MAS TEM O MACHADO DE ASSIS
Eu cursava faculdade de economia. Estava
mais ou menos na metade do curso. Momento em que o pessoal da turma começava a
substituir as camisetas e as bermudas por roupas sociais, porque iniciavam
estágios em bancos e grandes empresas. Tenho contato com poucos ex-colegas.
Imagino que, atualmente, a maioria tenha perdido a ilusão no futuro e na
carreira, o que não anula a fascinação daqueles primeiros dias vestindo roupas
sociais. Nada mais fascinante – para um estudante de ciências econômicas – do
que vestir roupas sociais. Eu não tinha grandes esperanças: trabalhava há algum
tempo, não era estagiário, usava calças jeans e camisetas, lia muitos livros
comprados em sebos e poucos manuais de economia. As roupas sociais, a carreira e
o futuro não me fascinavam. Mas havia um professor que me intrigava. Vou
chamá-lo de L. Não acredito que meus ex-colegas de turma leiam os textos que
escrevo, mas, mesmo assim, vou dificultar a identificação porque se trata de
uma história baseada em fatos reais. O professor L talvez tenha sido vitimado
pela reforma da previdência, pode ter perdido o emprego em empresa
multinacional, talvez esteja ganhando a vida exclusivamente com o dinheiro das
aulas de microeconomia. Daí a importância de preservar a identidade. L
explicava os comportamentos e as preferências dos consumidores e das empresas,
dava exemplos citando mercados específicos. Meus colegas de turma quase
aplaudiam. Era quando o professor L humildemente erguia o livro texto de
microeconomia, batia o indicador na capa e dizia “está tudo aqui”. Só que de
vez em quando ele emendava um “mas tem o Machado de Assis”. Às vezes ele dizia
“mas tem o Machado de Assis” no meio da explicação sobre o comportamento dos
agentes econômicos, sem se preocupar em conectar uma coisa com a outra, como se
fosse um desabafo. Eu não entendia quase nada de microeconomia, mas entendia
perfeitamente o que o professor L queria dizer com aquele “mas tem o Machado de
Assis”. Era um protesto contra as simplificações. Era um alerta sobre o
horizonte bancário. Era a teoria do medalhão virada do avesso. Era um grito desesperado
de um leitor. Era um narrador machadiano intervindo na história. Nada mais
deliciosamente existencial do que aquele “mas tem o Machado de Assis”.
Milan Kundera [1] divide a história
do romance em três tempos. O Primeiro Tempo vai até o final do século XVIII;
tem Rabelais, Cervantes, Sterne e Diderot como referências; e caracteriza-se
por: “1) a liberdade eufórica da composição; 2) a vizinhança constante das
histórias libertinas e das reflexões filosóficas; 3) o caráter não sério,
irônico, paródico, chocante dessas mesmas reflexões.” [2] O Segundo
Tempo prevaleceu durante o século XIX; tem Balzac, Stendhal, Zola e outros como
referências; e caracteriza-se pela verossimilhança, a realidade é descrita com
exatidão e detalhes, o romance se torna um documento histórico. O Terceiro
Tempo começa no século XX; tem Kafka, Musil, Broch e Gombrowicz como
referências iniciais, continuando com Sabato, Fuentes e outros; as
características do Terceiro Tempo são: retorno à estética dos primeiros
romancistas, utilização da reflexão ensaística, liberdade de composição,
digressões, renúncia à verossimilhança e ao realismo psicológico, retomada do
não-sério e do jogo [3]. Kundera dá um exemplo interessante para
diferenciar os três tempos do romance: Sancho Pança tem cento e três dentes
quebrados durante suas aventuras com Dom Quixote. O espírito zombeteiro e
não-sério que predomina no livro de Cervantes teria se tornado incompreensível
no Segundo Tempo do Romance devido ao “imperativo da verossimilhança” [4],
ninguém teria cento e três dentes quebrados num romance de Zola. Para
Kundera, os grandes romancistas do Terceiro Tempo teriam retomado e reinventado
o espírito zombeteiro e não-sério a
la Rabelais, Cervantes, Sterne e Diderot.
