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O SERVIDOR PÚBLICO

 

Despertou. Desceu da cama e calçou os chinelos que posicionava sempre no mesmo local. Tudo tinha seu lugar. Das roupas à escova de dente, das cuecas aos documentos pessoais, das ferramentas aos medicamentos. Era-lhe simplesmente insuportável não encontrar uma coisa ou encontrá-la fora do lugar. O servidor público odiava mudanças, bagunças e desorganizações. Caminhou até o banheiro. O dia não estava totalmente claro, a luz não havia penetrado na casa. Mas conhecia bem o caminho e seguiu sem dificuldade. Era capaz de percorrer todos os cômodos de olhos fechados. Isso por uma única razão: cada coisa tinha o seu lugar, que ele conhecia, mantinha e administrava. Assim era. Assim devia ser. Acendeu a luz do banheiro. Fechou a porta. Despiu-se. Deixou o chinelo perto do box. Dobrou o pijama e posicionou as peças sobre o gabinete. Depositou a cueca no roupeiro. Abriu a torneira. Deixou a água correr e lavou as mãos. Molhou os braços. Lavou o rosto. Penteou os cabelos. Não fez a barba. Era feriado. Não trabalharia. 28 de outubro: dia do servidor público, dia dele. Apanhou creme dental, escovou os dentes. Aliviou-se. O intestino do servidor público era tão pontual quanto o próprio servidor público. Limpou-se. Entrou no box. Abriu a torneira do chuveiro. Tomou banho frio. O contato com a água gelada era revigorante, dava-lhe força para ganhar mais um dia. Secou o corpo e se cobriu com a toalha. Retornou ao quarto. Vestiu-se. Beijou a esposa e a aliança. Sempre beijava a esposa e a aliança, nessa ordem. Celebrava diariamente a união, o casamento e a família. Voltou ao banheiro. Depositou a toalha de banho no roupeiro. Penteou novamente os cabelos. Desceu a escada sem fazer barulho. Conhecia a altura de cada degrau. Foi até a cozinha. Tomou um copo de água fresca. Espiou o relógio de parede. Estava ligeiramente adiantado, provavelmente porque não havia feito a barba. Devia ter se barbeado. A ordem natural dos acontecimentos precisava ser mantida e respeitada. Era segunda-feira: um homem deve fazer a barba diariamente, ainda mais um servidor público, porque tudo tem seu lugar e seu tempo. Foi até a sala. Abriu a cortina e a janela. Sentou-se no sofá. Correu os dedos pela barba por fazer. Irritou-se. Esperou. Sairia no horário exato para comprar os pães. Um servidor público deve ser pontual como os passarinhos, os galos e os grilos. Se a natureza não fosse precisa, o mundo seria caótico. Retornou da padaria e colocou os pães sobre a mesa. Lavou as mãos com detergente, na pia da cozinha. Complementou a higiene com álcool gel. Apanhou pratos e talheres no armário. Apanhou alimentos na geladeira. Montou a mesa para o café da manhã enquanto ouvia ruídos no andar de cima da casa. Alegrou-se. Eram os primeiros movimentos da esposa e das filhas. Estavam acordadas. Aquela família cumpria o horário naturalmente. Os despertadores eram prescindíveis. Passou o café. Atravessou a sala de jantar e a sala de estar. Apanhou o controle remoto da televisão. O servidor público gostava de tomar café da manhã com a família acompanhando o telejornal. Assim se atualizavam e começavam bem o dia. Mas hesitou. Era 28 de outubro. Os telejornais costumavam criticar o serviço público e os servidores públicos. Ganhavam muito. Trabalhavam pouco. Não discordava totalmente das críticas. Com certeza havia colegas complicados. Havia vagabundos que não gostavam de trabalhar e prejudicavam a imagem das instituições. Mas ele não. Esposa e filhas se posicionaram para tomar café da manhã. Ele aguardava na mesa, em silêncio. Recebeu cumprimentos. Era o dia dele. Faltava apenas o telejornal. Devia ser o feriado – pensaram elas. O servidor público se alegrou ao ver as filhas devidamente uniformizadas para mais um dia letivo. Elas se alimentaram, levantaram, recolheram e lavaram pratos e talheres. O servidor público guardou os alimentos que sobraram. As filhas escovaram os dentes, pentearam os cabelos, apanharam o material escolar, pediram para o pai acompanhá-las até a escola. Insistiram. Mas ele preferiu não ir. Beijou as meninas e a esposa e ficou em casa.

 

