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A abelha e a crônica

 

Era uma quarta-feira como todas as outras. Despertei com os primeiros raios do sol. Abri a janela do quarto. A luz da manhã dominou o ambiente. Coloquei meus óculos de leitura. Sim, “minhas retinas tão fatigadas” [1] denunciam a idade. Apanhei o livro que lia há uns dois dias, Um solitário à espreita, do Milton Hatoum [2]. Deitei de costas na cama. Apoiei a almofada de leitura sobre peito. Desfrutei as crônicas do romancista manauara. Nietzsche [3] lamentava o desperdício das primeiras horas da manhã – “quando o espírito reflui em leveza, ao despertar das energias” – com leituras: “Para mim, isto é um vício!” – martelou o filósofo. Alguém poderia responder: mas que vício reconfortante! Esquecer alta dos preços, as mudanças climáticas, o amor ausente, a iminência da terceira guerra mundial e viajar com as palavras. Lutar com as palavras, de manhã, pode ser uma luta vã, como quer o poeta [4]. Mas viajar com elas é uma alegria.

 

Meu reencontro com Milton Hatoum aconteceu quando passei alguns dias em Manaus. Queria ler poetas e romancistas manauaras antes de chegar na cidade, o primeiro que me ocorreu foi Hatoum. Já havia lido e gostado de Dois irmãos [5], mas não busquei outros livros do romancista manauara. Os caminhos da leitura são intrincados. Visitar Manaus foi a deixa para ler Cinzas do norte [6], Relato de um certo Oriente [7], A cidade ilhada [8], Órfãos do Eldorado [9]. Recomendo todos. Para quem ainda não conhece Hatoum, talvez iniciar pelos dois últimos. Um livro de contos e uma novela, respectivamente. Textos curtos que concentram temas e obsessões do autor. Em um podcast que ouvi, mas não consegui localizar para referenciar, Hatoum comentou que o Brasil não olha para Amazônia, assim como a Amazônia não olha para o Brasil. Certeiro. Dá para usar a sacada para reforçar a recomendação dos livros dele. Para um olhar fino sobre a Amazônia, leia Hatoum. Para um olhar fino sobre o Brasil e o mundo a partir da Amazônia, leia Hatoum. O romancista saiu de Manaus, mas a cidade segue com ele. Ela está em todos os textos. Reaparece onde menos se espera.

 

Minha “imersão amazônica” não se limitou a Milton Hatoum, nem ao período anterior, nem durante a estadia em Manaus. Na cidade comprei livros que li depois. Registro alguns poetas e romancistas manauaras, apenas os que me surpreenderam e encantaram, especialmente considerando que o Brasil não olha para a Amazônia, nem o contrário: Anibal Beça [10], Astrid Cabral [11], Luiz Bacellar [12][13][14], Márcio Souza [15][16][17], Thiago de Mello [18][19][20]. Vale pontuar que o poeta Thiago de Mello não nasceu em Manaus, mas tinha o coração manauara; escreveu, por exemplo, um livro intitulado Manaus, amor e memória.

 

Se pude ler poetas e romancistas de Manaus, foi porque a cidade conta com uma editora, Valler, que mantém uma loja no Largo de São Sebastião e publica autores locais. Mesmo poetas e romancistas reconhecidos nacionalmente tiveram obras editadas, ou reeditadas, pela Valler. É o caso de Márcio Souza e Thiago de Mello. Foi na simpática livraria da editora Valler, no Largo de São Sebastião, que encontrei e comprei Um solitário à espreita. Mas não li de imediato. Há livros para guardar como “bola de segurança”, para quando precisamos de leituras tônicas e revigorantes. Foi o que fiz com as crônicas de Milton Hatoum. Voltei a elas quando já estava longe de Manaus e minha “imersão amazônica” começava a arrefecer. Hatoum discorre com leveza sobre pequenos acontecimentos, gracejos, memórias, perdas. Com Manaus ressurgindo quando menos se espera. Que delícia. Tudo vira – ou pode virar – crônica nas mãos do escritor, especialmente se ele tem prazo para entregar textos. Vale um gato deixado em Manaus, um café com o taxista em São Paulo, um cartão de visita, o vermelho vivo dos jambos, um rio sem margens, um amigo excêntrico, uma dançarina octogenária, “uma pintura inacabada”, “uma vingança inconsciente” em Toronto, uma “tarde delirante no Pacaembu”. As crônicas presentes em Um solitário à espreita foram todas publicadas na mídia e, posteriormente, reunidas em livro.

