A abelha e a crônica

 

Era uma quarta-feira como todas as outras. Despertei com os primeiros raios do sol. Abri a janela do quarto. A luz da manhã dominou o ambiente. Coloquei meus óculos de leitura. Sim, “minhas retinas tão fatigadas” [1] denunciam a idade. Apanhei o livro que lia há uns dois dias, Um solitário à espreita, do Milton Hatoum [2]. Deitei de costas na cama. Apoiei a almofada de leitura sobre peito. Desfrutei as crônicas do romancista manauara. Nietzsche [3] lamentava o desperdício das primeiras horas da manhã – “quando o espírito reflui em leveza, ao despertar das energias” – com leituras: “Para mim, isto é um vício!” – martelou o filósofo. Alguém poderia responder: mas que vício reconfortante! Esquecer alta dos preços, as mudanças climáticas, o amor ausente, a iminência da terceira guerra mundial e viajar com as palavras. Lutar com as palavras, de manhã, pode ser uma luta vã, como quer o poeta [4]. Mas viajar com elas é uma alegria.

 

Meu reencontro com Milton Hatoum aconteceu quando passei alguns dias em Manaus. Queria ler poetas e romancistas manauaras antes de chegar na cidade, o primeiro que me ocorreu foi Hatoum. Já havia lido e gostado de Dois irmãos [5], mas não busquei outros livros do romancista manauara. Os caminhos da leitura são intrincados. Visitar Manaus foi a deixa para ler Cinzas do norte [6], Relato de um certo Oriente [7], A cidade ilhada [8], Órfãos do Eldorado [9]. Recomendo todos. Para quem ainda não conhece Hatoum, talvez iniciar pelos dois últimos. Um livro de contos e uma novela, respectivamente. Textos curtos que concentram temas e obsessões do autor. Em um podcast que ouvi, mas não consegui localizar para referenciar, Hatoum comentou que o Brasil não olha para Amazônia, assim como a Amazônia não olha para o Brasil. Certeiro. Dá para usar a sacada para reforçar a recomendação dos livros dele. Para um olhar fino sobre a Amazônia, leia Hatoum. Para um olhar fino sobre o Brasil e o mundo a partir da Amazônia, leia Hatoum. O romancista saiu de Manaus, mas a cidade segue com ele. Ela está em todos os textos. Reaparece onde menos se espera.

 

Minha “imersão amazônica” não se limitou a Milton Hatoum, nem ao período anterior, nem durante a estadia em Manaus. Na cidade comprei livros que li depois. Registro alguns poetas e romancistas manauaras, apenas os que me surpreenderam e encantaram, especialmente considerando que o Brasil não olha para a Amazônia, nem o contrário: Anibal Beça [10], Astrid Cabral [11], Luiz Bacellar [12][13][14], Márcio Souza [15][16][17], Thiago de Mello [18][19][20]. Vale pontuar que o poeta Thiago de Mello não nasceu em Manaus, mas tinha o coração manauara; escreveu, por exemplo, um livro intitulado Manaus, amor e memória.

 

Se pude ler poetas e romancistas de Manaus, foi porque a cidade conta com uma editora, Valler, que mantém uma loja no Largo de São Sebastião e publica autores locais. Mesmo poetas e romancistas reconhecidos nacionalmente tiveram obras editadas, ou reeditadas, pela Valler. É o caso de Márcio Souza e Thiago de Mello. Foi na simpática livraria da editora Valler, no Largo de São Sebastião, que encontrei e comprei Um solitário à espreita. Mas não li de imediato. Há livros para guardar como “bola de segurança”, para quando precisamos de leituras tônicas e revigorantes. Foi o que fiz com as crônicas de Milton Hatoum. Voltei a elas quando já estava longe de Manaus e minha “imersão amazônica” começava a arrefecer. Hatoum discorre com leveza sobre pequenos acontecimentos, gracejos, memórias, perdas. Com Manaus ressurgindo quando menos se espera. Que delícia. Tudo vira – ou pode virar – crônica nas mãos do escritor, especialmente se ele tem prazo para entregar textos. Vale um gato deixado em Manaus, um café com o taxista em São Paulo, um cartão de visita, o vermelho vivo dos jambos, um rio sem margens, um amigo excêntrico, uma dançarina octogenária, “uma pintura inacabada”, “uma vingança inconsciente” em Toronto, uma “tarde delirante no Pacaembu”. As crônicas presentes em Um solitário à espreita foram todas publicadas na mídia e, posteriormente, reunidas em livro.

 

A crônica é uma espécie de prima do haikai. A diferença é que quem escreve haikais registra instantes, fotografa a insustentável leveza do que não vai se repetir, especialmente na natureza; já os bons cronistas trabalham com acontecimentos cotidianos, sempre com inteligência e perspicácia, destacando o inusitado. O haikai direciona a imaginação do leitor. O poeta sugere. O leitor imagina e recria o instante a partir das poucas palavras do poema. Na crônica o leitor navega com a imaginação do autor, que recria acontecimentos – inclusive os que se repetem – com poucas palavras. O leitor se diverte com a imaginação do cronista, com o inusitado revelado. A presença do autor é mais facilmente notada na crônica. Haikai: poética da sugestão. Crônica: alegria da revelação.    

 

Voltemos àquela quarta-feira do primeiro parágrafo. Fiz uma pausa na leitura das crônicas de Milton Hatoum para tomar café. Depois atravessei a casa, abri a porta e caminhei no terraço. Foi quando senti uma dor forte no pé esquerdo. Com a cabeça nas crônicas de Um solitário à espreita, não enxerguei e pisei numa abelha. Ela morreu pouco tempo depois. Retirei o ferrão do pé com uma pinça. Mas a dor ficou. Apesar do acidente, da morte da abelha e do inchaço: tentei ver o lado bom do ocorrido. O acontecimento inusitado podia servir para uma crônica. Foram três dias com pé inchado, manquitolando e matutando na crônica que não consegui escrever. Elaborei títulos – O solitário e a abelha, Dois solitários e um ferrão, Começando o dia com o pé esquerdo –, mas não consegui desenvolver a narrativa. Naveguei na internet. Pesquisei sobre crônicas, abelhas, ferrões e pés humanos. Sem sucesso. Cheguei a desconfiar que a abelha que me picou fosse nativa da Amazônia. Ela poderia ter surgido de onde menos se esperava, mais ou menos como Manaus aparece nos textos do Milton Hatoum. Mas não. Ao que tudo indica fui picado por uma Apis mellifera, que é uma abelha de origem europeia. Minhas pesquisas sobre o pé humano também foram pouco frutíferas. Se as representações que encontrei na internet estiverem corretas, a picada atingiu uma região intermediária do meu pé esquerdo, entre os dedos do amor e da criatividade, que são duas coisas em falta para mim. E o que isso significa? Absolutamente nada! A morte da abelha e meu pé inchado por três dias serviram apenas para fazer este breve elogio a Milton Hatoum e aos poetas e romancistas manauaras. Daria para fazer o mesmo sem ter pisado na abelha.      

