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HERMAN MELVILLE E AS PERSONIFICAÇÕES DA BUROCRACIA

 

Herman Melville foi bancário, vendedor, professor, agricultor, marinheiro, palestrante, fiscal da alfândega e escritor. Embarcou como camareiro de um navio que seguia para Liverpool. Atravessou oceanos num baleeiro.  Desertou e morou com nativos da Polinésia Francesa. Embarcou novamente. Dessa vez num navio comercial australiano. Participou de um motim a bordo, foi preso e fugiu da cadeia.  Também escreveu contos, poemas e romances.

 

Li apenas três livros de Herman Melville: Moby Dick ou a baleia [1]; Bartleby, o escrevente [2]; Billy Budd, marinheiro [3]. Pouco. Mas suficiente para perceber a grandeza do escritor estadunidense. Moby Dick (1851): o obstinado Capitão Ahab persegue uma baleia branca mar adentro. Bartleby (1853): um escrevente contratado por um escritório de advocacia, em Wall Street, passa misteriosamente a recusar todas as ordens respondendo “preferiria não”. Billy Budd, marinheiro (1891): um belo jovem é recrutado para trabalhar num navio de guerra, acusado injustamente de participação num motim, acaba cometendo um crime, mas sem deixar de acatar incondicionalmente todas as ordens recebidas. De Mobby Dick a Billy Budd, passando por Bartleby, se vai do mar ao mar, com um escritório no meio do caminho, mas sempre com o trabalho como pano de fundo.

 

Albert Camus [4] definiu Herman Melville como o Homero do Pacífico. Gilles Deleuze [5] discutiu a radicalidade da “fórmula” de Bartleby – eu preferiria não/I would prefer not to –, que confronta a linguagem com o silêncio. A propósito, Deleuze lembra também que Bartleby anuncia o longo silêncio de Melville, rompido apenas por alguns poemas e, no final da vida, pelo romance Billy Budd.

 

Bartleby é um escrevente. Sabemos já no título do conto. Billy Budd é um marinheiro. Sabemos já no título do romance. A presença do trabalho nos textos é explícita, mas costuma ser ignorada pela crítica [6]. Bartleby é a tese com “eu preferiria não”. Billy Bud é a antítese com “eu preferiria sim”, que ele não diz, mas pratica.  O escrevente recusa num escritório em Wall Street. O marinheiro aceita num navio de guerra. É como se, com Billy Budd, Melville invertesse a fórmula “eu preferiria não/I would prefer not to”. O advogado que é chefe de Bartleby sente compaixão pelo escrevente, o que não o impede de demitir e enxotar o funcionário. Ele faz uma série de propostas para o escrevente: exercer outro ofício (vendedor ou atendente), viajar pela Europa acompanhando jovens cavalheiros e até morar sob o mesmo teto, desde que deixe de atrapalhar no escritório. O capitão Vere, responsável pelo navio de guerra em que trabalhou Billy Budd, sabia que o marinheiro não estava envolvido em nenhum motim, o que não o impediu de exigir a pena capital ao tribunal de guerra que julgou o subordinado. “Firmemente inspirado pela lei e pelo dever”, o capitão Vere se dirige aos membros do tribunal que julgou o marinheiro: “Mas lhes suplico, meus amigos, para que não me interpretem mal. Meus sentimentos por esse infeliz rapaz é o mesmo que o de vocês. Se ele conhecesse nossos corações, tenho certeza de que sua natureza generosa o faria até mesmo sentir pena de nossa situação, subordinados que somos a injunções militares tão pesadas.”

 

Marx [7] notou que o capitalista apenas personifica o capital: “sua alma é a alma do capital”. Melville não definiu o que são personificações da burocracia, nem sequer usou a expressão, mas deixou dois exemplos: o advogado chefe de Bartleby e o capitão Vere. Se é possível encontrar personificações da burocracia nos textos de Melville, é porque há grande concentração delas no mundo do trabalho, que é retratado com maestria pelo escritor estadunidense. Se a alma do capitalista é alma do capital, a alma do burocrata é a alma da burocracia. Não importa quão esclarecido, humano, piedoso e compassivo seja o burocrata, sua alma será sempre a alma da burocracia. Personificações da burocracia são absolutamente incapazes de dizer “eu preferiria não” para ordens que venham de cima, sejam quais forem. Uma personificação da burocracia não hesita em demitir um subordinado ou açoitá-lo em praça pública, no máximo criará justificativas para injustificável. O advogado patrão de Bartleby sente compaixão pelo escrevente, mas não deixa de atuar no interesse do escritório. O capitão Vere era um homem esclarecido, mas não deixa de exigir a pena capital para o marinheiro, em nome da “lei e do dever”. Labirintos do trabalho: a tese de Bartleby e a antítese de Billy Budd conduzem ao mesmo fim. Para piorar, não nos enganemos: como há personificações da burocracia no mundo real.