 

A crônica é uma espécie de prima do haikai. A diferença é que quem escreve haikais registra instantes, fotografa a insustentável leveza do que não vai se repetir, especialmente na natureza; já os bons cronistas trabalham com acontecimentos cotidianos, sempre com inteligência e perspicácia, destacando o inusitado. O haikai direciona a imaginação do leitor. O poeta sugere. O leitor imagina e recria o instante a partir das poucas palavras do poema. Na crônica o leitor navega com a imaginação do autor, que recria acontecimentos – inclusive os que se repetem – com poucas palavras. O leitor se diverte com a imaginação do cronista, com o inusitado revelado. A presença do autor é mais facilmente notada na crônica. Haikai: poética da sugestão. Crônica: alegria da revelação.    

 

Voltemos àquela quarta-feira do primeiro parágrafo. Fiz uma pausa na leitura das crônicas de Milton Hatoum para tomar café. Depois atravessei a casa, abri a porta e caminhei no terraço. Foi quando senti uma dor forte no pé esquerdo. Com a cabeça nas crônicas de Um solitário à espreita, não enxerguei e pisei numa abelha. Ela morreu pouco tempo depois. Retirei o ferrão do pé com uma pinça. Mas a dor ficou. Apesar do acidente, da morte da abelha e do inchaço: tentei ver o lado bom do ocorrido. O acontecimento inusitado podia servir para uma crônica. Foram três dias com pé inchado, manquitolando e matutando na crônica que não consegui escrever. Elaborei títulos – O solitário e a abelha, Dois solitários e um ferrão, Começando o dia com o pé esquerdo –, mas não consegui desenvolver a narrativa. Naveguei na internet. Pesquisei sobre crônicas, abelhas, ferrões e pés humanos. Sem sucesso. Cheguei a desconfiar que a abelha que me picou fosse nativa da Amazônia. Ela poderia ter surgido de onde menos se esperava, mais ou menos como Manaus aparece nos textos do Milton Hatoum. Mas não. Ao que tudo indica fui picado por uma Apis mellifera, que é uma abelha de origem europeia. Minhas pesquisas sobre o pé humano também foram pouco frutíferas. Se as representações que encontrei na internet estiverem corretas, a picada atingiu uma região intermediária do meu pé esquerdo, entre os dedos do amor e da criatividade, que são duas coisas em falta para mim. E o que isso significa? Absolutamente nada! A morte da abelha e meu pé inchado por três dias serviram apenas para fazer este breve elogio a Milton Hatoum e aos poetas e romancistas manauaras. Daria para fazer o mesmo sem ter pisado na abelha.      

 

Notas

[1] Carlos Drummond de Andrade. No meio do caminho. In: Carlos Drummond de Andrade. Nova Reunião: 23 livros de poesia - volume 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p. 22.

[2] Milton Hatoum. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

[3] Friedrich Nietzsche. Ecce homo. [S.l.] Edições de ouro. Coleção Universidade. [s.d]. p. 71.

[4] Carlos Drummond de Andrade, op. cit., p. 121.

[5] Milton Hatoum. Dois irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

[6] Milton Hatoum. Cinzas do Norte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

[7] Milton Hatoum. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

[8] Milton Hatoum. A cidade ilhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

[9] Milton Hatoum. Órfãos do Eldorado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

[10] Anibal Beça. Folhas da Selva. Manaus: Editora Valer, 2006.

[11] Astrid Cabral. Íntima fuligem: caverna e clareira. Manaus: Editora Valler, 2017.

[12] Luiz Bacellar. Frauta de barro. 9º ed. Manaus: Editora Valler, 2011.

[13] Luiz Bacellar. Sol de feira. 7º ed. Manaus: Editora Valler, 2022.

[14] Luiz Bacellar. Satori. 2º ed. Manaus: Editora Valler, 2002.

[15] Márcio Souza. A caligrafia de Deus. São Paulo: Editora Atma, 2021.

[16] Márcio Souza. Galvez imperador do Acre. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010.

[17] Márcio Souza. A expressão amazonense – do colonialismo ao neocolonialismo. 3º ed. Manaus: Editora Valer, 2010.

[18] Thiago de Mello. Silêncio e palavra. 4º ed. Manaus: Editora Valler, 2001.

[19] Thiago de Mello. Faz escuro mas eu canto. 24º ed. São Paulo: Global, 2017.

[20] Thiago de Mello. Manaus, amor e memória. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984.