O servidor público se sentiu sozinho. Não estava vestido para o trabalho. Não havia cortado a barba. Não assistira o telejornal. Sequer havia acompanhado as meninas. Devia ter ido com elas. Por que não foi com elas até o colégio? Devia ter feito a barba para acompanhar as filhas. Seria um dia perdido. Ocorreu-lhe que o feriado de 28 de outubro era, na verdade, uma pequena vitória da esquerda e dos esquerdistas do sindicato: que não respeitavam as instituições, que não tinham fé, que queriam destruir as famílias, que não faziam a barba, que não gostavam de trabalhar, que se recusavam a servir a Deus. O servidor público tinha ódio da esquerda e dos esquerdistas do sindicato. Quando havia assembleias sindicais na porta da repartição, ele contornava e entrava por trás para evitar contato com aquela gente. Eram vagabundos que não trabalhavam. Assembleias sindicais eram frequentadas por gente que não gostava de trabalhar. Ele amava o próprio trabalho. Todos deviam amar o que faziam. As coisas são o que devem ser. É preciso amar as coisas como elas são. Os “colegas” esquerdistas passariam o 28 de outubro se embriagando, se empanturrando, fazendo orgias, bagunçando, conspirando. Os vagabundos do sindicato passariam o 28 de outubro planejando greves e paralisações. Aquela gente se achava grande coisa. Mas não conseguiam nem cumprir horário. Pegavam mais atestados médicos do que processos para encaminhar. Ocorreu-lhe que não apenas o 28 de outubro, todos os feriados – com exceção dos religiosos – eram vitórias da esquerda. Precisava combater aquela gente. Devia se vestir, ir até a repartição e trabalhar ainda mais do que já trabalhava. Seria um tapa na cara daquela gente. Um servidor público de verdade deveria comemorar o seu dia trabalhando. Um servidor público deveria comemorar o seu dia servindo a Deus e ao país. Simples assim. Nada mais importante do que servir! Quem não vive para servir não serve para viver – repetiu para si mesmo o que ouvia do pastor, gostava do jogo de palavras. Pena não ter solicitado autorização para entrar na repartição e trabalhar no feriado. Não trabalharia para não contrariar as normas. Só por isso. Um servidor público deve respeitar as leis, as instituições e, sobretudo, as normas. O servidor público deve acreditar nas leis, nas instituições e, sobretudo, nas normas. Os esquerdistas vagabundos que descumpriam as leis, as instituições e as normas. E ninguém fazia nada. Os esquerdistas vagabundos que desmoralizavam as leis, as instituições e as normas. E ninguém fazia nada. Os esquerdistas vagabundos não acreditavam nem nas leis, nem nas instituições e nem nas normas. E ninguém fazia nada. Quem começa duvidando das leis, das instituições e das normas acaba duvidando de Deus, da família e do país. Eram uns pecadores, uns bêbados, uns drogados. Vermes que não sabiam administrar nem as próprias casas, mas queriam administrar as instituições públicas, o país e o mundo. Vermes sem família, que é a base de tudo. Chifrudos. Pervertidos. Veados. Fechou as mãos. Apertou os dedos. Beijou a aliança. Queria socar os esquerdistas. Se os patriotas tivessem, pelo menos, um líder com coragem para fazer o que era necessário, aquela gente seria eliminada. O ex-presidente fraquejou e não fez o que deveria ter feito. Se não dava para eliminar todos os esquerdistas, poderia começar expulsando-os do serviço público. Não era fácil, ele mesmo já havia feito denúncias anônimas na Corregedoria, na Comissão de Ética e no Ministério Público. Os vermes de esquerda prejudicavam a imagem das instituições públicas, não trabalhavam e ninguém fazia nada. É que aquela gente era influente. Por isso o ex-presidente não conseguiu fazer tudo que deveria ter feito. O serviço público deve ser para quem quer servir ao país, como um crente serve a Deus. O trabalho dignifica o homem. Aqueles bandidos queriam desmoralizar o Estado e as instituições públicas. Queriam ensinar putaria nas escolas. Queriam fechar as igrejas e destruir as famílias. Sempre que podia, o servidor público enchia o peito de ar e de orgulho para repetir seu bordão: a família é a base de tudo! Dizer isso na repartição era, para ele, como dar um soco na cara dos esquerdistas. Aqueles vagabundos se achavam grande coisa. Eram apenas bandidos que defendiam bandidos. Não gostam da polícia. Criticam a polícia. Quando um policial se defende e mata um bandido, fazem barulho. Quando os bandidos ferem ou até matam algum policial, ficam calados. Canalhas. Hipócritas. Enquanto ele estava preocupado com o país e com os vermes de esquerda, os vermes de esquerda certamente estavam dormindo e descansando para mais um dia de bebedeiras, orgias, bagunças, conspirações. Acordariam para tramar greves e conspirações. Irritou-se ainda mais. Mas o servidor público iria à forra no dia seguinte. Quando os vermes de esquerda chegassem na repartição com álcool saindo pelos poros, ele já estaria trabalhando. Trabalharia cada vez mais. Trabalharia pelas instituições, pela família, pelo país, por Deus.  O servidor público se considerava um privilegiado. Fora abençoado com a possibilidade de servir duplamente: servia a Deus e servia ao país. Tivesse que escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa, o servidor público escolheria o verbo servir! 


Publicado originalmente no Passa Palavra


O TRADUTOR

 

Queria ser romancista, tornou-se tradutor. Queria conhecer o mundo, foi para uma cidadezinha do interior.

 

Aceitou a ideia de que passaria pela vida sem escrever um romance. Morreria sem fazer a única coisa capaz de justificar a existência: escrever romances – recriar o mundo e os homens com palavras. Passaria pela vida sem deixar nenhuma marca digna de nota, sem absolutamente nada de que pudesse se orgulhar. Mas ter que traduzir textos acadêmicos para sobreviver era constrangedor. Para os amigos – quando ainda tinha com quem conversar sobre literatura –, dizia que eram justamente as malditas traduções de textos acadêmicos que lhe travavam as possibilidades criativas. É mais fácil vencer um concurso de dança vestindo uma armadura do que escrever um romance tendo que ganhar a vida como tradutor. A metáfora era do tempo em que ainda nutria pretensões literárias. Afirmava que um abismo separa um texto acadêmico de um bom romance. Citava o filósofo das marteladas: quando olhamos para o abismo, o abismo olha para nós. Concluía dizendo que os artigos que traduzia eram o abismo. Comparem um Machado de Assis ou um Guimarães Rosa aos textos que vocês traduzem e revisam – costumava dizer a amigos e companheiros de profissão. Arrematava afirmando ser impossível escrever algo que preste depois de passar o dia traduzindo academesmices, ciência salame, encheção de linguiça, mais do mesmo, bobajadas que só servem para bater metas curriculares. Havia quem discordasse em nome do futuro do país, do progresso do conhecimento, da ciência e, sobretudo, como forma de dar sentido ao próprio trabalho. É desagradável pensar que se desperdiça a vida repetindo tarefas inúteis. Ele provocava lembrando que, pelo menos, não ficaria vinculado ao que definia como textículos acadêmicos, porque os nomes dos tradutores não costumam ser publicados.