 

Os nomes nos títulos dos livros somados à radicalidade das apologias e dos rechaços empurram o foco para Bartleby e Billy Budd. Alguns chegam a procurar, candidamente, os personagens no mundo real. Žižek [8] viu Bartleby como um precursor do movimento Occupy Wall Street... Mas, se não há Bartlebys nem Billy Budds no mundo real, as personificações da burocracia, como os chefes de ambos, estão em todos os cantos: das multinacionais ao serviço público, das universidades ao trabalho precarizado, das igrejas aos partidos de esquerda. As almas das personificações da burocracia são as almas da burocracia.  As justificativas são diversas – ordens superiores, a lei, o dever, não posso fazer nada, está fora da minha alçada, sinto muito –, mas as práticas pouco variam: atuam em nome da burocracia e para resguardar interesses rasteiros. O capelão que acompanhou Billy Budd antes da execução também estava ciente de que o marinheiro não participou de nenhum motim, mas se calou: intervir “teria sido uma audaciosa violação dos limites de sua função” – justificou. Espécie de princípio fundamental das personificações da burocracia: jamais contrariar ordem superiores! O capitão Vere afirma, contra o marinheiro, que “a Lei do Motim, filha da guerra, imita a mãe. A intenção ou a ausência de intenção de Budd não vem ao caso.” O advogado chefe de Bartleby e narrador do conto homônimo conclui dizendo: “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” O capitão Vere morreu murmurando palavras incompreensíveis para o enfermeiro que o atendia: “Billy Budd, Billy Budd.” São indícios de remorsos do advogado e do capitão, que não os absolvem, apenas reforçam que ambos atuaram como personificações da burocracia. Provocação de Melville, as últimas palavras de Billy Budd são: “Deus abençoe o capitão Vere!” O que atesta e reafirma a fórmula do marinheiro: “eu preferiria sim” – incondicionalmente. 

 

Jorge Luis Borges [9] afirmou que “Kafka projeta sobre Bartleby uma curiosa luz posterior.” Acrescento que o inverso é verdadeiro – Bartleby projeta uma curiosa luz antecipatória sobre Kafka – e o mesmo se aplica a Billy Budd. A explicação é a presença do trabalho nos textos. Só que Melville é direto e explícito, enquanto Kafka é indireto e implícito. Ambos se completam. O escritor tcheco faz uso literário e genial do idioma da burocracia: sobressai o absurdo e as personificações da burocracia se esquivam atrás de normas e portarias, como se fossem engrenagens incapazes de intervir sobre os acontecimentos. Melville faz uso apenas circunstancial da linguagem burocrática, resultado: expõe a cumplicidade sem véus das personificações da burocracia. A burocracia pode ser absurda, mas ela tem seus cúmplices. O caso Billy Budd, por exemplo, teria ocorrido em momento “complicado”, após motins duramente reprimidos e contestação da autoridade naval, o que exigiria prudência e rigor de homens como o capitão Vere – segundo o próprio... É a tal cumplicidade sem véus das personificações da burocracia: a justificativa para o injustificável. O fato é que o capitão Vere atua na defesa da posição que ocupa e, como não poderia deixar de ser, da burocracia. Um marinheiro terminar enforcado é só um detalhe, ainda que inconveniente, uma parte do jogo a que o capitão é incapaz de se opor por covardia e, sobretudo, por interesse próprio.

 

Camus [10] registrou que Melville “não escreveu senão o mesmo livro indefinidamente recomeçado.” Acrescento: Melville pode ter escrito o mesmo livro indefinidamente recomeçado, mas com variações. Se é assim, a recusa de Bartleby e a apologia de Billy Budd se completam e servem, sobretudo, para desmascarar as personificações da burocracia, que diferem na forma, mas não no conteúdo. Ainda e por fim, registrei dois exemplos de personificações da burocracia nos textos de Melville, fecho com um contraexemplo, para contrastar e problematizar. O obstinado capitão Ahab perseguiu impiedosamente a baleia branca. Mas sua alma não era alma da burocracia. Ele caçou uma baleia e não um cargo na burocracia. O capitão Ahab seguia, sobretudo, a lei do coração, por mais violenta e irracional que fosse. Alguém pode argumentar que ele foi terrível, quase uma personificação do mal. Ao que eu perguntaria, mas o “cruel” capitão Ahab faria com um de seus homens o que o esclarecido capitão Vere fez com Billy Budd? Moral da história: as personificações da burocracia podem ser tão perigosas quanto os homens mais terríveis e, para piorar e encerrar: é difícil encontrar Ahabs no mundo real, mas as personificações da burocracia estão em todos os cantos.

 

Notas

[1] Herman Melville. Moby Dick ou a baleia. Editora 34: São Paulo, 2019.

 

[2] Herman Melville. Bartleby, o escrevente. Grua livros: São Paulo, 2014.

 

[3] Herman Melville. Billy Budd, marinheiro. Porto Alegre: L&PM, 2010.

