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DE VIRA-LATA A PIT BULL: PROLEGÔMENOS PARA UMA TEORIA DOS COMPLEXOS
Era uma vez um país da América do Sul. Na década de quarenta do século XX, um famoso escritor austríaco viu naquelas terras o “país do futuro”, mudou-se para lá e depois se suicidou por ali mesmo.

Era uma terra com muitas águas, que canalizou seus rios e construiu barragens, alagando vales e afogando o povo, tudo para produzir energia e caixa para empreiteiras e outros negócios. Dizia-se que a fartura de água era tanta que até fariam a transposição do rio mais genuinamente nacional: um enxurro de dinheiro encharcou o caixa das construtoras e do agronegócio.


Era uma terra de flora riquíssima, que foi transformado suas matas em pastos e canaviais, foi substituindo suas sementes naturais por outras transgênicas, tudo com a benção multinacional.


Cândido Portinari: Meninos com balões (1936)



Era uma terra de fauna riquíssima, que, no final do século XX, elegeu um presidente que foi mentor de um partido simbolizado por uma ave de bico longo, que habitava as florestas antes de ser extinta. Essa ave de bico longo violava ninhos e se alimentava de ovos de outros pássaros (dizem que por isso virou símbolo do partido, que também se alimentava de ovos de terceiros e também acabou extinto). Depois do homem do partido da ave do bico longo, foi eleito um presidente apelidado com o nome de um fruto do mar, um molusco. Um dos sentidos de molusco é pessoa, animal ou coisa mole (dizem que isso explica o apelido desse presidente). O presidente molusco cunhou uma expressão que ficou famosa: “nunca antes na história desse país”. 

Nunca antes na história daquele país (e do mundo) os preços dos produtos do agronegócio subiram tanto. Aliás, subiram, mas na época latifúndio não era chamado de agronegócio. Tudo que sobe muito despenca depois. Mas... As quedas dos preços do café, do cacau e do açúcar já tinham quebrado muita casa-grande, mas na época casa-grande não era chamada de agronegócio e não era multinacional, enfim, ninguém previu o tombo no futuro do “país do futuro”.  O presidente molusco pegou jacaré na marolinha da alta dos preços dos produtos do agronegócio, e pulou fora antes do tombo.

Em 2012, completou-se o centenário de um escritor e dramaturgo da terra da rica flora. Nos anos cinquenta do século XX, este escritor e dramaturgo cunhou a expressão “complexo de vira-lata” para definir o sentimento de inferioridade do seu povo, que seria uma espécie de “narciso às avessas”, “que cospe na própria imagem”. Mas isso foi antes do presidente molusco e da alta dos preços dos produtos do agronegócio.

Nunca antes na história daquele país (e do mundo) os preços dos produtos agrícolas permaneceram nas alturas, as asas dos preços eram fixadas com cera, e o país despencou como Ícaro, e como Sísifo, já que a tragédia se repetiu como já tinha acontecido com o café, o cacau e o açúcar. A afoiteza juvenil afogou o país das muitas águas.



Em 2062, o presidente molusco e o partido da ave de bico longo já tinham sido esquecidos. O agronegócio passou a ser chamado de agricommerce e os senhores de engenho de businessmen, estes senhores criaram e dominaram outros partidos para lhes servir. Lendo sobre Ícaro e “complexo de vira-lata”, um jovem historiador cunhou a expressão “complexo de pit bull”, que é uma espécie de “complexo de vira-lata” às avessas, e que existiu quando o país da rica fauna começou a se achar forte e poderoso, isso aconteceu na época do presidente molusco e da sua sucessora, que acabou esquecida sem ser melhor estudada. Segundo o jovem historiador, o “complexo de pit bull” teve três causas: a hipertrofia do crédito, da propaganda e dos preços dos produtos agrícolas. O “complexo de pit bull” fez as asas da imaginação voarem cada vez mais alto, até que a cera derreteu e veio o tombo. Falava-se da solidez dos fundamentos da economia. Dizia-se que a musculatura do país era rija como a do pit bull, mas de pit bull só havia a coleira e a focinheira. O país desabou junto com os preços dos produtos que exportava. Então o povo da terra da rica flora teve saudades da época do “complexo de vira-lata”, porque podia, pelo menos, brincar solto pelas ruas, balançar o rabo e correr atrás de bola.

POEMA PROLETÁRIO

Nossas bocas vão mastigar
seus títulos de propriedade,
suas togas e fardas,
seus contratos de hedge,
suas algemas e viaturas,
seus soldados e cães,
suas reintegrações de posse.

Nossas bocas vão mastigar
suas revistas de fofoca,
seus condomínios fechados,
suas opções de compra,
seus passeios na Disney,
suas tropas de choque,
seus jornalistas de aluguel.

Nossas bocas vão mastigar
seus derivativos agropecuários,
suas projeções de lucro,
seus ternos italianos,
suas balas de borracha,
seus barretes doutorais,
suas pick-ups importadas.

Nossas bocas vão mastigar
suas terras griladas,
seus gases lacrimogêneos,
suas commodities agrícolas,
seus tribunais e magistrados,
suas especulações imobiliárias,
seus matadores de aluguel.

Nossas bocas têm fome.
Nossas bocas vão mastigar sua classe social.

Argentina - 2017

  O BRASIL E A PARALISIA DO SONO


O teatro dos vampiros é uma canção da Legião Urbana lançada em 1991, quando o neoliberalismo dava os primeiros passos no Brasil: “Vamos sair, mas não temos mais dinheiro. Os meus amigos todos estão procurando emprego [...] a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”. Passadas três décadas, a sensação é parecida. O Brasil é um enorme teatro de vampiros. 

 

Matéria publicada na Folha de São Paulo informou que, entre os entrevistados, 26% cortaram ou reduziram despesas com planos de saúde, enquanto 14% deixaram de pagar escolas privadas e transferiram os filhos para a rede pública [1]. Ao mesmo tempo, tramita a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32/2020, também conhecida como reforma administrativa, ou PEC da Rachadinha, porque amplia a possibilidade de indicação, sem concurso público, para cargos de “liderança e assessoramento”. Como se não bastasse o patrimonialismo escancarado, todo movimento da PEC é privatizante, reposiciona o Estado como subsidiário do mercado. Ou seja, não é uma simples reforma administrativa, é uma reorganização do capitalismo brasileiro para garantir os lucros da burguesia. Originalmente, o texto propunha que a subsidiariedade fosse incluída entre os princípios da administração direta e indireta dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Na prática significa que só deve haver serviços públicos em áreas não alcançadas por empresas privadas. O princípio da subsidiaridade foi retirado, mas a essência da PEC se mantém: fragiliza e enfraquece os serviços públicos para garantir os lucros da burguesia.  Numa conjuntura de forte crise do capital, com a população sem condições de pagar por saúde e educação, a burguesia amplia o problema destruindo e enfraquecendo os serviços públicos.

 

Com a PEC da Rachadinha, a precarização chega ao último reduto do trabalho estável no Brasil, o funcionalismo. Se a reforma administrativa for aprovada, virão contratações por prazo determinado, inclusive devido à paralisação de atividades (greves), restrições para concessão de estabilidade, fragmentação de carreiras, avaliações duvidosas. Tudo somado, crescerá ainda mais o assédio moral, além de fragilizar os sindicatos e os serviços públicos, comprometendo, sobretudo, a população que não pode pagar por saúde, educação e outros serviços.

 

Em 18 de agosto, houve um dia nacional de luta dos trabalhadores do setor público contra a PEC da Rachadinha e pelo fora Bolsonaro. A mobilização foi importante, mas insuficiente para atingir os objetivos a que se propôs. Parece que, quanto mais cristalino fica que o bolsonarismo só pode ser derrotado nas ruas, mais a esquerda institucionalizada adia e limita os enfrentamentos para a eleição de 2022. A esquerda mais à esquerda esbraveja, lança panfletos, denuncia, escreve notas de repúdio, organiza lives, mas não consegue influir decisivamente nos acontecimentos.

 

No Brasil estão sendo destruídos os biomas, os direitos trabalhistas, a seguridade social, a saúde, a educação, as universidades, as instituições de pesquisa. A população pobre e periférica é vítima constante das polícias militares. Estão ameaçadas as demarcações das terras dos povos originários. A conta de luz sobe sem parar e há risco de ocorrerem apagões nos próximos meses. A inflação devora a renda da classe trabalhadora. A pandemia ceifou, até agora, mais de meio milhão de vidas, sendo que muitas mortes poderiam ser evitadas. O aumento da miséria é visível nas calçadas, com dezenas de pedintes nas portas dos bancos, drogarias, supermercados e restaurantes. A precarização é visível nas ruas e avenidas, com centenas de trabalhadores correndo, arriscando a vida e ganhando pouco para entregar comida e outras mercadorias. 