Publicado originalmente no Passa Palavra

O TRADUTOR

 

Queria ser romancista, tornou-se tradutor. Queria conhecer o mundo, foi para uma cidadezinha do interior.

 

Aceitou a ideia de que passaria pela vida sem escrever um romance. Morreria sem fazer a única coisa capaz de justificar a existência: escrever romances – recriar o mundo e os homens com palavras. Passaria pela vida sem deixar nenhuma marca digna de nota, sem absolutamente nada de que pudesse se orgulhar. Mas ter que traduzir textos acadêmicos para sobreviver era constrangedor. Para os amigos – quando ainda tinha com quem conversar sobre literatura –, dizia que eram justamente as malditas traduções de textos acadêmicos que lhe travavam as possibilidades criativas. É mais fácil vencer um concurso de dança vestindo uma armadura do que escrever um romance tendo que ganhar a vida como tradutor. A metáfora era do tempo em que ainda nutria pretensões literárias. Afirmava que um abismo separa um texto acadêmico de um bom romance. Citava o filósofo das marteladas: quando olhamos para o abismo, o abismo olha para nós. Concluía dizendo que os artigos que traduzia eram o abismo. Comparem um Machado de Assis ou um Guimarães Rosa aos textos que vocês traduzem e revisam – costumava dizer a amigos e companheiros de profissão. Arrematava afirmando ser impossível escrever algo que preste depois de passar o dia traduzindo academesmices, ciência salame, encheção de linguiça, mais do mesmo, bobajadas que só servem para bater metas curriculares. Havia quem discordasse em nome do futuro do país, do progresso do conhecimento, da ciência e, sobretudo, como forma de dar sentido ao próprio trabalho. É desagradável pensar que se desperdiça a vida repetindo tarefas inúteis. Ele provocava lembrando que, pelo menos, não ficaria vinculado ao que definia como textículos acadêmicos, porque os nomes dos tradutores não costumam ser publicados.

 

Aceitou a ideia de que não conheceria o mundo e sequer sairia do Brasil. Mas passar o resto da vida numa cidadezinha esquecida no interior do país não era o melhor destino. Como ficou sem dinheiro no meio da primeira grande viagem que tentou fazer, precisou trabalhar. Retomou as traduções. Como a internet já havia chegado naquele fim de mundo, foi trabalhando e ficando. Era mais fácil sobreviver no interior com cerca de duzentos reais que ganhava por artigo traduzido, nos grandes centros o custo de vida era proibitivo para o tradutor. A cidadezinha tinha um quarteirão com casario do século XIX, do tempo da mineração, cercado por habitações precárias, resultantes do loteamento de antigas propriedades. Alugou um quarto num sobrado do século XIX e ficou. Dormia ali. Trabalhava ali. Traduzia ali. Colocou uma mesa e um computador no canto do quarto, ao lado da janela, por onde espiava a vida passar quando as palavras começavam a se embaralhar na tela do computador. Fazia as refeições na cozinha que dividia com outros inquilinos. Fazia as necessidades no banheiro que dividia com outros inquilinos. Dividia o sobrado com viajantes, prostitutas, traficantes e até aventureiros que acreditavam ainda haver ouro nos rios e minas da região.  Porque morava no velho sobrado com pessoas marginalizadas e praticamente não saía do quarto, havia quem desconfiasse que o tradutor fosse um fugitivo.

 

Ele não se importava, até se divertia com as suspeitas. O que irritava o tradutor era a labuta diária. Além do tempo desperdiçado traduzindo para o inglês, além do travamento literário provocado pela linguagem insossa dos artigos a serem vertidos, o tradutor se irritava com o contato mínimo que era forçado a manter com os clientes. Havia revistas científicas que contratavam empresas especializadas que quarteirizavam o serviço repassando textos a serem vertidos pelo tradutor. Havia os acadêmicos que demandavam traduções para publicar em revistas científicas internacionais. O tradutor preferia o autoritarismo mercantil das primeiras, que simplesmente informavam o tamanho do texto, o valor e o prazo. As empresas prescindiam do mandar sugerindo dos acadêmicos, que irritavam profundamente o tradutor. Sugiro que tenha atenção com os termos técnicos. Sugiro evitar expressões “aportuguesadas”. Sugiro não utilizar softwares de tradução. Sugiro consultar as instruções do periódico antes de iniciar o trabalho. Sugiro entregar até a data tal, ou antes se possível. Toda vez que recebia ordens em forma de sugestão lembrava-se de Bartebly, o escrevente do conto homônimo, que passou abruptamente da aceitação ao rechaço com um misterioso “eu preferiria não”. Poderia revisar o contrato x? Eu preferiria não. Poderia revisar a procuração y? Eu preferiria não. Mas revisar é parte do seu trabalho, Bartleby – argumentava o patrão, no conto. Ao que o escrevente foi do futuro do pretérito (eu preferiria não) para o presente do indicativo (eu prefiro não) seguido por um mutismo intransigente e definitivo. O tradutor sonhava com o que definia como o dia B – de Bartleby –, quando responderia “eu preferiria não” às empresas especializadas em tradução e, especialmente, aos acadêmicos.

