quinta-feira, 3 de março de 2011

Líbia: as piruetas da história

"A Líbia bombardeada, a libido e o vírus. O poder, o pudor, os lábios e o batom."


Sempre "os ianques com seus tanques" e sem nenhum pudor. Desta vez é a Líbia que está na mira do fuzil imperialista. Depois do usual desbravamento midiático, lá vão os marines.
 
O primeiro procedimento de guerra midiática foi igualar Kadafi a Mubarak entre outros. Ainda que para isso fosse preciso esconder o passado antiimperialista do primeiro, sua forte ligação com Nasser e por aí vai. Kadafi derrubou a monarquia líbia em 1969, a partir de então tentou promover a unidade árabe e a destruição do Estado de Israel, inclusive enfrentando os EUA. Apoiou o Movimento Negro Estadunidense, o IRA Irlandês e a Resistência Palestina. Nos países árabes fortaleceu a contestação aos governos que considerava pró-Israel e pró-EUA.

No plano interno Kadafi utilizou-se das receitas do petróleo para promover melhoras para a população líbia. A renda per capita cresceu consideravelmente, hoje é uma das maiores da região. A agricultura se desenvolveu. Mas, ao mesmo tempo, aplicaram-se severas regras morais, proibindo o álcool entre outras coisas. Começou a haver um choque entre o padrão de comportamento imposto e a melhora das condições de vida da população, nos momentos de crise o regime não hesitou em se valer da repressão para fazer a balança pender para o seu lado.

A revolta atual é fruto das contradições internas e do desgaste do governo potencializados pela crise econômica mundial. Kadafi começou assinar seu atestado de óbito quando promoveu uma guinada para o neoliberalismo a partir de 2003, privatizando empresas e abrindo a economia do país. Neste sentido, o levante popular na Líbia tem relação com os de outros países árabes, ainda que não sejam iguais. E, que fique claro, são todos legítimos. Lutam contra governos despóticos, corruptos e vendidos, como o líbio. Se promoverão mais do mesmo no futuro só tempo dirá.

Kadafi fala em distribuir armas ao povo e resistir, mas seu discurso também deve ser entendido como peça de propaganda. Se tivesse respaldo popular para tanto não seria preciso recorrer a mercenários estrangeiros.

Na Líbia o levante ganhou força com a adesão de setores das forças armadas, mas, por outro lado, não houve grandes manifestações populares como no Egito. Até este momento não se produziu uma Praça Tahir em solo líbio. E também não foram noticiadas greves e paralisações. O levante parece ser mais militar do que popular. Além disso, como lembrou Miguel Urbano Rodrigues, uma organização financiada pela CIA (Frente Nacional para Libertação da Líbia) teve um papel importante no início da revolta.  

A bandeira do antigo regime líbio (monarquista) empunhada pelos rebeldes é uma faca que corta dos dois lados. Ao mesmo tempo que é anti-Kadafi é também reacionária, expressa a despolitização do movimento. De qualquer forma, não existe meia autoderminação dos povos. Se essa é a posição do movimento, é legítima. Apesar de ser extremamente contraditório que num momento em que se luta por liberdade surjam bandeiras ligadas à monarquia.

Apesar das tecnologias da informação e das redes sociais não apareceram fotos e imagens de grandes concentrações populares, pelo menos nada parecido com o que se viu em outros países. Também não apareceram imagens e provas dos massacres de civis supostamente cometidos por forças de Kadafi, mesmo que ‘tenham sido praticados” em solo agora controlado pelos rebeldes. O mais provável é que os tais “massacres” sejam na verdade confrontos entre militares desertores e as forças fieis ao regime.

A moral dos EUA e da mídia pró-ianque é dupla, condenam os “bombardeios” de Kadafi sobre os líbios e propõe jogar suas bombas sobre o mesmos. Ou alguém acredita que o fechamento do espaço aéreo e os mísseis da Otan só atingirão radares e bases militares? Pau que bate em Chico passa longe de Francisco. Os bombardeios estadunidenses são sempre para levar a “liberdade” e a “democracia”, inclusive quando explodem crianças iraquianas, afegãs ou líbias (em 1986 assassinaram uma filha de Kadafi). Por uma manobra semelhante, Israel está sempre autorizado a despejar chumbo sobre palestinos. Quando a força aérea colombiana ataca e mata guerrilheiros e quem mais estiver perto não há nenhum problema também. À medida que o tempo passa e as provas não aparecem, vai ficando cada vez mais possível que os supostos massacres de Kadafi sejam muito mais uma peça forjada para acusação e justificação de uma invasão imperialista, como o foram as “armas de destruição em massa” de Saddan Hussein.