 

A partir dos anos 1990, inclusive durante os governos do PT, a burguesia brasileira atuou para transformar o neoliberalismo em lei, fechando as possibilidades para keynesianismos e desenvolvimentismos. Penso, por exemplo, na lei de responsabilidade fiscal. Como ser keynesiano e/ou desenvolvimentista sem poder intervir na economia ampliando os investimentos públicos? Por trás de todas as contrarreformas estava – e está – a inconfessável necessidade de garantir recursos para o pagamento da dívida pública, que consome aproximadamente metade do orçamento do Estado brasileiro, asfixiando a economia para enriquecer um punhado de parasitas. Nos últimos anos, com a crise do capital, a burguesia intensificou os ataques: uma nova e mais brutal reforma da previdência, a autonomia do Banco Central, a Emenda Constitucional do Teto de Gastos, mais privatizações, as reformas trabalhista e administrativa. Enquanto o presidente arrota sandices e golpes de Estado, os burocratas abaixo dele conspiram para eliminar direitos dos trabalhadores e desconstruir o pouco que ainda resta dos serviços públicos. Em agosto passado, no mesmo dia em que tanques de guerra passearam por Brasília espalhando fumaça, a Câmara aprovou mais um grande ataque aos trabalhadores, dessa vez definido eufemisticamente como minirreforma trabalhista. Mas, como era previsível, nenhuma das contrarreformas, nem todas somadas, produziram – ou produzirão – o crescimento econômico que prometiam, antes pelo contrário, na última década o país empobreceu em termos absolutos e relativos [2].

 

A paralisia do sono é um fenômeno assustador. A consciência desperta, mas o corpo é incapaz de se movimentar porque os músculos não respondem. Trata-se de uma desconexão temporária das funções motoras. O indivíduo vê vultos e monstros, mas não consegue se mexer, como se estivesse acordado dentro de um pesadelo. A paralisia do sono é uma boa metáfora para o Brasil. Excetuando-se os bolsonaristas, a extrema direita e os setores da burguesia favorecidos diretamente pelas contrarreformas, a decomposição social e econômica não interessa a ninguém, mas avança com passos largos. Não se trata de falta de consciência, é razoavelmente sabido que as contrarreformas e os ajustes fiscais – intensificados a partir de 2015 e aprofundados ainda mais com Temer e Bolsonaro – são péssimos para a classe trabalhadora. Mas não há resposta à altura. Não é falta de consciência, é incapacidade de mover os músculos coletivamente. O mal-estar generalizado do tempo presente tem a ver com isso, é causado pela sensação de impotência e de incapacidade coletiva para combater os ataques dos governos de plantão. Sabe-se que as contrarreformas e os ajustes fiscais serão revertidos com ação direta, ou não serão, mas a classe trabalhadora não se movimenta, não está morta ou derrotada, está paralisada, as lutas estão isoladas e limitadas, apesar do desemprego, da inflação, da carestia, da violência policial, da destruição do meio ambiente, da expropriação das terras dos povos originários, das vidas desperdiçadas pelo negacionismo. A questão é: até quando? Porque exploração e espoliação têm limites. Nos indivíduos, a paralisia do sono é passageira, dura segundos ou, no máximo, minutos. Será passageira, também, a paralisia do sono na classe trabalhadora brasileira?

 

Notas

 

[1] Avião, plano de saúde, escola privada; brasileiro abre mão de benefícios para viver com inflação e desemprego

 

[2] Enquanto Brasil cresce apenas 2,2% na década, mundo avança 30,5%

 

Publicado originalmente no Passa Palavra

TRUMP, O OCIDENTE, O CHANCELER, O EX-PREFEITO, O ROMANCE E A CRISE

1
A nomeação do futuro ministro das relações exteriores do governo Bolsonaro causou certo alvoroço. O sujeito, Ernesto Araújo, não cabe nos protocolos diplomáticos: afirma sua crença religiosa apesar de compor o alto escalão do Estado, que, por enquanto, é laico. O religioso atravessa a fronteira onde começa o diplomata, sem peso na consciência.

Como era desconhecido, alguém teve a ideia de procurar o que o chanceler escreveu, foi quando encontraram o ensaio Trump e o Ocidente.¹ Publicaram-se algumas dezenas de notícias sobre o ministro e suas ideias, mas sem ler atentamente o ensaio e muito menos o blog do sujeito, ou seja, com a superficialidade característica da mídia empresarial.

Em palestra nos EUA, analisando o cenário pós-eleitoral, o ex-prefeito de SP e candidato derrotado à presidência, Fernando Haddad², afirmou que Araújo classifica a Revolução Francesa como marxista. Foi o que me fez procurar o ensaio Trump e o Ocidente. Como alguém poderia ser tão tolo? Primeira surpresa. Tolo é Haddad, que se meteu a falar de um escrito que não leu, ou que conheceu pela mídia empresarial, porque está lá, textualmente:

“Dessa última década do século XVIII e começo do século XIX surgem todas as linhagens espirituais e políticas que disputam o mundo até hoje. Pode-se argumentar que qualquer corrente política, hoje, descende intelectualmente de Babeuf e Robespierre ou de Goethe e Chateaubriand.”

O marxismo é herdeiro da Revolução Francesa. É possível pensar que sem esta não haveria aquele. O pensamento de Marx pode ser lido como uma radicalização da Revolução Francesa. É a Comuna de Paris, em 1871, esfregando na cara da burguesia que não haveria liberdade, igualdade e fraternidade sem a socialização dos meios de produção.   

Ao dizer que Araújo disse que a Revolução Francesa era marxista, ou ex-prefeito não leu o ensaio do chanceler, ou não entendeu, ou distorceu deliberadamente as ideias. Parece-me que a primeira opção é mais plausível.

2
Trump e o Ocidente inicia com uma imagem do futebol americano, o que sugere a afiliação ideológica e a pretensão literária do autor. Conforme a leitura avança, surgem comparações e ironias, reforçando a suposição de que há um veio escritor no chanceler, o que não lhe dá razão, longe disso.

Camões, Jung, Pessoa, Horácio, Heródoto, Virgílio, Platão, Spengler, Heidegger, Nietzsche e outros são lançados no ensaio do chanceler.

Para Araújo, o ocidente surge quando os gregos derrotam os persas na batalha de Salamina. O autor localiza ali o nascimento da noção de pátria. Ele cita Ésquilo, que diz que em Salamina os gregos cantavam: “Avante, ó filhos de helenos, libertai a pátria, libertai vossos filhos, vossas mulheres, os templos de vossos deuses, os túmulos dos ancestrais, agora mais que nunca”. Segundo Araújo, Salamina marca o nascimento do Ocidente: como vitória militar e como “transposição literária” pela pena de Ésquilo. Em Salamina, segundo o chanceler, estavam em questão a família, a herança cultural e os deuses gregos, e não conveniências geoestratégicas, como rotas comerciais. Araújo desloca a análise dos territórios geográficos e econômicos para o “território do espírito”, reivindica que a geopolítica seja completada pela teopolítica. Trocando em miúdos: é o velho e surrado idealismo, a primazia do espírito sobre a matéria. Araújo3: “Tudo existe graças ao logos, enquanto princípio mantenedor e também criador.” O limite é que as ideias e fatos surgem e desaparecem por milagre e sem conexão com a realidade material: como se a ideia de pátria não tivesse relação com a história social e econômica, como se aquela precedesse e determinasse esta (Araújo: “a pátria e a liberdade já surgem como conceitos inseparáveis naquele dia no final do verão de 480 a.C.”); como se Trump quisesse reviver o Ocidente, e não expandir mercados consumidores e fornecedores; como se as rodas da história fossem giradas pela vontade de um homem (Trump), e não pelas mãos e pelo suor do rosto de bilhões de trabalhadoras e trabalhadores; como se a guerra contra o Islã fosse uma luta “pela preservação do espaço espiritual do Ocidente”, e “não um projeto imperialista.” O real aparece invertido, como se o chanceler enxergasse o mundo pelo retrovisor.

O pensamento idealista do ministro começa e termina em Deus: “Não será o desenvolvimento nem a tecnologia nem a justiça social nem a cooperação nem a sustentabilidade nem os direitos humanos que nos salvarão. Somente um Deus poderá salvar-nos, dar-nos sentido – se Ele o quiser, se nós O quisermos”.¹

A novidade é que o velho e surrado idealismo em versão tupiniquim – tradição, família e propriedade privada – saiu do armário: bate no peito e grita truco. Podem ser feitas muitas críticas ao ensaio do chanceler, menos que ele esconde o que pensa. Para o bem e para o mal, Trump e o Ocidente ultrapassa o reformismo surdo-mudo, que comunica nada a ninguém. Exemplo: enquanto Haddad diz que a crise é financeira e a questão é domar o capital financeiro² (como se fosse possível?); para Araújo o Ocidente é um time que está perdendo uma partida a poucos segundos do fim, e joga por uma bola, que está com Trump. A crise é muito mais profunda para Araújo do que para Haddad; este quer se projetar como maquinista do capital, aquele sente que o modo de produção capitalista é um cargueiro afundando. Sendo assim, a proposta conservadora e reacionária do último é mais concreta do que o reformismo surdo-mudo do primeiro, o que ajuda a explicar o fortalecimento da extrema-direita, que lança a tradição e a família como botes salva-vidas.

