MAS TEM O MACHADO DE ASSIS

 

Eu cursava faculdade de economia. Estava mais ou menos na metade do curso. Momento em que o pessoal da turma começava a substituir as camisetas e as bermudas por roupas sociais, porque iniciavam estágios em bancos e grandes empresas. Tenho contato com poucos ex-colegas. Imagino que, atualmente, a maioria tenha perdido a ilusão no futuro e na carreira, o que não anula a fascinação daqueles primeiros dias vestindo roupas sociais. Nada mais fascinante – para um estudante de ciências econômicas – do que vestir roupas sociais. Eu não tinha grandes esperanças: trabalhava há algum tempo, não era estagiário, usava calças jeans e camisetas, lia muitos livros comprados em sebos e poucos manuais de economia. As roupas sociais, a carreira e o futuro não me fascinavam. Mas havia um professor que me intrigava. Vou chamá-lo de L. Não acredito que meus ex-colegas de turma leiam os textos que escrevo, mas, mesmo assim, vou dificultar a identificação porque se trata de uma história baseada em fatos reais. O professor L talvez tenha sido vitimado pela reforma da previdência, pode ter perdido o emprego em empresa multinacional, talvez esteja ganhando a vida exclusivamente com o dinheiro das aulas de microeconomia. Daí a importância de preservar a identidade. L explicava os comportamentos e as preferências dos consumidores e das empresas, dava exemplos citando mercados específicos. Meus colegas de turma quase aplaudiam. Era quando o professor L humildemente erguia o livro texto de microeconomia, batia o indicador na capa e dizia “está tudo aqui”. Só que de vez em quando ele emendava um “mas tem o Machado de Assis”. Às vezes ele dizia “mas tem o Machado de Assis” no meio da explicação sobre o comportamento dos agentes econômicos, sem se preocupar em conectar uma coisa com a outra, como se fosse um desabafo. Eu não entendia quase nada de microeconomia, mas entendia perfeitamente o que o professor L queria dizer com aquele “mas tem o Machado de Assis”. Era um protesto contra as simplificações. Era um alerta sobre o horizonte bancário. Era a teoria do medalhão virada do avesso. Era um grito desesperado de um leitor. Era um narrador machadiano intervindo na história. Nada mais deliciosamente existencial do que aquele “mas tem o Machado de Assis”.

 

Milan Kundera [1] divide a história do romance em três tempos. O Primeiro Tempo vai até o final do século XVIII; tem Rabelais, Cervantes, Sterne e Diderot como referências; e caracteriza-se por: “1) a liberdade eufórica da composição; 2) a vizinhança constante das histórias libertinas e das reflexões filosóficas; 3) o caráter não sério, irônico, paródico, chocante dessas mesmas reflexões.” [2] O Segundo Tempo prevaleceu durante o século XIX; tem Balzac, Stendhal, Zola e outros como referências; e caracteriza-se pela verossimilhança, a realidade é descrita com exatidão e detalhes, o romance se torna um documento histórico. O Terceiro Tempo começa no século XX; tem Kafka, Musil, Broch e Gombrowicz como referências iniciais, continuando com Sabato, Fuentes e outros; as características do Terceiro Tempo são: retorno à estética dos primeiros romancistas, utilização da reflexão ensaística, liberdade de composição, digressões, renúncia à verossimilhança e ao realismo psicológico, retomada do não-sério e do jogo [3]. Kundera dá um exemplo interessante para diferenciar os três tempos do romance: Sancho Pança tem cento e três dentes quebrados durante suas aventuras com Dom Quixote. O espírito zombeteiro e não-sério que predomina no livro de Cervantes teria se tornado incompreensível no Segundo Tempo do Romance devido ao “imperativo da verossimilhança” [4], ninguém teria cento e três dentes quebrados num romance de Zola. Para Kundera, os grandes romancistas do Terceiro Tempo teriam retomado e reinventado o espírito zombeteiro e não-sério a la Rabelais, Cervantes, Sterne e Diderot.

 