 

O tradutor ficava puto quando os acadêmicos iniciavam solicitações adicionais com agradecimentos duvidosos. Agradeço a prontidão e a qualidade do trabalho, reenvio o artigo para revisão, fizemos correções na introdução, por favor, verifique e ajuste a versão para o inglês. E assim era obrigado a perder tempo com tarefas não remuneradas. Toda vez que recebia solicitações adicionais que começavam com agradecimentos duvidosos, ele lembrava da escritora Dorothy Parker, que definiu o sentimento de gratidão como “o atributo mais mesquinho e choramingueiro do mundo”. O tradutor se irritava profundamente com os agradecimentos forçados e interesseiros. Agradecemos o cuidado e a atenção com nosso artigo, por favor, poderia informar a previsão de entrega da versão para o inglês? Agradecemos o esclarecimento sobre o pagamento, é possível conceder um desconto?   

 

Foi num dia qualquer, no começo da tarde, mais precisamente. Pela manhã havia concluído a tradução de um artigo mal escrito e chatíssimo, cheio de frases longas, clichês e ideias banais. Quando leu o agradecimento pelo retorno imediato no início do e-mail, já imaginou que teria dores de cabeça. O professor doutor A pedia desculpas e informava que a versão enviada ao tradutor não havia sido revisada por um dos coautores, o professor doutor B. Assim sendo, o professor doutor A agradecia e sugeria que o tradutor revisasse e refizesse o trabalho com a maior brevidade possível, se atentando especialmente às alterações realizadas pelo professor doutor B na seção de métodos. Na mesma mensagem, o professor doutor A reuniu o que mais irritava o tradutor: uma ordem sugerida e um agradecimento duvidoso.

 

Quis esmurrar a tela do computador e a cara do professor doutor A, que ele não conhecia pessoalmente, mas que passou a odiar com todas as forças. Se pudesse, pelo menos, agradecer e mandar sugerindo que o professor doutor A fosse à merda... Agradeço o alerta sobre a necessidade de revisar a tradução, especialmente a seção de métodos: sugiro que vá à merda! O problema era que aquele grupo de pesquisa sempre demandava versões para o inglês. Podia abrir mão daquelas traduções? Sobreviveria sem elas?

 

Contou os trocados que tinha na carteira, desligou o computador, bateu a porta do quarto e foi até o bar da esquina. Tomou uma cerveja aguada como a vida.


Publicado originalmente no Passa Palavra



 

O LEITOR CLANDESTINO

 

Sempre gostei de bibliotecas. Queria dominar todos os livros das bibliotecas. Aos poucos fui percebendo se tratar de um sonho impossível: porque há muito livros nas bibliotecas e porque há muitas bibliotecas no mundo (mesmo que dominasse uma, haveria outras tantas). Conheço apenas alguns autores, a posição de uns poucos livros nas prateleiras (porque costumo flertar com as obras antes de iniciar a leitura) e só. Nem pequenos nichos do conhecimento posso dizer que domino ou que dominarei. É que na leitura sou anarquista. Sou leitor e não pesquisador. Uma capa atrai. Um título intrigante idem. Um livro puxa o outro: sem governo, sem continuidade e quase sem método.

 

O ensaísta André Comte-Sponville [1] registrou que o estilo é tônico. Ler uma frase limpa, sólida e bem construída revigora como o ar puro. Concordo. Mas não é apenas o estilo que reconforta, às vezes é a própria leitura: forma e conteúdo, ter o livro nas mãos, folhear, grifar, anotar. O poeta Carlos Drummond de Andrade [2] contou que recebeu uma carta de um homem que tinha pensamentos suicidas, mas mudou de ideia depois de ler o poema José. Os versos expressavam exatamente o que o homem sentia, mas não conseguia pôr para fora. Quando descobriu que aqueles sentimentos estavam registrados no poema José, percebeu que não estava sozinho no mundo. Sentia o mesmo que o poeta. Abriu mão do suicídio. É nesse sentido que a leitura é tônica.  