Se o modo capitalista de produção é um cargueiro afundando, se não se coloca sua superação (o reformismo passa longe do socialismo), se o contraponto à extrema-direita é o reformismo à lá Haddad: se impõe o salve-se quem puder, e o programa da extrema-direita torna-se a opção menos pior. Se há no mundo milhões de homens e mulheres que não servem sequer para serem explorados pelo capital, que prescinde das suas respectivas forças de trabalho; se não se coloca o socialismo como alternativa; só resta controlar e reprimir a massa de excluídos. É aqui que o programa da extrema-direita supera o reformismo surdo-mudo, porque assume e defende abertamente aquilo que o outro diz que não faria, mas fez e faz. Mantido o capitalismo, a repressão é inevitável, a diferença é que a extrema-direita defende abertamente a militarização e a violência, enquanto o reformismo surdo-mudo condena ambas apenas no discurso, que se autoproclama democrático (mas quem estava nas ruas em junho de 2013 sabe bem o que Haddad fez naquele outono).

3
Com suas lentes tripartites (tradição, família e propriedade privada), Araújo vê em Trump um legítimo herdeiro da batalha de Salamina, alguém disposto a ir à guerra em nome da família e da tradição (patriarcal e monogâmica para as mulheres, com acesso liberado às zonas de tolerância para os homens). O idealismo surrado não permite que o chanceler veja que, na aparência, batalhas podem ser travadas em nome da família e da tradição, mas na essência, a questão fundamental é a defesa e a ampliação da propriedade. Mais precisamente: fornecedores de matérias-primas, novos mercados, rotas comerciais serão alvos de Trump; a religião e os costumes dos povos atacados importam apenas para os fabricantes de justificativas ideológicas.

Para o chanceler, não é o modo capitalista de produção que afronta fronteiras e altera valores e tradições, provocando fluxos migratórios, questionando a família patriarcal etc. Porque analisa a construção social por cima, o ministro só vê o telhado (ideias) e não as fundações (estrutura econômica). Para ele, a crise capitalista não tem relação com a queda das taxas de lucro, tendência prevista por Karl Marx e até pelo insuspeito David Ricardo; o problema, para o chanceler, é o “niilismo” dos “philosophes ateus anticristãos”, que estariam por trás da Revolução Francesa, que é enxergada como um movimento contrário ao Ocidente fundado em Salamina.

A crise do capital força os defensores da propriedade privada dos meios de produção, como o chanceler, a renegar a herança burguesa. O surrado idealismo tupiniquim condenar a Revolução Francesa atesta que, para manter o capitalismo, o pensamento burguês foi forçado a abrir mão de qualquer perspectiva democrática e/ou progressista. Ou seja, se o capital foi progressista nos seus primórdios, atualmente ele é um cadáver insepulto que ameaça a saúde coletiva do planeta. Araújo usa a tradição e a família como botes salva-vidas no naufrágio do modo de produção capitalista.

A visão invertida da realidade é hilária: “O globalismo surgiu quando alguém percebeu que o consumismo era o melhor caminho para o comunismo.”4 O consumismo deixa de ser um imperativo do capital e se transforma em estratégia comunista... Mas a possibilidade de superação do capitalismo aparece no retrovisor do chanceler. Este é o ponto interessante. Enquanto para o reformismo surdo-mudo a história acabou e trata-se de administrar o possível; para o velho e surrado idealismo tupiniquim a questão é se reposicionar para combater o novo.   

Seja como for, pensar que o Ocidente é uma equipe que, no final da partida, depende de uma bola que está com Trump... Que ideia atroz! Trump? Uma bola? Se a imagem do chanceler estiver correta, o Ocidente já era!

4
As polêmicas... Insustentável doçura do bate e rebate. Uma das qualidades mais nobres de um escritor é fazer rir: Cervantes, Kundera, Drummond, Machado, Nelson Rodrigues, Veríssimo (o filho), Hasek e outros. Quanto ao chanceler, questão intrincada é definir se suas piadas são engraçadas, ou se ele próprio provoca o riso por se transformar em piada. Como quando diz que é possível comprovar empiricamente a existência de discos voadores, bastando, para tanto, que algum apareça à luz do dia e se mostre a todos; o mesmo podendo ser dito de um corvo branco, porque os corvos serem pretos não garante absolutamente que não possa aparecer um branco; mas a existência de um marxista intelectualmente honesto, diferentemente dos discos voadores e dos corvos brancos e de acordo com o chanceler, é uma impossibilidade, porque o marxismo teria nascido da mentira e obrigaria a mentir.5 Independente de saber se a graça vem da piada ou do autor que se transforma em piada, uma coisa é certa, ainda que não parta para o combate franco, o chanceler identifica seus inimigos (marxistas), e ataca-os com as armas que dispõe.

Em polêmicas a melhor defesa é o ataque e perguntar é sempre melhor que responder. No ensaio Trump e o Ocidente, o chanceler provoca:

“O Ocidente nasceu interrogando o sentido das palavras, mas ultimamente desistiu. Se Sócrates chegasse hoje e, usando seu famoso método, começasse a perguntar: ‘o que é racismo?’, ‘o que é justiça social?’, ‘o que são direitos humanos?’, ‘o que é um direito?’, ‘o que é humano?’, e se pusesse a desmascarar a inanidade intelectual e a superficialidade destes e de outros conceitos, seria novamente condenado a beber cicuta.”

Mas e se Sócrates voltasse e fosse bater um papo com o ministro: “o que é globalismo?”; “o que é marxismo cultural?” e, sobretudo, “ se o ocidente é, de certa forma, uma criação literária, como o Sr. diz, e se o Ocidente nasce também como transposição literária, com Ésquilo,  por que o Sr. exclui o romance, como se este não fosse parte fundamental da história do Ocidente?”

5
Por que o chanceler, apesar do suposto veio escritor, separa o romance da história do Ocidente? Por que ele apaga o romance da história? Por que o defensor da família separa o pai (Ocidente) do filho ilustre (romance)? Por que o ministro cita o presidente estadunidense, que associa o Ocidente à arte (“as obras de arte inspiradoras que honram a Deus”), e nada diz sobre o romance?

Arrisquemos-nos por estas veredas perigosas. Araújo exclui o romance porque teme este filho pródigo do Ocidente, se pudesse ele abortaria o romance, este filho zombeteiro do Ocidente que nasceu entre a França de Rabelais, a Espanha de Cervantes e a Irlanda de Sterne. Romance: a “mais européia das artes”.6

Milan Kundera7: “O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana, na armadilha em que se transformou o mundo.” Porque interroga, porque mostra a insuperável ambigüidade da vida e porque rasga as cortinas das zonas de tolerância: o chanceler não tolera o romance. Emma Bovary e Ana Karênina: hipocrisia da família e da tradição patriarcal. O bom soldado Svejk: covardia das guerras. Brás Cuba: hipocrisia da burguesia brasileira.

O romance é banido do pensamento do chanceler pela mesma razão que tudo que ameaça o kitsch é banido da vida. E o que é o surrado idealismo tupiniquim – tradição, família e propriedade – senão um grande kitsch?

Kundera7 outra vez: “Se digo totalitário é porque, nesse caso, tudo aquilo que ameaça o kitsch é banido da vida: toda manifestação de individualismo (toda discordância é uma cusparada no rosto sorridente da fraternidade), todo ceticismo (quem começa duvidando de detalhes acaba duvidando da própria vida), a ironia (porque no reino do kitsch tudo tem que ser levado a sério), e também a mãe que abandona a família ou o homem que prefere os homens às mulheres, ameaçando assim o sacrossanto amai-vos e multiplicai-vos.”

Araújo teme o romance e a herança de Cervantes porque ambos depõem contra o Ocidente carola. Daí a ilustre ausência do romance no pensamento do chanceler. Poderia dizer que é mais fácil encontrar um corvo branco do que o surrado idealismo tupiniquim ser honesto intelectualmente, mas basta destacar que a amputação do romance da história do Ocidente testemunha a decadência do pensamento burguês. O romance é um tapa na cara do idealismo carola!

6
Num arroubo de sandice, o chanceler registra que “alma humana é nacionalista”.¹ Ora, ora, ora. Se o conceito de pátria nasceu na Grécia no final do verão de 480 a.C, durante a batalha de Salamina, como quer o ministro, é de se pensar que a “alma humana”, que segundo ele é “nacionalista”, deve ter surgido mais ou menos na mesma época.

O raciocínio acima vai dar na legitimação da conquista e da submissão de povos. Mas por aqui nos limitemos a refletir sobre o nacionalismo do chanceler? Que nacionalismo é esse? Curioso notar que o Brasil quase não aparece nos textos do ministro. Nem Pixinguinha, nem Machado de Assis, nem Aleijadinho, nem Drummond, nem o samba, nem o choro, nem o futebol. Sintomático Araújo começar seu ensaio com uma imagem do futebol americano, jogado com as mãos; e não com o futebol jogado com os pés, esporte no qual o Brasil é referência. O chanceler troca os pés pelas mãos.   