A divisão “toda pessoal” [5] da história do romance formulada por Milan Kundera se torna ainda mais interessante quando bardo tcheco agrega a música à reflexão sobre os três tempos, ver, por exemplo, a defesa de Stravinski contra a Adorno no texto A escandalosa beleza do mal, presente nos Testamentos Traídos [6]. Mas voltemos ao romance. Durante algum tempo tive vontade de escrever uma carta para Milan Kundera. A carta que nunca redigi teria como título a frase do professor L: Mas tem o Machado de Assis. Como Kundera encaixaria o “Bruxo do Cosme Velho” nos três tempos do romance? Machado é uma pedra no meio do caminho. Os livros didáticos registram que o “Bruxo do Cosme Velho” inaugurou o realismo no Brasil com a publicação das Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881. Só que a história, narrada por um “defunto autor”, tem muito mais a ver com o Primeiro Tempo do Romance, com o espírito zombeteiro e não-sério, do que com o realismo e a verossimilhança. O próprio Machado [7] registrou no início das Memórias Póstumas ter escrito com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, adotando “a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre”, com algumas “rabugens de pessimismo”. Por “forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre” entenda-se a profissão de fé do “Bruxo do Cosme Velho” nos princípios estéticos dos primeiros romancistas, ou, utilizando as palavras de Kundera [8] sobre os compositores modernos para escrita machadiana: “uma inimitável felicidade do ser, felicidade que se manifesta pela irresponsabilidade eufórica da imaginação, pelo prazer de inventar, de surpreender, até de chocar pela invenção.” É essa felicidade da criação, esse prazer de inventar, que autorizam um “defunto autor” a contar sua história e permitem que um escudeiro tenha cento e três dentes quebrados. Ou, para dar um exemplo do Terceiro Tempo do Romance, é essa felicidade da criação, esse prazer de inventar, que autorizaram o romancista Juan Goytisolo a conceder cerca de duzentos anos de vida a Marx, para que ele estivesse vivo em Londres, acompanhasse pela televisão e comentasse o fim do socialismo dito real [9]. São os “sortilégios do narrador que inventa”, que “se deixa levar por suas fantasias e por seus excessos” [10].

 

Desisti de escrever uma carta perguntando a Kundera como encaixar o “Bruxo do Cosme Velho” nos três tempos do romance quando encontrei um texto de Carlos Fuentes intitulado O milagre de Machado de Assis [11]. Fuentes foi grande amigo de Kundera, que incluiu o escritor mexicano entre os grandes romancistas, além dedicar-lhe uma bela carta aberta parabenizando-o pela obra e pelos setenta anos de idade [12]. No texto O milagre de Machado de Assis, Fuentes cita Kundera e, creio, registra o que o tcheco diria sobre o brasileiro. Isso porque Fuentes parte dos ensaios de Kundera para pensar os romances do “Bruxo do Cosme Velho”. Se eu escrevesse uma carta a Kundera intitulada Mas tem o Machado de Assis, a resposta poderia ser E tem o Carlos Fuentes, sugiro que leia o texto dele publicado na Folha de São Paulo em 01 de outubro de 2000. O que Kundera define como Primeiro Tempo do Romance, Fuentes define como Tradição de La Mancha. O que Kundera define como Segundo Tempo do Romance, Fuentes define como Tradição de Waterloo. Fuentes: “A tradição de Waterloo afirma-se como realidade. A tradição de La Mancha sabe-se ficção e, mais ainda, celebra-se como ficção. Waterloo oferece fatias de vida. La Mancha não tem outra vida afora a do seu texto, feito à medida em que é escrito e é lido. Waterloo surge do contexto social. La Mancha descende de outros livros. Waterloo lê o mundo. La Mancha é lida pelo mundo. Waterloo é séria. La Mancha é ridícula. Waterloo baseia-se na experiência: diz o que já sabemos. La Mancha baseia-se na inexperiência: diz o que ignoramos. Os atores de Waterloo são personagens reais. Os de La Mancha, leitores ideais.” Fuentes dá um exemplo interessante para diferenciar as tradições La Mancha e Waterloo: Dom Quixote; Tristam Shandy; Jacques, o Fatalista; e Brás Cubas sabem que são personagens.

 

Tanto para Kundera quanto para Fuentes, um grande romance só é possível dentro de alguma tradição. Fuentes: “não há criação sem tradição que a nutra, assim como não há tradição sem criação que a renove”. Para Carlos Fuentes, o milagre de Machado de Assis ocorreu porque o escritor brasileiro é um legítimo herdeiro de Cervantes. A tradição de La Mancha não foi totalmente suplantada pelo realismo, ela reapareceu no Rio de Janeiro com um homem negro, pobre, autodidata, epilético, míope, que aprendeu francês numa padaria. Fuentes destaca, e isso aumenta o milagre de Machado de Assis, que não existia “uma grande tradição novelesca, nem brasileira nem portuguesa.” O “Bruxo do Cosme Velho” nutriu, renovou e revigorou a arte do romance com “a pena da galhofa, a tinta da melancolia e as rabugens de pessimismo”. Ao espírito zombeteiro e não sério dos primeiros romancistas (“pena da galhofa”), Machado agregou o banzo e o ceticismo do Brasil escravista (“tinta da melancolia e rabugens de pessimismo”). O Brasil não era, não é e provavelmente nunca será um país sério. O “Bruxo do Cosme Velho” sabia que não dá para levar a sério o que não é sério. Se é assim, melhor enfrentar a melancolia e o pessimismo com a galhofa. Machado inaugurou uma espécie de sabedoria da desconfiança e do riso, que coloca todas as certezas e todos os valores sob suspeita. Se nada pode ser levado a sério, melhor rir e desconfiar de tudo, exceto, talvez, da arte e do romance. Eis o ensinamento do “Bruxo do Cosme Velho”.

