quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ricardo


"Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que têm consciência de dizer." (Albert Camus).

Morre o rato, o gato, o pato, o homem... Morrem bandidos, heróis, canalhas, velhos, crianças... Todos morrem. E o rapaz morreu, pelas próprias mãos, talvez “como um cão”, como Joseph K.

De um amigo poeta ouvi que “o suicídio é a coragem para a burrice”. O senso-comum ensina que se matar é um ato de covardia. À parte as reflexões ideológicas, é certo que, para o suicida, o custo de viver é maior que o benefício. Para ele a vida é formada por muitas desgraças e pouca ou nenhuma alegria. Pelo menos no tempo e espaço do gesto definitivo. E “o tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera”, como escreveu outro poeta, o mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Nesse tempo, o desaparecimento de uns é alegria para fofoqueiros e sensacionalistas. Falam em doenças incuráveis, dívidas impagáveis, desgostos profundos, amores perdidos, chifres, drogas, desilusões, falta de religião, educação ruim, fim dos tempos, pecados, pais ausentes, amizades ruins etc., etc. Enfim, o fim de uns conforta outros, que, apesar dos pesares, vão vivendo.

O trágico na vida humana não é exatamente a morte, trágica é luta dos indivíduos impotentes contra o destino inevitável: a morte. O que tortura é o envelhecimento diário, presságio do desaparecimento final. Queda de cabelos, queda de dentes, perda de memória, perda do tesão, rugas, dores, depressão, angustia, nostalgia.

Pior que isso é o aniquilamento abrupto de alguns. Uma criança brincando, um caminhão desgovernado... Um rapaz toma umas a mais, atravessa, não vê o carro vindo...

Rigorosamente falando, vida e morte são partes de um mesmo todo. É impossível conceber a morte de um ser inanimado. Da mesma forma, é inconcebível a vida sem morte, já que vida, por definição, é o período que vai do nascimento até a morte.

Dessas linhas se conclui que a vida é dura e a morte também. E as duas continuarão assim. Apesar daquele rapaz, que se matou. Mas se matar é mais que isso. O rapaz não percebeu, os fofoqueiros não fuxicaram a respeito. Se matar é, de certa forma, assassinar um pedacinho do criador, que nada criou. Ou melhor, se matando o suicida aniquila a idéia de criação, do sagrado e de paraíso. Já que, indiretamente ele afirma: Foda-se a vida e todas as bostas desse e de outros Mundos.   

JC

2 comentários:

  1. Viver a vida sem esquecer da morte. Gostei muito do texto. Abraço.

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  2. Valeu John. Forte abraço, camarada.

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