Mas o chanceler não morre de amores por Hollywood, nem outros enlatados. É o idealismo carola que faz o ministro aderir aos USA das seis às seis, sem reservas e sem ressalvas. Araújo: “a fé cristã morreu na Europa para todos os efeitos, mas viceja nos EUA”¹. Ele novamente: “Não se deve ler Trump pela chave das relações internacionais ou da ciência política, mas sim da luta titânica entre a fé e a sua ausência”.¹

Ao mesmo tempo em que acusa o marxismo de negar o gênero e a nacionalidade, Araújo inaugura o nacionalismo transpátrida, que não se reconhece no país natal e bate continência para o sub do sub dos EUA.

7
Excetuando-se uma referência breve às Teses sobre Feuerbach, não há indícios de que Araújo tenha lido Marx, mas, mesmo assim, este é o principal inimigo daquele. Imagine, de John Lennon, é o pior pesadelo do ministro: um mundo sem paraíso, sem inferno, sem religiões e sem fronteiras.6 O chanceler não percebe que é o capital – e não o marxismo – que cria condições para a existência do mundo cantado por Lennon (sinal de que Araújo não leu Marx).

O marxismo levar a culpa pelas possibilidades colocadas pelo capital é sinal inequívoco de que o chanceler troca os pés pelas mãos. Mas vale a pena ler os textos do ministro. O pensamento de Araújo é a nudez sem véus do idealismo carola. Por falta de referencial teórico e porque analisa apenas ideias – e não a estrutura econômica da sociedade –, Araújo¹ apenas intui e enxerga a crise de forma parcial, “como decadência e declínio da cultura”: o Ocidente está perdendo a partida e joga por uma bola que está com Trump. O correto seria trocar Ocidente por capital, mas é exigir demais do chanceler.

Ao registrar que o ocidente está fundado sobre “batalhas e milagres, paixões e guerras, a cruz e a espada”, e não sobre tolerância e a democracia¹, o chanceler dá a entender que tudo vale a pena se for para garantir a tradição, a família e a propriedade privada: é a nudez sem véus do idealismo carola. O discurso é mais realista do que a “narrativa” do reformismo surdo-mudo, que insiste na defesa da “democracia”, como se esta fosse possível na era da crise do capital. Para usar a imagem de um amigo comunista: é mais fácil ensinar um leão a comer alface.

Por fim, os arroubos de sandice e o desespero do chanceler são o reflexo da atualidade do pensamento de Marx, único referencial capaz de reorganizar um mundo em decomposição, simples assim!

REFERÊNCIAS

1 Araújo, E. H. F. TRUMP E O OCIDENTE. Disponível em: http://funag.gov.br/loja/download/CADERNOS-DO-IPRI-N-6.pdf. Acesso em: 30 de nov. 2018.

2 HADDAD APONTA O CENÁRIO PÓS-ELEITORAL EM NOVA YORK. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ZrznFDCSGQc. Acesso em 04 de dez. 2018.

3 Araújo, E. H. F. VIVA A POLARIZAÇÃO. 

4 Araújo, E. H. F. A NAÇÃO ESTÁ VOLTANDO. 

5 Araújo, E. H. F. OBJETOS VOADORES NÃO IDEOLÓGICOS. 

6 Kundera, M. OS TESTAMENTOS TRAÍDOS. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

7 Kundera, M. A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER. 63 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

AL NAKBA

Morreu o tempo do poema.
O poeta deliberadamente declina:
da palavra, do verso, da rima.
Quer a métrica da metralhada,
a musicalidade da bomba.
Quer responder ao fogo sionista.
Palestina: poética é a sua luta!







NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma cidade
tinha uma cidade no meio do caminho
tinha uma cidade
no meio do caminho tinha uma cidade.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma cidade
tinha uma cidade no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma cidade

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Troquei "pedra" por "cidade" no  famoso poema de Carlos Drummond de Andrade, que "com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas": combateu e denunciou  a então Companhia Vale do Rio Doce. Como notou José Miguel Wisnik, com a privatização, primeiro a Vale retirou o Rio Doce do nome, depois o matou. Quem ia ao Parque de Inhotim, maior museu a céu aberto do mundo, passava pela simpática Brumadinho, que era cortada pelo Rio Paraopeba: largo, vistoso, vivo. Ainda falta confirmar o óbito, mas o Rio Paraopeba deve ter sido assassinado pela lama, como o Rio Doce. Procurei entre as fotos que tenho mas não encontrei nenhuma do Paraopeba, talvez seja melhor ficar apenas com a imagem que guardo na memória. Abaixo um povoado visto do alto Parque do Inhotim. Não sei se as casas (da foto) foram cobertas pela lama, espero que não. De qualquer forma, ainda que o povoado da foto não tenha sido atingido diretamente, sabemos que novamente rios, peixes, bichos, cidades e pessoas foram assassinadas em nome dos lucros de um punhado de capitalistas (parasitas). No meio do caminho tinha cidade. Até quando?  



QUATRO PEÇAS PARA O QUEBRA-CABEÇA DA CONJUNTURA

Não existe fascismo do lado de baixo do Equador

Com o crescimento e o fortalecimento da extrema-direita, um espectro ronda o Brasil e, por extensão, a América-latina: o espectro do fascismo. Sendo assim, não nos resta alternativa senão começar analisando o crescimento da extrema-direita brasileira, movimento que culminou na eleição de Jair Bolsonaro.

O fascismo nasceu na Itália, no começo do século XX, tinha como objetivo central ampliar a produtividade e, consequentemente, a acumulação, colocando o país entre as principais potências imperialistas. Para isso atacou partidos e sindicatos de esquerda; protegeu a indústria nacional; ampliou a produção bélica; desenvolveu ideias racistas para legitimar a invasão de territórios; conquistou posições na África e no leste europeu, garantindo matérias-primas e mercados. Como se vê, o fascismo é essencialmente antiliberal e nacionalista, empregou a mão pesada do Estado para acelerar o desenvolvimento das forças produtivas de uma economia atrasada na corrida imperialista. É quase um capitalismo de guerra, recusa o liberalismo faz-de-conta dos países mais avançados, que não seguem o receituário que pregam. O fascismo tomou e adaptou o Estado às necessidades expansionistas da burguesia industrial italiana.¹   

Se o fascismo é um movimento autoritário para acelerar o desenvolvimento das forças produtivas no interesse da burguesia nacional, em terras tupiniquins o varguismo foi o que chegou mais perto do fenômeno. Atacando partidos e organizações de esquerda, operando numa conjuntura de polarização imperialista, negociando com os dois polos em disputa, Vargas conseguiu dar um passo importante para o capitalismo brasileiro: implantou a indústria de base no país. O melhor exemplo é Companhia Vale do Rio Doce, criada em 1942, e comprometida a exportar minério de ferro para os países aliados, especialmente Inglaterra e EUA. Estes autorizaram e apoiaram a criação da empresa, desde que o Brasil se comprometesse a exportar-lhes a produção, garantindo matéria-prima essencial para a indústria bélica. Além da Vale do Rio Doce, Vargas criou a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Fábrica Nacional de Motores (1943), a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945) e a Petrobrás (1953).

Mas a burguesia brasileira não teve nem força nem coragem para dar o passo seguinte. Com a instalação da indústria de base, seria preciso instalar a indústria produtora de bens de consumo duráveis, complemento natural da primeira. Mas havia duas barreiras consideráveis: I) Brasil era e é um país atrasado, que não fez sequer reformas burguesas para integrar a maioria da população ao mercado consumidor, dispondo, portanto, de reduzida capacidade de consumo interno (a reforma agrária era e é uma das medidas sempre evitadas pela burguesia brasileira). II) A indústria produtora de bens de consumo duráveis brasileira teria que enfrentar concorrentes estrangeiros já estabelecidos, o que só seria possível se apoiada por um Estado forte e respaldada por uma burguesia disposta peitar interesses imperialistas.

Com exceção de períodos curtos e limitados (varguismo e janguismo), a saída da burguesia brasileira nunca foi o enfrentamento contra o imperialismo, pelo contrário. No final dos anos 1950, com Juscelino Kubitschek, optou-se pelo desenvolvimento associado ao imperialismo, atraindo indústrias estrangeiras para a produção de bens de consumo duráveis, como as montadoras de automóveis. No começo dos anos 1960, com João Goulart, esbouçou-se uma tentativa de realizar reformas para estruturar o capitalismo nacional, eram as chamadas reformas de base, que, no limite, ampliariam o mercado consumidor, viabilizando o desenvolvimento da indústria. A resposta da burguesia brasileira foi o golpe empresarial-militar de 1964, que liquidou o impeto reformista e sacramentou o desenvolvimento associado e dependente: tendo os Estados Unidos como guia e abrindo mão do desenvolvimentismo independente.

