, iconoclastia, tudo aquilo que, ilusória e aparentemente (porque só concebe, imperiosamente, esses atos humanos àquilo que se situa dentro dos limites físicos e do possível, sem entender que o homem, uma espécie de deus preso a um tubo digestivo, pode e deseja o impossível - “Unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica”) se pode atribuir ao “peso”, ao ponto de subverter os significados. Porque o “insuportável”, antes de sê-lo, passou por todas as espécies de acordo.

A burocracia stalinista é um Kitsch, é o peso. Você tem razão, leveza é algo que confere ausência de sentido e sentimento de absurdidade, esvaziamento de razão, fundamento... a insuportável leveza, mais cruel dos fardos. O ‘acordo categórico com o ser’ é também um peso, diz respeito ao sentido da vida para milhões de pessoas, lhes confere substância.

Encarar a gratuidade de uma vida sem propósito, tarefa que Nietzsche atribuiu ao seu herói ‘super homem’ (“A história é tão leve quanto a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pluma, como uma poeira que voa, como uma coisa que vai desaparecer amanhã.”) rompe com qualquer tipo de acordo. A leveza carrega todo o peso de uma existência absurda, tanto quanto possível.

A perspectiva de Kundera mostra legados sombrios, associados à leveza  (“A história da Boêmia e a história da Europa são dois esboços que a inexperiência fatal da humanidade traçou.”)
O homem moderno rompeu com suas dimensões clássicas de sentido, pois não há razão que não tenha sofrido abalos em seus fundamentos, inclusive a que foi, durante quase todo o século XX a responsável por um otimismo de perspectiva mas logo de um ceticismo de constatação: a ciência, mãe zelosa da razão e desejosa de coesão e sentido da matéria. Se movimentamo-nos sem certeza não é isso produto do nosso desejo, mas pré-condição. Por isso não se pode ceder a uma crítica da leveza porque desejamos o peso, significação e tomada de posição. Ou até pode, mas assim como o homem pode desejar o impossível. Admitamos que podemos e então é também a leveza uma tomada de posição, e talvez a mais cruel por descalçar nosso caminho: nem pela direita, nem pela esquerda, nem adiante e sem retorno.

“Se a maldição e o privilégio são uma só e única coisa, se não existe diferença alguma entre o nobre e o vil, se o filho de Deus pode ser julgado por uma questão de merda, a existência humana perde suas dimensões e adquire uma insustentável leveza. Assim, o filho de Stalin corre para os arames eletrificados e neles se atira, como se jogasse seu corpo no prato de uma balança que sobe, impiedosa, levantado pela leveza infinita de um mundo que perdeu as dimensões.”  O filho de Stalin morreu por merda, como metaforiza Kundera. Mas vejamos: Yakov perdeu as dimensões do sentido da vida porque acreditou que fosse real a distinção entre divindade e merda. Quando foi desmentido não suportou a idéia, suja ou pesada demais. Morreu experimentando uma centelha de verdade, ou da falta dela.

Adiante Kundera diz que Yakov não morreu de forma absurda. “O filho de Stalin perdeu a vida por merda. Mas morrer por merda não é morrer de modo absurdo. Os alemães que sacrificaram a vida para ampliar seu império em direção ao leste, os russos que morreram para que o poder de seu país se estendesse em direção ao oeste, esses, sim, morreram por uma tolice, e a morte deles é destituída de sentido, de qualquer valor geral. Em contrapartida, a morte do filho de Stalin foi a única morte metafísica em meio à tolice universal que é a guerra.”

É uma morte metafísica porque precedida da percepção do absurdo em que vivera acreditando, o que impõe um sentido para seu suicídio. A morte dos soldados, cada qual em sua posição, não tem essa carga pois tem apenas um sentido mecânico, conseqüente. A leveza metafísica da morte de Yakov, fardo pesado demais para suportar, não é frívola, fútil ou oca, apesar de vã. Desmente a afirmação de que “um ser pleno de leveza é capaz de levitar indiferente sobre qualquer realidade, mesmo a mais hostil, mas o preço a pagar será a futilidade e o vazio” e que “leveza é capitulação”. Por isso Kundera, ao dizer que “só tem valor aquilo que pesa”, sabe que a vida, quando não tem valor, se acaba (“Essa vida não deve ser considerada mais importante do que uma guerra entre dois reinos africanos do século XIV, que não alterou em nada a face do mundo, embora trezentos mil negros tenham encontrado nela a morte através de indescritíveis suplícios.”), por isso deve entrever entre suas palavras que o valor, em seu sentido próprio, não se estabelece arbitrária e objetivamente, mas se encontra em fatos e lugares insuspeitos. Sabe que a história é amoral e que, se uma vida desprezível como a de Yakov pode realizar alguma redenção, ideais nobres não conferem absolutamente valor ao portador (“O kitsch é o ideal estético de todos os homens políticos, de todos os partidos e movimentos políticos”).

"Desde a Revolução Francesa, metade da Europa se intitulou de esquerda e a outra metade recebeu a classificação de direita. E praticamente impossível definir uma ou outra destas noções através dos princípios teóricos em que elas se apóiam. Não há nisso nada de surpreendente: os movimentos políticos não se baseiam em atitudes racionais, mas em representações, em imagens, em palavras, em arquétipos, cujo conjunto constitui esse ou aquele kitsch político. A idéia da Grande Marcha, com a qual Franz gosta de se embriagar, é o kitsch político que une as pessoas de esquerda de todos os tempos e de todas as tendências. A Grande Marcha é essa soberba caminhada para a frente, essa caminhada em direção à fraternidade, à igualdade, à justiça, à felicidade, e mais longe ainda, a despeito de todos os obstáculos, pois os obstáculos são necessários para que a marcha seja a Grande Marcha.”
É a leveza que é arriscada demais. Afirmações como “a leveza é insuportável porque o engajamento é necessário”, onde os termos não têm relação de causalidade, são ‘non sequitur’. A possibilidade de que o engajamento, ou o ‘peso’, elimine a insuportabilidade da leveza, não explica que a vida seja ontologicamente suportável pelo engajamento, apenas que migrou-se para outra espécie de “acordo categórico com o ser”.


PS.: tentei publicar em seu blog nos comentários mas não coube, então envio agora... quase todas as citações entre "aspas" são de Kundera, exceção das suas, que saberá distinguir.


Abraços,
Olavo Mosnos


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