 

[4] Albert Camus. Herman Melville. In: Camus, A. A inteligência e o cadafalso. Rio de Janeiro: Record, 2018, p. 25 – 30.

 

[5] Gilles Deleuze. Bartleby, ou a fórmula. In: Deleuze, G. Crítica e clínica. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 91 – 117.

 

[6] Bartleby: insegurança, adoecimento e morte de um trabalhador.

 

[7] Karl Marx. O capital – Livro I. São Paulo: Boitempo, 2014.

 

[8] Slavoj Žižek. O ano em que sonhamos perigosamente. Boitempo: São Paulo, 2011

 

[9] Jorge Luis Borges. Bartleby, o escrivão de Herman Melville. Acesso em 09 de jul. 2023 

 

[10] O trecho seguinte, entre aspas, está no texto referenciado na nota 4.


Publicado originalmente no Passa Palavra

 

FORÇAS PRODUTIVAS X RELAÇÕES DE PRODUÇÃO

 

No prefácio de Contribuição à crítica da economia política está um parágrafo famoso e intenso [1], com um trecho que sintetiza, de certa forma, o pensamento marxista (do próprio Marx e não necessariamente dos marxistas que vieram depois): “Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se, então, uma época de revolução social.”

 

Para iniciar é preciso definir, minimamente, o que se entende por forças produtivas e relações de produção. Forças produtivas: capacidade social de gerar valor própria da força de trabalho. Relações de produção: regime de propriedade, formas de organização do processo produtivo e de exploração da força de trabalho.

 

No modelo marxista o desenvolvimento das forças produtivas determina as relações de produção, até que estas entrem em contradição com aquelas, abrindo o tempo da revolução social. Marx deixou indicações sobre como pode se expressar a contradição entre as relações de produção e as forças produtivas no capitalismo. São possibilidades que não se excluem e podem ocorrer simultaneamente:

 

- Queda tendencial da taxa de lucro causada pelo desenvolvimento tecnológico e o crescimento da composição orgânica do capital, movimento que intensifica a exploração e a luta de classe.

 

- Crises periódicas provocadas pela queda da taxa de lucro, acirrando a exploração e a luta de classes. Vale pontuar, para diferenciar do item anterior, que as taxas de lucro podem cair por outras razões que não o crescimento da composição orgânica do capital.

 

- Miséria relativa da classe trabalhadora, que apesar de consumir mais quantitativamente devido ao crescimento da produtividade, fica com parcelas decrescentes da riqueza social, expropriada em parcelas crescentes pela burguesia.

 

- Estranhamento provocado pela separação dos produtores em relação aos meios de produção, ou, dito de outra forma, pelo não reconhecimento dos trabalhadores nos produtos do trabalho, que lhes aparecem como entidades estranhas, hostis e que se voltam contra seus produtores.

 

Como não poderia deixar de ser, o pensamento de Marx provocou diversas interpretações e possibilidades. Cito algumas:

 

- Há quem enxergue uma inevitabilidade na revolução, como se o capitalismo fosse morrer de velho, sem a ação revolucionária da classe trabalhadora. Leitura apressada de um trecho presente no mesmo parágrafo de Marx, segundo o qual as forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam condições para resolver antagonismo entre as classes sociais. Quem vai por este caminho esquece que criar condições não é necessariamente resolver, além de que a força de trabalho é elemento central das forças produtivas e, sendo assim, a contradição se dá, sobretudo, entre as relações de produção capitalistas e o proletariado. A força de trabalho é inseparável dos corpos dos trabalhadores, ou seja, o processo produtivo destrói quem trabalha. Basta pensar, por exemplo, nas doenças laborais e no desgaste causado pela intensificação do trabalho.

 

- Há quem considere que as forças produtivas não são neutras, ou seja, o desenvolvimento das forças produtivas capitalistas reforça as relações de produção capitalistas. É uma possibilidade aparentemente atestada pela realidade. Mas, se vamos por este caminho, perde-se uma espécie de esteio econômico da revolução. É como se a humanidade se propusesse problemas que ela não necessariamente pode resolver, contrariando o que Marx registrou no prefácio citado. Exemplifico perguntando. Consigo pensar a superação do feudalismo a partir da contradição entre forças produtivas e relações de produção. Na sociedade feudal se desenvolveram forças produtivas que se chocaram com as relações de produção. Mas o mesmo não ocorreu nem ocorrerá no capitalismo? Não há, no modo de produção capitalista, contradição (produtiva, do ponto de vista da produção social) entre forças produtivas e relações de produção?

 

- Há quem considere que a questão central é justamente conter o desenvolvimento das forças produtivas (como se fosse possível). Quem vai por este caminho pode chegar a qualquer ponto, só não deve se reivindicar marxista. Marx pensa a superação do capitalismo como o estabelecimento de relações de produção “novas e superiores”. Qualquer coisa diferente disso seria impensável. O capitalismo será superado pela positiva ou não será.

