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DE VIRA-LATA A PIT BULL: PROLEGÔMENOS PARA UMA TEORIA DOS COMPLEXOS
Era uma vez um país da América do Sul. Na década de quarenta do século XX, um famoso escritor austríaco viu naquelas terras o “país do futuro”, mudou-se para lá e depois se suicidou por ali mesmo.

Era uma terra com muitas águas, que canalizou seus rios e construiu barragens, alagando vales e afogando o povo, tudo para produzir energia e caixa para empreiteiras e outros negócios. Dizia-se que a fartura de água era tanta que até fariam a transposição do rio mais genuinamente nacional: um enxurro de dinheiro encharcou o caixa das construtoras e do agronegócio.


Era uma terra de flora riquíssima, que foi transformado suas matas em pastos e canaviais, foi substituindo suas sementes naturais por outras transgênicas, tudo com a benção multinacional.


Cândido Portinari: Meninos com balões (1936)



Era uma terra de fauna riquíssima, que, no final do século XX, elegeu um presidente que foi mentor de um partido simbolizado por uma ave de bico longo, que habitava as florestas antes de ser extinta. Essa ave de bico longo violava ninhos e se alimentava de ovos de outros pássaros (dizem que por isso virou símbolo do partido, que também se alimentava de ovos de terceiros e também acabou extinto). Depois do homem do partido da ave do bico longo, foi eleito um presidente apelidado com o nome de um fruto do mar, um molusco. Um dos sentidos de molusco é pessoa, animal ou coisa mole (dizem que isso explica o apelido desse presidente). O presidente molusco cunhou uma expressão que ficou famosa: “nunca antes na história desse país”. 

Nunca antes na história daquele país (e do mundo) os preços dos produtos do agronegócio subiram tanto. Aliás, subiram, mas na época latifúndio não era chamado de agronegócio. Tudo que sobe muito despenca depois. Mas... As quedas dos preços do café, do cacau e do açúcar já tinham quebrado muita casa-grande, mas na época casa-grande não era chamada de agronegócio e não era multinacional, enfim, ninguém previu o tombo no futuro do “país do futuro”.  O presidente molusco pegou jacaré na marolinha da alta dos preços dos produtos do agronegócio, e pulou fora antes do tombo.

Em 2012, completou-se o centenário de um escritor e dramaturgo da terra da rica flora. Nos anos cinquenta do século XX, este escritor e dramaturgo cunhou a expressão “complexo de vira-lata” para definir o sentimento de inferioridade do seu povo, que seria uma espécie de “narciso às avessas”, “que cospe na própria imagem”. Mas isso foi antes do presidente molusco e da alta dos preços dos produtos do agronegócio.

Nunca antes na história daquele país (e do mundo) os preços dos produtos agrícolas permaneceram nas alturas, as asas dos preços eram fixadas com cera, e o país despencou como Ícaro, e como Sísifo, já que a tragédia se repetiu como já tinha acontecido com o café, o cacau e o açúcar. A afoiteza juvenil afogou o país das muitas águas.



Em 2062, o presidente molusco e o partido da ave de bico longo já tinham sido esquecidos. O agronegócio passou a ser chamado de agricommerce e os senhores de engenho de businessmen, estes senhores criaram e dominaram outros partidos para lhes servir. Lendo sobre Ícaro e “complexo de vira-lata”, um jovem historiador cunhou a expressão “complexo de pit bull”, que é uma espécie de “complexo de vira-lata” às avessas, e que existiu quando o país da rica fauna começou a se achar forte e poderoso, isso aconteceu na época do presidente molusco e da sua sucessora, que acabou esquecida sem ser melhor estudada. Segundo o jovem historiador, o “complexo de pit bull” teve três causas: a hipertrofia do crédito, da propaganda e dos preços dos produtos agrícolas. O “complexo de pit bull” fez as asas da imaginação voarem cada vez mais alto, até que a cera derreteu e veio o tombo. Falava-se da solidez dos fundamentos da economia. Dizia-se que a musculatura do país era rija como a do pit bull, mas de pit bull só havia a coleira e a focinheira. O país desabou junto com os preços dos produtos que exportava. Então o povo da terra da rica flora teve saudades da época do “complexo de vira-lata”, porque podia, pelo menos, brincar solto pelas ruas, balançar o rabo e correr atrás de bola.

No ano de 12.022 os mitos serão terríveis. Sísifo, a montanha e a pedra serão esquecidos. Sísifo deixará, finalmente, de rolar a pedra montanha acima.

No ano de 12.022 um mito dará conta de uma geração que viveu curvada sobre aparelhos eletrônicos, que carregavam nas mãos. Quando tentavam espiar as pessoas, os bichos, as montanhas e até as pedras no meio do caminho; recebiam mensagens, e se mantinham curvados sobre os aparelhos: como gado no pasto.

Sísifo, do alto da montanha, podia, pelo menos: espiar a vista.


GRIPE SUÍNA

Um rifão: com doença não se brinca não, se for a gripe suína então... (e vai rifão mesmo, porque é palavra da época da Dona González, e rima com então e não). Segundo ela, os vírus que começam com H, como o da gripe suína, são os piores, daí a preocupação com o H1N1. Isso, de acordo com Dona González, tem tudo a ver letra cabalística H, que é a sexta consoante e oitava letra do alfabeto. Na média dá sete. E sete são as trombetas do apocalipse e os pecados capitais, assim como sete palmos de terra esperam os descuidados.

Toda atenção é pouca, todo cuidado é insuficiente. Dona González sabia disso, apesar de não receber os e-mails sensacionalistas que informavam que o governo estava censurando informações (conclusão que ela formulou por conta própria, como veremos à frente), que havia vários óbitos de médicos, de enfermeiros e por aí vai. Ela tinha vasto conhecimento sobre tragédias.