 

Aceitou a ideia de que não conheceria o mundo e sequer sairia do Brasil. Mas passar o resto da vida numa cidadezinha esquecida no interior do país não era o melhor destino. Como ficou sem dinheiro no meio da primeira grande viagem que tentou fazer, precisou trabalhar. Retomou as traduções. Como a internet já havia chegado naquele fim de mundo, foi trabalhando e ficando. Era mais fácil sobreviver no interior com cerca de duzentos reais que ganhava por artigo traduzido, nos grandes centros o custo de vida era proibitivo para o tradutor. A cidadezinha tinha um quarteirão com casario do século XIX, do tempo da mineração, cercado por habitações precárias, resultantes do loteamento de antigas propriedades. Alugou um quarto num sobrado do século XIX e ficou. Dormia ali. Trabalhava ali. Traduzia ali. Colocou uma mesa e um computador no canto do quarto, ao lado da janela, por onde espiava a vida passar quando as palavras começavam a se embaralhar na tela do computador. Fazia as refeições na cozinha que dividia com outros inquilinos. Fazia as necessidades no banheiro que dividia com outros inquilinos. Dividia o sobrado com viajantes, prostitutas, traficantes e até aventureiros que acreditavam ainda haver ouro nos rios e minas da região.  Porque morava no velho sobrado com pessoas marginalizadas e praticamente não saía do quarto, havia quem desconfiasse que o tradutor fosse um fugitivo.

 

Ele não se importava, até se divertia com as suspeitas. O que irritava o tradutor era a labuta diária. Além do tempo desperdiçado traduzindo para o inglês, além do travamento literário provocado pela linguagem insossa dos artigos a serem vertidos, o tradutor se irritava com o contato mínimo que era forçado a manter com os clientes. Havia revistas científicas que contratavam empresas especializadas que quarteirizavam o serviço repassando textos a serem vertidos pelo tradutor. Havia os acadêmicos que demandavam traduções para publicar em revistas científicas internacionais. O tradutor preferia o autoritarismo mercantil das primeiras, que simplesmente informavam o tamanho do texto, o valor e o prazo. As empresas prescindiam do mandar sugerindo dos acadêmicos, que irritavam profundamente o tradutor. Sugiro que tenha atenção com os termos técnicos. Sugiro evitar expressões “aportuguesadas”. Sugiro não utilizar softwares de tradução. Sugiro consultar as instruções do periódico antes de iniciar o trabalho. Sugiro entregar até a data tal, ou antes se possível. Toda vez que recebia ordens em forma de sugestão lembrava-se de Bartebly, o escrevente do conto homônimo, que passou abruptamente da aceitação ao rechaço com um misterioso “eu preferiria não”. Poderia revisar o contrato x? Eu preferiria não. Poderia revisar a procuração y? Eu preferiria não. Mas revisar é parte do seu trabalho, Bartleby – argumentava o patrão, no conto. Ao que o escrevente foi do futuro do pretérito (eu preferiria não) para o presente do indicativo (eu prefiro não) seguido por um mutismo intransigente e definitivo. O tradutor sonhava com o que definia como o dia B – de Bartleby –, quando responderia “eu preferiria não” às empresas especializadas em tradução e, especialmente, aos acadêmicos.

 

O tradutor ficava puto quando os acadêmicos iniciavam solicitações adicionais com agradecimentos duvidosos. Agradeço a prontidão e a qualidade do trabalho, reenvio o artigo para revisão, fizemos correções na introdução, por favor, verifique e ajuste a versão para o inglês. E assim era obrigado a perder tempo com tarefas não remuneradas. Toda vez que recebia solicitações adicionais que começavam com agradecimentos duvidosos, ele lembrava da escritora Dorothy Parker, que definiu o sentimento de gratidão como “o atributo mais mesquinho e choramingueiro do mundo”. O tradutor se irritava profundamente com os agradecimentos forçados e interesseiros. Agradecemos o cuidado e a atenção com nosso artigo, por favor, poderia informar a previsão de entrega da versão para o inglês? Agradecemos o esclarecimento sobre o pagamento, é possível conceder um desconto?   

 

Foi num dia qualquer, no começo da tarde, mais precisamente. Pela manhã havia concluído a tradução de um artigo mal escrito e chatíssimo, cheio de frases longas, clichês e ideias banais. Quando leu o agradecimento pelo retorno imediato no início do e-mail, já imaginou que teria dores de cabeça. O professor doutor A pedia desculpas e informava que a versão enviada ao tradutor não havia sido revisada por um dos coautores, o professor doutor B. Assim sendo, o professor doutor A agradecia e sugeria que o tradutor revisasse e refizesse o trabalho com a maior brevidade possível, se atentando especialmente às alterações realizadas pelo professor doutor B na seção de métodos. Na mesma mensagem, o professor doutor A reuniu o que mais irritava o tradutor: uma ordem sugerida e um agradecimento duvidoso.

 

Quis esmurrar a tela do computador e a cara do professor doutor A, que ele não conhecia pessoalmente, mas que passou a odiar com todas as forças. Se pudesse, pelo menos, agradecer e mandar sugerindo que o professor doutor A fosse à merda... Agradeço o alerta sobre a necessidade de revisar a tradução, especialmente a seção de métodos: sugiro que vá à merda! O problema era que aquele grupo de pesquisa sempre demandava versões para o inglês. Podia abrir mão daquelas traduções? Sobreviveria sem elas?

 

Contou os trocados que tinha na carteira, desligou o computador, bateu a porta do quarto e foi até o bar da esquina. Tomou uma cerveja aguada como a vida.


Publicado originalmente no Passa Palavra



 

COMPANHEIROS, POR FAVOR!

 

O grande revolucionário estava no leito de morte. Era questão de tempo. Estava lúcido. Sabia que o fim se aproximava e que dificilmente sairia vivo do hospital. Mas, mesmo assim, estava tranquilo. Os militantes do partido se dividiram para acompanhá-lo e apoiá-lo. Revezavam com a família. Naquela tarde o grande revolucionário recebeu a visita de dois companheiros de longa data, que não tinham o mesmo prestígio no partido, mas haviam travado diversas lutas, vivido muitas experiências e se tornado amigos. Divertiram-se contando causos da vida e da militância: prisões, frustrações, derrotas, traições (políticas e amorosas), manobras partidárias, paixões antigas, amores fracassados e por aí vai. A conversa estava tão boa que o tempo passou rápido.

