quinta-feira, 10 de março de 2011

Terry Eagleton - Ideologia

A religião, na opinião de Freud, cumpre o papel de reconciliar os homens e as mulheres com as renúncias instintuais que a civilização lhes impõe. Para compensar tais sacrifícios, ela imbui de significado um mundo cruel e sem propósito. Assim, pode-se afirmar, trata-se do próprio paradigma da ideologia, provendo uma solução imaginária para contradições reais, e, se não o fizesse, os indivíduos poderiam muito bem rebelar-se contra uma forma de civilização que exige tanto deles. Em “O futuro de uma ilusão”, Freud contempla a possibilidade de que a religião seja um mito socialmente necessário, um meio indispensável de refrear o descontentamento político; mas considera essa possibilidade apenas para rejeitá-la. Na mais honrosa tradição iluminista, e a despeito de todo o seu temor elitista diante das massas insensatas, Freud não consegue aceitar que a mistificação seja uma condição eterna da humanidade. A idéia de que uma minoria de filósofos como ele possa reconhecer a verdade sem vernizes enquanto a massa de homens e mulheres deve continuar a ser vítima da ilusão é ofensiva para seu humanismo racional. Seja qual for o bom propósito histórico que a religião possa ter servido na evolução “primitiva” da raça, é tempo de substituir esse mito pela “operação racional do intelecto” ou pelo que Freud denomina “educação na realidade”. Como Cramsci, sustenta que a visão de mundo secularizada, desmitiíicada que tem sido até agora o monopólio dos intelectuais deve ser disseminada como o “senso comum” da humanidade como um todo.

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