 

- Há quem considere que as forças produtivas deixaram de se desenvolver. É o que registrou Trotski no Programa de transição, no final dos anos 1930: “A premissa econômica da revolução proletária já alcançou há muito o ponto mais elevado que possa ser atingido sob o capitalismo. As forças produtivas da humanidade deixaram de crescer. As novas invenções e os novos progressos técnicos não conduzem mais a um crescimento da riqueza material.” O argumento encaixa com o trecho de Marx, mas está de acordo com o que se observa no mundo real? É razoável afirmar que “as forças produtivas da humanidade deixaram de crescer” a partir do final dos anos 1930? Quem vai por este caminho precisa ignorar a energia nuclear, a nanotecnologia, a internet e as possibilidades produtivas derivadas dela. 

 

Antes de prosseguir vale lembrar que, para Marx, o modo de produção capitalista foi revolucionário porque permitiu um intenso desenvolvimento das forças produtivas. Olhando de hoje para o passado podemos pensar, por exemplo, na ampliação da produção agrícola, no aperfeiçoamento das formas de transporte e comunicação, no desenvolvimento da medicina e da ciência, no aumento da população e da expectativa de vida. Vão contra-argumentar, com razão, que a maioria desses desenvolvimentos não são isentos de contradições, sendo a principal a destruição ambiental que podem provocar. Mas não é este o ponto, por aqui. Interessa-me registrar que o desenvolvimento das forças produtivas – entendido como a capacidade social de produção – é inequívoco e razoavelmente constate no capitalismo. E isso ocorre por uma determinação do próprio modo de produção. Para sobreviver à concorrência, os capitalistas precisam explorar cada vez mais a capacidade de gerar valor da força de trabalho. Produzir mais com menos. O resultado final pode até ser a destruição do meio ambiente, é uma possibilidade, mas que não altera o fato de que as forças produtivas se desenvolvem cada vez mais. Também é verdade que no capitalismo se mantêm e se relacionam formas de exploração extensiva (mais-valia absoluta) e intensiva (mais-valia relativa), mas a dinâmica do sistema é determinada nos setores mais avançados tecnologicamente, ou seja, que exploram a mais-valia relativa.

 

A questão que sempre me intrigou passa por uma afirmação presente no mesmo trecho de Marx: “Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter”. Se é assim, teria o modo de produção capitalista desenvolvido todas as forças produtivas que contém? A pergunta se justifica porque na sequência Marx afirma que “relações de produção novas e superiores” não se estabelecem sem que as condições materiais de existência tenham se desenvolvido na própria sociedade.

 

Está mais ou menos nesse ponto a questão que me intriga. A força de trabalho produz cada vez mais. Observam-se seguidas transformações nos métodos e técnicas produtivas que ampliam a capacidade social de produção. Ou, colocando em forma de pergunta: a capacidade de produção da força de trabalho atual é superior se comparada com os tempos de Marx? Se respondemos sim à questão formulada, surgem outras: é possível afirmar que as relações de produção (capitalistas) se tornaram “entraves” para o desenvolvimento das forças produtivas? Quais são e onde estão as condições materiais que permitem o estabelecimento de “relações de produção novas e superiores”?  

 

Mesmo considerando que a força de trabalho é o elemento central das forças produtivas, mesmo considerando que o desenvolvimento destas passa pela exploração intensificada daquela, o fato observável é que a capacidade social de produção continua a se desenvolver. Ou melhor e em forma de pergunta, há contradições entre as forças produtivas e as relações de produção capitalistas, mas estas se tornaram um “entrave” para aquelas?

 

Em Marx o revolucionário se confunde com o teórico, o que explica alguns limites e muitas possibilidades. Não há pensamento revolucionário sem prática revolucionária. Repetidas vezes Marx registrou que a revolução estava próxima. Dificilmente poderia seguir por outro caminho. Não se luta sem certezas. Marx era uma das principais expressões do movimento revolucionário de seu tempo, não ocuparia a mesma posição caso considerasse a revolução como uma possibilidade distante. Mas o fato é que o modo de produção capitalista se revolucionou repetidas vezes e adiou o socialismo para os séculos posteriores.

 

Considerando o grau de desenvolvimento das forças produtivas no tempo presente, partindo principalmente capacidade crescente de geração de valor da força de trabalho, é possível o estabelecimento revolucionário de outras relações de produção. Mas é razoável utilizar os adjetivos empregados por Marx? É possível pensar em relações de produção “novas e superiores”? Se sim, seguindo Marx e considerando que as “relações de produção novas e superiores” não se estabelecem sem que as condições materiais de existência tenham se desenvolvido na sociedade, é preciso indicar quais são e onde estão tais condições. E mais, é preciso pensar, a partir do atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas, o que seriam relações de produção “novas e superiores”?