 

No começo da noite chegou um companheiro jovem. Tinha aproximadamente 50 anos a menos que o grande revolucionário. O companheiro jovem substituiria os outros dois. Só que, como a conversa estava boa, eles não foram embora imediatamente. Para encurtar o percurso e não aborrecer o leitor, basta dizer que o papo dos velhos incomodou o jovem. Era como se ele quisesse aproveitar os últimos minutos com o grande revolucionário. Queria ensinamentos e sugestões. Queria dicas de leitura. Queria, sobretudo, demonstrar o carinho e o respeito que sentia pelo grande revolucionário. Cada segundo perdido com futilidades e brincadeiras, sem falar da revolução, parecia um enorme desperdício para o jovem. Aqueles causos de gosto duvidoso sobre outros militantes e sobre o próprio partido irritavam o companheiro mais novo. Ele tentava mudar de assunto. Não tinha coragem de cortar a fala do grande revolucionário, apesar da vontade. Mas interrompia os outros. Quando um deles estava falando, o jovem dizia para todos: “companheiros, por favor!” Ele não completava a frase, mas era como se dissesse “companheiros, por favor, vamos mudar de assunto!” Foi inútil. Os outros seguiam papeando e contando histórias. Riam como se estivessem numa mesa de bar e não num leito de hospital. Apenas o mais novo não se divertia.

 

Quanto mais o jovem militante tentava mudar de assunto dizendo “companheiros, por favor!”, mais os outros riam e se divertiam. O jovem se viu forçado a elevar o tom de voz e a completar a frase: “companheiros, por favor, vocês podem me dizer exatamente qual é a minha tarefa, o que devo fazer? Daqui a pouco vocês vão embora e eu não sei o que fazer.” Todos se calaram. O silêncio foi rompido por um companheiro mais velho, que olhou fixamente para o companheiro mais jovem e perguntou: “não te disseram exatamente qual é a sua tarefa?” O jovem balançou a cabeça para os lados, negativamente. Depois corrigiu-se dizendo que a tarefa não estava muito clara, que precisavam discutir a questão, que não podiam perder tempo. Foi quando o interlocutor opôs o polegar aos outros dedos formando um círculo – como se segurasse algum objeto – e chacoalhou a mão. O companheiro mais jovem pareceu não entender. O companheiro mais velho olhou fixamente e disse: “isso mesmo que você tá pensando, sua tarefa é bater uma pra ele, ele não dorme sem uma boa punheta, daqui a pouco vamos embora e você pode começar.” O grande revolucionário conteve o riso. Os companheiros mais velhos idem. O jovem ficou espantado. Realmente a tarefa não estava clara, ou ele não tinha entendido bem. Realmente precisavam discutir a questão.

 

Mas a conversa esquentou novamente. Os velhos contaram outros causos e piadas. O jovem ficou calado. Vez ou outra o companheiro mais velho olhava para o companheiro mais jovem, juntava o polegar aos outros dedos formando um círculo – como se segurasse algum objeto –, chacoalhava e dizia: “sua tarefa, hein, não esquece!”  O grande revolucionário se esforçava para conter o riso. O jovem refletia.

 

No meio da noite os velhos companheiros se despediram do jovem militante e do grande revolucionário. Ao sair um deles opôs o polegar aos outros dedos formando um círculo – como se segurasse algum objeto – e repetiu chacoalhando a mão: “sua tarefa, não esquece!” Depois foram embora.

 

O jovem militante pediu licença ao grande revolucionário, foi até o corredor, se aproximou dos dois companheiros, opôs o polegar aos demais dedos formando um círculo – como se segurasse algum objeto –, chacoalhou e perguntou: “por que eu?” “É que você é novo e de confiança. Tem energia, é discreto e não tem preconceitos” – disse um. O outro assentiu e, para não cair na gargalhada, disse apenas “Exatamente!” Despediram-se outra vez. O jovem militante voltou para o leito do grande revolucionário. Os outros entraram no elevador e foram embora rindo.

 

O jovem militante sentiu raiva e orgulho ao mesmo tempo. Por que ele? Por outro lado, havia sido escolhido para uma tarefa delicada, o que era uma forma de reconhecimento. Mas ter o sexo do grande revolucionário entre os dedos não era o que ele planejava. Mais que isso, ocorreu-lhe que não sabia se devia executar a tarefa com o grande revolucionário na cama ou se precisaria conduzi-lo ao banheiro. Considerou a possibilidade de consultar a equipe médica. Mas lembrou se tratar de tarefa delicada, provavelmente secreta, designada para um militante “de confiança”, jovem, discreto, com energia e sem preconceitos. Aliás, quem teria executado a tarefa anteriormente? – pensou. Quem havia aliviado o grande revolucionário? Devia ter perguntado aos companheiros. Mas, enfim, pouco importava, o partido sabia o que fazia – tranquilizou-se.

 

Apesar do incômodo, a possibilidade de compartilhar um segredo e uma intimidade com o grande revolucionário parecia-lhe instigante, uma verdadeira honra, reconhecimento pela atuação no movimento estudantil. Ele não se dizia à disposição da revolução, do partido e do movimento? Ele não se autoproclamava livre da moral burguesa? Não daria a própria a vida pela causa? Um punheta era o mínimo que podia fazer. Além disso, ele realmente amava e admirava o outro. Estava disposto a dar a vida pelo grande revolucionário, pelo partido e pela revolução...