 

Notas

[1] Carlos Drummond de Andrade. No meio do caminho. In: Carlos Drummond de Andrade. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 22.

[2] Milton Hatoum. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

[3] Friedrich Nietzsche. Ecce homo. [S.l.] Edições de ouro. Coleção Universidade. [s.d]. p. 71.

[4] Carlos Drummond de Andrade, op. cit., p. 121.

[5] Milton Hatoum. Dois irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

[6] Milton Hatoum. Cinzas do Norte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

[7] Milton Hatoum. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

[8] Milton Hatoum. A cidade ilhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

[9] Milton Hatoum. Órfãos do Eldorado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

[10] Anibal Beça. Folhas da Selva. Manaus: Editora Valer, 2006.

[11] Astrid Cabral. Íntima fuligem: caverna e clareira. Manaus: Editora Valler, 2017.

[12] Luiz Bacellar. Frauta de barro. 9º ed. Manaus: Editora Valler, 2011.

[13] Luiz Bacellar. Sol de feira. 7º ed. Manaus: Editora Valler, 2022.

[14] Luiz Bacellar. Satori. 2º ed. Manaus: Editora Valler, 2002.

[15] Márcio Souza. A caligrafia de Deus. São Paulo: Editora Atma, 2021.

[16] Márcio Souza. Galvez imperador do Acre. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010.

[17] Márcio Souza. A expressão amazonense – do colonialismo ao neocolonialismo. 3º ed. Manaus: Editora Valer, 2010.

[18] Thiago de Mello. Silêncio e palavra. 4º ed. Manaus: Editora Valler, 2001.

[19] Thiago de Mello. Faz escuro mas eu canto. 24º ed. São Paulo: Global, 2017.

[20] Thiago de Mello. Manaus, amor e memória. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984.

 

As Guardiãs da Amazônia

 

Quem chega a Manaus pelo porto do rio Negro dá de frente com mural gigante. No antigo edifício do Ministério da Fazenda, de costas para a cidade – para não sentir o cheiro de mijo e de merda? para não ver as baratas, os ratos, a sujeira, a pobreza, os turistas, a prostituição, os indigentes, os igarapés poluídos e os edifícios modernosos dos bairros “nobres”? –, sentada num tronco sobre o rio Negro, uma menina indígena observa o horizonte com um olhar taciturno. Atrás da menina – no mural – se vê a selva amazônica, mais ou menos como devia ser o espaço antes da construção de Manaus. É o mesmo verde que enxerga quem está na cidade e olha para a mata do outro lado do rio Negro. O mural com a menina indígena foi elaborado pelo grafiteiro Jarbas Lobão com o apoio dos artistas Sprok, Panda e Luan. Eles se inspiraram numa fotografia de Michel Mello registrada no Alto Rio Negro há mais ou menos 10 anos. A menina fotografada chama-se Mirión – “Rainha das Águas” na língua Desana – e tem, atualmente, 17 anos [1]. No Google Maps  é possível localizar o trabalho buscando Mural Mirión – Guardiã de Manaós. 

 

No centro de Manaus há diversos murais interessantes, inclusive alguns gigantes, que ocupam toda empena (parede sem janelas) de grandes edifícios, como no antigo prédio do Ministério da Fazenda. Imagino que o movimento começou durante a pandemia da Covid-19. Isso porque o trabalho mais antigo parece ser um que retrata trabalhadores que estiveram na linha de frente durante a pandemia – profissionais da saúde, motoboys, motoristas, garis – e registra uma mensagem de esperança: “isso tudo vai passar”. A impressão de que o mural com os trabalhadores que estiveram na linha de frente durante a pandemia é o mais antigo se explica porque o trabalho é o que está mais desgastado.

 

Curiosamente, quem sai do porto fluvial no centro de Manaus, vira à direita e caminha pela avenida Floriano Peixoto passa pelo mural com a menina de olhar taciturno e, poucos metros depois, vê outro mural: uma jovem guerreira indígena está dentro do rio Negro, segura uma lança e observa com o mesmo olhar taciturno. Também a guerreira está de costas para Manaus. Talvez pelas mesmas razões apontadas anteriormente. O mural com a guerreira indígena foi elaborado por Alessandro Hipz na empena do antigo hotel Amazonas, a partir de um registro fotográfico feito pelo próprio artista em São Gabriel da Cachoeira, representa uma Guardiã da Amazônia [2].

 

Os olhares da menina e da guerreira indígenas representadas nos murais impressionam. São as imagens que mais me impactaram em Manaus, apesar do encontro das águas do Negro com o Solimões e tantas outras preciosidades da natureza amazônica. A menina e a guerreira indígenas foram fotografadas na mesma região, mas não são a mesma pessoa. Só que, expostas a poucos metros de distância uma da outra, é como se fossem a mesma mulher separada por alguns anos. O olhar é parecido. Nenhuma das duas sorri. Estão de costas para a cidade. O descontentamento e a preocupação registrados nos olhos de ambas contrastam com os sorrisos forçados presentes nas fotos dos turistas. É como se a menina e a guerreira conhecessem o destino que as aguarda, daí o olhar taciturno. Quem chega em Manaus pelo porto fluvial e caminha pela avenida Floriano Peixoto vê a pequena Mirión e, na sequência, a jovem guerreira, fica com a impressão de que a menina cresceu e se tornou uma Guardiã da Amazônia. Como se fossem a mesma pessoa. Como se os murais representassem a mesma guerreira em momentos distintos. Como se o nome da Guardiã da Amazônia fosse Mirión.