 

Enfim, mantenho uma certeza: a superação do capitalismo passa pelo estabelecimento revolucionário de relações de produção “novas e superiores”. Mas como? Se as forças produtivas não entram em contradição com as relações de produção, se não se tornam entraves produtivos: qual o limite do capital?

 

Notas

 

[1] Além do trecho citado, no mesmo parágrafo Marx registra:

 

[...] “O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência.” [...]

 

[...] “a humanidade não se propõe nunca senão os problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando a análise, ver-se-á sempre que o próprio problema só se apresenta quando as condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir.” [...]

 

[...] “As relações de produção burguesas são a última forma antagônica do processo de produção social, antagônica não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que nasce das condições de existência sociais dos indivíduos; as forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para resolver esse antagonismo.” [...] 


Publicado originalmente no Passa Palavra

 SOBRE O ROMANCE


Entre 1967 e 1968, com quase 70 anos e praticamente cego, o escritor argentino Jorge Luis Borges proferiu palestras sobre literatura em Harvard. Posteriormente, as palestras foram transcritas e reunidas no livro Esse ofício do verso. São textos saborosos. A memória e a erudição de Borges impressionam. Ele cita e comenta textos e versos de cabeça. Coloca-se mais como leitor do que escritor. Deixa a impressão de que poucos leram tanto quanto ele. Discute tradução, metáforas, música das palavras. Diz que os poetas deveriam ser anônimos, porque ele próprio às vezes descobria que estava apenas citando, involuntariamente, em seus escritos, palavras lidas em outros autores. Confessa ter enganado amigos atribuindo metáforas a antigos persas e nórdicos, porque ninguém as aceitaria e diria que eram um “primor” se soubesse que tinham sido elaboradas por um “reles contemporâneo”. Questão interessante e polêmica é concepção de Borges sobre o romance. Ele afirma que foi principalmente por preguiça que nunca escreveu um romance, mas não só. Diz nunca ter lido um romance sem sentir “certo fastio”, o que teria a ver com o “recheio” das obras. Para Borges, bons contos – por exemplo, de Henry James e Rudyard Kipling – são tão complexos e mais prazerosos do que longos romances. Para o escritor argentino, o romance estava em declínio e tendia a desaparecer, apesar dos experimentos interessantes como o deslocamento temporal e a possibilidade da história ser contada por personagens diferentes.  Borges se coloca a favor da épica, não somente por uma suposta superioridade do verso sobre a prosa, mas porque no futuro contar uma história se reencontraria com o canto, reabilitando os poetas. Borges se incomodava porque nos romances prevalece a “aniquilação de um homem” e a “degradação do caráter”, enquanto na épica os heróis eram exemplos para os demais.  

 

Marx não escreveu especificamente sobre estética, mas em vários textos registrou ideias que permitem pensar a arte a partir do materialismo histórico. Ao tomar contato com o argumento de Borges, segundo o qual o contar uma história se reencontraria com o canto, reabilitando a épica, lembrei de alguns trechos em que Marx diz mais ou menos o contrário. Estão na Contribuição à crítica da Economia Política. Marx pergunta se Aquiles é compatível com a pólvora, se as musas não desaparecem diante da régua do tipógrafo, assim como haviam desaparecido as condições necessárias para a poesia épica. Mais à frente, no mesmo texto, afirma que a dificuldade não está em relacionar a arte ao desenvolvimento social, questão mais difícil é pensar por que obras antigas proporcionam prazer estético, além de conterem, sob certos aspectos, o valor de normas e modelos inalcançáveis (penso, por exemplo, em Borges atribuindo metáforas a antigos persas e nórdicos, porque ninguém as aceitaria se soubesse que tinham sido elaboradas por um “reles contemporâneo”). Marx prossegue citando os gregos: “Por que a infância histórica da humanidade, ali onde alcançou o seu mais belo florescimento, numa etapa de desenvolvimento para sempre encerrada, não haveria de exercer um eterno fascínio?” O encanto da arte grega não estaria em contradição com o débil desenvolvimento da sociedade em que floresceu, era, antes, o produto de condições sociais “insuficientemente maduras”, que não retornariam e que eram as únicas que poderiam ter gerado aquele encantamento.      

 

Voltemos ao romance. Iniciemos com uma definição. Milan Kundera[1] entende o romance como “a grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência.” Borges afirma que o “recheio” dos romances causava-lhe “certo fastio”. A questão é que bons romances não precisam ser recheados, antes pelo contrário. Sabe-se, com Juan Rulfo e Graciliano Ramos, que escrever, inclusive e talvez principalmente no caso dos romances, tem muito mais a ver com cortar e enxugar do que com rechear. Rulfo[2]: “No começo, você deve escrever levado pelo vento, até sentir que está voando. A partir daí, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. É só seguir o voo. Quando você achar que chegou aonde queria chegar é que começa o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito.” Graciliano[3]: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa.” Se é assim, bons romances formam uma totalidade orgânica, inseparável e irredutível, que prescinde de recheios.