Na verdade gostava de catástrofes naturais e sociais. Fica eufórica quando acontecia uma queda de avião, um terremoto ou outro desastre. Grudava no rádio ansiosa pelas atualizações. Sentia prazer em repassar notícias sobre tragédias, aumentava o número de mortos e ampliava as conseqüências. Se chovia muito, dizia que cidades inteiras estavam debaixo d’água, que haveria deslizamentos e desabastecimentos. Se não chovia, dizia que haveria racionamentos, sugeria que começassem imediatamente a evitar banhos e que parassem de regar as plantas. Se ocorria um ataque terrorista em alguma parte do mundo, afirmava que o Brasil seria o próximo alvo. Fosse familiarizada com computadores e com a internet, Dona González passaria o tempo redigindo e enviando e-mails sensacionalistas.

Era preciso lavar as mãos. Era preciso evitar aglomerações. Ela não chegou a cortar a conversa matinal com o barbeiro do bairro, mas mudou a rotina. Batia na porta – com a mão protegida por um lenço – à espera de que algum desavisado lhe abrisse. Nunca encostar em maçanetas! Era a regra de ouro. O assunto das conversas matinais? Gripe suína, óbvio: evolução da taxa de mortalidade, teorias dos interesses por trás da criação da doença. Neste ponto Dona González concordava com o barbeiro, muitos lucravam com o vírus. Mas os acordos eram parciais. Ele defendia que as multinacionais farmacêuticas haviam criado a doença. Ela sustentava que os criadores eram ligados à mídia. Um sujeito chegou a esboçar uma terceira via, a teoria cartelização do vírus, que teria surgido da parceria de canais de televisão com fabricantes de medicamentos. Mas, apesar da solução intermediária, não houve acordo. Falavam de tudo, menos o porquê dela bater na porta em vez de abri-la. O barbeiro não percebeu. Ela não comentava. Melhor assim.

Terror mesmo era o transporte público! Não tinha como fugir. Precisava comparecer a supermercados e farmácias, cobrar aluguéis e ir a agências bancárias. Os estoques de mantimentos e remédios precisavam ser garantidos. Os aluguéis deviam ser cobrados. Extratos e saldos bancários não podiam ser ignorados. A grande dificuldade eram as opções de segurança. Escolher é sofrer:

Opção 1 – Sentar no banco dos idosos e se expor a uma carga viral despejada de cima para baixo.

Opção 2 – Viajar em pé e segurar nos apoios, que certamente estavam infectados.

Escolheu a última opção. Quando ofereciam lugar para que ela sentasse, agradecia e continuava em pé. Carregava álcool em gel e desinfetava as mãos exaustivamente. Além disso, desenvolveu uma espécie de surfe rodoviário, modalidade que consistia em viajar com as mãos na cintura, sem se apoiar. Se havia quem surfasse em cima de trens, por que ela não poderia surfar nos corredores dos ônibus? Quando o motorista freava, ela abria os braços e se equilibrava balançando o tronco, sem tirar as mãos da cintura. Às vezes acertava cotoveladas nas pessoas. Era um efeito colateral das medidas de segurança. Desculpava-se e seguia viagem. Mas havia um risco – minimizado é verdade, mas não eliminado –, alguém podia tossir e lançar o vírus por perto. A solução? Recorreu a uma bíblia salvadora, que carregava na bolsa. Quando alguém ameaçava tossir, sacava a bíblia e cobria as vias respiratórias. A idéia surgiu dentro do ônibus, ao ouvir um pregador.

– Irmãos, dizem que é o fim do Mundo. Não é! Não se enganem! Não se preocupem! Não tenham medo! Não deixem de ir aos cultos! Essa gripezinha só pega em quem não acredita na palavra de Deus, em quem não tem fé.
           
Dona González se afastou do pastror, que falava alto, quase cuspindo. Desejou que alguém tossindo se aproximasse dele, para saber se o cidadão pregaria com exemplo, ou se discretamente se retiraria. Avaliava que a última opção era mais provável. De qualquer forma, pouco importava. O fundamental era se defender com a palavra de Deus. Se quem tinha fé não precisava se preocupar, quem se protegesse com a bíblia estaria definitivamente livre da doença.
           
Dúvidas atormentavam Dona González. 1) Receber os aluguéis em espécie ou depósitos bancários? Dinheiro vivo pode estar contaminado, ela não confiava nem um pouco nos inquilinos; mas também desconfiava dos banqueiros. Como confiava mais naqueles do que nestes, continuou recebendo em dinheiro, que guardava embaixo do colchão. Banco só para fazer pagamentos e outras operações inevitáveis. Neste ponto contrariou os especialistas, que sugeriam evitar notas e moedas. Dona González suspeitava que os tais especialistas fossem, na verdade, agentes dos banqueiros. 2) Pagar as compras com dinheiro ou cartão? Se aquele passa de mão em mão, este tem a terrível desvantagem de expor os dedos. Escolheu a última alternativa, mas só digitava com caneta e segurando na tampa, para minimizar riscos. Neste ponto seguiu as orientações dos especialistas, passou a usar cartão para os pagamentos e, por conta própria, desenvolveu a técnica e a habilidade para digitar a senha segurando na tampa da caneta esferográfica.  

Às vezes a lógica privada se chocava com a pública. Escolhia a privada, sem pestanejar (e sem trocadilhos). Não se arriscava em banheiros públicos. Nas emergências, quando não tinha opção, simplesmente não fechava a torneira nem apertava a descarga. Nunca colocar a mão onde passam outras mãos – pensava. Tranquiliza-se calculando que a água que desperdiçava na torneira economizava no vaso. Se via dinheiro no chão, não pegava. As notas certamente teriam sido infectadas por algum psicopata interessado em acelerar o colapso da humanidade.