 

Não vou contar o desfecho da noite. O leitor que imagine o que aconteceu no leito do hospital entre o jovem militante e o grande revolucionário. Mas alguém pode perguntar: se ia omitir o final, por que começou a história? É que o desfecho não é o mais importante. O desencontro é o que importa. Seja qual for o final imaginado por cada um, o que ocorreu foi apenas um desencontro – geracional, estético, existencial, político – entre uma esquerda que está morrendo e outra que não sabe rir. Um desencontro – geracional, estético, existencial, político – entre uma esquerda que está desaparecendo e outra que leva absolutamente tudo a sério, não raro se transformando em piada exatamente por isso. 


Publicado originalmente no Passa Palavra

TRÊS PASSEIOS NO INFERNO

  

[...] Caminhava de pijama entre as estações de trabalho. Os aparelhos de ar-condicionado funcionavam com capacidade máxima, resfriando o ambiente. Tocava música estadunidense. Easy listening.  Era uma sala grande, sem divisórias, com luz artificial. Não enxergava nada além das estações de trabalho. Os homens vestiam terno e gravata. As mulheres usavam roupas sociais e cachecóis. Todos se alternavam entre os telefones e as telas dos computadores. Falavam alto. Procurou alguma estação de trabalho vazia. Não encontrou. Tinha tarefas urgentes por fazer. Não lembrava quais. Perderia o emprego. Ficaria sem salário. Não teria como pagar as contas. Seria processado. Seria despejado. Seria preso. Chamou as pessoas. Mas ninguém ouviu. Tocou no ombro de um homem. Teve a mão empurrada e afastada com força e agressividade. Quis se refugiar debaixo de uma estação de trabalho. Foi chutado pela funcionária que trabalhava sem parar. Tinha frio. Tinha família. Tinha medo. Estava perdido. Seria demitido. Ouviu passos firmes e ritmados de sapatos italianos. Era o chefe. Seria xingado. Seria humilhado. Então, puxou um homem da cadeira. Tentou arrancá-lo à força. Precisava trabalhar. Trocaram socos. Levou cabeçadas e cotoveladas. Desmaiou [...] Caminhava de cueca entre os consumidores. O chão era limpo, frio, brilhante. Inclinou-se para frente. Viu o próprio rosto refletido no piso. Estava descabelado e com olheiras, como se não dormisse há meses. Passou por famílias bem vestidas. Era um corredor sem janelas, com vitrines e luz artificial. Não enxergava nada além das lojas.  Namorados passavam de mãos dadas, alguns tinham 100 anos. Crianças passavam correndo. Mulheres passeavam com cães topetudos. Todos exibiam sorrisos branquíssimos. Havia câmeras a cada 2 metros. Havia alto-falantes anunciando promoções. Quis se refugiar na loja de tapetes. Mas estava de cueca. Foi enxotado. Não via o final do corredor. Não havia saídas laterais. Seguiu no sentido contrário das pessoas. Elas vinham. Ele ia. Elas avançavam. Ele voltava. Seria denunciado. Ouviu um chamado para os seguranças pelos alto-falantes. Teria pernas e braços algemados. Seria arrastado. Seria humilhado. Estava frágil. Estava exposto. Tremia. O coração batia 180 vezes por minuto. Com as mãos abria caminho entre as famílias, os namorados, as crianças e as mulheres que passeavam com cães topetudos. Corria. Fugia. Mas o corredor se estreitava cada vez mais. Gritou [...] Caminhava nu entre as camas simetricamente posicionadas. O ambiente era limpo, frio, brilhante. Os aparelhos de ar-condicionado funcionavam discretamente. Médicos e enfermeiros vestiam jalecos brancos. Faxineiros trabalhavam com roupas brancas. Lençóis brancos cobriam as camas brancas. Pacientes usavam camisolas brancas. Brancura do vazio. Havia aparelhos médicos, frascos com líquidos e televisores sobre todas as camas. Era uma sala imensa, com luz artificial. Não enxergava nada além das camas brancas. Gemidos e gritos se misturavam com os apitos dos monitores multiparamétricos e os sons dos televisores. Todos sintonizados num único canal. Transmitiam o mesmo culto religioso. Procurou uma cama vazia. Chamou as pessoas. Elevou a voz. Ninguém ouviu. Tocou no ombro de um médico. Foi ignorado. Tentou puxar um lençol para se cobrir. Não conseguiu. Tinha tosse. Tinha dores. Estava cansado. Estava morrendo. Estava nu. Queria deitar. Reuniu as últimas forças e correu até uma cama que tinha o televisor e os aparelhos desligados. Levantou o lençol branco. Encontrou um corpo frio. Empurrou. Socou com as duas mãos. Queria arrancar o morto da cama. Não foi possível. Como se o corpo estivesse amarrado. Fracassou. Embranqueceu [...]


Publicado originalmente no Passa Palavra


 SANTO

 

Um homem, afinal de contas, não devia conhecer tudo, sobressair-se em múltiplas atividades, iniciar a mulher nas energias da paixão, nos refinamentos da vida, em todos os mistérios? Mas aquele ali não lhe ensinava nada, não sabia nada, não desejava nada. Achava que era feliz; e ela o detestava por aquela calma tão assentada, por aquele peso sereno, pela própria alegria que ela lhe dava.

(Gustave Flaubert - Madame Bovary)

 

Estava no túnel de entrada para o segundo tempo da vida. Havia se acostumado com o substantivo masculino senhor. Em algum momento, talvez no terceiro quarto do primeiro tempo da vida passou, precocemente, a ser chamado de senhor. Não se incomodava. Era casado, tinha duas filhas e usava roupas discretas: sapatos e cintos da mesma cor, camisas por dentro da calça, blusas de lã com gola v. Mas, como registrou um escritor um pouco anterior ao nosso tempo: um dia surge o “por quê e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro.”

 

Era bancário. Fazia pagamentos e transferências. Os valores que movimentava na agência faltavam-lhe no bolso. Geralmente ficava sem dinheiro no meio do mês. Usava o cheque especial com a moderação permitida pela correlação de forças familiares. Na economia doméstica, ele era neoliberal, enquanto a mulher e as filhas eram neodesenvolvimentistas. Ele defendia o corte de gastos e o equilíbrio das contas. Elas exigiam a ampliação dos investimentos e das despesas sociais. Aquele lar era um bom exemplo de que as economias familiares não podem ser comparadas com as economias nacionais.