 

Pensando em Madame Bovary, parece-me que a potência estética pode estar justamente no que algum desavisado[4] talvez chamasse de “recheio” do romance, mas que é inseparável do texto. Histórias sobre adultérios são comuns. Mas em Madame Bovary são misturadas “imagens voluptuosas a elementos sagrados”, produzindo uma espécie de “poesia do adultério” – as palavras entre aspas são do promotor que levou Flaubert para o banco dos réus por ter escrito o romance[5]. Há uma passagem saborosa com a tal “poesia do adultério”, que enfurece os moralistas, é quando Emma Bovary se encontra com o amante numa igreja:

 

"León, a passos lentos, caminhava rente à parede. Nunca a vida lhe parecera tão boa. Ela chegaria dentro de pouco tempo, adorável, agitada, espiando atrás de si os olhares que a seguiam – e com seu vestido de folhos, seu lornhão dourado, suas botinas finas, com toda a elegância que ele ainda não saboreava e com a inefável sedução da virtude que sucumbe. A igreja, como uma gigantesca alcova, disporia-se em torno dela; as abóbodas inclinariam-se para recolher na sombra a confissão de seu amor; os vitrais resplandeceriam para iluminar seu rosto e os incensórios queimariam para que ela aparecesse como um anjo, no vapor dos perfumes."

 

A acusação formal contra Flaubert atesta a força do romance. Fazer dois amantes se encontrarem numa igreja, como se fosse uma alcova preparada especialmente para o casal... Falar da “inefável sedução da virtude que sucumbe” dentro de uma igreja... Seria possível ir tão longe em um conto ou em um poema? Que outra arte, senão o romance, permitiria uma provocação tão iconoclasta? Intimado pelo tribunal a dizer em quem se baseou para criar a grande adúltera, Flaubert respondeu “Emma Bovary sou eu”. Em certo sentido, era mesmo, frequentaram os mesmos ambientes, leram os mesmos livros, sentiram o mesmo tédio, que, diga-se de passagem, o escritor propositalmente faz o leitor experimentar ao passar pelo que algum desavisado talvez definisse como o “recheio” do romance.

 

Se o tempo presente é de homens partidos, como escreveu Drummond, é difícil imaginar que contar e cantar uma história possam se reconciliar, como quer Borges. A “aniquilação de um homem” e a “degradação do caráter”, que incomodam o escritor argentino, não estão no romance, estão na realidade, que enlouqueceu Dom Quixote, aniquilou Anna Karenina, metamorfoseou Gregor Samsa[6].

 

Enquanto existir capitalismo, entendido como um modo de produção que desenvolve as forças produtivas da sociedade contrapondo-as aos indivíduos, o romance seguirá existindo como campo privilegiado de expressão, como possibilidade de recriar a vida e a sociedade. Haverá sempre alguém disposto a explorar algum aspecto da existência e, para isso, o romance é a ferramenta mais apropriada, inclusive porque nele é possível integrar a poesia, a filosofia e outros saberes. Não há arte melhor equipada para captar o estranhamento produzido pela separação dos produtores em relação aos meios de produção. Ou, como nos termos de Milan Kundera[7]: “na época da divisão excessiva do trabalho, da especialização desenfreada, o romance é um dos últimos lugares onde o homem ainda pode guardar relações com a vida em seu conjunto.” Se é assim, não é coincidência o romance ter se desenvolvido paralelamente ao capitalismo: enquanto este promove uma intensa divisão do trabalho e dos saberes, aquele resiste quase como uma última trincheira.

 

Vou mais além e fecho com uma intuição. Mesmo a possível superação do capitalismo não significa necessariamente a superação do romance, entendida como reencontro do contar com o canto, reabilitação dos poetas ou como queiram chamar e definir. Consigo imaginar a superação do capitalismo. Tenho dificuldade para imaginar a superação do romance.

 

Notas

[1] A definição citada está no livro A arte do romance, no ensaio Sessenta e três palavras.

 

[2] A citação de Juan Rulfo está na nota do tradutor, Eric Nepomuceno, numa edição de bolso (BestBolso) do romance Pedro Páramo.

 

[3] A comparação da escrita com o ofício das lavadeiras de Alagoas foi feita por Graciliano Ramos numa entrevista concedida em 1948.

 

[4] Não sei se Borges iria tão longe a ponto de criticar o “recheio” de Madame Bovary. Sendo assim, o “desavisado” não se refere ao escritor argentino.

 

[5] Boas sacadas sobre a escrita de Flaubert, como a que reproduzi, estão no livro A orgia perpétua, de Mario Vargas Llosa. Sobre a grande adúltera, relida depois de ler Llosa, escrevi Emma Bovary: a condenação perpétua.  

 

[6] Para uma leitura sobre a relação trabalho e saúde em A metamorfose, de Franz Kafka, ver Gregor Samsa: insegurança e adoecimento de um trabalhador.