Com o tempo, Dona González aprendeu a estimar o número de infectados a partir dos óbitos e da taxa de mortalidade da doença. Imediatamente constatou que a quantidade de infectados estava subestimada. Se havia 1.500 mortos e se a taxa de mortalidade era 0,4%, os infectados somavam cerca de 375.000, e não os 10.000 divulgados. Sim, alguma coisa estava errada, e para pior. Ou a taxa de mortalidade era muito superior à divulgada, ou o total de infectados estava subestimado. Dona González passava as tardes fazendo contas, projetava a evolução da doença nos próximos dias. À noite assistia telejornais e verificava se havia acertado nos cálculos. Não pense, caro leitor, que a mulher era incapaz de formular tais raciocínios e de fazer contas complexas. Os meios de comunicação faziam uma cobertura exaustiva e sensacionalista da pandemia. Dona González passava horas ouvindo rádio. Era infalível nas contas quando precisava cobrar juros de inquilinos que atrasavam o aluguel. Além disso, sentia prazer em espalhar previsões apocalípticas para o barbeiro, os clientes da barbearia, os atendentes das farmácias e das agências bancárias. Até inquilinos ela assustava com previsões catastróficas. Sabia que podia incentivar calotes – por que pagar o aluguel se o mundo está acabando? –, mas não resistia. Quando alguém retrucava dizendo que os cientistas estavam trabalhando e que logo surgiria a cura, ela explicava que nenhuma vacina seria desenvolvida em menos de dois anos, emendava com a estimativa de mortos e infectados nos próximos meses. Lembrava que, mesmo se surgisse uma vacina, seria cara e inacessível para a maioria dos brasileiros. Recomendava cautela, prudência e realismo. Muita gente vai morrer, todas as famílias vão perder entes queridos, melhor se acostumar – insistia. Só parava quando percebia que as pessoas estavam apavoradas.

Dona González não confiava nos governos. Essa certeza lhe era anterior ao surgimento da televisão, remontava ao período posterior à vinda da família González para o Brasil, no imediato pós-revolução espanhola. Havia um componente anárquico na opinião dela: Hay gobierno? Era contra! Desde siempre!

Dona González fazia questão de lembrar que a gripe espanhola na verdade surgiu nos Estados Unidos. No mais, oscilava entre os que enxergavam a pandemia como desdobramento da gripe de 1918 e os que opinavam ser uma nova doença. No fundo, torcia pelos primeiros, posto que, se estivessem com a razão, talvez ela carregasse, no sistema imunológico, as informações necessárias para combater o vírus. Preciosas informações imunológicas adquiridas pelos pais e avós, em outros tempos.

Os livros de epidemiologia registrarão quem estava certo sobre a origem da doença. O sistema imunológico da Dona González não conhecia o novo vírus, mas ela sobreviveu. Passada a fase crítica, retomou a rotina. Voltou a freqüentar a barbearia da esquina e a abrir a porta segurando na maçaneta. Voltou a pagar as contas com dinheiro vivo, porque em banco não se deve confiar – repetia sempre. Está se preparando para a próxima tragédia, diz que surgirá uma pandemia muito mais perigosa que a gripe suína.

 

O QUE DIZIA AQUELE OLHAR?

A palavra andorinha
Freme devagarinho
E some em silêncio...
(Mario Quintana)

Ainda que cortada para enquadrar a personagem, percebe-se que a foto foi tirada em São Paulo. Por trás, a terra revirada denuncia o canteiro de obras. A cidade se constrói e se destrói diariamente. É uma das mais antigas do país, mas não se preserva. Ser absolutamente moderno é ser aliado dos próprios coveiros – escreveu Milan Kundera. Mas São Paulo não pode parar, não tem tempo para reflexões que atrapalhem o tráfego, o comércio e os negócios imobiliários.

Era primavera. Vencido o dia de trabalho, cheguei em casa numa tarde qualquer. A surpresa estava na sacada. Um bichinho olhava para mim. Tinha uns 10 centímetro de tamanho e uns 10 gramas de peso. Peito branco. Bico afilado. Nas costas, o preto se dividia com o azul metálico.

Era uma andorinha. Mais precisamente: uma andorinha pequena-de-casa. Quem repara em pássaros, sabe que as andorinhas não são vistas paradas: cortam o céu caçando insetos, fazem voos rasantes para beber água. Elas não frequentam o solo, no máximo a fiação ou os telhados. Mas aquela parou na sacada no meu apartamento. Por quê?

Busquei na memória todas as informações que dispunha sobre andorinhas. Lembrei-me dos versos do Manuel Bandeira e do Mario Quintana, declamá-los para ela? Lembrei que andorinhas são aves migratórias, que cidades aquela visitante discreta teria frequentado? Lembrei que andorinhas se alimentam de insetos, onde conseguiria alguns para ela?

Resolvi pegar a câmera e fotografar a visitante. Me certifiquei de que o flash não estava ligado e fiz os registros, com cuidado para não assustá-la. Os seres com poucos gramas não se sentem à vontade perto de seres com muitos quilos.

Mas não foi para ser fotografada que a andorinha pousou na sacada do meu apartamento. Não havia nem passarinho, nem alimento, nem água por ali. Por que ela escolheu a sacada do meu apartamento?