 

Com o tempo passei a me reconhecer como um leitor: um leitor que às vezes escreve. A escrita é, para mim, uma forma de compartilhar o que li. Daí as inescapáveis citações, que devem aborrecer os leitores. Há textos tônicos sobre a leitura. Ricardo Piglia [3]. Alberto Mangel [4] [5] [6]. Um dos ensaios de Piglia discute Che Guevara como leitor, a sacada final é daquelas que só os grandes romancistas são capazes de formular. Na lousa da escolinha boliviana em que foi aprisionado antes de ser assassinado, Guevara leu uma frase e indicou uma correção para a professora local, Julia Cortés, que lhe havia entregado um prato de comida (ela foi a única que se solidarizou com o guerrilheiro). Falta o acento em “Yo se leer” – disse o Che. O revolucionário que havia sido capturado com livros, porque nunca se afastou da leitura, nem quando cercado por tropas inimigas, encerrava sua passagem pelo mundo com um digno e preciso “eu sei ler”. Naquele segundo mágico, o leitor reencontrou o guerrilheiro. Manguel registrou notas para a definição do leitor ideal, compartilho algumas: “Depois de fechar o livro, o leitor ideal sente que, se não tivesse lido, o mundo seria mais pobre” [...] “O leitor ideal julga o livro pela capa” [...] “Quando lê um livro de séculos atrás, o leitor ideal se sente imortal” [...] “O leitor ideal não tem uma nacionalidade precisa.” [...] “O leitor ideal não se preocupa com anacronismos, a verdade documentada, a exatidão histórica, a precisão topográfica. O leitor ideal não é um arqueólogo.” [...] “Um escritor nunca é seu próprio leitor ideal.” [...] “Pinochet, que proibiu D. Quixote por pensar que incitava a desobediência civil, foi o leitor ideal desse livro.”

 

As notas para a definição do leitor ideal, de Alberto Manguel, me fizeram pensar no leitor real em um país miserável em muitos sentidos, como o Brasil. Por aqui as pessoas consideram a leitura inútil e entediante, por isso costumam puxar conversa quando encontram alguém lendo. É como se fizessem um favor e uma caridade. Por aqui – se não se vive da exploração do trabalho alheio – a leitura é um ato de resistência, que se faz na clandestinidade, contra quase tudo e quase todos. É neste sentido que, partindo de Manguel, registro algumas notas sobre o leitor clandestino, que sou um pouco eu, mas não só (os leitores do Passa Palavra certamente podem ampliar e completar essas notas):

 

- Para o leitor clandestino, um dia sem leitura é um dia irremediavelmente perdido.

 

- O leitor clandestino frequenta pontos de troca de livros, principalmente os espaços que ficam em vias públicas e são discretos.

 

- O leitor clandestino prefere livros usados e com anotações.

 

- O leitor clandestino aprende a ignorar a poluição sonora para ler no transporte público.

 

- Quando está no transporte público e consegue viajar sentado, o leitor clandestino prioriza os livros maiores.

 

- Quando está no transporte público viajando em pé (maior parte do tempo), o leitor clandestino prioriza edições de bolso.

 

- O leitor clandestino nunca é visto sem mochila, porque sempre carrega livros.

 

- O leitor clandestino se alegra quando vê pessoas lendo, mas se consegue espiar as capas, costuma se frustrar por serem livros de autoajuda ou empreendedorismo.

 

- O leitor clandestino julga as pessoas pelos livros que leem e também pela falta de leituras.

 

- O leitor clandestino acha as leitoras atraentíssimas. Ele sonha em conhecer uma leitora de romances no transporte público para trocar impressões literárias e o que mais for possível.

 

- O leitor clandestino já viajou com leitoras de romances no transporte público, mas não percebeu a presença delas porque estava com a cara enfiada em um livro.

 

- O leitor clandestino é apaixonado por Emma Bovary e Ana Kareninna: em todos os sentidos.

 

- Para ler, o leitor clandestino acorda mais cedo que familiares e amigos.

 

- O leitor clandestino aluga filmes e paga canais fechados para a família se entreter enquanto ele lê.

 

- O leitor clandestino não é absolutamente contra o casamento e a família, mas teme e evita uma coisa e outra porque precisa de tempo livre.