 

Walter Benjamin [3] comentou uma foto do menino Franz Kafka: os olhos incomensuravelmente tristes dominavam a paisagem feita sob medida para eles, contrastavam com as primeiras fotografias, nas quais não se via um olhar perdido e desolado, como o do jovem Kafka. No caso das Guardiãs da Amazônia representadas nos murais de Manaus, o olhar taciturno não espanta pela originalidade, ele pode ser observado em toda a cidade: nos passageiros dos coletivos, nos venezuelanos que trabalham nos piores empregos, nos camelôs do centro, nas prostitutas da região portuária, nos indígenas que encenam rituais para os turistas fotografarem, nas pessoas estendidas em redes amarradas nos barcos, nos indigentes que dormem na calçada do mercado municipal Adolpho Lisboa. As Guardiãs da Amazônia representadas nos murais são as imagens que mais me impactaram em Manaus justamente porque aqueles olhares estão espalhados por toda a cidade.

 

O pixo [4] me atrai mais que o grafite: não pela potência estética, mas pela carga de subversão que carrega e pelo incômodo que causa. O incômodo causado pelo pixo lembra o incômodo que se vê nos olhos dos habitantes das grandes cidades. Curiosamente, o primeiro incomoda e o segundo não. Como se o incômodo no olhar das pessoas fosse um problema privado. Não é coincidência: quanto maior a cidade, maior a presença do pixo. Apenas as cidadezinhas do interior desconhecem as pixações, provavelmente porque não estão expostas ao incômodo das grandes aglomerações urbanas e, além disso, porque os pixadores não querem suas “obras” expostas para públicos reduzidos.

 

Manaus é uma metrópole encravada na selva. Tem muitas ligações fluviais e poucas estradas de rodagem. Recebe turistas do mundo inteiro, especialmente europeus. Tem muitos imigrantes haitianos e, principalmente, venezuelanos. Como não poderia deixar de ser, o pixo está presente em Manaus porque o incômodo está espalhado pela cidade: das antigas construções do centro aos edifícios modernosos dos bairros abastados. Mas, para mim, foi o olhar taciturno das Guardiãs da Amazônia que melhor representou o incômodo que se sente e que se vê em Manaus. É a imagem que guardo da cidade.

 

Mural de Jarbas Lobão registrado da avenida Floriano Peixoto

Mural de Jarbas Lobão registrado de dentro de um barco, no rio Negro

Mural de Jarbas Lobão registrado da avenida Eduardo Ribeiro

Mural de Alessandro Hipz registrado da avenida Floriano Peixoto

Mural de Alessandro Hipz registrado da avenida Marques de Santa Cruz

 

Notas

[1] Amarilis Gama. Um retrato da Amazônia: Mural gigante celebra a cultura indígena no Centro de Manaus. Disponível em: https://www.acritica.com/entretenimento/um-retrato-da-amazonia-mural-gigante-celebra-a-cultura-indigena-no-centro-de-manaus-1.347438

 

[2] Manuella Barros. Guardiã da Amazônia é estampada no Centro Histórico nos traços de Alessandro Hipz. Disponível em: https://cultura.am.gov.br/guardia-da-amazonia-e-estampada-no-centro-historico-nos-tracos-de-alessandro-hipz/

 

[3] Walter Benjamin. Pequena história da fotografia. In: Walter Benjamin.  Obras escolhidas – Magia técnica, arte e política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993.

 

[4] Registrei pixo, pixações e pixadores com x pelas razões expostas no texto São Paulo: a capital do pixo.


Publicado originalmente no Passa Palavra

 

AS HISTÓRIAS REENCONTRADAS

 

Uma sensação estranha – que não compartilhei com ninguém – me acompanhou durante a infância: imaginava um rio atrás do meu quarto. Nunca entendi muito bem o porquê. Não havia sinais nem vestígios da presença do rio. Teria sonhado? Talvez. Ou então podia ser mais uma superstição infantil. Minha infância foi recheada de anjos, assombrações, espíritos, pecados, igrejas. Ocorre que, décadas depois, tive acesso a um mapa hidrográfico da cidade de São Paulo. Descobri que, na direção da janela do quarto em que cresci, na rua Gurupá, fica um dos braços canalizados do Água Preta.  Existe realmente um rio atrás do quarto em que cresci. Eu conhecia os cursos principais do Água Preta, mas não desconfiava que havia crescido bem perto de uma das nascentes canalizadas. Senti uma espécie de epifania ao ver o mapa hidrográfico de São Paulo. Foi a epifania do Água Preta. Por que passei a infância com a sensação estranha de que havia um rio atrás do meu quarto? Só há uma explicação. Cresci ouvindo histórias contadas por antigos moradores da Vila Anglo, pessoas que chegaram no bairro antes da canalização do Água Preta. Certamente alguém me contou sobre o rio que nascia na região. Deve ter dito que uma das nascentes era visível da janela do meu quarto. O impacto da história foi tão forte que nunca a esqueci, mesmo não lembrando quem a contou e nem quando. Imediatamente lembrei da história quando vi uma nascente do Água Preta na rua Gurupá, no mapa hidrográfico de São Paulo. Existe um rio canalizado ali. Imagino que a água nasce no pé de um barranco coberto por casas e sobrados, que corre por baixo deles até encontrar o rio Tietê, e depois o rio Paraná, e depois o rio da Prata, e depois o oceano Atlântico. Interessante pensar que a água que brota na rua em que cresci percorre boa parte da América do Sul antes de desaguar entre a Argentina e o Uruguai.

 

O avô do escritor Afonso Cruz [1] foi preso e torturado pela polícia política. O velho nunca comentava a história. Ocorre que, quase vinte anos após a morte do avô, o escritor teve acesso a um livro chamado Eles vieram de madrugada, de Manuela Câncio Reis. O livro foi encontrado na biblioteca do pai de Afonso Cruz, na folha de rosto havia uma dedicatória: “Para o meu neto, para que ele perceba um pouco daquilo que eu passei” [2]. Era como se o livro tivesse sido escrito do avô para o neto. Era uma espécie de leitura para o futuro. O menino precisava se tornar homem para conhecer aquela história. Afonso Cruz sentiu uma epifania. A voz que ouvia ao ler o livro era a do avô. Deve ter sido parecido com o que senti quando vi o mapa hidrográfico de São Paulo, com uma das nascentes do Água Preta localizada na rua em que cresci. A diferença é que não consigo identificar a fonte da história que ouvi quando menino. Quem sabe houve mais de um autor, o que tornaria tudo ainda mais interessante. Quem sabe o meu finado avô foi um dos coautores. São possibilidades. 