 

Kundera lamentou a guinada realista que interrompeu o Primeiro Tempo do Romance. Mas tem o Machado de Assis. Fuentes lembra que o convite ao jogo e ao sonho reapareceram no romance com o “Bruxo do Cosme Velho”, no Rio de Janeiro, no século retrasado. Mas não é só isso, Machado de Assis retomou e revigorou a estética dos primeiros romancistas, não tropeçou na verossimilhança, antecipou muito do que fariam os escritores do século XX, escreveu com espírito zombeteiro e irônico, permitiu-se ampla liberdade de criação, colocou todas as certezas e valores sob suspeita, fez uso de digressões e da reflexão ensaística sempre com a “pena da galhofa”. Se é tudo isso – e realmente é – dá para registrar, usando os termos de Carlos Fuentes e Milan Kundera, que Machado de Assis é um milagre porque é uma ponte que atravessa e interliga os três tempos do romance.

 

Notas

 

[1] Milan Kundera. Os testamentos traídos. Rio de Janeiro: Nova Fronteria, 1994.

 

[2] Kundera, 1994, op cit., p. 71.

 

[3] Kundera, 1994, op cit., p. 67.

 

[4] Kundera, 1994, op cit., p. 54.

 

[5] Milan Kundera. Um encontro. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 97.

 

[6] Kundera, 1994, op cit., p. 82-83.

 

[7] Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016. p. 53

 

[8] Kundera, 1994, op cit., p. 80.

 

[9] Juan Goytisolo. A saga dos Marx. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

 

[10] Kundera, 1994, op cit., p. 54.

 

[11] Carlos Fuentes. O milagre de Machado de Assis. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0110200003.htm

 

[12] Milan Kundera, 2013, op cit., p. 75-78. 


Publicado originalmente no Passa Palavra

 

POEMINHAS ECOLÓGICOS

 

1

velha lagoa

sapos babosos

abraço tântrico

 

2

velha lagoa

abraço dos sapos

é primavera

 

3

o tempo parou

na velha lagoa

abraço dos sapos

 

4

velha perereca

subindo pela parede

solidão úmida

 

5

velha lagoa

uma rã salta

sobre a outra

 

6

velha lagoa

rã sobre rã

som sensual

 

7

rãs na lagoa

uma sobre a outra

olhinhos felizes

 

8

rã no gramado

saltando, saltando

Bashô revisitado

 

9

velho Bashô

sua rã salta

dentro da gente


Publicados originalmente no Passa Palavra

O SERVIDOR PÚBLICO

 

Despertou. Desceu da cama e calçou os chinelos que posicionava sempre no mesmo local. Tudo tinha seu lugar. Das roupas à escova de dente, das cuecas aos documentos pessoais, das ferramentas aos medicamentos. Era-lhe simplesmente insuportável não encontrar uma coisa ou encontrá-la fora do lugar. O servidor público odiava mudanças, bagunças e desorganizações. Caminhou até o banheiro. O dia não estava totalmente claro, a luz não havia penetrado na casa. Mas conhecia bem o caminho e seguiu sem dificuldade. Era capaz de percorrer todos os cômodos de olhos fechados. Isso por uma única razão: cada coisa tinha o seu lugar, que ele conhecia, mantinha e administrava. Assim era. Assim devia ser. Acendeu a luz do banheiro. Fechou a porta. Despiu-se. Deixou o chinelo perto do box. Dobrou o pijama e posicionou as peças sobre o gabinete. Depositou a cueca no roupeiro. Abriu a torneira. Deixou a água correr e lavou as mãos. Molhou os braços. Lavou o rosto. Penteou os cabelos. Não fez a barba. Era feriado. Não trabalharia. 28 de outubro: dia do servidor público, dia dele. Apanhou creme dental, escovou os dentes. Aliviou-se. O intestino do servidor público era tão pontual quanto o próprio servidor público. Limpou-se. Entrou no box. Abriu a torneira do chuveiro. Tomou banho frio. O contato com a água gelada era revigorante, dava-lhe força para ganhar mais um dia. Secou o corpo e se cobriu com a toalha. Retornou ao quarto. Vestiu-se. Beijou a esposa e a aliança. Sempre beijava a esposa e a aliança, nessa ordem. Celebrava diariamente a união, o casamento e a família. Voltou ao banheiro. Depositou a toalha de banho no roupeiro. Penteou novamente os cabelos. Desceu a escada sem fazer barulho. Conhecia a altura de cada degrau. Foi até a cozinha. Tomou um copo de água fresca. Espiou o relógio de parede. Estava ligeiramente adiantado, provavelmente porque não havia feito a barba. Devia ter se barbeado. A ordem natural dos acontecimentos precisava ser mantida e respeitada. Era segunda-feira: um homem deve fazer a barba diariamente, ainda mais um servidor público, porque tudo tem seu lugar e seu tempo. Foi até a sala. Abriu a cortina e a janela. Sentou-se no sofá. Correu os dedos pela barba por fazer. Irritou-se. Esperou. Sairia no horário exato para comprar os pães. Um servidor público deve ser pontual como os passarinhos, os galos e os grilos. Se a natureza não fosse precisa, o mundo seria caótico. Retornou da padaria e colocou os pães sobre a mesa. Lavou as mãos com detergente, na pia da cozinha. Complementou a higiene com álcool gel. Apanhou pratos e talheres no armário. Apanhou alimentos na geladeira. Montou a mesa para o café da manhã enquanto ouvia ruídos no andar de cima da casa. Alegrou-se. Eram os primeiros movimentos da esposa e das filhas. Estavam acordadas. Aquela família cumpria o horário naturalmente. Os despertadores eram prescindíveis. Passou o café. Atravessou a sala de jantar e a sala de estar. Apanhou o controle remoto da televisão. O servidor público gostava de tomar café da manhã com a família acompanhando o telejornal. Assim se atualizavam e começavam bem o dia. Mas hesitou. Era 28 de outubro. Os telejornais costumavam criticar o serviço público e os servidores públicos. Ganhavam muito. Trabalhavam pouco. Não discordava totalmente das críticas. Com certeza havia colegas complicados. Havia vagabundos que não gostavam de trabalhar e prejudicavam a imagem das instituições. Mas ele não. Esposa e filhas se posicionaram para tomar café da manhã. Ele aguardava na mesa, em silêncio. Recebeu cumprimentos. Era o dia dele. Faltava apenas o telejornal. Devia ser o feriado – pensaram elas. O servidor público se alegrou ao ver as filhas devidamente uniformizadas para mais um dia letivo. Elas se alimentaram, levantaram, recolheram e lavaram pratos e talheres. O servidor público guardou os alimentos que sobraram. As filhas escovaram os dentes, pentearam os cabelos, apanharam o material escolar, pediram para o pai acompanhá-las até a escola. Insistiram. Mas ele preferiu não ir. Beijou as meninas e a esposa e ficou em casa.