Promovido pela ditadura empresarial-militar entre 1968 e 1973, o “milagre econômico brasileiro” teve vida curta, baseado na exploração e no controle autoritário sobre a mão-de-obra abundante, barata e substituível, os limites se impuseram rapidamente: reduzido mercado interno nacional (trabalhava-se muito e ganhava-se pouco), remessas de lucros para o exterior (as empresas produtoras de bens de consumo duráveis eram estrangeiras), crise do petróleo (matéria-prima essencial para o desenvolvimento da indústria), inexistência da produção de bens de capital no país (o crescimento da indústria nacional era dependente de máquinas e equipamentos importados, desequilíbrios na balança comercial aconteciam sempre que a economia crescia).

Como se vê, o pleno desenvolvimento industrial brasileiro dependeria de três passos: I) Implantação da indústria de base para garantir matérias-primas e insumos. II) Desenvolvimento da indústria produtora de bens de consumo, que exige um mercado interno forte. III) Criação da indústria produtora de bens de capital. O processo estancou entre os passos I e II, quando a burguesia optou por atrair e estabelecer empresas estrangeiras em terras tupiniquins, associando-se de forma subordinada ao imperialismo, especialmente estadunidense. Vale lembrar que, no final da ditadura empresarial-militar, arriscou-se o terceiro passo, tentando implantar a indústria de produção de bens de capital, como não poderia deixar de ser, a iniciativa fracassou gerando apenas endividamento para o país.

É sintomático que, para defender que existe fascismo no Brasil, os analistas se limitem a aspectos ideológicos. Exemplo: Safatle2 afirma que quatro elementos definem o fascismo: I) Culto da violência. II) Não há fascismo sem a ressurreição do Estado-nação na sua versão paranoica. III) O fascismo sempre será solidário com a insensibilidade absoluta à violência com as classes vulneráveis. IV) O fascismo sempre será baseado na deposição da força popular em prol da liderança fora da lei. Quando discutem a base econômica do fenômeno, os analistas são obrigados a falar em “neofascismo”, ou a ressaltar diferenças em relação ao “fascismo clássico”. Às vezes chegam a falar em fascismo neoliberal, que é uma contradição nos termos, se é fascista não pode ser neoliberal. Um fascismo neoliberal seria algo como um socialismo liberal, ou seja, uma contradição nos termos.

O ódio bocó pode gerar fascistas brasileiros, e sabemos que eles existiram, mas, no limite, a burguesia nacional, que prefere ser sócia minoritária do imperialismo, é quem impede a implantação de um regime fascista no país. Não há fascismo se não existe um projeto expansionista da burguesia. Por isso é um erro com consequências graves dizer que há fascismo no Brasil. Um fascista pode ser acusado de muitas coisas, menos de ser lambe-botas do imperialismo. Por essa razão o bolsonarismo não é fascista. Não existe fascismo entreguista.

A opção histórica da burguesia brasileira, imposta pelo golpe empresarial-militar de 1964 e ratificada pelo neoliberalismo, é desenvolvimento associado, como sócia menor do imperialismo. Para haver fascismo precisaria existir uma burguesia nacional disposta a ampliar a acumulação por meio de um Estado forte: interventor, autoritário e capaz de se contrapor ao imperialismo. Essa, definitivamente, não é a opção da burguesia brasileira. O fascismo surgiu na Itália para ampliar a acumulação capitalista e se contrapor aos países imperialistas; o bolsonarismo nasceu no Brasil como apêndice do imperialismo estadunidense, é sintomático que o ex-capitão tenha batido continência para a bandeira dos EUA.

Se é assim, ainda que possam existir fascistas brasileiros, não há sinais de que o fascismo vá se impor em terras tupiniquins. Importante ressaltar que, embora o fascismo não esteja no horizonte enquanto regime, não significa que a repressão e o autoritarismo não estejam em alta e com tendência de crescimento, podendo, inclusive, partir para o isolamento e a liquidação física de forças progressistas. Trata-se, em verdade, de procurar entender o fenômeno para se contrapor a ele. Afinal, sabe-se, desde Sun Tzu, que quem conhece o inimigo e a si mesmo não precisa temer o resultado das batalhas que trava, por outro lado, será derrotado quem não conhece nem o inimigo nem a si mesmo.

Uma coisa é combater um regime fascista, outra coisa é combater um regime neoliberal que apoia grupos de extrema-direita. Segundo a anedota, o Coronel Juan Domingo Perón dava seta para a esquerda, mas entrava para a direita. É o que faz o PT no Brasil ao alardear a ameaça fascista. Se acreditasse realmente no próprio discurso, por que o PT não mobiliza suas bases e aparatos para combater grupos e indivíduos fascistas? Por que o PT não compôs uma frente eleitoral com chances de derrotar o candidato da extrema-direita? A resposta é simples: porque ao PT interessa hegemonizar e manter o cabresto sobre a esquerda sem se contrapor ao regime, e aí vale tudo, inclusive definir um neoliberal como fascista para se manter no páreo eleitoral. Seja como for, às forças que se contrapõe ao regime cabe conhecer o inimigo, é o ensinamento milenar de Sun Tzu.

Maurílio Lima Botelho3 tem uma sacada interessante, associa a estrutura econômica fascista às formas de violência observadas na primeira metade do século XX: produção em massa = assassinatos em massa – trincheiras, infantaria e câmaras de gás. À estrutura econômica do modo de produção capitalista contemporâneo o autor associa padrões de violência “neofascistas”: produção flexível = assassinatos flexíveis – drones, grupos de extermínio e atiradores de elite.

As diferenças na estrutura econômica e nos padrões de violência entre os períodos fascista (na Itália e na Alemanha) e “neofascista” (no Brasil) são gritantes, demonstram que não há continuidade entre os dois fenômenos e, que, portanto, é um erro associar o crescimento da extrema-direita brasileira ao fascismo ou ao “neofascismo” (razão pela qual neofascismo está entre aspas por aqui). Na Itália – e principalmente na Alemanha – se tratava de submeter a classe trabalhadora e povos conquistados às exigências da acumulação de capital. No Brasil atual trata-se de conter e, no limite, eliminar milhões de pessoas descartadas pelo sistema econômico estruturado para garantir lucros ao agronegócio e ao mercado financeiro. No arranjo brasileiro o capital industrial é sócio menor e interligado ao agronegócio e ao mercado financeiro. No arranjo fascista o capital industrial era estratégico.

Se com o fascismo, de Mussolini, tratava-se de tomar e adaptar o Estado às necessidades expansionistas da burguesia industrial italiana; com o neoliberalismo, de Jair Bolsonaro, trata-se de tomar e adaptar o Estado para garantir os lucros do agronegócio e do mercado financeiro, apesar da crise do capital. O que é suficiente para demonstrar a distância que separa um fenômeno do outro.

Era fatal que o faz-de-conta terminasse assim

1947: Sivuca compôs uma valsa para tocar em serenatas. 1976: a valsa foi enviada para Chico Buarque fazer a letra. 1977: a canção João e Maria é gravada por Nara Leão no disco Os meus amigos são um barato, que contou com a participação de Sivuca e Chico Buarque. Como a valsa de Sivuca foi composta quando Chico tinha três anos, ele a associou à infância, e criou uma letra em que duas crianças brincam de serem reis, bedéis, juízes, cowboys e noivas. 2016: ouvi por acaso a canção João e Maria, já tinha ocorrido o golpe que afastou Dilma Rousseff, era época das eleições municipais; mesmo conhecendo a história da canção, me parecia que a letra sintetizava os treze anos de petismo no poder: “Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim, pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim”. Desconfio que o Chico não endossaria minha leitura, posto que o compositor costuma endossar os governos do PT. Mas uma coisa é certa, nós que criticávamos a política de conciliação de classes há tempos dizíamos que o faz-de-conta terminaria como terminou: fortalecendo a extrema-direita. Para manter o faz-de-conta que não é neoliberal, o petismo desmobilizou a classe trabalhadora, ao fazer isso abriu as portas para a passagem da extrema-direita impulsionada e fortalecida pelas frustrações acumuladas.

A estratégia dos governos petistas foi o faz-de-conta que não é neoliberal. Tratava-se de mudar com os instrumentos tolerados pelo neoliberalismo: ampliação do crédito e programas de renda mínima. Programas de renda mínima, como o bolsa família, levariam recursos para comunidades pobres, que demandariam produtos de primeira necessidade produzidos na própria região, fortalecendo o mercado interno e o emprego. A ampliação do crédito alavancaria o consumo e, por tabela, o mercado interno e o emprego. Tudo isso sem deixar de pagar um real da dívida pública, cumprindo a lei de responsabilidade fiscal, batendo as metas de inflação, gerando superávits primários, garantindo lucros astronômicos a especuladores, sem regulamentar a mídia empresarial, se aliando com partidos fisiológicos, sem fazer reforma agrária, promovendo o agronegócio, sem reverter a desindustrialização do país, sem contrariar o “mercado”, sem passar a ditadura empresarial-militar de 1964 a limpo, sem julgar torturadores, sem desmilitarizar as polícias, sem enfrentar as oligarquias, sem alterar a estrutura política e econômica do país. O faz-de-conta foi infinito enquanto duraram os “anos de ouro das commodities” e a fartura de capitais especulativos, revertido o ciclo, com os preços das commodities em queda livre e sem crédito fácil, do projeto de ampliação do mercado interno restou uma massa de endividados: com medo, com raiva, desempregados, sem esperança e sem condições de consumir.