 

Na África se diz que quando morre um velho, desaparece uma biblioteca [3]. Tenho uma visão menos fatalista. As bibliotecas não desaparecem porque os livros se reagrupam e se oferecem para outros leitores. Também as histórias se reencontram e se recontam em outros tempos e contextos. A história do avô do escritor Afonso Cruz recontada a partir da dedicatória presente na folha de rosto de um livro. A história do rio que corre atrás do quarto em que cresci recontada no mapa hidrográfico elaborado, talvez, por pessoas que cresceram perto de mim e ouviram histórias parecidas.     

 

Tenho 46 anos. Idade difícil em que precisamos ganhar a vida, mesmo sabendo que estamos perdendo. Temos pouco tempo para ouvir histórias e não temos muitas histórias para contar. Certamente porque uma coisa é inseparável da outra. Como ensinou Eduardo Galeano, para saber falar, saber escutar [4]. Quem não sabe ou não tem tempo para escutar, terá dificuldade para falar, ou dirá banalidades, como as que dominam as redes sociais. Pode ser uma espécie de crise da meia idade ou, quem sabe, algo mais sério, um sinal de esgarçamento das coisas como as conhecemos. Fico pensando: que criança cresce, atualmente, ouvindo histórias dos mais velhos? Que histórias contarão as crianças formadas pelos vídeos do TikTok? Se as histórias não morriam, se eram reencontradas e recontadas, como as bibliotecas se reagrupam e se oferecem para outros leitores: a morte está sendo inventada no tempo presente. A morte será quando não tivermos tempo para ouvir histórias. A morte será quando não tivermos histórias para contar.  

 

Notas

[1] Afonso Cruz. O vício dos livros. Porto Alegre: Dublinense, 2024.

[2] Ibid., p. 89.

[3] Ibid., p. 86.

[4] Esse e outros ensinamentos podem ser conferidos no documentário Eduardo Galeano Vagamundo


Publicado originalmente no Passa Palavra




 

MAS TEM O MACHADO DE ASSIS

 

Eu cursava faculdade de economia. Estava mais ou menos na metade do curso. Momento em que o pessoal da turma começava a substituir as camisetas e as bermudas por roupas sociais, porque iniciavam estágios em bancos e grandes empresas. Tenho contato com poucos ex-colegas. Imagino que, atualmente, a maioria tenha perdido a ilusão no futuro e na carreira, o que não anula a fascinação daqueles primeiros dias vestindo roupas sociais. Nada mais fascinante – para um estudante de ciências econômicas – do que vestir roupas sociais. Eu não tinha grandes esperanças: trabalhava há algum tempo, não era estagiário, usava calças jeans e camisetas, lia muitos livros comprados em sebos e poucos manuais de economia. As roupas sociais, a carreira e o futuro não me fascinavam. Mas havia um professor que me intrigava. Vou chamá-lo de L. Não acredito que meus ex-colegas de turma leiam os textos que escrevo, mas, mesmo assim, vou dificultar a identificação porque se trata de uma história baseada em fatos reais. O professor L talvez tenha sido vitimado pela reforma da previdência, pode ter perdido o emprego em empresa multinacional, talvez esteja ganhando a vida exclusivamente com o dinheiro das aulas de microeconomia. Daí a importância de preservar a identidade. L explicava os comportamentos e as preferências dos consumidores e das empresas, dava exemplos citando mercados específicos. Meus colegas de turma quase aplaudiam. Era quando o professor L humildemente erguia o livro texto de microeconomia, batia o indicador na capa e dizia “está tudo aqui”. Só que de vez em quando ele emendava um “mas tem o Machado de Assis”. Às vezes ele dizia “mas tem o Machado de Assis” no meio da explicação sobre o comportamento dos agentes econômicos, sem se preocupar em conectar uma coisa com a outra, como se fosse um desabafo. Eu não entendia quase nada de microeconomia, mas entendia perfeitamente o que o professor L queria dizer com aquele “mas tem o Machado de Assis”. Era um protesto contra as simplificações. Era um alerta sobre o horizonte bancário. Era a teoria do medalhão virada do avesso. Era um grito desesperado de um leitor. Era um narrador machadiano intervindo na história. Nada mais deliciosamente existencial do que aquele “mas tem o Machado de Assis”.

 

Milan Kundera [1] divide a história do romance em três tempos. O Primeiro Tempo vai até o final do século XVIII; tem Rabelais, Cervantes, Sterne e Diderot como referências; e caracteriza-se por: “1) a liberdade eufórica da composição; 2) a vizinhança constante das histórias libertinas e das reflexões filosóficas; 3) o caráter não sério, irônico, paródico, chocante dessas mesmas reflexões.” [2] O Segundo Tempo prevaleceu durante o século XIX; tem Balzac, Stendhal, Zola e outros como referências; e caracteriza-se pela verossimilhança, a realidade é descrita com exatidão e detalhes, o romance se torna um documento histórico. O Terceiro Tempo começa no século XX; tem Kafka, Musil, Broch e Gombrowicz como referências iniciais, continuando com Sabato, Fuentes e outros; as características do Terceiro Tempo são: retorno à estética dos primeiros romancistas, utilização da reflexão ensaística, liberdade de composição, digressões, renúncia à verossimilhança e ao realismo psicológico, retomada do não-sério e do jogo [3]. Kundera dá um exemplo interessante para diferenciar os três tempos do romance: Sancho Pança tem cento e três dentes quebrados durante suas aventuras com Dom Quixote. O espírito zombeteiro e não-sério que predomina no livro de Cervantes teria se tornado incompreensível no Segundo Tempo do Romance devido ao “imperativo da verossimilhança” [4], ninguém teria cento e três dentes quebrados num romance de Zola. Para Kundera, os grandes romancistas do Terceiro Tempo teriam retomado e reinventado o espírito zombeteiro e não-sério a la Rabelais, Cervantes, Sterne e Diderot.