 

O servidor público se sentiu sozinho. Não estava vestido para o trabalho. Não havia cortado a barba. Não assistira o telejornal. Sequer havia acompanhado as meninas. Devia ter ido com elas. Por que não foi com elas até o colégio? Devia ter feito a barba para acompanhar as filhas. Seria um dia perdido. Ocorreu-lhe que o feriado de 28 de outubro era, na verdade, uma pequena vitória da esquerda e dos esquerdistas do sindicato: que não respeitavam as instituições, que não tinham fé, que queriam destruir as famílias, que não faziam a barba, que não gostavam de trabalhar, que se recusavam a servir a Deus. O servidor público tinha ódio da esquerda e dos esquerdistas do sindicato. Quando havia assembleias sindicais na porta da repartição, ele contornava e entrava por trás para evitar contato com aquela gente. Eram vagabundos que não trabalhavam. Assembleias sindicais eram frequentadas por gente que não gostava de trabalhar. Ele amava o próprio trabalho. Todos deviam amar o que faziam. As coisas são o que devem ser. É preciso amar as coisas como elas são. Os “colegas” esquerdistas passariam o 28 de outubro se embriagando, se empanturrando, fazendo orgias, bagunçando, conspirando. Os vagabundos do sindicato passariam o 28 de outubro planejando greves e paralisações. Aquela gente se achava grande coisa. Mas não conseguiam nem cumprir horário. Pegavam mais atestados médicos do que processos para encaminhar. Ocorreu-lhe que não apenas o 28 de outubro, todos os feriados – com exceção dos religiosos – eram vitórias da esquerda. Precisava combater aquela gente. Devia se vestir, ir até a repartição e trabalhar ainda mais do que já trabalhava. Seria um tapa na cara daquela gente. Um servidor público de verdade deveria comemorar o seu dia trabalhando. Um servidor público deveria comemorar o seu dia servindo a Deus e ao país. Simples assim. Nada mais importante do que servir! Quem não vive para servir não serve para viver – repetiu para si mesmo o que ouvia do pastor, gostava do jogo de palavras. Pena não ter solicitado autorização para entrar na repartição e trabalhar no feriado. Não trabalharia para não contrariar as normas. Só por isso. Um servidor público deve respeitar as leis, as instituições e, sobretudo, as normas. O servidor público deve acreditar nas leis, nas instituições e, sobretudo, nas normas. Os esquerdistas vagabundos que descumpriam as leis, as instituições e as normas. E ninguém fazia nada. Os esquerdistas vagabundos que desmoralizavam as leis, as instituições e as normas. E ninguém fazia nada. Os esquerdistas vagabundos não acreditavam nem nas leis, nem nas instituições e nem nas normas. E ninguém fazia nada. Quem começa duvidando das leis, das instituições e das normas acaba duvidando de Deus, da família e do país. Eram uns pecadores, uns bêbados, uns drogados. Vermes que não sabiam administrar nem as próprias casas, mas queriam administrar as instituições públicas, o país e o mundo. Vermes sem família, que é a base de tudo. Chifrudos. Pervertidos. Veados. Fechou as mãos. Apertou os dedos. Beijou a aliança. Queria socar os esquerdistas. Se os patriotas tivessem, pelo menos, um líder com coragem para fazer o que era necessário, aquela gente seria eliminada. O ex-presidente fraquejou e não fez o que deveria ter feito. Se não dava para eliminar todos os esquerdistas, poderia começar expulsando-os do serviço público. Não era fácil, ele mesmo já havia feito denúncias anônimas na Corregedoria, na Comissão de Ética e no Ministério Público. Os vermes de esquerda prejudicavam a imagem das instituições públicas, não trabalhavam e ninguém fazia nada. É que aquela gente era influente. Por isso o ex-presidente não conseguiu fazer tudo que deveria ter feito. O serviço público deve ser para quem quer servir ao país, como um crente serve a Deus. O trabalho dignifica o homem. Aqueles bandidos queriam desmoralizar o Estado e as instituições públicas. Queriam ensinar putaria nas escolas. Queriam fechar as igrejas e destruir as famílias. Sempre que podia, o servidor público enchia o peito de ar e de orgulho para repetir seu bordão: a família é a base de tudo! Dizer isso na repartição era, para ele, como dar um soco na cara dos esquerdistas. Aqueles vagabundos se achavam grande coisa. Eram apenas bandidos que defendiam bandidos. Não gostam da polícia. Criticam a polícia. Quando um policial se defende e mata um bandido, fazem barulho. Quando os bandidos ferem ou até matam algum policial, ficam calados. Canalhas. Hipócritas. Enquanto ele estava preocupado com o país e com os vermes de esquerda, os vermes de esquerda certamente estavam dormindo e descansando para mais um dia de bebedeiras, orgias, bagunças, conspirações. Acordariam para tramar greves e conspirações. Irritou-se ainda mais. Mas o servidor público iria à forra no dia seguinte. Quando os vermes de esquerda chegassem na repartição com álcool saindo pelos poros, ele já estaria trabalhando. Trabalharia cada vez mais. Trabalharia pelas instituições, pela família, pelo país, por Deus.  O servidor público se considerava um privilegiado. Fora abençoado com a possibilidade de servir duplamente: servia a Deus e servia ao país. Tivesse que escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa, o servidor público escolheria o verbo servir! 