A divisão “toda pessoal” [5] da
história do romance formulada por Milan Kundera se torna ainda mais
interessante quando bardo tcheco agrega a música à reflexão sobre os três
tempos, ver, por exemplo, a defesa de Stravinski contra a Adorno no texto A
escandalosa beleza do mal, presente nos Testamentos Traídos [6].
Mas voltemos ao romance. Durante algum tempo tive vontade de escrever uma carta
para Milan Kundera. A carta que nunca redigi teria como título a frase do professor
L: Mas tem o Machado de Assis. Como Kundera encaixaria o “Bruxo do Cosme
Velho” nos três tempos do romance? Machado é uma pedra no meio do caminho. Os
livros didáticos registram que o “Bruxo do Cosme Velho” inaugurou o realismo no
Brasil com a publicação das Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881. Só
que a história, narrada por um “defunto autor”, tem muito mais a ver com o
Primeiro Tempo do Romance, com o espírito zombeteiro e não-sério, do que com o
realismo e a verossimilhança. O próprio Machado [7] registrou no início
das Memórias Póstumas ter escrito com “a pena da galhofa e a tinta da
melancolia”, adotando “a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre”,
com algumas “rabugens de pessimismo”. Por “forma livre de um Sterne, ou de um
Xavier de Maistre” entenda-se a profissão de fé do “Bruxo do Cosme Velho” nos
princípios estéticos dos primeiros romancistas, ou, utilizando as palavras de
Kundera [8] sobre os compositores modernos para escrita machadiana: “uma
inimitável felicidade do ser, felicidade que se manifesta pela
irresponsabilidade eufórica da imaginação, pelo prazer de inventar, de
surpreender, até de chocar pela invenção.” É essa felicidade da criação, esse
prazer de inventar, que autorizam um “defunto autor” a contar sua história e
permitem que um escudeiro tenha cento e três dentes quebrados. Ou, para dar um
exemplo do Terceiro Tempo do Romance, é essa felicidade da criação, esse prazer
de inventar, que autorizaram o romancista Juan Goytisolo a conceder cerca de
duzentos anos de vida a Marx, para que ele estivesse vivo em Londres,
acompanhasse pela televisão e comentasse o fim do socialismo dito real [9].
São os “sortilégios do narrador que inventa”, que “se deixa levar por suas
fantasias e por seus excessos” [10].
Desisti de escrever uma carta perguntando
a Kundera como encaixar o “Bruxo do Cosme Velho” nos três tempos do romance
quando encontrei um texto de Carlos Fuentes intitulado O milagre de
Machado de Assis [11]. Fuentes foi grande amigo de
Kundera, que incluiu o escritor mexicano entre os grandes romancistas, além
dedicar-lhe uma bela carta aberta parabenizando-o pela obra e pelos setenta
anos de idade [12]. No texto O milagre de Machado de Assis,
Fuentes cita Kundera e, creio, registra o que o tcheco diria sobre o brasileiro.
Isso porque Fuentes parte dos ensaios de Kundera para pensar os romances do “Bruxo
do Cosme Velho”. Se eu escrevesse uma carta a Kundera intitulada Mas tem o
Machado de Assis, a resposta poderia ser E tem o Carlos Fuentes, sugiro
que leia o texto dele publicado na Folha de São Paulo em 01 de outubro de 2000.
O que Kundera define como Primeiro Tempo do Romance, Fuentes define como
Tradição de La Mancha. O que Kundera define como Segundo Tempo do Romance,
Fuentes define como Tradição de Waterloo. Fuentes: “A tradição de Waterloo
afirma-se como realidade. A tradição de La Mancha sabe-se ficção e, mais ainda,
celebra-se como ficção. Waterloo oferece fatias de vida. La Mancha não tem
outra vida afora a do seu texto, feito à medida em que é escrito e é lido.
Waterloo surge do contexto social. La Mancha descende de outros livros.