 

A divisão “toda pessoal” [5] da história do romance formulada por Milan Kundera se torna ainda mais interessante quando bardo tcheco agrega a música à reflexão sobre os três tempos, ver, por exemplo, a defesa de Stravinski contra a Adorno no texto A escandalosa beleza do mal, presente nos Testamentos Traídos [6]. Mas voltemos ao romance. Durante algum tempo tive vontade de escrever uma carta para Milan Kundera. A carta que nunca redigi teria como título a frase do professor L: Mas tem o Machado de Assis. Como Kundera encaixaria o “Bruxo do Cosme Velho” nos três tempos do romance? Machado é uma pedra no meio do caminho. Os livros didáticos registram que o “Bruxo do Cosme Velho” inaugurou o realismo no Brasil com a publicação das Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881. Só que a história, narrada por um “defunto autor”, tem muito mais a ver com o Primeiro Tempo do Romance, com o espírito zombeteiro e não-sério, do que com o realismo e a verossimilhança. O próprio Machado [7] registrou no início das Memórias Póstumas ter escrito com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, adotando “a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre”, com algumas “rabugens de pessimismo”. Por “forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre” entenda-se a profissão de fé do “Bruxo do Cosme Velho” nos princípios estéticos dos primeiros romancistas, ou, utilizando as palavras de Kundera [8] sobre os compositores modernos para escrita machadiana: “uma inimitável felicidade do ser, felicidade que se manifesta pela irresponsabilidade eufórica da imaginação, pelo prazer de inventar, de surpreender, até de chocar pela invenção.” É essa felicidade da criação, esse prazer de inventar, que autorizam um “defunto autor” a contar sua história e permitem que um escudeiro tenha cento e três dentes quebrados. Ou, para dar um exemplo do Terceiro Tempo do Romance, é essa felicidade da criação, esse prazer de inventar, que autorizaram o romancista Juan Goytisolo a conceder cerca de duzentos anos de vida a Marx, para que ele estivesse vivo em Londres, acompanhasse pela televisão e comentasse o fim do socialismo dito real [9]. São os “sortilégios do narrador que inventa”, que “se deixa levar por suas fantasias e por seus excessos” [10].

 

Desisti de escrever uma carta perguntando a Kundera como encaixar o “Bruxo do Cosme Velho” nos três tempos do romance quando encontrei um texto de Carlos Fuentes intitulado O milagre de Machado de Assis [11]. Fuentes foi grande amigo de Kundera, que incluiu o escritor mexicano entre os grandes romancistas, além dedicar-lhe uma bela carta aberta parabenizando-o pela obra e pelos setenta anos de idade [12]. No texto O milagre de Machado de Assis, Fuentes cita Kundera e, creio, registra o que o tcheco diria sobre o brasileiro. Isso porque Fuentes parte dos ensaios de Kundera para pensar os romances do “Bruxo do Cosme Velho”. Se eu escrevesse uma carta a Kundera intitulada Mas tem o Machado de Assis, a resposta poderia ser E tem o Carlos Fuentes, sugiro que leia o texto dele publicado na Folha de São Paulo em 01 de outubro de 2000. O que Kundera define como Primeiro Tempo do Romance, Fuentes define como Tradição de La Mancha. O que Kundera define como Segundo Tempo do Romance, Fuentes define como Tradição de Waterloo. Fuentes: “A tradição de Waterloo afirma-se como realidade. A tradição de La Mancha sabe-se ficção e, mais ainda, celebra-se como ficção. Waterloo oferece fatias de vida. La Mancha não tem outra vida afora a do seu texto, feito à medida em que é escrito e é lido. Waterloo surge do contexto social. La Mancha descende de outros livros. Waterloo lê o mundo. La Mancha é lida pelo mundo. Waterloo é séria. La Mancha é ridícula. Waterloo baseia-se na experiência: diz o que já sabemos. La Mancha baseia-se na inexperiência: diz o que ignoramos. Os atores de Waterloo são personagens reais. Os de La Mancha, leitores ideais.” Fuentes dá um exemplo interessante para diferenciar as tradições La Mancha e Waterloo: Dom Quixote; Tristam Shandy; Jacques, o Fatalista; e Brás Cubas sabem que são personagens.

 

Tanto para Kundera quanto para Fuentes, um grande romance só é possível dentro de alguma tradição. Fuentes: “não há criação sem tradição que a nutra, assim como não há tradição sem criação que a renove”. Para Carlos Fuentes, o milagre de Machado de Assis ocorreu porque o escritor brasileiro é um legítimo herdeiro de Cervantes. A tradição de La Mancha não foi totalmente suplantada pelo realismo, ela reapareceu no Rio de Janeiro com um homem negro, pobre, autodidata, epilético, míope, que aprendeu francês numa padaria. Fuentes destaca, e isso aumenta o milagre de Machado de Assis, que não existia “uma grande tradição novelesca, nem brasileira nem portuguesa.” O “Bruxo do Cosme Velho” nutriu, renovou e revigorou a arte do romance com “a pena da galhofa, a tinta da melancolia e as rabugens de pessimismo”. Ao espírito zombeteiro e não sério dos primeiros romancistas (“pena da galhofa”), Machado agregou o banzo e o ceticismo do Brasil escravista (“tinta da melancolia e rabugens de pessimismo”). O Brasil não era, não é e provavelmente nunca será um país sério. O “Bruxo do Cosme Velho” sabia que não dá para levar a sério o que não é sério. Se é assim, melhor enfrentar a melancolia e o pessimismo com a galhofa. Machado inaugurou uma espécie de sabedoria da desconfiança e do riso, que coloca todas as certezas e todos os valores sob suspeita. Se nada pode ser levado a sério, melhor rir e desconfiar de tudo, exceto, talvez, da arte e do romance. Eis o ensinamento do “Bruxo do Cosme Velho”.

 

Kundera lamentou a guinada realista que interrompeu o Primeiro Tempo do Romance. Mas tem o Machado de Assis. Fuentes lembra que o convite ao jogo e ao sonho reapareceram no romance com o “Bruxo do Cosme Velho”, no Rio de Janeiro, no século retrasado. Mas não é só isso, Machado de Assis retomou e revigorou a estética dos primeiros romancistas, não tropeçou na verossimilhança, antecipou muito do que fariam os escritores do século XX, escreveu com espírito zombeteiro e irônico, permitiu-se ampla liberdade de criação, colocou todas as certezas e valores sob suspeita, fez uso de digressões e da reflexão ensaística sempre com a “pena da galhofa”. Se é tudo isso – e realmente é – dá para registrar, usando os termos de Carlos Fuentes e Milan Kundera, que Machado de Assis é um milagre porque é uma ponte que atravessa e interliga os três tempos do romance.