Publicado originalmente no Passa Palavra


O TRADUTOR

 

Queria ser romancista, tornou-se tradutor. Queria conhecer o mundo, foi para uma cidadezinha do interior.

 

Aceitou a ideia de que passaria pela vida sem escrever um romance. Morreria sem fazer a única coisa capaz de justificar a existência: escrever romances – recriar o mundo e os homens com palavras. Passaria pela vida sem deixar nenhuma marca digna de nota, sem absolutamente nada de que pudesse se orgulhar. Mas ter que traduzir textos acadêmicos para sobreviver era constrangedor. Para os amigos – quando ainda tinha com quem conversar sobre literatura –, dizia que eram justamente as malditas traduções de textos acadêmicos que lhe travavam as possibilidades criativas. É mais fácil vencer um concurso de dança vestindo uma armadura do que escrever um romance tendo que ganhar a vida como tradutor. A metáfora era do tempo em que ainda nutria pretensões literárias. Afirmava que um abismo separa um texto acadêmico de um bom romance. Citava o filósofo das marteladas: quando olhamos para o abismo, o abismo olha para nós. Concluía dizendo que os artigos que traduzia eram o abismo. Comparem um Machado de Assis ou um Guimarães Rosa aos textos que vocês traduzem e revisam – costumava dizer a amigos e companheiros de profissão. Arrematava afirmando ser impossível escrever algo que preste depois de passar o dia traduzindo academesmices, ciência salame, encheção de linguiça, mais do mesmo, bobajadas que só servem para bater metas curriculares. Havia quem discordasse em nome do futuro do país, do progresso do conhecimento, da ciência e, sobretudo, como forma de dar sentido ao próprio trabalho. É desagradável pensar que se desperdiça a vida repetindo tarefas inúteis. Ele provocava lembrando que, pelo menos, não ficaria vinculado ao que definia como textículos acadêmicos, porque os nomes dos tradutores não costumam ser publicados.