1947: economistas, filósofos e políticos se reúnem na cidade suíça de Mont Pèlerin com o objetivo de promover o neoliberalismo, doutrina que se opunha ao keynesianismo, política econômica anticíclica segundo a qual os governos deviam compensar os investimentos privados para evitar as crises: diminuindo os investimentos públicos quando a economia estivesse aquecida e ampliando os investimentos públicos quando a economia estivesse desaquecida. No discurso (faz-de-conta) os neoliberais pregam a não intervenção do Estado na economia, na prática é exatamente o contrário, como demonstram os pesados investimentos do governo Reagan na indústria bélica estadunidense.4 1968: do Brasil ao México, de Praga a Paris, as pessoas vão às ruas para protestar, se nos países periféricos a relação não é imediata, nos países centrais, como França e EUA, a contestação é, no limite, contra a sociedade de produção e de consumo em massa. Acende, portanto, a luz amarela para o capital. Nos anos seguintes, com o término da reconstrução da Europa, destruída na Segunda Guerra Mundial, e com o reposicionamento de empresas alemãs e japonesas, acirra-se a concorrência intercapitalista. A resposta do capital foi a reestruturação produtiva por meio do aprofundamento da automação. Grandes investimentos são realizados em setores de ponta: informática, química fina, novos matérias e biotecnologia.4 Paralelamente à reestruturação tecnológica da base produtiva, são desenvolvidas técnicas de gestão de mão de obra mais flexíveis, o fordismo é superado pelo toyotismo. A produtividade crescente exige a ampliação dos mercados.4 Aprofunda-se o fenômeno conhecido como globalização. É quando o neoliberalismo sai da gaveta. O keynesianismo é a política econômica das sociedades fordistas, de consumo e produção de massa; o neoliberalismo é a política econômica das sociedades revolucionadas pela reestruturação produtiva. Entre 1945 e 1970 os ganhos de produtividade foram mais ou menos divididos entre capital e trabalho, com a reestruturação produtiva e o neoliberalismo, o capital avançou sobre o trabalho. 1973: golpe militar no Chile, com a derrubada do governo Allende é ensaiada a primeira experiência neoliberal, o neoliberalismo ser implantando na marra não é mera coincidência. Posteriormente, com o golpe militar, a Argentina faria seu primeiro ensaio neoliberal. Era fatal que o faz-de-conta começasse assim, apesar da demagogia democrática, o neoliberais sabem que, para implantar e sustentar suas propostas precisam de um Estado autoritário. Sintomático o fato do papa do neoliberalismo, Milton Friedman, ter visitado o Chile nos anos mais duros da ditadura Pinochet.5

Construída a partir de fakenews e da desinformação proposital, era difícil ter certeza do que seria o governo Bolsonaro. Eleição ganha, à medida que começam a ser indicados os ministros e a ações, fica cada vez mais nítido que trata-se de um governo que vai tentar concluir a implantação do neoliberalismo no Brasil, projeto deixado inconcluso pelos neoliberais almofadinhas (PSDB) e pelos neoliberais da conciliação (PT). O capitalismo brasileiro está estruturado para garantir os lucros do agronegócio e do mercado financeiro, que, é importante lembrar, são capitais interligados, exemplo: o mercado financeiro oferece Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), o agronegócio investe em outros “produtos” do mercado financeiro. Daí a santíssima trindade brasileira: metas de inflação, lei de responsabilidade fiscal e superávits primários.  

Metas de inflação para garantir a estabilidade da moeda e a “racionalidade” do sistema econômico. Lei de responsabilidade fiscal para destinar recursos públicos fundamentalmente para o pagamento de juros aos detentores de títulos da dívida pública, especialmente banqueiros. Superávits primários para poupar recursos públicos para pagamento da dívida. Metas de inflação, lei de responsabilidade fiscal e superávits primários compõe a santíssima trindade do capitalismo brasileiro, é o que unifica os gestores da burguesia brasileira: de FHC a Lula, de Dilma a Bolsonaro. O compromisso com a santíssima trindade do capitalismo brasileiro ajuda a explicar por que Bolsonaro não tem condições de organizar um governo fascista, para tanto seria preciso romper com o arranjo destinado a engordar o mercado financeiro e ampliar a acumulação capitalista, especialmente no setor industrial. Mas, como discutimos anteriormente, a indústria brasileira é pouco desenvolvida e está submetida ao capital financeiro, ou seja, também ela reza o terço da santíssima trindade. O capital financeiro não apoiaria Bolsonaro se houvesse qualquer risco de ruptura com a política de metas de inflação, lei de responsabilidade fiscal e superávits primários.

Olhando para trás e considerando que o neoliberalismo começou a ser implantando no Chile e na Argentina, nos anos 1970 e após golpes militares, é possível concluir que não há novidade em Bolsonaro e nos generais que o acompanham, é apenas uma volta ao passado: trata-se de entregar recursos previdenciários de bandeja para o mercado financeiro, liberar mais recursos públicos para pagamento de juros, privatizar estatais e fechar ou repassar à “iniciativa” privada o que resta da educação e da saúde pública. Como sabem que haverá resistência contra o ataque que planejam, aliaram-se a militares entreguistas, os únicos que podem tentar garantir o avanço do neoliberalismo no Brasil. O chicago boy Paulo Guedes é a ponte óbvia que liga o Brasil de 2018 ao Chile de 1973.

Bancarrota blues

Parido em 1947, o neoliberalismo saiu da gaveta nos anos 1970, era um jovem envelhecido de vinte e poucos anos, que radicalizava o discurso liberal de Smith e outros. Sacada de Luiz Filgueiras4: o liberalismo surgiu num momento de expansão do modo de produção capitalista, era, à época, um anúncio da modernidade e da burguesia em ascensão; o neoliberalismo defende o retorno a tempos em que a maioria da população estava excluída do mercado, trata-se de uma doutrina antiga e regressiva em todos os sentidos – econômico, político e social. Ou seja, o neoliberalismo é uma doutrina recauchutada e desenterrada para socorrer o capital.

Outro aspecto fundamental do neoliberalismo foi destacado por Filgueiras4, mas é pouco tratado atualmente: a desigualdade é um valor positivo para os neoliberais, ela seria a base imprescindível para a construção de uma sociedade democrática. É por isso que era fatal que o neoliberalismo de conciliação petista terminasse como terminou: o neoliberalismo exclui a conciliação, se é neoliberal não pode ser conciliador.

Para administrar a desigualdade que inevitavelmente promove, o neoliberalismo aposta em programas de renda mínima. É de Milton Friedman a proposta de criação de programas de “renda mínima”, como o bolsa-família, defendido pelos neoliberais brasileiros, de FHC a Lula, passando por Dilma e até Bolsonaro, este último um pouco contrariado.

O modo de produção capitalista é forçado a se revolucionar incessantemente, no começo a década de 1970 essa necessidade se tornou ainda mais imperiosa. Além das contestações à sociedade de produção e consumo em massa; acirrava-se a concorrência intercapitalista, com o reposicionamento de empresas alemãs e japonesas; a Europa, que havia sido destruída na Segunda Guerra,já estava razoavelmente de pé. Para sobreviver e para se prevenir de contestações o capital foi forçado a aprofundar a automação e a se reestruturar.

É sabido, desde Marx, que vigora no capitalismo a lei da queda tendencial das taxas de lucro. Ao se reestruturar ampliando a automação, o capital substituiu trabalho vivo (homens e mulheres) por trabalho morto (máquinas e equipamentos), no curto prazo e para os que estavam na linha de frente do movimento, houve um pequeno alívio: leve recuperação das taxas de lucro e diminuição das contestações operárias. Mas, como mostrou Marx, à medida que as inovações tecnológicas se espalham, as taxas de lucro tendem a cair, porque só o trabalho vivo (homens e mulheres) gera valor.

A queda tendencial das taxas de lucro nos termos colocados por Marx é o que explica a crise do modo capitalista de produção. Sem inovações capazes de baratear o próprio capital e sem guerras em intensidade suficiente para destruir capitais e possibilitar a retomada da acumulação: o modo capitalista de produção atolou na crise. As sucessivas bolhas especulativas e seus estouros provam que os lucros não encontram possibilidade de ser reinvestidos na produção.  

A reestruturação da economia capitalista e o aumento da produtividade exigiu a abertura de novos mercados, para escoar a produção e reinvestir lucros. É quando aprofunda-se a globalização e a financeirização da economia, uma e outra ligadas umbilicalmente à reestruturação produtiva. O neoliberalismo é a política econômica que articula reestruturação produtiva, abertura de mercados e financeirização no contexto de crise do modo capitalista de produção. Ao mesmo tempo em que desregulamentam os mercados financeiros, para permitir o investimento de capitais que não encontram emprego na produção de mercadorias, os neoliberais estão sempre atentos para salvar bancos e instituições privadas com fundos públicos. É a prova de que o neoliberalismo apenas redirecionou e não aboliu as intervenções estatais na economia. Em vez de compensar os investimentos privados, como sugeriu Keynes, os neoliberais atuam de maneira mais explícita, concedem recursos públicos a instituições privadas, mas dizem que o mercado é redentor e não deve sofrer intervenções. O neoliberalismo administra a economia como se fosse uma família: é um pai sempre pronto para socorrer o filho endividado. 

