sexta-feira, 25 de março de 2011

Líbia: a aurora do neocolonialismo


Como mostrou Aldous Huxley, a manipulação está menos numa mentira contada e mais numa verdade omitida. Exatamente como no caso da Líbia. Exemplificando: Kadafi é um ditador? Sim. Os países imperialistas estão bombardeando a Líbia para proteger civis? Não. Seus interesses são outros. Está é a verdade omitida. O objetivo principal da OTAN é destruir as forças de Kadafi para abrir caminho para os “rebeldes” ¹.
Nos seis primeiros dias as bombas de democracia do ocidente já ceifaram a vida de 100 civis. O correspondente da Telesur em Trípoli relatou o enterro de 31 cidadãos líbios, incluindo 10 crianças. A pergunta que se coloca é: quem vai proteger a população líbia das bombas imperialista?
        Outras perguntas surgem de imediato. Será imposta uma zona de exclusão aérea sobre Israel? Os imperialistas derrubarão também os ditadores que lhes são úteis? Mais do que isso. Que tribunal internacional julgará os crimes de Guantánamo?
        Quando a Itália invadiu a Líbia em 1911, o argumento era a utilidade (para a Itália) de ocupar e civilizar nômades e selvagens. Exatos cem anos depois, mudaram-se os argumentos mas não os interesses. A própria Itália está de volta ao palco da guerra, três anos depois de pagar aos líbios uma indenização por seus crimes coloniais do início do século XX.
        Todo poderio bélico imperialista foi mobilizado para garantir seus interesses na Líbia. Primeiro fortaleceram os “rebeldes”. Sabe-se que a Frente Nacional para Libertação da Líbia, que teve importante papel no início do levante, é uma organização financiada pela CIA. Depois os batalhões midiáticos assumiram a dianteira e abriram caminho para os caças e bombas.
        Que Kadafi é capaz de reprimir seu povo ninguém duvida. Mas também não se deve duvidar das mentiras da mídia imperialista. Basta lembrar da ficção das “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein. A história dirá se os ataques de Kadafi contra civis são verídicos ou não. Mas há boa razões para duvidar que sejam reais. Militares russos que monitoram o conflito por satélite negaram que tenha havido qualquer bombardeio, essa informação quase não foi divulgada. Por quê? Além disso, é pouco provável que a mídia imperialista e sensacionalista não produziria imagens dos tais ataques, dos corpos e por aí vai. Inclusive porque há correspondentes acompanhando os “rebeldes”. As fontes da mídia imperialista são militares e políticos dos países invasores, o que anula qualquer credibilidade. O mais provável é que as mortes tenham ocorrido nos combates de forças do estado contra os “rebeldes”. Mas, enfim, a história dirá.
        O fato é que as potências imperialistas se aproveitaram da oportunidade que surgiu e que ajudaram a forjar. Muito se falou e se fala do interesse pelo petróleo da Líbia, e certamente este é um dos principais motivos para derrubar Kadafi. Mas há outro. Os levantes árabes surpreenderam o mundo, os imperialistas inclusive, ditadores pró-ocidente ou caíram ou estão se apoiando como podem. Apesar da institucionalidade burguesa e pró-ocidental não ter sido rompida, ainda não é possível prever quais serão os desdobramentos futuros dos levantes árabes. Neste sentido é fundamental que os EUA e aliados estabeleçam governos entreguistas. A Líbia é estratégica porque está entre Tunísia e Egito, dois países com situações políticas indefinidas até o momento. Por isso torna-se fundamental derrubar Kadafi e substituí-lo por um governo submisso, garantindo um porto seguro e impedindo que os ventos revolucionários externos ameacem fazer renascer o Kadafi anti-imperialista.
        Está claro que o objetivo principal da OTAN é derrubar Kadafi. Mas outros pontos são mais difíceis de mensurar neste momento. Inclusive porque a mídia deliberadamente esconde tudo que não lhe interessa. A questão é: qual o apoio popular real de Kadafi? A população que o apóia vai resistir? As bombas da liberdade imperialistas continuarão caindo sobre a população pró-Kadafi? A história mostra que os imperialistas podem derrotar forças regulares com relativa facilidade, já guerras populares e de guerrilhas são mais complicadas.     
        A Líbia de hoje é o Iraque de ontem. Mas com uma perigosa diferença, antes do Iraque ser invadido em 2003, vinte milhões de pessoas saíram simultaneamente pelas ruas do mundo para tentar barrar a agressão militar. Fracassamos. Já os protestos contra o bombardeio da Líbia ainda são tímidos, o que mostra que o imperialismo aperfeiçoou sua propaganda ideológica. A substituição da truculência de um Bush pela desfaçatez de um Obama certamente ajudou.
        É preciso combater e parar a máquina de guerra imperialista. Se vitoriosos na Líbia, os imperialistas se fortalecerão e abrirão novos campos de batalha. O precedente é assustador. Os batalhões midiáticos já se mobilizam contra outros países. O Irã é a bola da vez.
        Enfim, denunciar o imperialismo não é defender Kadafi, é um imperativo revolucionário. É preciso parar as bombas da OTAN: pela aurora de pólvora que se insinua e pelo sangue dos líbios que escorre.  


1) A palavra rebelde está entre aspas porque empregá-la para definir grupos apoiados pela OTAN significaria esvaziar seu significado.


JC



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