 

De manhã cedinho o cão o levava para passear. Às seis em ponto o animal corria e latia no quintal. Davam voltas no quarteirão até o cachorro se aliviar. Recolhia as fezes do animal e as depositava no cesto de lixo, devidamente embrulhadas. Daí seguiam para a padaria. Amarrava o cachorro e comprava pães para o café da manhã. Depois deixava as filhas no colégio e seguia para o banco. Às vezes fazia horas extras. Nesses dias ajudava a preparar o jantar, lavava a louça e dormia. Quando chegava no horário normal, aproveitava para assistir TV com a família. Não gostava de novelas, mas elas o faziam relaxar e esquecer o dia a dia, além de proporcionarem algum contato com a mulher e as filhas, que exigiam silêncio quando ele puxava assunto. Às vezes se repreendia por falar sempre na hora errada. Às vezes se retirava e ia para o quintal brincar com o cachorro, se acalmava e voltava. Era o melhor amigo do cão. Às vezes tentava colocar o animal dentro de casa, mas era repreendido pela esposa. Se pudesse, pelo menos, acompanhar a novela junto com o cão... Às vezes tinha vontade de assistir telejornais e programas esportivos, mas declinava para não contrariar a esposa e as filhas. Nem cogitava a possibilidade de assistir telejornais e programas esportivos no quarto, longe da mulher e das meninas.

 

Duas vezes por semana buscava as filhas no balé. Não se incomodava com o trânsito parado. Mas, nas apresentações semestrais, no ginásio do clube, esforçava-se para não cochilar, e aplaudia coreografias que não entendia. Pensava ser a desvantagem de ter filhas. Assistir um filho jogando futebol talvez fosse mais interessante – cogitava sem muita convicção. Queria tentar mais uma gravidez, quem sabe viesse um menino, mas a esposa não aceitava.

 

Aos sábados fazia pequenas manutenções na casa. Sempre sob supervisão crítica da esposa, que reclamava das limitações dele como reparador de interiores e exteriores. Ela dizia que qualquer homem da família dela faria o mesmo trabalho melhor e mais rápido. Ele trocava o telhado, pintava a fachada, limpava a caixa d’água, consertava o portão automático. À noite saía com a família. Deixava a mulher e as filhas escolherem o restaurante, em geral elas escolhiam algum shopping da cidade, para jantar e ir ao cinema. Ele não se incomodava com as filas e a lotação, nem se irritava com a dificuldade para estacionar. Elas desciam e faziam compras enquanto ele esperava aparecer alguma vaga no estacionamento, assim a mulher e as filhas aproveitavam melhor os passeios. Além de fazer compras, elas gostavam de filmes de ação. Ele não tinha preferências. Quando enjoava dos filmes que elas escolhiam, se escondia atrás dos óculos 3D e dormia. As filhas diziam que o pai vivia cansado, que só dormia. Ele concordava e ria: era verdade!

 

Aos domingos jogava futebol. Mais importante era papear com amigos depois da pelada. Mas tinha pouco tempo. Almoçava na casa da sogra. Era sempre o primeiro a deixar o clube. Saía antes de terminarem as primeiras cervejas. Porque começava a sentir dores nos joelhos e tinha que almoçar na sogra, pensou em largar o futebol. Apesar de não atrasar mais que quinze minutos, quando chegava na casa da sogra era lembrado de que o almoço já estava pronto, sendo interpelado por olhares inquisidores. Elas perguntavam por que ele continuava correndo atrás de bola, se já não tinha mais idade.

 

Nos almoços dominicais, depois do macarrão vinha um assado, frango ou carne de boi, mais raramente costelinhas de porco; depois do macarrão e do assado vinha a sobremesa, geralmente pudim de leite condensado, porque as meninas gostavam; depois da sobremesa vinha o café; depois do café vinha o dominó, que jogavam até anoitecer, deixava a sogra e as filhas ganharem. Alegrava-se com a alegria delas.

 

Nos aniversários era sempre ele que puxava a parte do “e pra fulana nada”, ao que as demais respondiam “tudo”, ele perguntava “então como é que é?”, e elas retrucavam com “é pique, é pique, é pique, é pique, é pique.” É graças a homens como ele que, em nenhuma mesa e em nenhum salão, nunca o “parabéns pra você” parou no meio por falta de alguém que emende o “e pra fulano nada?”.  Estranho acordo ontológico, mesmo sem nenhum contato prévio e sem nenhum treinamento, sempre haverá alguém para dizer “e pra fulano nada”. O que faz um homem saber que chegou a sua vez de ser protagonista no “parabéns pra você”? Seja como for, o fato é que tais homens são as vigas de sustentação das famílias.

 

Quando as filhas brigavam porque uma queria ir ao shopping e a outra à pizzaria, ou porque uma não queria que a outra usasse suas roupas, ou porque uma acusava a outra de bagunçar o quarto, ou porque uma dizia que a outra tinha comido todo pudim de leite condensado: ele intervinha. Explicava calmamente que elas eram irmãs e precisavam se entender, que uma tinha razão, mas a outra também, que o papai amava as duas igualmente. Não raro acontecia das irmãs, com apoio da mãe, se juntarem contra ele. As brigas nunca começavam com ele, mas costumavam se virar contra ele: como se o pai fosse culpado pelos desentendimentos e por todos os problemas da família e do mundo. Era como culpar um pernilongo por uma hemorragia. Ele desconhecia a comparação, mas certamente estaria disposto a aceitar que um pernilongo pode causar uma hemorragia, especialmente se fosse para acalmar os ânimos familiares. Ele era um pernilongo que nem picava nem fazia barulho, mas, às vezes, mulher e filhas tinham vontade de esmagá-lo com as mãos.