 

Aceitou a ideia de que não conheceria o mundo e sequer sairia do Brasil. Mas passar o resto da vida numa cidadezinha esquecida no interior do país não era o melhor destino. Como ficou sem dinheiro no meio da primeira grande viagem que tentou fazer, precisou trabalhar. Retomou as traduções. Como a internet já havia chegado naquele fim de mundo, foi trabalhando e ficando. Era mais fácil sobreviver no interior com cerca de duzentos reais que ganhava por artigo traduzido, nos grandes centros o custo de vida era proibitivo para o tradutor. A cidadezinha tinha um quarteirão com casario do século XIX, do tempo da mineração, cercado por habitações precárias, resultantes do loteamento de antigas propriedades. Alugou um quarto num sobrado do século XIX e ficou. Dormia ali. Trabalhava ali. Traduzia ali. Colocou uma mesa e um computador no canto do quarto, ao lado da janela, por onde espiava a vida passar quando as palavras começavam a se embaralhar na tela do computador. Fazia as refeições na cozinha que dividia com outros inquilinos. Fazia as necessidades no banheiro que dividia com outros inquilinos. Dividia o sobrado com viajantes, prostitutas, traficantes e até aventureiros que acreditavam ainda haver ouro nos rios e minas da região.  Porque morava no velho sobrado com pessoas marginalizadas e praticamente não saía do quarto, havia quem desconfiasse que o tradutor fosse um fugitivo.

 

Ele não se importava, até se divertia com as suspeitas. O que irritava o tradutor era a labuta diária. Além do tempo desperdiçado traduzindo para o inglês, além do travamento literário provocado pela linguagem insossa dos artigos a serem vertidos, o tradutor se irritava com o contato mínimo que era forçado a manter com os clientes. Havia revistas científicas que contratavam empresas especializadas que quarteirizavam o serviço repassando textos a serem vertidos pelo tradutor. Havia os acadêmicos que demandavam traduções para publicar em revistas científicas internacionais. O tradutor preferia o autoritarismo mercantil das primeiras, que simplesmente informavam o tamanho do texto, o valor e o prazo. As empresas prescindiam do mandar sugerindo dos acadêmicos, que irritavam profundamente o tradutor. Sugiro que tenha atenção com os termos técnicos. Sugiro evitar expressões “aportuguesadas”. Sugiro não utilizar softwares de tradução. Sugiro consultar as instruções do periódico antes de iniciar o trabalho. Sugiro entregar até a data tal, ou antes se possível. Toda vez que recebia ordens em forma de sugestão lembrava-se de Bartebly, o escrevente do conto homônimo, que passou abruptamente da aceitação ao rechaço com um misterioso “eu preferiria não”. Poderia revisar o contrato x? Eu preferiria não. Poderia revisar a procuração y? Eu preferiria não. Mas revisar é parte do seu trabalho, Bartleby – argumentava o patrão, no conto. Ao que o escrevente foi do futuro do pretérito (eu preferiria não) para o presente do indicativo (eu prefiro não) seguido por um mutismo intransigente e definitivo. O tradutor sonhava com o que definia como o dia B – de Bartleby –, quando responderia “eu preferiria não” às empresas especializadas em tradução e, especialmente, aos acadêmicos.

 

O tradutor ficava puto quando os acadêmicos iniciavam solicitações adicionais com agradecimentos duvidosos. Agradeço a prontidão e a qualidade do trabalho, reenvio o artigo para revisão, fizemos correções na introdução, por favor, verifique e ajuste a versão para o inglês. E assim era obrigado a perder tempo com tarefas não remuneradas. Toda vez que recebia solicitações adicionais que começavam com agradecimentos duvidosos, ele lembrava da escritora Dorothy Parker, que definiu o sentimento de gratidão como “o atributo mais mesquinho e choramingueiro do mundo”. O tradutor se irritava profundamente com os agradecimentos forçados e interesseiros. Agradecemos o cuidado e a atenção com nosso artigo, por favor, poderia informar a previsão de entrega da versão para o inglês? Agradecemos o esclarecimento sobre o pagamento, é possível conceder um desconto?   

 

Foi num dia qualquer, no começo da tarde, mais precisamente. Pela manhã havia concluído a tradução de um artigo mal escrito e chatíssimo, cheio de frases longas, clichês e ideias banais. Quando leu o agradecimento pelo retorno imediato no início do e-mail, já imaginou que teria dores de cabeça. O professor doutor A pedia desculpas e informava que a versão enviada ao tradutor não havia sido revisada por um dos coautores, o professor doutor B. Assim sendo, o professor doutor A agradecia e sugeria que o tradutor revisasse e refizesse o trabalho com a maior brevidade possível, se atentando especialmente às alterações realizadas pelo professor doutor B na seção de métodos. Na mesma mensagem, o professor doutor A reuniu o que mais irritava o tradutor: uma ordem sugerida e um agradecimento duvidoso.

 

Quis esmurrar a tela do computador e a cara do professor doutor A, que ele não conhecia pessoalmente, mas que passou a odiar com todas as forças. Se pudesse, pelo menos, agradecer e mandar sugerindo que o professor doutor A fosse à merda... Agradeço o alerta sobre a necessidade de revisar a tradução, especialmente a seção de métodos: sugiro que vá à merda! O problema era que aquele grupo de pesquisa sempre demandava versões para o inglês. Podia abrir mão daquelas traduções? Sobreviveria sem elas?