É indelicado interrogar as razões de um visitante. Ainda mais quando a visita rompe a rotina e nos traz alegria. A andorinha talvez tivesse pousado na sacada do meu apartamento para assistir o pôr do sol comigo. Pôr do sol que contemplo refletido nas janelas de vidro dos edifícios. Pôr do sol paulistano, mutilado. Generosidade da parte dela. Para quem pode voar por cima da cidade e enxergar longe, é uma atitude generosa compartilhar o pôr do sol mutilado que se vê da sacada do meu apartamento.

Talvez a visitante precisasse de abrigo. Talvez tivesse sede. Peguei uma caixa de sapato. Recortei uma porta para a entrada e a saída.Fiz furos para a ventilação. Forrei o fundo com pano. Coloquei um pequeno recipiente com água fresca. Atravessei um espeto de madeira para servir de poleiro. Que se abrigasse na caixa, caso resolvesse passar a noite. Mas, ao me aproximar, ela voou. Na verdade mais caiu do que voou. Com esforço conseguiu fazer um pouso forçado na copa de uma árvore.

Uma andorinha, sozinha, não faz verão. Aquela, com certeza, não chegaria ao verão. Tinha mais algumas horas, ou, no máximo, mais alguns dias de vida. Fiquei pensando no que dizia aquele olhar. Não era dor. Não era esperança. Talvez desespero. Desespero entendido como a serenidade dos que não esperam absolutamente nada.

Ofereci abrigo e água fresca. Ela partiu como pôde. Melhor seria ter colocado um disco do Pixinguinha para tocar. Melhor seria contemplar o pôr do sol com a visitante. Ouvindo chorinho. Sem esperança e sem desespero.



LAMENTO PAULISTANO

Dos quatrocentos e sessenta e cinco anos de São Paulo, vivi quarenta e me lembro dos últimos trinta e poucos.
          
O Morro da Forca já tinha sido transformado em Praça da Liberdade. Já havia milhares de homens e mulheres morando nas calçadas e praças, debaixo de pontes e viadutos. Carrego uma imagem da infância: homens dormindo em camas de papelão, no pé das portas fechadas das igrejas. Esta fotografia absurda continua exposta na Catedral da Sé, na Igreja Nossa Senhora de Fátima e tantas outras.

Os rios já estavam mortos e os córregos canalizados. Alguns milhões de seres humanos e nenhum peixe. As bandeirinhas coloridas de Volpi: garrafas de plástico boiando no Tietê e no Pinheiros. Assassinaram o Tamanduateí, o rio do tamanduá verdadeiro, lembro-me de ter ouvido um senhor contar que pescava no Tamanduateí com o guarda-chuva. Pintura surreal, tempo da delicadeza em extinção.

O mosaico de garrafas de plástico boiando nos rios mortos de São Paulo pinta um quadro pós-moderno, de inigualável feiura, como a fileira de luzes dos autos imóveis. Os veículos se movimentam no ritmo das águas paradas e mortas dos rios da cidade.

Nada acontece no meu coração de asfalto quando cruzo a Ipiranga com a São João. A cara de São Paulo é o pixo, a cidade tem a cara pixada. Pixo: produto de exportação. Pixo: estética da barbárie, idioma intraduzível de São Paulo. Pixo: grito dos córregos enterrados e da juventude assassinada pela polícia. Meu coração bate em todo pixo, para o bem e para o mal. Meu coração rabiscado. Meu coração asfaltado. Meu coração paulistano.
           
Havia e há muitas pipas, ou papagaios, ou quadrados. Onde encontram brechas na fiação, moleques empinam seus brinquedos de voar e sumir.
           
A garoa virou tempestade de verão e seca de inverno: enchente e secura.

Espiando por entre os prédios, ainda se vê a Serra da Cantareira, parede viva ao norte da cidade. Demorei para reparar na Cantareira. Talvez porque o verde escapa da visão adaptada às escalas de cinza. São Paulo tem cor de asfalto.
           
Havia hortas nos quintais. O manjericão do molho de tomate do almoço do domingo vinha do quintal da nona. Os primos e tios vinham das suas casas. Todos se juntavam para a refeição com molho e macarrão feitos à mão. Até que os almoços de domingo se transferiram para as steak houses e os molhos foram enlatados, com claro prejuízo gastronômico e humanísticos. O piso cobriu os jardins. Os muros subiram e foram pixados.
           
Nos bairros como o meu se ouvia pelas ruas o espetaculoso falar dos italianos. Até que aqueles imigrantes tardios (da segunda metade do século XX) começaram a morrer – meia centena de anos depois da chegada – e a língua calou-se com eles. Em bairros como o Paraíso e Ana Rosa se viam e se veem grupos de japoneses. Em todos os cantos da cidade se encontrava e ainda se encontra uma multidão de nordestinos, dos quais sequer se reconhece a naturalidade, são todos agrupados no coletivo “baiano”, ainda que sejam paraibanos, piauienses, sergipanos e por aí vai. Latino-americanos de cabelos escuros, especialmente bolivianos, estão cada vez mais presentes, seus cabelos desbotam nas tecelagens do Brás e do Bom Retiro.
           
Na hora do almoço e do jantar, o perfume dos temperos escapava das panelas para as janelas e destas para as ruas. Caminhar pelas calçadas nessas horas era uma jornada aromática, às vezes ainda é, apesar do avanço das fast foods. O inglês de empresários e executivos tenta substituir o italiano e o português dos imigrantes.

Trocaram-se as praças de brincar pelas de alimentação, dos shoppings. Os campos de futebol de várzea viraram prédios, ou condomínios fechados, ou igrejas evangélicas. Os videogames substituíram as peladas. Adeus futebol jogado na rua, com chinelos demarcando as metas.

Aqui o capitalismo chegou com força, transformando tudo em mercadoria, inclusive as desgraças, sempre tão lucrativas para a mídia sensacionalista.