 

[7] O trecho citado está no livro A arte do romance, no ensaio Anotações inspiradas por Os sonâmbulos. 


Publicado originalmente no Passa Palavra 

NOTAS SOBRE A COMUNA DE PARIS

 

Para fechar a série inaugurada nas colunas anteriores (Viva a Comuna! e Tão longe, tão perto: 150 anos da Comuna de Paris), compartilho anotações e comentários sobre a Comuna de Paris, levante proletário que completou 150 anos e que colocou, pela primeira vez, a possibilidade concreta da emancipação do trabalho.

 

1

A Comuna costuma ser pensada a partir da guerra Franco-Prussiana e do cerco de Paris. É preciso pensar a Comuna a partir das movimentações que precederam a guerra. Em 1868, surgiram associações, comitês e clubes revolucionários onde os parisienses discutiram a sociedade, a economia e a vida. A ideia de Comuna nasceu nas reuniões populares.      

 

2

A Comuna de Paris foi construída de baixo para cima. A política era discutida nas associações, nos comitês, nos bairros, nos clubes, entre soldados e delegados. A radicalização da democracia era inaceitável para a burguesia, no limite, poderia por em xeque a propriedade privada dos meios de produção e o próprio capitalismo. Se é assim, é possível afirmar que, a partir da Comuna de Paris:

 

a) A burguesia se consolidou como classe reacionária

 

b) A iniciativa histórica cabe ao proletariado.

 

3

A democracia na Comuna de Paris foi construída com armas nas mãos, existiu enquanto os comunardos puderam se defender do exército francês. Para radicalizar a democracia, o armamento vale mais que os discursos. Arma da crítica é impotente se separada da crítica das armas.

 

4

Apesar da radicalização da democracia promovida pelos comunardos, ficaram tarefas democráticas por realizar: as mulheres nem votavam nem compuseram o Conselho da Comuna. Jogaram contra a curta duração da experiência e os limites do tempo histórico. Não se tratou apenas de uma debilidade da Comuna. Foi uma fronteira que os comunardos não atravessaram, apesar da heróica participação feminina, que se expressou, por exemplo, na União de Mulheres.

 

5

John Merriman comparou os censos de 1866 e 1872. Informou que, em Paris, o total de sapateiros diminuiu de 24 mil para 12 mil, o total de alfaiates diminuiu de 30 mil para 20 mil, o total de marceneiros diminuiu de 20 mil para 14 mil. Os números dão ideia sobre o massacre ocorrido em 1871 e, também, sobre a composição da Comuna de Paris.

 

6

Milhares de comunardos foram presos, deportados e mortos. A questão, para a burguesia francesa, era derrotar a Comuna e eliminar o exemplo, o que se expressou na condenação à morte de comunardos que já haviam sido assassinados. Raoul Rigault foi condenado à morte treze meses após ter sido assassinado. Eugène Varlin foi condenado à morte dezoito meses após ter sido assassinado. As condenações dos falecidos Rigault e Varlin dão ideia do ódio que a Comuna despertou na burguesia. 

 

7

Os comunardos foram criticados principalmente por:

 

a) Não terem machado imediatamente sobre Versalhes, aproveitando a desorganização das tropas para depor o regime.

 

b) Não terem expropriado o Banco da França, cortando a fonte de financiamento do inimigo e usando os recursos para fortalecer a revolução.

 

Nada garante que um ataque a Versalhes a partir em 18 de março de 1871 seria vitorioso. Os comunardos tentaram depor o regime no começo de abril. Foram derrotados. Perderam lideranças. Tiveram que recuar. Já a expropriação do Banco da França seria um golpe duro nos anticomunardos. É estranho pensar que a Comuna realizou ações radicais como a derrubada da Coluna de Vendôme, que simbolizava o chauvinismo francês, mas não expropriou o banco da França. De qualquer forma, vale lembrar que depois e de longe, tudo é sempre mais fácil. Importante destacar, com Marx, que “a grande medida social da Comuna foi sua própria existência.”

 

8

Apesar dos possíveis erros cometidos, a derrota dos comunardos não pode ser pensada apenas por questões internas. Surgiram Comunas em Lyon, Marselha, Toulouse, Narbonne e Saint-Étienne. Mas foram esmagadas rapidamente. A destruição da Comuna de Paris começou com a derrota dos levantes ocorridos em outras cidades. Os anticomunardos teriam dificuldades militares e de propaganda se tivessem que lutar em mais de uma frente.

 

9

A radicalização da democracia foi, ao mesmo tempo, uma potência e um limite da Comuna de Paris. Exemplos:

 

a) O Comitê Central da Guarda Nacional coexistiu com Conselho eleito para gerir a Comuna.  Houve desperdício de energias com diferentes instâncias remando em direções contrárias.

 

b) A ausência de comando e de disciplina militar cobrou um preço alto, apesar do heroísmo da Guarda Nacional na defesa de Paris, atrás das barricadas.