 

- O leitor clandestino lê livros eletrônicos no escritório como se fossem contratos e procurações, como se estivesse trabalhando.

 

- Porque é obrigado a ler clandestinamente no escritório, o leitor clandestino usa edições impressas e eletrônicas. Estas no escritório, aquelas no transporte público.

 

- O leitor clandestino lê no escritório da mesma maneira que um estudante cola na escola: com tranquilidade, sereno, como se não estivesse acontecendo nada anormal.

 

- O leitor clandestino não arrisca abrir um livro impresso no escritório, só quando cai a energia ou os sistemas operacionais.

 

- O grande pesadelo do leitor clandestino é o chefe lhe interromper a leitura clandestina no meio de um parágrafo. É quando ele tem vontade de pegar um livro de capa dura para bater no chefe.

 

- O leitor clandestino sabe que a palavra escritório tem a ver com escrita. Scriptorim era a oficina em que se produziam e reproduziam livros. Se é assim, ler no escritório é uma questão de coerência.

 

- O leitor clandestino está convencido de que Bartleby [7] era um grande leitor e não um simples escrevente.

 

- O leitor clandestino defende que o patrão de Bartleby interrompeu uma leitura clandestina do escrevente naquele escritório de Wall Street, seria essa a origem da fórmula “eu preferiria não”.

 

- O leitor clandestino sustenta que os filósofos não entenderam a fórmula de Bartleby porque nunca precisaram ler clandestinamente nem trabalhar, muito menos num escritório.

 

- O leitor clandestino suspeita que Bartleby disse “eu preferiria não” porque não podia dizer “me deixe ler em paz”.

 

- O leitor clandestino desconfia de escritores e poetas que comentam e explicam a própria obra. Apenas e tão somente os textos devem falar.

 

- Porque é obrigado a usar diversas edições e traduções, o leitor clandestino compara trechos e sabe valorizar o trabalho dos tradutores.

 

- Textos escritos de uma só vez, sem tópicos e divisões, dificultam a vida do leitor clandestino, que precisa se alternar entre edições impressas e eletrônicas.  

 

- O sonho do leitor clandestino é ter um cômodo silencioso e confortável para organizar uma biblioteca.

 

- O leitor clandestino é progressista. Às vezes até se aproxima de partidos e organizações socialistas. Mas ele aprecia mais as conversas literárias que ocorrem em bares, após as reuniões, do que as falas cronometradas sobre a conjuntura.

 

- As amizades do leitor clandestino giram em torno de livros.

 

- O leitor clandestino é discreto e pouco fala de si próprio. A única forma de conhecer minimamente um leitor clandestino é ler as anotações que ele faz a lápis nos livros que lê.

 

- Conta-se que um leitor clandestino quase apanhou no transporte público. Lia o Quixote e ria. Um passageiro se irritou e foi tomar satisfação. O leitor clandestino contou as aventuras do cavaleiro da Triste Figura. Riram e ficaram amigos.

 

- Conta-se que um leitor clandestino leu todos os volumes de ‘O Capital num escritório, numa edição eletrônica, como se o texto de Marx fosse o trabalho diário: apesar dos que dizem que O Capital não é um livro para trabalhadores.

 

Mas há quem dê marteladas nos leitores. Nietzsche [8] zomba dos “doutos” que nada mais fazem do que misturar livros, perdendo completamente a faculdade de pensar por conta própria. Se não se empanturram de livros, não pensam: “o douto emprega a sua força em dizer ‘sim’ ou ‘não’, em criticar o que já foi pensado por outros; quanto a ele, todavia, não pensa mais.” O filósofo define os doutos como decadentes. Chocava-lhe haver quem, de manhã – “quando o espírito reflui em leveza, ao despertar das energias” – se pusesse a ler: “Para mim, isto é um vício!” Nietzche encarava a leitura como uma “recreação”, um hábito que o afastava de si próprio: “Nas épocas em que eu trabalhava muito não se viam livros ao redor de mim: esquivar-me-ia bem de permitir a outrem de falar ou de pensar em minha presença. E ler, seria dizer precisamente isto...” Montaigne [9] não dá marteladas nos leitores, como Nietzsche, mas tampouco se empolga com eles, como eu. Para Montaigne a leitura é um consolo na velhice e na solidão, suaviza o peso do ócio enfadonho, livra de companhias que aborrecem, distrai de ideias inoportunas e até suaviza algumas dores. Pensando em Nietzche e Montaigne, registro mais três notas sobre o leitor clandestino:

 

- O leitor clandestino pode até ser um viciado em livros, mas não é um “douto” que lê para escrever artigos e bater metas acadêmicas. O leitor clandestino lê por paixão.