São Paulo segue sendo construída e demolida pelo capital: soterrada pelo entulho e asfixiada pela fumaça. A cidade é cinza e chamuscada.

O amor por São Paulo é estranho e se manifesta pelo avesso, está justamente no ataque à cidade, como nos pixos. São Paulo agride seus habitantes, que agridem a cidade, como nesta crônica. Quem sabe um dia a cidade e seus habitantes – a cidade e seus rios – possam se reencontrar.

São Paulo é um lixão cheio de tijolos, carros, latas, garrafas, ratos, baratas, urubus, indigentes, ossos e sonhos. São Paulo é grande e não cabe no coração, em todos os sentidos. São Paulo: 465 anos de solidão!   

São Paulo: selva de pedras às vezes coloridas, com a Serra da Cantareira ao fundo

   
São Paulo/Vila Anglo: viela sobre o Córrego da Água Preta

São Paulo/Vila Pompéia: um escadão sobre o que, provavelmente, era uma das nascentes do Córrego da Água Preta.
São Paulo/Centro: pixo: estética da barbárie


RICARDO

"Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que têm consciência de dizer." 
(Albert Camus)

Morre o rato, o gato, o pato, o homem... Morrem bandidos, heróis, canalhas, velhos, crianças... Todos morrem. E o rapaz morreu, pelas próprias mãos, talvez “como um cão”, como Joseph K.

De um amigo poeta ouvi que “o suicídio é a coragem para a burrice”. O senso-comum ensina que se matar é um ato de covardia. À parte as reflexões ideológicas, é certo que, para o suicida, o custo de viver é maior que o benefício. Para ele a vida é formada por muitas desgraças e pouca ou nenhuma alegria. Pelo menos no tempo e espaço do gesto definitivo. E “o tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera”, como escreveu outro poeta, o mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Nesse tempo, o desaparecimento de uns é alegria para fofoqueiros e sensacionalistas. Falam em doenças incuráveis, dívidas impagáveis, desgostos profundos, amores perdidos, chifres, drogas, desilusões, falta de religião, educação ruim, fim dos tempos, pecados, pais ausentes, amizades ruins etc., etc. Enfim, o fim de uns conforta outros, que, apesar dos pesares, vão vivendo.

O trágico na vida humana não é exatamente a morte, trágica é luta dos indivíduos impotentes contra o destino inevitável: a morte. O que tortura é o envelhecimento diário, presságio do desaparecimento final. Queda de cabelos, queda de dentes, perda de memória, perda do tesão, rugas, dores, depressão, angustia, nostalgia.

Pior que isso é o aniquilamento abrupto de alguns. Uma criança brincando, um caminhão desgovernado... Um rapaz toma umas a mais, atravessa, não vê o carro vindo...

Rigorosamente falando, vida e morte são partes de um mesmo todo. Uma pedra não morre. Da mesma forma, é inconcebível a vida sem morte, já que vida, por definição, é o período que vai do nascimento até a morte.

Dessas linhas se conclui que a vida é dura e a morte também. E as duas continuarão assim. Apesar daquele rapaz, que se matou. Mas se matar é mais que isso. Ele não percebeu, os fofoqueiros não fuxicaram a respeito. Se matar é, de certa forma, amputar um pedaço do criador, que nada criou. Ou melhor, se matando o suicida aniquila a idéia de criação, do sagrado e de paraíso. Já que, indiretamente ele afirma: Foda-se a vida e todas as bostas desse e de outros mundos.   
UMA TARDE EM 1993

O que mais pesa nos ombros de um garoto de 14 anos? O tabu da virgindade? O cabaço? Não. Pior que isso é tabu da falta de títulos do time do coração. Este mal se abateu sobre uma geração de palmeirenses, mais precisamente os nascidos depois de 1976 e antes de 1993, eu entre estes.
      
Eram tempos difíceis. Ainda mais para um menino chamado Júlio César. Júlio de Julinho Botelho (o ponta direita que deixou Garrincha no banco em pleno Maracanã) e César de César Maluco (nosso segundo maior artilheiro). Peso comparável a este não há, salvo existir por aí algum Marcos Ademir, Marcos (goleiro) e Ademir (da Guia).
       
Desgraçadamente, os torcedores das épocas de vacas magras são sempre os mais fanáticos, eles elegem seus times por convicção e teimosia. É o meu caso. Não foi um grande craque ou título que me fez palmeirense, pelo menos não que eu tivesse visto ao vivo. “Escolhi” meu time no quintal de casa, ouvindo as histórias do meu pai, que falava do Santos de Pelé e do Botafogo de Garrincha, mas sempre ressaltando que apenas a nossa Academia era capaz de derrotá-los. Porque se não fosse o Julinho Botelho, o Ademir da Guia, o Dudu... O Santos teria sido campeão não sei quantas vezes seguidas.         
      
E a mudança de Palestra para Palmeiras então? Essa emociona. Os são paulinos, apoiados num decreto-lei de Getúlio Vargas, alegavam que éramos uma equipe da comunidade italiana e, portanto, ilegal. Isso porque o Brasil estava em guerra contra a Itália e demais países do eixo. Nossos adversários usaram esse pretexto para tentar tomar nosso estádio. Não conseguiram. E o pior. O futebol é ardiloso. O Palestra foi forçado a mudar de nome, virou Palmeiras para poder continuar existindo. Mas quem disputaria o título do Paulistão na mesma semana? Palestra e São Paulo FC. Ou melhor, Palmeiras e São Paulo FC. Tínhamos 34 pontos, eles 32. A bola rolou, fizemos um, eles empataram, depois outro nosso e mais outro e uma penalidade para nós. Eles se recusaram a continuar a partida. “O Palestra morre líder, o Palmeiras nasce campeão.” Este feito é conhecido como Arrancada Heróica 1942, e hoje dá nome à passarela que atravessa a Avenida Antártica.
      
