sexta-feira, 8 de abril de 2011

Dialética sintética da poética

Em sua procura da poesia, Drummond registra: “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”. O complento do verso é: “Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”¹

Há um deslocamento. A poesia não está no que pensas e sentes, mas sim no como expressas o que pensas e sentes, depende das tuas palavras e construções linguística.

Poemas podem nascer de parto normal, de acontecimentos, fatos e imagens. Mas suas carnes e ossos serão suas palavras e construções linguísticas. Se estas não forem apropriadas o poema será paralítico, ou burocrático, ou funcionário público.

Todo bom poema é mestiço. O poeta, com suas palavras e demais recursos, fecunda os acontecimentos, fatos e imagens. A poética é sempre mestiça: é o real polinizado. Nem a poesia pode prescindir do real, nem este é em si poético. Ou melhor, a poética do real não se expressa em versos, sua comunicação é mais direta, sua essência não raro se apresenta completa na aparência.

Expressar algo em versos é poesia, ainda que não seja de boa qualidade, se não fosse assim não haveria poemas ruins. Então, o poeta é aquele que estabelece uma interlocução com o real através de versos, é um produtor do belo. Vale dizer que o verso mais apocalíptico não deixa de ser belo.

Ok. Até aqui ficou dito que a poesia não está em sentimentos, idéias, fatos e acontecimentos; está na forma de expressar algo. E neste caso forma pode ser conteúdo: palavras e recursos que iluminam becos desconhecidos.

Mas há poemas especiais que não nascem, digamos, de parto normal. São filhos não planejados, mas que não raro são os mais queridos. Brotam de palavras diretamente, pode ser tempo, fogo, ferro ou qualquer outra. Embriagado pelas palavras, o poeta tropeça no poema. A palavra é a pedra no meio do caminho.

Imagens, idéias e acontecimentos são usados para revelar os sentidos ocultos das palavras que inquietam e embriagam.

Exemplificando. Peguemos as palavras rosa e flor. Ambas são portadoras de forte carga poética. A partir delas pode brotar um poema. Iniciemos relacionando rosa e flor com outras palavras; talvez concreto, asfalto, polícia e tráfego², que são suas antíteses. É preciso trabalhar como um artesão, modelando as palavras como se fossem um vaso de cerâmica, esse manuseio vai revelando sentidos fugídios que estão no real apenas como possibilidade e inquietação. Mas o resultado final do trabalho poético não é planejado com a antecedência e a precisão do artesão.

Em Drummond, a flor nasce na rua, e ilude a polícia. É feia, antiparnasiana, mas é uma flor, e rompe o asfalto. O belo não está na flor, suas pétalas nem se abrem. Como queria Mário de Andrade, o belo está na deformação da realidade: na flor que perfura o asfalto. Este efeito só pode nascer do manuseio das palavras, não é derivado diretamente do real. Drummond esfrega a flor no asfalto, até que este se rompa. O poema é mestiço exatamente neste sentido. É uma reorganização de possibilidades. O poeta fecunda o real com seu material genético.

Na exata medida em que um bom poema é mestiço, é também anárquico: sem governo. Postas no papel e atritadas as palavras podem se encaminhar por veredas improváveis, fogem do controle. O sentido da obra não está colocado com antecedência, às vezes ultrapassa o próprio autor. Essa é a magia da poesia e o deleite do poeta.

Enfim, se queres uma régua imaginária de medir poesia, lá vai uma contribuição: bons poemas são sempre mestiços e anárquicos.


1º) Os versos deste paráfrafo são do poema Procura da poesia de Carlos Drummond de Andrade.  
2º) Referência ao poema A flor e a náusea de Carlos Drummond de Andrade. 

JC

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