 

Contou os trocados que tinha na carteira, desligou o computador, bateu a porta do quarto e foi até o bar da esquina. Tomou uma cerveja aguada como a vida.


Publicado originalmente no Passa Palavra



 

ALBERT CAMUS E A ABSOLUTIZAÇÃO DO ABSURDO

    

Como se portar num mundo disparatado e privado de luzes? A vida e a obra do argelino Albert Camus é uma tentativa de responder esta questão, é uma busca da ética.


Da condição inóspita do mundo brota o absurdo. É preciso enfrentá-lo de frente. Camus propõe, primeiramente, que se encare o absurdo como ponto de partida e não de chegada. A questão por ser respondida neste texto é se esse ponto de partida (absurdo) é sólido ou se é também fugidio e contingente.

           

A contrapartida do absurdo é a revolta. Camus esboça a história da revolta ao longo dos tempos misturando o real e o mítico, o literário e o histórico. Um dos homens de destaque na história da revolta é Ivã Karamazov, personagem de Fiódor Dostoiévski. Ivã não submete deus ao julgamento da razão, mas ao da ética. É legítima uma criação que comporta o mal? Para homens como Ivã Karamazov e Albert Camus a respota é negativa. Uma criação que aceita o mal é inaceitável. Deus não passa pelo crivo ético. Este tema é recorrente em Camus, no romance A peste ele renasce no Dr. Rieux, que se recusa a aceitar uma criação que tortura as crianças.

           

Mas a exclusão de deus da equação tem implicações importantes, se não há um criador não há um projeto e uma justificativa para o mundo: os homens serão seres solitários e contingentes. A condição humana torna-se absurda. Como se comportar nestas condições?


Ao liquidar um homem, a morte inviabiliza suas pretensões de continuidade e suprime qualquer possibilidade de sentido. Como a morte é o limite, igualam-se os feitos mais nobres e seus opostos. Não há qualquer julgamento. Deus é retirado da equação e trocado pelo vazio. O desejo de ordenação das coisas choca-se com a realidade disforme. A geometria antieuclidiana do mundo rechaça a sede de síntese da sensibilidade humana. A única possibilidade de ordenação (Deus) está excluída. 

           

Segundo Camus: “Esse divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário, é que é propriamente o sentimento da absurdidade”. Confinado entre muros instransponíveis, o homem caminha em círculos, sem recurso possível. Privado das vias que levam para o transcendental, afastada toda e qualquer metafísica, o homem se encontra preso entre espessas paredes, sem saída. Daí o dilema, a pergunta filosófica fundamental pode implicar na resposta derradeira e na devolução do bilhete de entrada na vida, como sugeriu Ivã Karamazov. Dado o absurdo do real concreto experimentado, a auto-aniquilação e o suicídio ganham relevância. É preciso dizer sim ou não à vida. Para Camus o suicídio é a mais fundamental das questões filosóficas. Mas ele diz não ao auto-aniquilamento e afirma a vida absurda. A partir deste passo é preciso forjar uma ética coerente com o absurdo. É preciso caminhar com cuidado por sobre o telhado de vidro do mundo.

           

Suprimida a religião e o transcendental. Sendo a vida unicamente um em si, qualquer sentido ou ausência dele só poderá estar contido nela mesma. Entretanto, não é haver sentido para a vida que levará à negação do auto-aniquilamento, como no caso do próprio Camus. Alguém pode crer no sentido da vida e suicidar-se, ou não crer e continuar vivendo. Ivã Karamázov percebe e expressa essa sutileza: “Eu vivo, mesmo a despeito da lógica. Não creio na ordem universal, pois seja; mas amo os brotos tenros na primavera, o céu azul, amo certas pessoas sem saber por quê.”

           

Esta sutileza também percebida por Camus, por vezes lhe escapa, como quando afirma que “matar-se é de certo modo, como no melodrama, confessar. Confessar que se foi ultrapassado pela vida ou que não se tem como compreendê-la.” Ora, sendo o absurdo uma experiência sensitiva (é um sentimento e não um fato concreto), ele não pode ser absolutizado, trata-se de um enjôo ou desencanto, surge e se desmancha. Pode inclusive ser superado pelo sol mediterrâneo, pelos “brotos tenros na primavera” ou outras experiências. Sendo o contrário verdadeiro também, o sentimento do absurdo pode surgir em qualquer lugar, inclusive sob o sol mediterrâneo.

 

A sensibilidade aburda está na “nostalgia da unidade” e no “apetite de absoluto”. O homem camusiano é um desesperado incapaz de religar as luzes do mundo. Há um “divórcio entre o espírito que deseja e o mundo que ilude”. Mas se, com Ivã, a justificativa para negar o suicídio se encontra “nos brotos tenros na primavera, no céu azul, no amar certas pessoas sem saber por quê” e “a despeito da lógica”; significa que a razão deve aceitar seus limites e que é preciso fazer uso da poesia, da literatura, do teatro, para lidar com o absurdo. É por isso que Albert Camus é mais escritor do que filósofo. Suas definições são mais imagéticas do que categoriais. Sendo o absurdo uma experiência mais sensitiva do que racional, a literatura e a poesia são campos privilegiados para demarcá-lo.