Claro que a nossa arrancada heróica, por tudo que envolve,  vale mais do que mil conquista, mas nos anos 1980 era difícil comentar um acontecimento de 1942. Era época dos “Menudos do Morumbi”, prenúncio inequívoco do pós-modernismo. As grandes narrativas e fatos históricos estavam em baixa. O “fim da história” estava para ser decretado. Vivia-se num presente vazio que excluía o passado e o futuro. Somente alguns dinossauros como nós insistiam em viver das coisas findas. Nossos adversários de 1942 estavam por cima. Por esses tempos ganhei um companheiro de tortura, meu irmão. Tínhamos as figurinhas dos times, os jornais. Comparávamos a altura dos atacantes adversários à dos nossos zagueiros. Imaginávamos esquemas táticos. 4 – 4 – 2, 4 – 3 – 3. Mas no final... Ganhavam os “Menudos”. Aquela torcida pós-moderna sequer sabia escalar seu time, só aparecia na reta final, como quem chega na hora do bolo, mas ganhavam, nós não. Parecíamos condenados a viver no passado. Se uma máquina do tempo transportasse a nossa Academia para o presente...  Aí ninguém poderia com a gente. Mas enquanto isso não acontecia... Em 1978 perdemos para o Guarani, em 1986 para a Inter de Limeira, nesse dia olhei para meu pai, esperei ele falar, ele precisava explicar o que tinha acontecido, mas faltaram-lhe as palavras. Depois de tudo, o silêncio.
       
Um trauma? Quando algum moleque sem vergonha dizia:
      
- Você nunca viu seu time ser campeão!
      
Ao que eu respondia:
      
- E a sua mãe? Aquela vaca. Aquela puta.         
      
Era preciso desconversar e mudar de assunto.
      
A história era nossa, o presente não. Meu pai falava do primeiro campeonato mundial interclubes, muito antes do Palmeiras reivindicar essa conquista na Fifa. Em 1951 derrotamos a Juventus de Turim, éramos os primeiros campeões mundiais. Tínhamos vingado a seleção brasileira de 1950. Como se não bastasse, em 1965 representamos a própria seleção canarinho, metemos três a zero no Uruguai. No mesmo ano nossos arquirrivais também representaram a seleção brasileira. Resultado? Arsenal 2 x 0 Corinthians (Brasil). Essa história eles não gostam muito de lembrar.
      
Por falar nos nossos arquirrivais. Lembro-me do meu pai narrando o nosso título paulista de 1974. O Corinthians estava há 20 anos sem nada. Eles tomaram o Morumbi. Acharam que sairiam da fila atropelando a gente. Mas... No meio do segundo tempo, um cruzamento na área, Leivinha escora de cabeça e Ronaldo estufa a rede. O caneco era nosso. Meu pai não comentava o título do IV Centenário, que perdemos para o Corinthians em 1954. E estava correto. Já colecionávamos decepções suficientes.
      
Um salto no tempo. Final do Paulistão de 1992. Palmeiras contra o São Paulo de Raí, Müller e Cafu. Perdemos. 4 x 2 e 2 x 1. Dizia-se que só perdemos porque era o São Paulo, se fosse qualquer outro adversário... Mas então por que tinha que ser o São Paulo? Que desgraça. 
      
No ano seguinte nosso time estava mais forte e encararia o Corinthians de Viola, Neto e Ronaldo na finalíssima. Éramos superiores, mas isso não resolvia nada. Primeiro jogo. Falta na ponta direita, Neto cobra de canhota, a bola cruza toda a nossa área, Viola se atira e marca. Bola na rede. Na nossa rede. Como se não bastasse o sujeito ainda comemora engatinhando e imitando um porco chorão.
      
Segundo e decisivo jogo. Nossa única chance era ganhar no tempo normal e pelo menos empatar na prorrogação. Ou seja, o risco de enfarte era altíssimo.  O radinho de pilha tagarelou o dia todo. No final da tarde nos postamos em frente à tv: eu, meu pai e meu irmão. Minha mãe caminhava pela casa para não ver o nosso sofrimento. Apreensão. 0 x 0 no placar. Aí Edmundo arranca pela esquerda, o zagueiro tenta cortar, mas a bola sobra para Evair, que faz a parede e lança Zinho, que entra pela direita e bate cruzado, levantamos do sofá, a pelota passa pelo goleiro, bate no pé da trave e vai para a rede. Gol. Um a zero para nós já no primeiro tempo. 15 minutos de apreensão. E recomeça a partida. E Mazinho recupera no meio campo, penetra pela esquerda, bate cruzado, Evair... É gol. Dois a zero. E viria mais. Daniel Frasson entra pela esquerda, cruza para Evair, que domina e bate, a pelota resvala no rodapé do poste e volta para Edílson... Gol. Três a zero no tempo normal. Outro intervalo. A peleja vai para prorrogação. Só uma tragédia nos tiraria o caneco, mas a tragédia sempre nos acompanha. O Palmeiras é um tango. Apreensão total. Dedos cruzados. Tremedeiras. Até que Edmundo invadiu pela direita, o beque segurou e... Penalidade para nós. Coração gelado. Evair bate, goleiro de um lado, pelota do outro... É gol. Quatro a zero. Silêncio glacial. Mas pela primeira vez o tempo jogava para nós. O desespero estava do outro lado. Até que o juiz apita. Não tinha mais jeito. O caneco era nosso. Silêncio.
      