 

Vendeu um dos carros para bancar a lipoaspiração e o silicone da esposa. Ficou sem o veículo que usava para se locomover, mas a alegria da mulher compensou com vantagem o esforço para enfrentar o transporte público, mesmo nas épocas de chuva. O que era um sapato molhado durante todo o dia perto da alegria da esposa? O que eram duas horas chacoalhando nos coletivos perto da felicidade dela? Podia ouvir música pelo fone. Usava o tempo disponível para pensar na família e planejar o futuro.

 

Com a cintura fina, as pernas torneadas, os peitos duros e duas horas diárias de academia, a esposa passou a implicar com a barriga dele. Havia tantos homens que estavam melhor que ele, uns 60 só no clube – pelas contas dela. Um homem que não se cuida não merece uma mulher bem cuidada – dizia a esposa. Ele concordava e prometia se matricular na academia, ou, pelo menos, comprar uma bicicleta ergométrica e um banco de supino. Faltava-lhe tempo e energia. Mas sabia que ela tinha razão. Desconfiava, inclusive, que no clube havia mais de 60 homens que estavam melhor que ele, o número era arbitrário, bondade e complacência da esposa. Sentia ciúmes dos homens que estavam melhor que ele, especialmente aqueles 60 ou mais. Sonhar com o barulho de pernilongo pode significar que há pernilongos no quarto. Mas ele tinha certeza de que a mulher nem reparava nem se interessava por outros homens, se falava deles era para incentivá-lo a se cuidar. Estava realmente barrigudo e fora de forma. Ela tinha razão. Estava corretíssima.

 

É verdade que reparava em outras mulheres. Nutria algum interesse por dormir com outra mulher. Era o invariável desejo de variar. Inclusive porque a esposa foi a primeira e a única namorada dele. Mas o receio de magoar a mulher e as filhas o continha. O risco não compensava o investimento – pensava aquele trabalhador da área financeira. Sou casado, minha vida é boa, não posso arriscar – dizia para si próprio. Foi legítimo herdeiro da tradição inaugurada por Charles Bovary, apesar de não conhecer literatura nem ter tempo para livros. Enfim. O bovarismo – entendido como alteração do senso de realidade – foi pensado a partir de Emma Bovary, mas é preciso estudar o fenômeno também a partir de Charles Bovary.

 

Certa vez precisou renovar documentos e certidões. Pediu liberação do trabalho no período da manhã e agendou a visita ao posto de atendimento. Passeou com cão. Comprou os pães. Foi a pé renovar os documentos e as certidões. Era a primeira quebra de rotina em muitos anos. Constatou que as ruas em que crescera estavam lotadas de edifícios e automóveis. No posto de atendimento foi solicitado a confirmar as informações pessoais anotadas pela atendente. Data de nascimento: correto. Pai: correto. Mãe: correto. Estado civil: correto. Cor dos olhos: correto. Cabelos... Grisalhos? Foi quando surgiu-lhe o por quê. Sentiu, espantado, a passagem do tempo, como se tivesse ficado grisalho naquela manhã. Por que o tempo passa tão rápido? Convivia com o substantivo senhor, mas era a primeira vez que se deparava com o adjetivo grisalho. Tinha algumas dezenas de cabelos brancos, era fato, mas nunca havia sido chamado de grisalho.  


Publicado originalmente no Passa Palavra


CAROLINA E JESUS

 

I

 

Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel. Catá papel...

 

– Nossa. Que barulho é esse? O que é isso?

 

– Desossá papel. Comê sopa de osso de papel. Dá sopa de osso de papel pras crianças. A fome é amarela. A fome amarela. A fome é professora.

 

– Mas o espírito é mais importante do que o alimento. Nunca se esqueça disso.

 

– Espírito? Milhões de pessoas no mundo, a maioria passa fome. Quem não come não caga. Barriga vazia é tortura.

 

Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia. Todo dia...

 

– O que é isso? É um trem?

 

– Metê o pé na lama. Metê o pé na água pra buscá água às quatro e meia da manhã. Lavá roupa no rio. Candidato canalha pedindo voto na porta do barraco. Surra de marido em mulher. Cachaça, muita cachaça.  Muita cachaça, muita merda. Prostituição. Peixeira cortando gente. Polícia, muita polícia. Quanto mais polícia, mais merda. Vizinho jogando merda nos meus filhos. Fome. Tenho três crianças pra alimentá. Filho com fome dói. Filho perguntando se tem mais comida dói. Nunca tem mais. Esse “tem mais comida?” é uma mosca na minha orelha. Tontura de fome é fogo. Tortura.

 

Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia. Barriga vazia...

 

– Que barulho é esse? Outro trem?

 

– Catei lixo, catei tudo, menos a felicidade. Quero morrê. Vô me jogá na frente do trem.

 

– Nunca diga isso!

 

– Cadê você? Não me abandone.

 

– Estive, estou e estarei sempre contigo. Quem crê em mim nunca está sozinho. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai, senão por mim. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. Se você estiver em mim e as minhas palavras estiverem em ti, peça o que quiser.

 

– Metê palavra no papel. Ganhá dinheiro com meu livro, com minhas palavras. Saí desse inferno. Dá de comê pras crianças.

 

II

 

– Tudo é possível para quem crê. A fé remove montanhas. O reino de Deus tá dentro de você. E agora você tá no jornal, na revista, na imprensa. Vai vendê muito livro. Parabéns.

 

– Metê palavra no papel. Comê carne de palavra. Dá de comê pras crianças.

 

– Isso!

 

Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel. Vendê papel...

 

– Perfeito!

 

– Catá papel. Metê palavra no papel. Vendê papel com palavra. Vendê palavra e papel. Comê carne de palavra.

 

– Milhares de livros vendidos.  Tradução em outros idiomas. Parabéns!