 

Os partidários do partido revolucionário como panaceia universal têm a solução na ponta da língua: faltou uma direção revolucionária. Mas a questão é mais complexa: como potencializar, ao mesmo tempo, a radicalização da democracia sem desperdiçar energia revolucionária remando em direções contrárias? É uma questão que a Comuna de Paris inaugurou e que as revoluções proletárias ainda não resolveram totalmente, se é que é possível resolver totalmente a questão.

 

10

Em prefácio para o Manifesto Comunista, em 1872, Marx registrou que o texto continuava válido, mas que a Comuna de Paris havia provado que a classe operária não podia apenas tomar posse e colocar a máquina do Estado para funcionar para os seus próprios objetivos. Era a correção que devia ser feita no Manifesto a partir da experiência concreta dos comunardos, que haviam mostrado que a revolução proletária passa pela “destruição do poder estatal”. Marx viu na Comuna de Paris “a forma política finalmente encontrada”. Faltou dizer que a tal forma política havia sido não descoberta, mas desenvolvida, anteriormente, por coletivistas e mutualistas. “A forma política finalmente encontrada” nada mais era do que a sociedade auto-organizada de baixo para cima, em federações.

 

11

Assim como Marx, Lenin também refletiu e escreveu sobre a Comuna de Paris. Ambos utilizaram a experiência do proletariado parisiense para pensar a questão do Estado.

 

Marx (A guerra civil na França – 1871): “As poucas, porém importantes, funções que ainda restariam para um governo central não seriam suprimidas, como se divulgou caluniosamente, mas desempenhadas por agentes comunais e, portanto, responsáveis. A unidade da nação não seria quebrada, mas, ao contrário, organizada por meio de uma constituição comunal e tornada realidade pela destruição do poder estatal, que reivindicava ser a encarnação daquela unidade, independente e situado acima da própria nação, da qual ele não passava de uma excrescência parasitária.”

 

Lenin (O Estado e a revolução – 1917): “Toda a vida econômica organizada à maneira dos correios, de forma que os técnicos, os fiscais, os contadores, como todos os funcionários públicos, recebam um vencimento que não exceda um ‘salário operário’ e sob o controle e a direção do proletariado armado – eis o nosso objetivo imediato. Eis o Estado, eis a base econômica da qual temos necessidade. Aí está aquilo que aniquilará o parlamentarismo, mantendo, no entanto, as instituições representativas – atualmente prostituídas pela burguesia – a serviço das classes trabalhadoras.”

 

Os trechos mostram diferenças entre os revolucionários sobre a questão do Estado. Marx: destruição do poder estatal. Lenin: o poder estatal controlado e dirigido pelo proletariado armado.

 

12

A segunda tese da Internacional Situacionista registrou que “a Comuna foi a grande festa do século dezenove.” Associar um levante que foi aniquilado – com milhares de crianças, mulheres e homens assassinados – a uma festa é uma ideia estranha. Mas professores organizavam excursões para crianças conhecerem obras de arte nas casas abandonadas pelos burgueses que haviam fugido para Versalhes; as pessoas confraternizavam e cantavam; surgiram jornais, folhetos, panfletos, cartazes e manifestos; havia discussões em cada canto. A décima primeira tese da Internacional Situacionista registrou que “teóricos que examinam a história do ponto de vista onisciente divino, como a encontrada nos romances clássicos, podem facilmente demonstrar que a Comuna foi objetivamente condenada ao fracasso e não poderia ter sido consumada com sucesso. Eles esquecem que para aqueles que a viveram, a consumação já estava lá.” Era a vida reconquistada: politicamente, economicamente, coletivamente.

 

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O Manifesto da Federação dos Artistas registrou: “Trabalharemos cooperativamente tendo em vista a nossa regeneração, o nascimento do luxo comunal, futuros esplendores da República Universal.” Kristin Ross escreveu sobre o imaginário político da Comuna de Paris, discutiu o “luxo comunal” a partir do Manifesto da Federação dos Artistas. Para ela, o ideal estético dos artistas parisienses tinha a ver com o florescimento da beleza em espaços compartilhados, integrada à vida cotidiana. A arte deveria ser vivencial. O prático não seria separado do belo. O utilitário não seria separado do poético. A ideia de “luxo comunal” ajuda a pensar a Comuna como “a grande festa do século dezenove”.     

 

14

Marx se referiu à Comuna de Paris como um assalto ao céu. Naqueles intensos 72 dias, igrejas foram transformadas em clubes revolucionários, utilizados pela classe trabalhadora para discutir política, economia e a própria vida. John Merriman registrou que, em geral, os comunardos respeitaram as igrejas usadas para reuniões, mas com exceções: houve quem cantou canções obscenas, substituiu hóstias por brioches, usou água benta para lavar animais, bebeu vinho em cálices utilizados nas cerimônias. Também neste sentido, a Comuna foi uma festa. 


Publicado originalmente no Passa Palavra.