 

Notas

 

[1] Milan Kundera. Os testamentos traídos. Rio de Janeiro: Nova Fronteria, 1994.

 

[2] Kundera, 1994, op cit., p. 71.

 

[3] Kundera, 1994, op cit., p. 67.

 

[4] Kundera, 1994, op cit., p. 54.

 

[5] Milan Kundera. Um encontro. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 97.

 

[6] Kundera, 1994, op cit., p. 82-83.

 

[7] Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016. p. 53

 

[8] Kundera, 1994, op cit., p. 80.

 

[9] Juan Goytisolo. A saga dos Marx. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

 

[10] Kundera, 1994, op cit., p. 54.

 

[11] Carlos Fuentes. O milagre de Machado de Assis. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0110200003.htm

 

[12] Milan Kundera, 2013, op cit., p. 75-78. 


Publicado originalmente no Passa Palavra

 

POEMINHAS ECOLÓGICOS

 

1

velha lagoa

sapos babosos

abraço tântrico

 

2

velha lagoa

abraço dos sapos

é primavera

 

3

o tempo parou

na velha lagoa

abraço dos sapos

 

4

velha perereca

subindo pela parede

solidão úmida

 

5

velha lagoa

uma rã salta

sobre a outra

 

6

velha lagoa

rã sobre rã

som sensual

 

7

rãs na lagoa

uma sobre a outra

olhinhos felizes

 

8

rã no gramado

saltando, saltando

Bashô revisitado

 

9

velho Bashô

sua rã salta

dentro da gente


Publicados originalmente no Passa Palavra

O SERVIDOR PÚBLICO

 

Despertou. Desceu da cama e calçou os chinelos que posicionava sempre no mesmo local. Tudo tinha seu lugar. Das roupas à escova de dente, das cuecas aos documentos pessoais, das ferramentas aos medicamentos. Era-lhe simplesmente insuportável não encontrar uma coisa ou encontrá-la fora do lugar. O servidor público odiava mudanças, bagunças e desorganizações. Caminhou até o banheiro. O dia não estava totalmente claro, a luz não havia penetrado na casa. Mas conhecia bem o caminho e seguiu sem dificuldade. Era capaz de percorrer todos os cômodos de olhos fechados. Isso por uma única razão: cada coisa tinha o seu lugar, que ele conhecia, mantinha e administrava. Assim era. Assim devia ser. Acendeu a luz do banheiro. Fechou a porta. Despiu-se. Deixou o chinelo perto do box. Dobrou o pijama e posicionou as peças sobre o gabinete. Depositou a cueca no roupeiro. Abriu a torneira. Deixou a água correr e lavou as mãos. Molhou os braços. Lavou o rosto. Penteou os cabelos. Não fez a barba. Era feriado. Não trabalharia. 28 de outubro: dia do servidor público, dia dele. Apanhou creme dental, escovou os dentes. Aliviou-se. O intestino do servidor público era tão pontual quanto o próprio servidor público. Limpou-se. Entrou no box. Abriu a torneira do chuveiro. Tomou banho frio. O contato com a água gelada era revigorante, dava-lhe força para ganhar mais um dia. Secou o corpo e se cobriu com a toalha. Retornou ao quarto. Vestiu-se. Beijou a esposa e a aliança. Sempre beijava a esposa e a aliança, nessa ordem. Celebrava diariamente a união, o casamento e a família. Voltou ao banheiro. Depositou a toalha de banho no roupeiro. Penteou novamente os cabelos. Desceu a escada sem fazer barulho. Conhecia a altura de cada degrau. Foi até a cozinha. Tomou um copo de água fresca. Espiou o relógio de parede. Estava ligeiramente adiantado, provavelmente porque não havia feito a barba. Devia ter se barbeado. A ordem natural dos acontecimentos precisava ser mantida e respeitada. Era segunda-feira: um homem deve fazer a barba diariamente, ainda mais um servidor público, porque tudo tem seu lugar e seu tempo. Foi até a sala. Abriu a cortina e a janela. Sentou-se no sofá. Correu os dedos pela barba por fazer. Irritou-se. Esperou. Sairia no horário exato para comprar os pães. Um servidor público deve ser pontual como os passarinhos, os galos e os grilos. Se a natureza não fosse precisa, o mundo seria caótico. Retornou da padaria e colocou os pães sobre a mesa. Lavou as mãos com detergente, na pia da cozinha. Complementou a higiene com álcool gel. Apanhou pratos e talheres no armário. Apanhou alimentos na geladeira. Montou a mesa para o café da manhã enquanto ouvia ruídos no andar de cima da casa. Alegrou-se. Eram os primeiros movimentos da esposa e das filhas. Estavam acordadas. Aquela família cumpria o horário naturalmente. Os despertadores eram prescindíveis. Passou o café. Atravessou a sala de jantar e a sala de estar. Apanhou o controle remoto da televisão. O servidor público gostava de tomar café da manhã com a família acompanhando o telejornal. Assim se atualizavam e começavam bem o dia. Mas hesitou. Era 28 de outubro. Os telejornais costumavam criticar o serviço público e os servidores públicos. Ganhavam muito. Trabalhavam pouco. Não discordava totalmente das críticas. Com certeza havia colegas complicados. Havia vagabundos que não gostavam de trabalhar e prejudicavam a imagem das instituições. Mas ele não. Esposa e filhas se posicionaram para tomar café da manhã. Ele aguardava na mesa, em silêncio. Recebeu cumprimentos. Era o dia dele. Faltava apenas o telejornal. Devia ser o feriado – pensaram elas. O servidor público se alegrou ao ver as filhas devidamente uniformizadas para mais um dia letivo. Elas se alimentaram, levantaram, recolheram e lavaram pratos e talheres. O servidor público guardou os alimentos que sobraram. As filhas escovaram os dentes, pentearam os cabelos, apanharam o material escolar, pediram para o pai acompanhá-las até a escola. Insistiram. Mas ele preferiu não ir. Beijou as meninas e a esposa e ficou em casa.