Curioso notar que, nos anos 1970, enquanto o neoliberalismo avançava no Chile e na Argentina, a ditadura empresarial-militar fazia últimos esforços para modernizar a industria brasileira, era, em verdade, o canto do cisne. O resultado foi a ampliação do endividamento e a derrota definitiva do projeto desenvolvimentista no Brasil. A partir de 1990, com Fernando Collor, cresce a abertura econômica do país. A partir de 1994, com o Plano Real, são fincados os alicerces neoliberais em terras tupiniquins, especialmente a santíssima trindade da economia brasileira: metas de inflação, lei de responsabilidade fiscal e superávits primários. Parênteses: há desavisados que definem o neoliberalismo de conciliação (petismo) como desenvolvimentista, ou não sabem o que é um ou não sabem o que é o outro, se fosse desenvolvimentista e não neoliberal, o petismo não teria rezado o terço da santíssima trindade.

Há uma continuidade evidente entre os governos neoliberais no Brasil. Collor iniciou a abertura econômica e as privatizações. FHC estabilizou a moeda, ampliou as privatizações, definiu metas de inflação, criou a lei de responsabilidade fiscal e tentou gerar superávits primários para garantir o pagamento de juros e amortizações da dívida pública. Lula deu continuidade ao governo FHC, como eram os “anos de ouro das commodities”, ou seja, como os produtos agrícolas exportados pelo país estavam com preços altos, foi possível ampliar os programas de renda mínima e a geração de superávits primários. Dilma assumiu quando a bolha das commodities estava estourando, e já não era possível manter os “avanços” dos anos anteriores, sintomático que, no início do segundo mandato e contrariando tudo que havia dito durante a campanha, a gerentona recorreu a um ministrão ultraliberal para, no limite, cortar gastos e resguardar os pagamentos de juros da dívida pública, que é o eixo principal do capitalismo brasileiro. Temer aprofundou o neoliberalismo: flexibilizou relações de trabalho para favorecer o capital, tentou reformar a previdência para garantir recursos para juros da dívida e congelou despesas públicas por vinte anos. Bolsonaro é uma aposta num governo autoritário para concluir a implantação do neoliberalismo, porque sabe-se que haverá resistência contra privatizações, contra a entrega da previdência dos trabalhadores para fundos privados, contra os ataques aos sistemas públicos de saúde e educação.

A partir de 2014, quando os preços das commodities já haviam baixado consideravelmente, a economia brasileira deixou de gerar superávits primários. Se os pagamentos de juros da dívida pública constituem o eixo principal do capitalismo brasileiro, o fim dos superávits primários foi a luz amarela para a burguesia, e não é coincidência que as primeiras movimentações golpistas tenham ocorrido em 2014. Uma das medidas-chave do golpe de 2016 é o congelamento de gastos públicos, espécie de complemento da lei de responsabilidade fiscal, enquanto esta fixa o volume de recursos que podem ser aplicados em pessoal, custeio e investimentos, aquele determinou que as despesas públicas só podem ser ampliadas de acordo com o crescimento do PIB. É onde se vê a continuidade e aprofundamento do neoliberalismo brasileiro, que foi e está sendo cada vez mais inscrito e fixado no arcabouço legal do país. Nestas condições, nenhum avanço concreto virá sem ruptura. 

Composta nos anos 1990, no auge das privatizações, a canção Bancarrota Blues tem um refrão forte: “mas posso vender, quanto vai pagar?” Chico relaciona riquezas: uma fazenda com casarão, imensa varanda, éden tropical, dá jerimum, dá muito mamão, tem isca pra anzol, nem precisa pescar, muita mulher pra passar sabão, a sombra dos oitis, doces lunduns, diamantes rolam no chão, ouro é poeira, os olhos da amada e os próprios filhos... “Mas posso vender, quanto você dá?” Ao vivo Chico apresenta e elogia a banda que o acompanha: contra-baixo, piano, bateria, percussão, sax, flauta, clarinete, teclado, violão, guitarra. O compositor comenta que se alegra por ser do Brasil e por conviver com os músicos brasileiros. Na sequência retoma o refrão: “mas posso vender, quem vai arrematar?” Como se a banda estivesse em leilão. A imagem ajuda a explicar a conjuntura brasileira: muitas fazendas, dois bancos públicos, universidades federais, previdência da classe trabalhadora, sistema único de saúde... “Ninguém me tira nem por mal, mas posso vender, deixe algum sinal”, “tá ok?” – completaria o ex-capitão.

Muss es sein? Es muss sein! Es muss sein!

Quando os estudantes secundaristas ocuparam escolas contra a precarização da educação pública, um grito ecou: “Acabou o amor: isso aqui vai virar o Chile.” Era uma referência ao combativo movimento estudantil chileno, referência que já havia sido reivindicada por estudantes universitários brasileiros. Curiosamente e em sentido oposto, é possível pensar que Bolsonaro reivindicaria o “Acabou o amor: isso aqui vai virar o Chile.” A ditadura de Pinochet é a irmã mais velha do governo Bolsonaro. A radicalização do neoliberalismo é o eixo central de ambos. Não é coincidência que apoiadores de Bolsonaro tenham invadido uma assembléia do SINASEFE, em Santa Catarina, para, entre outras ameaças, darem vivas a Pinochet.

Exemplo mais evidente de aproximação entre Bolsonaro e Pinochet é o regime previdenciário por capitalização compulsória, com os trabalhadores recolhendo contribuições que comporão suas aposentadorias no futuro, se sobreviverem à idade mínima. O resultado é conhecido: 90% dos aposentados recebem pouco mais do que 50% do salário mínimo chileno.6 Como se não bastasse, os valores recolhidos compulsoriamente são controlados por fundos privados que cobram taxa de administração. Bolsonaro quer importar para o Brasil o modelo adotado pela ditadura Pinochet. Além disso, não é coincidência que o superministro da economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, tenha sido professor universitário no Chile de Pinochet; que Bolsonaro tenha afirmado que Pinochet “fez o que tinha que ser feito”; que o primeiro país visitado por Bolsonaro provavelmente será o Chile.

O regime de previdenciário de capitalização compulsória é um bom exemplo dos limites da democracia no neoliberalismo: os trabalhadores são forçados a contribuir para fundos privados que administrarão os recursos, mas podem escolher entre fundos conservadores ou arriscados. Ou seja, o regime de capitalização é empurrado goela abaixo, mas é possível escolher o perfil de investimento dos fundos privados. Estes embolsarão lucros gigantes, aqueles arcarão com prejuízos decorrentes de aplicações no mercado financeiro. É a agiotagem legalizada. Muito fácil enriquecer controlando contribuições fixas por décadas, basta emprestá-las, geralmente aos próprios trabalhadores, cobrando taxas muitos superiores às remuneraçõesdos depósitos. É o paraiso da especulação financeira.

Se é verdade que Bolsonaro é um herdeiro de Pinochet, trata-se, apenas, de uma volta às origens autoritárias do neoliberalismo. Em uma conjuntura de aprofundamento da crise capitalista, sem nenhum projeto de desenvolvimento nacional autônomo, só resta à burguesia uma solução de força para garantir, pelo menos, os lucros do agronegócio e do mercado financeiro. Solução de força que implica em cancelar conquistas dos trabalhadores, como o sistema único de saúde, os direitos trabalhistas, a previdência e as universidades públicas.

A crise atual é de sobreacumulação de capital e não de superprodução de mercadorias. No limite é a sobreacumulação do capital que impede o reinvestimento dos lucros na produção de mercadorias, daí a guinada para o mercado financeiro e a especulação. A história mostra que o capital consegue girar apesar da estagnação do mercado consumidor, a ampliação deste é uma necessidade para o crescimento daquele, mas não para a sobrevivência. Dito de forma mais direta: a ampliação do mercado consumidor é condição necessária para a expansão e não para a sobrevivência do capitalismo, a produção de bens de consumo pode ser reduzida sem liquidar o capital, porque ele consegue girar impulsionado pelo que resta da produção de bens de consumo, pela indústria bélica e pela produção de bens de capital. Por outro lado, à medida que a economia é cada dia mais automatizada e que cresce a composição orgânica do capital, reduzem-se as taxas de lucro e o emprego, obrigando os capitalistas a marcharem sobre conquistas sociais e direitos dos trabalhadores. O que são os regimes previdenciários de capitalização senão formas de aprofundar a exploração garantindo lucros do mercado financeiro? O que significa a flexibilização de direitos trabalhistas senão maior apropriação da mais-valia?