Meu pai levanta, pega um disco de vinil (compacto), rasga o plástico e põe na vitrola: “Quando surge o alviverde imponente...” Aquele disco tinha permanecido mudo e lacrado por anos, como nós. Meu pai nos abraça aos gritos:
      
- Pode comemorar que esse é nosso! Ninguém mais tira! É campeão!

Não sabíamos comemorar.


                         
O MORALISTA

Aconteceu no começo do século XXI, depois do desenvolvimento da telefonia móvel e da música da dupla Kleiton e Kledir.

Rodrigues era casado. Tinha esposa, filhos e amantes. A Carol entre estas. Ele costumava repetir para os amigos: “Minha mulher serve para esfregar minhas cuecas, minhas amantes servem para tirar minhas cuecas”.  Rodrigues se dizia bacharel em artes amorosas. Os sujeitos que acreditam nas bobagens que dizem costumam ser engraçados, o Rodrigues entre estes. Quando contava suas aventuras eróticas, ele respirava fundo, batia no peito e soltava sua frase preferida: “Eu sô bom nisso!”. Os amigos brincavam dizendo não saber se o Rodrigues era melhor como amante ou como contador de histórias. Fato é que, para ele, não havia nada mais belo do que contar vantagem. Certa vez, numa roda de amigos, alguém perguntou se o Rodrigues frequentava bordéis, ao que ele respondeu de pronto: “Nunca! Eu nunca pagaria pra transar com uma mulher, elas que deveriam pagar pra transar comigo!”. Quando os amigos conseguiram parar de rir, Rodrigues emendou sua frase preferida: “Eu sô bom nisso!”.

Carol estava namorando e, por isso, havia rompido com o Rodrigues. Mas não há barreira que não possa ser superada pela ousadia de um amante somada às possibilidades da telefonia móvel. Ela respondeu a mensagem dele, que pensou: “Eu sô bom nisso! Agora vai!”. Dias depois, se reencontraram.

Algumas palavras jogadas fora e decidiram ir para um lugar mais tranquilo para conversar melhor. Mais palavras jogadas fora e a Carol levantou e debruçou na janela. O Rodrigues – que raciocinava por meio de metáforas futebolísticas – pensou: “A bola do jogo. É agora!”. E abraçou a parceira por trás. Sem soltá-la e sem saber bem o que fazer ou dizer, improvisou, cantou baixinho um trecho do Kleiton e do Kledir: “Esse quarto é bem pequeno / pra te suportar / tanto amor / tanto veneno / pra pouco lugar”.

Ela se surpreendeu com a novidade:

- Que é isso? O que cê tá fazendo? Tá maluco?

Mas, lá no fundo, Carol aprovou a novidade, também ela gostava do Kleiton e do Kledir. Percebendo a conjuntura favorável, Rodrigues emendou:

- Tô maluco por você. Malucão. Eu sei o que tô fazendo! Confia em mim! Deixa comigo! Vai ser como nos velhos tempos. Baby, confia em mim! – Empolgado, Rodrigues quase soltou sua frase preferida: “Eu sô bom nisso!”. O que, com certeza, teria posto tudo a perder. Mas o pior não aconteceu.

Ele avançava e, ao mesmo tempo, começava a comemorar a vitória sobre os amigos, que não acreditavam na possibilidade dele reatar com a Carol. Rodrigues via a cara de espanto dos amigos quando soubessem dos versos do Kleiton e do Kledir. Não é difícil imaginar as frases que ele utilizaria para narrar aquela aventura: “Gol de placa. Jogada de craque. Eu sô bom nisso!”. 

Existem as leis do amor, a gramática das coisas do coração espera por ser redigida, mas existe. A debruçada na janela da Carol prova a existência das leis do flerte. E prova que o Rodrigues conhecia a legalidade do amor. Claro que o emprego da canção do Kleiton e do Kledir ajudou, mas não era só isso. Ele gostava de dizer que “no amor, assim como no futebol, o improviso ajuda, mas não resolve sozinho, é preciso dominar todos os fundamentos do jogo”. Se fosse um pouco mais teórico, Rodrigues poderia escrever a gramática das coisas do coração, mas ele era um homem de ação, preferia a prática e a narração das práticas.

Machista, canalha, reacionário, estúpido... Digam o que quiserem do Rodrigues, mas, uma coisa é certa, ele dominava os tempos de bola do amor. Essa metáfora é dele, mas tem a ver, era assim que ele explicava suas conquistas para os amigos. Com certeza, Rodrigues diria que aquele abraço aconteceu no momento exato, que um segundo antes ou depois seria fatal.

Os amantes se conheciam, tinham sido parceiros. Aquele debruçar na janela era a senha, a luz verde, o siga em frente, o venha agora ou nunca mais. Como um toque de truco, aquele gesto sinalizava e autorizava a próxima jogada do parceiro.

Empiria ou não, é inegável que o Rodrigues identificou corretamente a simbologia do debruçar na janela, antes daquele gesto, qualquer passo seria um salto no abismo. A Carol mantinha uma superioridade total até aquele debruçar, até aquele “venha”. Na corrida do amor, queimar a largada é fatal. Depois daquele “siga em frente” ela se integrava às batalhas do amor, se perdia a ponto de confundir o toque do celular com as batidas do coração do Rodrigues. Os amantes vibravam e emitiam sons na cama, o telefone da Carol também, até que... Pof!

- Meu telefone caiu. Calma home, calma! Quem tá me ligando? Meu namorado! Caramba!

- Desliga isso, Carol.

- Alô. Oi coração. Como cê tá? Tudo bem? Já jantou? Tem que se alimentá bem, hein.... Hein... Beijo! Beijo! A gente se fala então! A gente se fala depois! Te ligo! Beijo!