Waterloo lê o mundo. La Mancha é lida pelo mundo. Waterloo é séria. La Mancha é
ridícula. Waterloo baseia-se na experiência: diz o que já sabemos. La Mancha
baseia-se na inexperiência: diz o que ignoramos. Os atores de Waterloo são
personagens reais. Os de La Mancha, leitores ideais.” Fuentes dá um exemplo
interessante para diferenciar as tradições La Mancha e Waterloo: Dom Quixote;
Tristam Shandy; Jacques, o Fatalista; e Brás Cubas sabem que são personagens.
Tanto para Kundera quanto para Fuentes, um
grande romance só é possível dentro de alguma tradição. Fuentes: “não há criação
sem tradição que a nutra, assim como não há tradição sem criação que a renove”.
Para Carlos Fuentes, o milagre de Machado de Assis ocorreu porque o escritor
brasileiro é um legítimo herdeiro de Cervantes. A tradição de La Mancha não foi
totalmente suplantada pelo realismo, ela reapareceu no Rio de Janeiro com um
homem negro, pobre, autodidata, epilético, míope, que aprendeu francês numa
padaria. Fuentes destaca, e isso aumenta o milagre de Machado de Assis, que não
existia “uma grande tradição novelesca, nem brasileira nem portuguesa.” O “Bruxo
do Cosme Velho” nutriu, renovou e revigorou a arte do romance com “a pena da
galhofa, a tinta da melancolia e as rabugens de pessimismo”. Ao espírito
zombeteiro e não sério dos primeiros romancistas (“pena da galhofa”), Machado agregou
o banzo e o ceticismo do Brasil escravista (“tinta da melancolia e rabugens de
pessimismo”). O Brasil não era, não é e provavelmente nunca será um país sério.
O “Bruxo do Cosme Velho” sabia que não dá para levar a sério o que não é sério.
Se é assim, melhor enfrentar a melancolia e o pessimismo com a galhofa. Machado
inaugurou uma espécie de sabedoria da desconfiança e do riso, que coloca todas
as certezas e todos os valores sob suspeita. Se nada pode ser levado a sério,
melhor rir e desconfiar de tudo, exceto, talvez, da arte e do romance. Eis o
ensinamento do “Bruxo do Cosme Velho”.
Kundera lamentou a guinada realista que
interrompeu o Primeiro Tempo do Romance. Mas tem o Machado de Assis.
Fuentes lembra que o convite ao jogo e ao sonho reapareceram no romance com o “Bruxo
do Cosme Velho”, no Rio de Janeiro, no século retrasado. Mas não é só isso, Machado
de Assis retomou e revigorou a estética dos primeiros romancistas, não tropeçou
na verossimilhança, antecipou muito do que fariam os escritores do século XX, escreveu
com espírito zombeteiro e irônico, permitiu-se ampla liberdade de criação,
colocou todas as certezas e valores sob suspeita, fez uso de digressões e da
reflexão ensaística sempre com a “pena da galhofa”. Se é tudo isso – e
realmente é – dá para registrar, usando os termos de Carlos Fuentes e Milan Kundera,
que Machado de Assis é um milagre porque é uma ponte que atravessa e interliga
os três tempos do romance.
Notas
[1] Milan Kundera. Os
testamentos traídos. Rio de Janeiro: Nova Fronteria, 1994.
[2] Kundera, 1994, op cit.,
p. 71.
[3] Kundera, 1994, op
cit., p. 67.
[4] Kundera, 1994, op
cit., p. 54.
[5] Milan Kundera. Um
encontro. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 97.
[6] Kundera, 1994, op
cit., p. 82-83.
[7] Machado de Assis. Memórias
póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016. p. 53
[8] Kundera, 1994, op
cit., p. 80.
[9] Juan Goytisolo. A
saga dos Marx. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
[10] Kundera, 1994, op
cit., p. 54.
[11] Carlos Fuentes. O
milagre de Machado de Assis. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0110200003.htm
[12] Milan Kundera, 2013, op cit., p. 75-78.
Publicado originalmente no Passa Palavra