           

Camus pinta o absurdo como um “desabar de cenários”, ou um “divórcio entre o homem e sua vida”. Na poesia semelhante sensibilidade surge através de outras imagens:

 

“Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

(Trecho do poema José – Carlos Drummond de Andrade)



“O recurso de se embriagar.
 O recurso da dança e do grito,
 o recurso da bola colorida,
 o recurso de Kant e da poesia,
 todos eles... e nenhum resolve.”

(Trecho do poema Passagem do Ano – Carlos Drummond de Andrade)


Em Carlos Drummond o absurdo brota da relação de homens que gritam para um mundo surdo, que lhes tortura. A chave na mão não é uma solução porque não existem portas. Todos os recursos são inúteis.

           

Enquanto os versos de Drummond constatam e verbalizam a absurdidade da vida no sentido camusiano; os de João Cabral manifestam o desejo de clareza, tentam negar o vago, o inconstante e o volúvel:

 

“O poema inquieta

o papel e a sala.

Ante a face sonhada

o vazio se cala”

(Trecho de Poema de desintoxicação – João Cabral de Melo Neto)

 

“O lápis, o esquadro, o papel;

o desenho, o projeto, o número:

o engenheiro pensa o mundo justo,

mundo que nenhum véu encobre.”

(Trecho do poema O engenheiro – João Cabral de Melo Neto)

 

“Procura a ordem

que vês na pedra:

nada se gasta

mas permanece.”

(Trecho do poema Pequena ode mineral – João Cabral de Melo Neto)

 

Drummond expressa a dor de um José abortado e repelido pelo mundo, Cabral mostra sua sede de síntese e permanência. São os dois lados da mesma face. O homem absurdo de Albert Camus deseja o mundo ordenado e “que nenhum véu encobre”, como na poesia de João Cabral; mas é um “eu todo retorcido”, como o José, de Carlos Drummond. 

           

A questão que surge é: um mundo coerente e ordenado seria capaz de destorcer os seres? Um casamento estável e monogâmico de um homem com sua vida seria reconciliador? São questões complexas. Mas a resposta é negativa. Um mundo coerente e ordenado tenderia a produzir uma humanidade paralítica, posto que sua coerência e ordenação seriam externas e idependentes dos homens. Na exata medida em que nega o humano espírito construtor, o casamento harmônico de um homem com sua vida é inviável, pela simples razão de que produziria um mundo enfadonho e entediante. Seja na arte ou no trabalho não alienado, é somente com a criação que os seres humanos podem se realizar. Qualquer coerência e ordenação impostas ao homem são alienantes e neste sentido opressivas.


O homem é essencialmente um ser que cria, inclusive quando forja sua própria destruição. O auto-aniquilamento é também produto do trabalho, tanto em seu conteúdo teórico quanto no operacional. A possibilidade de criação só é viável na vida, neste sentido, a vida é como um tango, sedutora na exata medida que fugidia, trágica na exata medida que necessária.


No processo de criação forjam-se e alteram-se os sentidos, tudo a partir da experiência sensorial. Sendo assim, a sensibilidade absurda não é exatamente uma “doença do espírito”, como quer Camus; trata-se, mais precisamente de um resfriado ou alergia. E aqui não se enxergue ironia e sarcamos, mas sim uma tentativa de melhorar a definição. Resfriados e alergias vêm e vão com maior frequência, a sensação absurdo também. Essa dimensão parece escapar de Camus quando ele exagera nas cores do absurdo.

           

Não há suicídios filosóficos ou baseados na idéia de que a vida não tem sentido porque o próprio sentimento do absurdo é inconstante, vai e vem. Se não fosse assim, o José do poema se mataria. Mas como explica Drummond:

 

“outros dias virão

e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.”

(Trecho do poema Passagem do Ano – Carlos Drummond de Andrade)


José sabe disso. Depois outros divórcios e desabamentos extinguirão o fogo da vida, que reacenderá, apagará e assim sucessivamente. Matar-se não é afirmar a impossibilidade de compreender a vida, como quer Camus. Matar-se é afirmar a impossibilidade de viver a vida num momento específico, é abrir mão de buscar "novas coxas e ventres", entre outras coisas.


Procurar uma ética imanente e coerente com a singularidade e a contigência da vida é louvável, nesse sentido a obra camusiana é grande e estes apontamentos não lhe desdizem em nada, não lhe alteram nenhuma conclusão. Por outro lado, absolutizar uma sensibilidade (absurdo) também fortuita é um exagero. Para haver divórcios entre homens e suas vidas é preciso que haja uniões. Para haver desabamentos de cenários é preciso que estes estivessem de pé. Esse momento de positividade, inverso da sensação de absurdo, é que às vezes escapa de Camus.