- Rô, vem Rô! Vem, seu safado! Cachorro!

Rodrigues estranhou, mas não se intimidou com a situação. Avançou. Mordeu o pé da parceira. Essa técnica, no jargão dele, era uma jogada ensaiada, que ele repetia porque funcionava. “Em time que tá ganhando não se mexe” – dizia.

- Carol, você não anda, levita. Que pezinho! Posso fazer cosquinha?

Drim. Drim. Drim.

- Carol, que que é isso? Meu estômago tá roncando?

- Não, não. É o meu celular tocando debaixo de você. Afasta aí pra eu ver quem é. Outra vez. Espera. Rô, espera.

- Oi meu amor. Jantou? O quê? Hum... Que delícia. Ops. Vou entrar no Metrô. Não tô te ouvindo. Oi? Não tô te ouvindo. Oi? Oi? Vai cair. Beijo. Vai cair. Beijo. Até. Também te amo.

- Vem, Rô. Vem.

Carol passou os dedos entre os cabelos do Rodrigues, segurou firme e puxou com força. Ele quase gritou de dor. Esses detalhes das aventuras não costumavam ser contados para os amigos.

Drim. Drim. Drim.

- Outra vez! Deixa eu tomar um ar. Rô, afasta um pouco. Espera. Espera.

Ela controlou a respiração e atendeu:

- Oi coração! Também te amo. A ligação tá ruim. Te amo. Beijo. Até.

- Vem Rô. Rô, cadê você?

Estava na janela. Olhou para o horizonte, acendeu um cigarro e começou a matutar. Há quem diga que começar a pensar é começar a broxar. Como pensar não era o forte do Rodrigues, ele não considerou esse risco.

Drim. Drim. Drim.

Mais conversa dos namorados. Da janela Rodrigues ouvia e pensava. Como ela podia fazer aquilo? Ficar jogando conversa fora sem passar a bola para ele. Que fominha! Por que não desligou o telefone? Que canalhice. Os maus pensamentos do Rodrigues sobrevoavam como aves de rapina. Teria ela atendido alguma ligação dele na cama com outro homem? Pior ainda, teria alguma ligação dele tocado debaixo de algum amante dela? Teve náusea só de pensar na pele suada e na pulsação de outro homem. Que mania! Levar o telefone para a cama, onde já se viu isso? E que cara chato esse namorado dela, tinha que levar chifre mesmo, não dá um tempo, marcação sob pressão no campo adversário o jogo todo, parece time alemão, assim não tem jogo, a bola não rola. Retranqueiro. Covarde. Nem joga nem deixa os outros jogarem. O ciúme crescia junto com a raiva. Rodrigues teve uma ideia terrível, seria ele reserva do namorado da Carol? Logo ele: que sempre dizia “sô bom nisso”, que conhecia os tempos de bola do amor, que armava jogadas tão bem quanto finalizava. Reserva de um perneta? Teve vontade de falar essas verdades. Carol trocava frases batidas com o namorado: “também te amo”, “tô com saudade”... No jargão do Rodrigues, aquilo era fazer cera. Carol conversava com um e sorria para o outro. Rodrigues se irritava. No jargão dele, aquilo era catimba. Ele tentava se controlar, sabia que o pior erro de um amante experiente é cair na catimba do adversário. Mas não teve jeito. A raiva só aumentava. Reserva de um perna de pau... Onde já se viu isso?

- Então tá, amor. Minha bateria tá acabando. Desliga você primeiro. Te amo, viu. Te amo. – Disse Carol para o namorado ao mesmo tempo em que piscava para o Rodrigues.

O namorado não desligou, mas ela sim. Depois encarou Rodrigues com olhar provocador e disse:

- Rorô, vem. Te quero! Quero você! É hoje!

Rodrigues se animou, subiu do inferno para o céu. Olhou para a parceira e pensou: “Eu sô bom nisso!”. Mas, no caminho da janela para a cama, ouviu o toque do celular.

Drim. Drim. Drim.

- De novo! – Reclamou a Carol.

O pior tombo é o que o sujeito leva quando está se reerguendo. Rodrigues despencou do céu para o inferno. Como ela podia fazer aquilo com ele? Que canalhice. Sem vergonha. Logo a Carolzinha... Logo a sua pequena preferida... A que ele mais gostava. Cada “eu te amo” dito para o outro era uma cusparada na cara do Rodrigues. A ideia de ser o reserva imediato do namorado da Carol voltou a atormentar. Como ele contaria aquela aventura?

Parênteses para uma metáfora à la Rodrigues: o último chamado da Carol, aquele “Te quero! Quero você!” foi a bola do jogo, ele empurraria a pelota para a rede se não tivesse sido anotado impedimento, ou seja, se o telefone dela não tivesse tocado outra vez.

Tomado de fúria, Rodrigues contraiu os músculos do rosto e avançou com raiva nos olhos. Tomou o telefone da mão da amante e ouviu a voz que vinha do outro lado da linha:

- Amor. More. Môr, cadê você? Tá tudo bem?.

Considerando-se injustiçado, autopromovido ao topo do edifício da superioridade moral, Rodrigues fuzilava sua parceira com o olhar. Encheu o peito para falar, queria colocar os is nos pingos. Mas não conseguiu dizer nada. Bufou como burro cansado e respirou fundo. Tinha que falar, precisava retomar a rédea das coisas, mas foi novamente driblado pelas palavras, que lhe escapavam. Os pensamentos mordiam os miolos do Rodrigues: “Como a Carolzinha faz isso comigo? Logo a minha pequena preferida?”.

Desesperado, jogou o telefone na cama, bateu a porta e partiu: com os olhos marejados, soluçando.