 

- O leitor clandestino lê para viver e não para matar o tempo. A grande luta do leitor clandestino é por tempo livre para a leitura.

 

- Leio, logo existo – diria o leitor clandestino, se fosse menos afeito ao silêncio; quiçá arrematasse com uma provocação –: quem lê para matar o tempo deveria considerar seriamente a possibilidade de se matar.

 

Enfim, se tive acesso às sacadas de Comte-Sponville, Drummond, Piglia e Manguel; se tive acesso às críticas de Nietzsche e Montaigne foi porque me dispus a ler na clandestinidade ou de manhã cedo, “quando o espírito reflui em leveza, ao despertar das energias”. Que outros falem em minha presença – inclusive os filósofos –, especialmente por escrito. Nietzsche provavelmente diria que meu leitor clandestino é um decadente viciado em livros, que lê muito e pensa pouco. Pode ser. Mas para pensar é preciso imaginar. Não há pensamento sem imaginação, assim como não há imaginação sem leitura. Por essas e outras que ler pode até ser um vício, mas não é apenas recreação e divertimento.    

 

Notas

[1] André Comte-Sponville. Do corpo. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

 

[2] A fala do poeta está em alguma das entrevistas disponíveis na net, mas não encontrei o link.

 

[3] Ricardo Piglia. Ernesto Guevara, rastros de leitura. In: Ricardo Piglia. O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

[4] Alberto Manguel. Encaixotando minha biblioteca: uma elegia e dez digressões. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

 

[5] Alberto Manguel. O leitor como metáfora: o viajante, a torre e a traça. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2017.

 

[6] Alberto Manguel. Notas para uma definição do leitor ideal. In: Alberto Manguel. Notas para uma definição do leitor ideal. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020. p. 163 – 166.

 

[7] Herman Melville. Bartleby, o escrevente. Grua livros: São Paulo, 2014.

 

[8] Friedrich Nietzsche. Ecce homo. [S.l.] Edições de ouro. Coleção Universidade. [s.d]. p. 59 e 71.

 

[9] Michel de Montaigne. Sobre três relações. In: Michael de Montaigne. Os ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


Publicado originalmente no Passa Palavra



AS DESCULPAS POR DESCARTES

Lendo Não Há Lugar para Lógica em Kassel, de Enrique Vila-Matas, encontrei uma referência à Insustentável Leveza do Ser, as desculpas por Descartes, que me fizeram voltar ao romance de Milan Kundera, mais precisamente à sétima e última parte, intitulada O Sorriso de Karenin, que é o cão que se chamaria Tolstói, se não fosse menina, ou Ana Karenina, se não tivesse o focinho engraçado. Pelo tema e pela localização no livro, O Sorriso de Karenin lembra o capítulo Baleia, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, mas essa fica para outra oportunidade.

A Insustentável Leveza do Ser é um romance misterioso que se transforma a cada leitura. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio (Heráclito), ninguém lê duas vezes o romance de Milan Kundera. A sensação é que o texto é um rio circular, que vai e vem, cristalino, profundo, renovado, sempre.

Kundera se vale da agonia da cachorra para refletir sobre a relação entre homens e animais, cita o começo do Gênese e provoca: “Nada nos garante que Deus desejasse que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo.” Na sequência, o bardo traz uma informação intrigante, na antiga Tcheco-Eslováquia, após a Primavera de Praga, o terror começou pelos pombos, passou pelos cães para só depois chegar aos homens, como se a repressão precisasse agir aos poucos e por partes. Primeiro exigiu-se o extermínio dos pombos. Depois os jornais, o rádio e a televisão denunciaram os cães, que sujavam calçadas e jardins ameaçando a saúde das crianças. Por fim, o ódio foi usado contra os homens, que foram processados, demitidos e presos.

Discutindo a relação homens-animais, Kundera contrapõe Descartes a Nietzsche. O francês fez do homem “mestre e dono da natureza”, além de negar que os animais tivessem alma. O alemão foi se distanciando da humanidade e enlouqueceu, sendo que, em 1889, em Turim, viu um cocheiro chicoteando um cavalo, e correu em direção ao animal, abraçou-lhe o pescoço e chorou. Numa daquelas sacadas que valem por centenas de tratados, e só cabem no romance, Kundera afirma que o divórcio de Nietzsche com a humanidade começou quando o filósofo chorou sobre o cavalo, como se pedisse perdão por Descartes.