 

O servidor público se sentiu sozinho. Não estava vestido para o trabalho. Não havia cortado a barba. Não assistira o telejornal. Sequer havia acompanhado as meninas. Devia ter ido com elas. Por que não foi com elas até o colégio? Devia ter feito a barba para acompanhar as filhas. Seria um dia perdido. Ocorreu-lhe que o feriado de 28 de outubro era, na verdade, uma pequena vitória da esquerda e dos esquerdistas do sindicato: que não respeitavam as instituições, que não tinham fé, que queriam destruir as famílias, que não faziam a barba, que não gostavam de trabalhar, que se recusavam a servir a Deus. O servidor público tinha ódio da esquerda e dos esquerdistas do sindicato. Quando havia assembleias sindicais na porta da repartição, ele contornava e entrava por trás para evitar contato com aquela gente. Eram vagabundos que não trabalhavam. Assembleias sindicais eram frequentadas por gente que não gostava de trabalhar. Ele amava o próprio trabalho. Todos deviam amar o que faziam. As coisas são o que devem ser. É preciso amar as coisas como elas são. Os “colegas” esquerdistas passariam o 28 de outubro se embriagando, se empanturrando, fazendo orgias, bagunçando, conspirando. Os vagabundos do sindicato passariam o 28 de outubro planejando greves e paralisações. Aquela gente se achava grande coisa. Mas não conseguiam nem cumprir horário. Pegavam mais atestados médicos do que processos para encaminhar. Ocorreu-lhe que não apenas o 28 de outubro, todos os feriados – com exceção dos religiosos – eram vitórias da esquerda. Precisava combater aquela gente. Devia se vestir, ir até a repartição e trabalhar ainda mais do que já trabalhava. Seria um tapa na cara daquela gente. Um servidor público de verdade deveria comemorar o seu dia trabalhando. Um servidor público deveria comemorar o seu dia servindo a Deus e ao país. Simples assim. Nada mais importante do que servir! Quem não vive para servir não serve para viver – repetiu para si mesmo o que ouvia do pastor, gostava do jogo de palavras. Pena não ter solicitado autorização para entrar na repartição e trabalhar no feriado. Não trabalharia para não contrariar as normas. Só por isso. Um servidor público deve respeitar as leis, as instituições e, sobretudo, as normas. O servidor público deve acreditar nas leis, nas instituições e, sobretudo, nas normas. Os esquerdistas vagabundos que descumpriam as leis, as instituições e as normas. E ninguém fazia nada. Os esquerdistas vagabundos que desmoralizavam as leis, as instituições e as normas. E ninguém fazia nada. Os esquerdistas vagabundos não acreditavam nem nas leis, nem nas instituições e nem nas normas. E ninguém fazia nada. Quem começa duvidando das leis, das instituições e das normas acaba duvidando de Deus, da família e do país. Eram uns pecadores, uns bêbados, uns drogados. Vermes que não sabiam administrar nem as próprias casas, mas queriam administrar as instituições públicas, o país e o mundo. Vermes sem família, que é a base de tudo. Chifrudos. Pervertidos. Veados. Fechou as mãos. Apertou os dedos. Beijou a aliança. Queria socar os esquerdistas. Se os patriotas tivessem, pelo menos, um líder com coragem para fazer o que era necessário, aquela gente seria eliminada. O ex-presidente fraquejou e não fez o que deveria ter feito. Se não dava para eliminar todos os esquerdistas, poderia começar expulsando-os do serviço público. Não era fácil, ele mesmo já havia feito denúncias anônimas na Corregedoria, na Comissão de Ética e no Ministério Público. Os vermes de esquerda prejudicavam a imagem das instituições públicas, não trabalhavam e ninguém fazia nada. É que aquela gente era influente. Por isso o ex-presidente não conseguiu fazer tudo que deveria ter feito. O serviço público deve ser para quem quer servir ao país, como um crente serve a Deus. O trabalho dignifica o homem. Aqueles bandidos queriam desmoralizar o Estado e as instituições públicas. Queriam ensinar putaria nas escolas. Queriam fechar as igrejas e destruir as famílias. Sempre que podia, o servidor público enchia o peito de ar e de orgulho para repetir seu bordão: a família é a base de tudo! Dizer isso na repartição era, para ele, como dar um soco na cara dos esquerdistas. Aqueles vagabundos se achavam grande coisa. Eram apenas bandidos que defendiam bandidos. Não gostam da polícia. Criticam a polícia. Quando um policial se defende e mata um bandido, fazem barulho. Quando os bandidos ferem ou até matam algum policial, ficam calados. Canalhas. Hipócritas. Enquanto ele estava preocupado com o país e com os vermes de esquerda, os vermes de esquerda certamente estavam dormindo e descansando para mais um dia de bebedeiras, orgias, bagunças, conspirações. Acordariam para tramar greves e conspirações. Irritou-se ainda mais. Mas o servidor público iria à forra no dia seguinte. Quando os vermes de esquerda chegassem na repartição com álcool saindo pelos poros, ele já estaria trabalhando. Trabalharia cada vez mais. Trabalharia pelas instituições, pela família, pelo país, por Deus.  O servidor público se considerava um privilegiado. Fora abençoado com a possibilidade de servir duplamente: servia a Deus e servia ao país. Tivesse que escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa, o servidor público escolheria o verbo servir! 


Publicado originalmente no Passa Palavra


O TRADUTOR

 

Queria ser romancista, tornou-se tradutor. Queria conhecer o mundo, foi para uma cidadezinha do interior.

 

Aceitou a ideia de que passaria pela vida sem escrever um romance. Morreria sem fazer a única coisa capaz de justificar a existência: escrever romances – recriar o mundo e os homens com palavras. Passaria pela vida sem deixar nenhuma marca digna de nota, sem absolutamente nada de que pudesse se orgulhar. Mas ter que traduzir textos acadêmicos para sobreviver era constrangedor. Para os amigos – quando ainda tinha com quem conversar sobre literatura –, dizia que eram justamente as malditas traduções de textos acadêmicos que lhe travavam as possibilidades criativas. É mais fácil vencer um concurso de dança vestindo uma armadura do que escrever um romance tendo que ganhar a vida como tradutor. A metáfora era do tempo em que ainda nutria pretensões literárias. Afirmava que um abismo separa um texto acadêmico de um bom romance. Citava o filósofo das marteladas: quando olhamos para o abismo, o abismo olha para nós. Concluía dizendo que os artigos que traduzia eram o abismo. Comparem um Machado de Assis ou um Guimarães Rosa aos textos que vocês traduzem e revisam – costumava dizer a amigos e companheiros de profissão. Arrematava afirmando ser impossível escrever algo que preste depois de passar o dia traduzindo academesmices, ciência salame, encheção de linguiça, mais do mesmo, bobajadas que só servem para bater metas curriculares. Havia quem discordasse em nome do futuro do país, do progresso do conhecimento, da ciência e, sobretudo, como forma de dar sentido ao próprio trabalho. É desagradável pensar que se desperdiça a vida repetindo tarefas inúteis. Ele provocava lembrando que, pelo menos, não ficaria vinculado ao que definia como textículos acadêmicos, porque os nomes dos tradutores não costumam ser publicados.