O ataque da burguesia brasileira contra conquistas sociais e direitos dos trabalhadores é evidente. Revertidos os “anos de ouro” das commodities, foi preciso enxugar os programas de renda mínima redirecionando recursos para o capital, movimento sintetizado na indicação do ultraliberal Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda no final de 2014, antes do início do segundo mandato e contrariando toda campanha eleitoral de Dilma Rousseff. A militarização da sociedade é o movimento complementar e, registre-se, se aprofundou no primeiro mandato de Dilma com a lei antiterrorismo, a repressão ao levante de junho de 2013 e aos protestos contra a Copa. Qual era o objetivo do ultraliberal indicado pelo governo Dilma para comandar o Ministério da Fazenda? Garantir o superávit primário! O golpe de 2016 foi, fundamentalmente, uma tentativa de restabelecer o superávit primário, Temer conseguiu aprovar congelamento de gastos por 20 anos, mas faltou a reforma da previdência. Bolsonaro é uma cartada na mesma direção, acena com a reforma da previdência para restabelecer o superávit primário e a tigrada para manter a ordem. Há dois fatos que demonstram inequivocamente que acabou o “amor” para a burguesia brasileira: I) Prenderam Lula, o grande conciliador, o que aponta que nem as políticas neoliberais de renda mínima serão toleradas. II) Bolsonaro acena com a extinção do Ministério do Trabalho, pasta criada por Vargas para, no limite, tentar conciliar trabalho e capital no interesse da acumulação deste último. Além de abrir mão de políticas de geração de emprego, extinguir o Ministério do Trabalho significa enquadrar e limitar a fiscalização do Estado sobre as condições de trabalho, exigência do capital em tempos de crise.        

Um dirigente petista7 relatou um caso ocorrido na última eleição. Em campanha eleitoral a militância aborda uma senhora negra, entrega um panfleto e diz –  “Haddad”. A senhora responde – “Gosto muito de vocês, mas vocês vão quebrar o país.” Eles – “Vamos quebrar o país por quê?” Ela – “Vocês estão querendo aumentar o salário mínimo e o bolsa família.” Nesse ponto o dirigente petista precisou entrar na conversa– “Mas minha senhora, o que a senhora é?” Ela – “Sou empregada doméstica.” Ele – “Mas se a senhora é empregada doméstica, olha aqui a posição do Bolsonaro sobre os direitos das empregadas domésticas.” Ela – “Essa posição do Bolsonaro tá certa, essa coisa de você querer dar direitos tira nossos empregos, olha quanta gente tá desempregada, cê acha que um professor vai conseguir pagar os direitos de uma empregada doméstica?” Ele– “Minha senhora, eu sou professor e tô nesse caso, eu pago os direitos.” Ela – “O senhor, mas a imensa maioria não, a imensa maioria não contrata e a gente tem desemprego por causa disso.”  Ele – “Mas minha senhora...” Ela: “Insisto. Gosto muito de vocês. O Haddad é muito legal. Mas vocês vão transformar o Brasil numa Venezuela.” Ele – “A senhora tá querendo voltar pra época da escravidão?” Ela para no meio da rua, olha para o dirigente petista e, antes de partir diz – “Meu filho, esse país sempre foi e sempre vai ser desigual!”

Com a mente travada na política de conciliação de classes, o professor e dirigente petista não consegue tirar todas as conclusões do diálogo com a empregada doméstica, pensa apenas em termos da batalha cultural que deve ser travada. Afinal, Bolsonaro sempre disse que os trabalhadores terão que “decidir entre menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego”. A cegueira petista não permite enxergar que, se é para manter o capitalismo, se é para administrar o capital em crise, se vão continuar existindo professores universitários que contratam empregadas domésticas, o argumento dela é muito mais coerente do que o dele. Se o capital em crise será forçado a reduzir os benefícios e proventos dos assalariados, é óbvio que professores terão mais dificuldade para contratar empregas domésticas pagando direitos trabalhistas.

É nas situações históricas complicadas que se impõem as alternativas. O diálogo entre o dirigente petista e a empregada doméstica é sintomático. Para construir a resistência e a afirmação para além da eleição de um candidato a gestor do neoliberalismo, o primeiro passo é dialogar, e a condição é saber ouvir. Reproduzir acriticamente mantras do neoliberalismo de conciliação não vai resolver absolutamente nada. O segundo passo é recolocar o socialismo na ordem do dia. Primeiro teria que concordar para depois discutir o último argumento da senhora: sim, o Brasil sempre foi desigual, mas não necessariamente o será para sempre, os trabalhadores precisam tomar o controle dos meios de produção e da própria vida, inclusive porque o capital coloca em risco o ecossistema e a sobrevivência da humanidade. Teria que discutir a herança escravista brasileira e lembrar do crescimento de grupos de extrema-direita que atacam negros, gays e nordestinos; neste contexto e para garantir a integridade física dos nossos, será necessário criar comitês de autodefesa. Teria que defender a possibilidade de existência de um mundo que não se divida entre burgueses e proletários, professores universitários e empregadas domésticas. Enfim, o dirigente petista teria que se colocar como um igual disposto a superar a herança escravista do país, a divisão em classes e o capitalismo, é o que ele jamais fará.

Era previsível que a extrema-direita avançaria quando viesse a crise e se esgotasse o neoliberalismo de conciliação. Da mesma maneira, é previsível, porque inevitável, que a classe trabalhadora resistirá aos ataques da extrema-direita, tal movimento começa a acontecer, estão surgindo comitês de luta nos bairros, locais de trabalho e estudo. Recolocar a radicalidade por baixo, pela e para a esquerda é tarefa dos revolucionários, porque não se constrói uma casa a partir do telhado. Será incomparável a derrota se o petismo (neoliberalismo de conciliação) conseguir dirigir a resistência conduzindo-a para a defesa de valores democráticos, que não vão existir no neoliberalismo, ainda mais em uma conjuntura de crise do capital. O petismo defende os valores democráticos assim como a direita se apresenta com anticorrupta, ambos sabem que o neoliberalismo é corrupto e antidemocrático, mas se valem do faz-de-conta engana-trouxa. Por outro lado, será um avanço se a classe trabalhadora conseguir esboçar um projeto de poder a partir de baixo e pela esquerda.

O neoliberalismo almofadinha (PSDB) está tão superado quando o neoliberalismo de conciliação (PT), o que não significa que não possam ganhar eleições, mas sinaliza que, para gerenciar o capital em crise terão que atuar com porrete e mão de ferro, numa intensidade muito maior do que fizeram. Nesta conjuntura, o retorno às origens autoritárias do neoliberalismo se torna inevitável para a burguesia, que apresenta suas armas: governo forte e militarizado para garantir lucros do capital, contenção e, no limite, eliminação de opositores, desde a esquerda organizada até os excluído dos mercados de trabalho e consumo. Se é assim, só resta à esquerda e à classe trabalhadora recolocarem o socialismo na ordem do dia, de baixo para cima e pela esquerda, aliando ocupação de espaços de moradia e de produção com a autodefesa, forjando a superação do modo capitalista de produção. A democracia de verdade só pode existir se a resistência avançar e derrotar o neoliberalismo. Defender os valores democráticos é fortalecer a auto-organização da classe trabalhadora por baixo e pela esquerda.

Milan Kundera cita um quarteto Beethoven em que dois homens dialogam. Um – Muss es sein (tem que ser assim)? Outro – Es muss sein (tem de ser)! Outro – Es muss sein (tem de ser)! Outro novamente – Heraus mit dem Beutel (abra sua bolsa)! No original tratava-se de um diálogo em que um homem pede para que outro lhe pague uma dívida. Na conjuntura atual soa como um imperativo (es muss sein!) do capital em crise, que precisa ampliar a expropriação de mais-valia: abra sua bolsa! Se é assim, o imperativo (es muss sein!) da classe trabalhadora é o socialismo: sem mistificações, sem recuos, sem dúvida!

REFERÊNCIAS

1 Costa, A. de B. NÃO EXISTE FASCISMO NO BRASIL. Disponível em: http://www.iela.ufsc.br/noticia/nao-existe-fascismo-no-brasil Acesso em: 29 out. 2018.

2 Safatle, V. O QUE É FASCISMO? Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_ypurfdlPmU Acesso em: 31 out. 2018.

3 Botelho, M. L. TECNOLOGIA E NEOFASCISMO. Disponível em: https://blogdaconsequencia.com/2018/10/24/tecnologia-e-neofascismo/ Acesso em: 01 nov. 2018.

4 Filgueiras, L. A. M. REESTRURURAÇÃO PRODUTIVA, GLOBALIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO: CAPITALISMO E EXCLUSÃO SOCIAL NESTE FINAL DE SÉCULO. Seminário O Mal-Estar no Fim do Século XX, p. 895-919, 1997. Disponível em: http://www.cefetsp.br/edu/eso/globalizacao/neoglobliberalismo.pdf Acesso em: 27 set. 2015.

5 Estefanía, J. ESCOLA DE CHICAGO FLORESCE NO AUTORITARISMO. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/26/internacional/1540555749_404186.html Acesso em: 29 out. 2018.

6 Reverbel, P. COMO É SE APOSENTAR NO CHILE, O 1º PAÍS A PRIVATIZAR A SUA PREVIDÊNCIA. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-39931826 Acesso em: 11 nov. 2018.