A história é sinuosa e serpenteia. O mesmo movimento dos povos árabes que se levantam para derrubar lideranças pró-EUA, deverá vitimar também Kadafi, que inicialmente lutou contra o imperialismo ianque. A tendência é que os EUA tentem garantir um porto seguro implantando um governo títere na Líbia, é uma forma de compensar a perda do aliado Mubarak, além é claro da apropriação do petróleo. Não é à toa que o levante é mais forte perto das regiões petrolíferas.

Todo o caráter progressista do levante líbio tende a ser anulado com a possível intervenção imperialista, que fortaleceria os setores mais reacionários e direcionaria o movimento. A presença de tropas de elite estrangeiras treinando os revoltosos sinaliza o início da derrota do movimento, a aceitação da criação da zona de exclusão aérea será rendição final ao imperialismo, principalmente estadunidense. É sintomático que a maioria dos porta-vozes rebeldes sejam militares desertores, isso vai mostrando o caráter que a revolta está aquirindo, mais de golpe militar do que de insurreição popular.

Por outro lado, a possível intervenção militar direta pode conferir uma sobrevida a Kadafi, já que tende a unificar a Líbia e os árabes contra o inimigo comum. Curiosamente Kadafi conseguiria no auge de sua decadência o que não conseguiu no auge de seu poder: a unificação árabe contra os EUA.

Situações limite como a que vive a Líbia dificultam as tomadas de posição porque tendem a produzir uma falsa dicotomia, ou se está com Kadafi e contra o imperialismo, ou o contrário. Mas as coisas não são tão simples, nem o Kadafi atual é o dos anos 1970 e nem o imperialismo está totalmente unificado. Os EUA são o único país com real capacidade de intervenção militar na Líbia, mas não são os únicos com interesses comerciais por lá. A Líbia tem acordos econômicos com Itália, França e Inglaterra. As empresas destas podem ser prejudicadas com a invasão ianque.

Esta não é a primeira vez que se tenta derrubar Kadafi ou matá-lo. A CIA e os EUA já se valeram desse recurso em outros momentos e falharam. Esta é a oportunidade de ouro para os imperialistas.

No meio do bombardeio dos meios de comunicação pró-EUA é difícil levantar bandeiras. Mas uma coisa é certa: ruim com Kadafi pior com os EUA. O Iraque que o diga. O movimento popular líbio, se for sincero e revolucionário, têm dois inimigos pela frente, um em seu bunker em Trípoli e outro muito mais perigoso chegando pelo mar com suas fragatas e porta-aviões.   


JC

Um comentário:

  1. Olá meu caro, não havia reparado nesse texto. Talvez esteja falando besteira, mas muita coragem sua se atrever a falar desse assunto ja que ele está meio as clara e ao mesmo tempo as escuras. Mas vc chamou atenção para uma coisa interessante, não sei exatamente se esse Kadafi de hoje é o mesmo de 70, tenho serias duvidas. Mas no texto vc chama atenção para outro ponto o oportunismo norte-americano, que é evidente e acredito que eles ainda vão invadir a Libia. Acho que o povo não sabe o que esta por vir. O que mai me irrita é ficarem comparando o governo Libio com o de Mubarak, meu nada a ver. O levante contra Mubarak é nitidamente popular, já na Libia tenho sérias dúvidas de que seja o povo ali, mas o errado é afirmar sobre o que não se sabe, mas pela ação da Mídia é dos EUA, inclusive da ONu, dá para tirar algumas conclusões...

    Mas um texto bem elaborado, mas curiosamente mesmo falando de politica vc é poético, não quero dizer que não há poesia na politica, mas em um texto desse genero é coisa rara.

    Parabens

    O amigo(a) Anônimo(a) de sempre.

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