Vila-Matas retoma a passagem de Nietzsche por Turim. Para o escritor catalão, o caráter contido, elegante e sereno da cidade poderia criar disparates imprevistos e assombrosas explosões de loucura, como a do filósofo alemão, que, na esquina da Via Cesare Battisti com a Via Carlo Alberto, abraçou o cavalo chicoteado e chorou, ou, segundo Kundera, pediu desculpas ao animal em nome de Descartes. Vila-Matas retoma a passagem de Nietzsche por Turim no romance em que explora sua própria passagem por Kassel, cidade alemã que abriga exposições quinquenais de arte contemporânea. O escritor personagem principal do romance passa uma semana escrevendo em público, num restaurante chinês da cidade alemã. Ele pensa em celebrar o sono com uma frase sobre a mesa do escritório improvisado: “Ao dormir, mais perto se está de Duchamp”. Mas, por fim, opta pelas “Desculpas por Descartes”.

A escritora personagem de J. M. Coetzee, Elizabeth Costello, denuncia a indústria da morte, que produz milhões de coelhos, frangos e bois exclusivamente para lucrar com seus assassinatos. A escritora esboça uma comparação que ela própria reconhece como complicada: associa os matadouros de animais do tempo presente aos campos de concentração do Terceiro Reich. Costello cita a “linguagem dos currais”: “morreram como animais”; “foram mortos pelos açougueiros nazistas”; “ao tratar seus semelhantes, seres humanos criados à imagem de Deus, como animais, eles próprios se transformaram em animais.” Seja como for, a comparação complicada da escritora personagem não minimiza sua crítica ao morticínio animal, nem suas reservas em relação a Descartes, que enxergava os animais como mecanismos e engrenagens.

Com Descartes condenado em segunda instância, segui minhas leituras e me deparei com O Erotismo, de George Bataille. O autor discute transgressões e interditos, aproxima erotismo e morte. Bataille mostra que “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança”, mas, inicialmente, o homem não fez Deus à sua imagem e semelhança. A completa substituição dos animais por divindades humanas foi um processo demorado. Curiosa exceção seria a cauda do diabo. 

Bataille sugere que o mandamento “não matarás” contemplava os animais nos primórdios da humanidade. Para o autor, as cenas de caçadas presentes em cavernas não se explicam pela esperança de que a representação do objeto desejado contribuísse para a realização do desejo. As pinturas nas cavernas seriam tentativas de expiar a culpa dos homens pelos crimes cometidos contra os animais: “As imagens das cavernas teriam por objetivo representar o momento em que, diante do animal, a morte necessária, ao mesmo tempo condenável, revelava a ambuiguidade religiosa da vida: da vida que o homem angustiado recusa e que, no entanto, ele realiza na superação maravilhosa de sua recusa.”

Se o “não matarás” contempla os animais, Descartes está condenado na terceira instância. Mas há um atenuante. Por mais paradoxal que possa parecer, o imenso desenvolvimento das forças produtivas, representado também por Descartes, é o que pode permitir, um dia, a reconciliação do homem com o meio e, por tabela, com os animais. A separação dos saberes, que começou pouco depois do filósofo francês, e o intenso desenvolvimento tecnológico que se seguiu, certamente ampliaram o morticínio animal, mas podem possibilitar o contrário, ou seja, podem possibilitar que a denúncia de Elizabeth Costello prevaleça sobre as justificativas de Rene Descartes. O intenso desenvolvimento das forças produtivas permite, atualmente, que homens e mulheres se recusem a comer carne animal e a transformar bichos em engrenagens, o que reduz o morticínio. Se Bataille estiver correto, os primeiros homens carregaram a culpa pelos crimes que consideravam que haviam cometido contra os animais. Descartes transformou os animais em engrenagens nos primórdios do capitalismo, aparentemente sem peso na consciência. Mas o homem futuro, se derrotar o capital e controlar as forças produtivas, poderá estabelecer outras relações com o meio e com os animais. Para os primeiros homens não havia opção, só restou conviver com a culpa. As desculpas por Descartes seriam então, em alguma medida, também desculpas pelos primeiros homens.  Mas, para os homens futuros, se abrem outras possibilidades, possibilidades que começam a se apresentar no presente. E, se é assim, Descartes, em alguma medida, é parte da possibilidade de libertação: seriam as melhores desculpas. São as ambiguidades da vida. 



Pierre Huyghe: Untilled