 

Aceitou a ideia de que não conheceria o mundo e sequer sairia do Brasil. Mas passar o resto da vida numa cidadezinha esquecida no interior do país não era o melhor destino. Como ficou sem dinheiro no meio da primeira grande viagem que tentou fazer, precisou trabalhar. Retomou as traduções. Como a internet já havia chegado naquele fim de mundo, foi trabalhando e ficando. Era mais fácil sobreviver no interior com cerca de duzentos reais que ganhava por artigo traduzido, nos grandes centros o custo de vida era proibitivo para o tradutor. A cidadezinha tinha um quarteirão com casario do século XIX, do tempo da mineração, cercado por habitações precárias, resultantes do loteamento de antigas propriedades. Alugou um quarto num sobrado do século XIX e ficou. Dormia ali. Trabalhava ali. Traduzia ali. Colocou uma mesa e um computador no canto do quarto, ao lado da janela, por onde espiava a vida passar quando as palavras começavam a se embaralhar na tela do computador. Fazia as refeições na cozinha que dividia com outros inquilinos. Fazia as necessidades no banheiro que dividia com outros inquilinos. Dividia o sobrado com viajantes, prostitutas, traficantes e até aventureiros que acreditavam ainda haver ouro nos rios e minas da região.  Porque morava no velho sobrado com pessoas marginalizadas e praticamente não saía do quarto, havia quem desconfiasse que o tradutor fosse um fugitivo.

 

Ele não se importava, até se divertia com as suspeitas. O que irritava o tradutor era a labuta diária. Além do tempo desperdiçado traduzindo para o inglês, além do travamento literário provocado pela linguagem insossa dos artigos a serem vertidos, o tradutor se irritava com o contato mínimo que era forçado a manter com os clientes. Havia revistas científicas que contratavam empresas especializadas que quarteirizavam o serviço repassando textos a serem vertidos pelo tradutor. Havia os acadêmicos que demandavam traduções para publicar em revistas científicas internacionais. O tradutor preferia o autoritarismo mercantil das primeiras, que simplesmente informavam o tamanho do texto, o valor e o prazo. As empresas prescindiam do mandar sugerindo dos acadêmicos, que irritavam profundamente o tradutor. Sugiro que tenha atenção com os termos técnicos. Sugiro evitar expressões “aportuguesadas”. Sugiro não utilizar softwares de tradução. Sugiro consultar as instruções do periódico antes de iniciar o trabalho. Sugiro entregar até a data tal, ou antes se possível. Toda vez que recebia ordens em forma de sugestão lembrava-se de Bartebly, o escrevente do conto homônimo, que passou abruptamente da aceitação ao rechaço com um misterioso “eu preferiria não”. Poderia revisar o contrato x? Eu preferiria não. Poderia revisar a procuração y? Eu preferiria não. Mas revisar é parte do seu trabalho, Bartleby – argumentava o patrão, no conto. Ao que o escrevente foi do futuro do pretérito (eu preferiria não) para o presente do indicativo (eu prefiro não) seguido por um mutismo intransigente e definitivo. O tradutor sonhava com o que definia como o dia B – de Bartleby –, quando responderia “eu preferiria não” às empresas especializadas em tradução e, especialmente, aos acadêmicos.

 

O tradutor ficava puto quando os acadêmicos iniciavam solicitações adicionais com agradecimentos duvidosos. Agradeço a prontidão e a qualidade do trabalho, reenvio o artigo para revisão, fizemos correções na introdução, por favor, verifique e ajuste a versão para o inglês. E assim era obrigado a perder tempo com tarefas não remuneradas. Toda vez que recebia solicitações adicionais que começavam com agradecimentos duvidosos, ele lembrava da escritora Dorothy Parker, que definiu o sentimento de gratidão como “o atributo mais mesquinho e choramingueiro do mundo”. O tradutor se irritava profundamente com os agradecimentos forçados e interesseiros. Agradecemos o cuidado e a atenção com nosso artigo, por favor, poderia informar a previsão de entrega da versão para o inglês? Agradecemos o esclarecimento sobre o pagamento, é possível conceder um desconto?   

 

Foi num dia qualquer, no começo da tarde, mais precisamente. Pela manhã havia concluído a tradução de um artigo mal escrito e chatíssimo, cheio de frases longas, clichês e ideias banais. Quando leu o agradecimento pelo retorno imediato no início do e-mail, já imaginou que teria dores de cabeça. O professor doutor A pedia desculpas e informava que a versão enviada ao tradutor não havia sido revisada por um dos coautores, o professor doutor B. Assim sendo, o professor doutor A agradecia e sugeria que o tradutor revisasse e refizesse o trabalho com a maior brevidade possível, se atentando especialmente às alterações realizadas pelo professor doutor B na seção de métodos. Na mesma mensagem, o professor doutor A reuniu o que mais irritava o tradutor: uma ordem sugerida e um agradecimento duvidoso.

 

Quis esmurrar a tela do computador e a cara do professor doutor A, que ele não conhecia pessoalmente, mas que passou a odiar com todas as forças. Se pudesse, pelo menos, agradecer e mandar sugerindo que o professor doutor A fosse à merda... Agradeço o alerta sobre a necessidade de revisar a tradução, especialmente a seção de métodos: sugiro que vá à merda! O problema era que aquele grupo de pesquisa sempre demandava versões para o inglês. Podia abrir mão daquelas traduções? Sobreviveria sem elas?

 

Contou os trocados que tinha na carteira, desligou o computador, bateu a porta do quarto e foi até o bar da esquina. Tomou uma cerveja aguada como a vida.


Publicado originalmente no Passa Palavra