 

– Comprá roupa e sapato bom. Comprá livro bom, não sei dormir sem ler. Comprá casa de tijolo. Adeus, Favela do Canindé. Adeus, quarto de despejo. Adeus, barraco de tábua. Viajá pro Chile e Argentina, Europa e América Latina. Costurá a vida com pedaço de céu, com pedaço de nuvem, com pedaço de estrela. O futuro é azul. Obrigado, Senhor.

 

III

 

– Cadê o jornal? Cadê a revista? Cadê a imprensa? Preciso vendê meu livro! Esqueceram meu livro? Ninguém fala do meu livro! Metê palavra no papel e morrê de fome?

 

Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda. Fome é foda...

 

– O que é isso? Que barulho é esse?

 

– De novo não. Me ajuda. A fome é a dinamite do corpo humano.

 

– Estive, estou e estarei sempre contigo. Deus não dá mais do que você pode carregar.

 

– Barraco de favela é cinza. Lixo é cinza. Fruta podre é cinza. Ratazana é cinza. A vida é cinza. O prefeito da favela é o diabo.

 

– Nunca diga esse nome!

 

– Tontura de fome é fogo. É tortura. A fome é amarela. Tá tudo amarelo.

 

– Cuidado! Essa faca! Larga essa faca! Me dá essa faca!

 

Tem gente com fome. Tem gente com fome. Tem gente com fome. Tem gente com fome. Tem gente com fome. Tem gente com fome. Tem gente com fome...

 

– Calma! Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao. Ai.

 

IV

 

Um dia depois jornais noticiaram que uma mulher esfaqueou, matou e comeu partes de um homem não identificado.

 

Familiares e amigos não compareceram para reconhecer o corpo. Peritos não conseguiram identificar a vítima.



Igreja de São Francisco de Assis - Salvador/BA



 MEIA LUA

 

Refugiamo-nos no amor,

este célebre sentimento,

e o amor faltou: chovia,

ventava, fazia frio em São Paulo.

 

Fazia frio em São Paulo...

Nevava.

O medo, com sua capa,

nos dissimula e nos berça

(Carlos Drummond de Andrade – O medo)

 

Morava há meses na praça central de São Paulo: com as garotas de programa, os cães, os pombos, a base da polícia, as palmeiras imperiais, as lojas, os pastores, os traficantes, os vendedores ambulantes, o chafariz, a estação do metrô, a catedral e o marco zero da cidade. Conhecia alguns bairros de São Paulo. Morou em outras praças e ruas. Mas preferia a Sé. Não pelo local em si, nem pelo fluxo de pessoas, nem pelas possibilidades comerciais. Preferia a Sé pelos companheiros que encontrou por lá. Nunca tinha experimentado tanta camaradagem. Como era novo na região e às vezes passava noites observando o céu, ganhou o apelido: Meia Lua.  

 

A notícia se espalhou rápido: uma doença estava matando as pessoas. Covid-19. Coronavírus. Pandemia. Palavras que assustavam. Era preciso redobrar os cuidados higiênicos: lavar as mãos, não tocar o rosto. Quem tivesse família devia retornar para casa. Diziam até que a prefeitura criaria abrigos para a população de rua.

 

Meia Lua notou uma significativa diminuição do movimento no semáforo em que vendia balas. Os poucos motoristas que paravam se protegiam atrás dos vidros. Decidiu não incomodá-los. Interrompeu as vendas.

 

O comércio fechou. As esmolas acabaram. Os espaços culturais cancelaram as atividades. As garotas de programa deixaram de atender. As pessoas evitavam contatos físicos. A polícia parou de expulsar os moradores de rua da praça nas primeiras horas da manhã. A catedral interrompeu as missas, apenas o sino continuou ecoando. Mas voluntários mantiveram a distribuição de alimentos aos necessitados, e o porteiro de um estacionamento morava no imóvel e deixava os ex-companheiros usarem o banheiro, normalmente.

 

Quando viu pessoas circulando mascaradas, Meia Lua achou que tivesse a ver com o frio fora de época, e comentou com os companheiros, que se divertiram. “Ê Meia Lua! É a doença!” – disse o Noca, rindo. Tentou se explicar, depois quis desconversar, mas não teve jeito, virou motivo de chacota. Os companheiros se divertiam sempre que passava alguém usando máscara. Diziam “que frio” e riam. No início, Meia Lua se irritava, mas acostumou com os gracejos, se divertia com a alegria dos companheiros, ria com eles.

 

Há tempos não recebia notícias dos familiares. Desejava que estivessem bem. Achava estranho. De um dia para o outro, quase sem perceber, um pouco por acaso e um pouco por descuido, perdeu o contato com a mãe e os irmãos. Dormia na praça central da maior cidade do país e não sabia onde encontrar os familiares. Teria algum deles voltado para o sertão? Quando a saudade apertava, Meia Lua se posicionava próximo à saída principal do metrô, e observava os transeuntes. Um conhecido talvez passasse por ali. Ele pediria notícias, apresentaria os companheiros, contaria por onde andou e o que fez. Nunca mais perderia o contato com os familiares. Meia Lua espiava as pessoas com olhos aflitos. Comovia os companheiros. Todos sabiam o que ele sentia. Também eles haviam passado pela mesma fase. Quem vinha morar na praça central da cidade costumava passar horas observando as pessoas que saíam do metrô. A cena era ainda mais triste no tempo da pandemia. As poucas pessoas que passavam por ali usavam máscaras, como se não quisessem ser reconhecidas. Meia Lua mirava o vazio, como um náufrago. “Ê Meia Lua! Vem pra cá!” – chamavam os companheiros quando a cena se tornava excessivamente melancólica.   

 

Com o avanço da pandemia, quem pôde deixou a praça. Piauí conseguiu dinheiro com um amigo e foi para o interior. Os mais velhos convenceram o Babão a procurar os tios. Mas alguns não tinham para onde ir, nem queriam se afastar dos companheiros.

 

Era outono. O vírus percorria a cidade. O trânsito quase parou. Ouviam-se apenas as sirenes das ambulâncias. Os finais de tarde eram vermelhos. As noites eram geladas. Meia Lua observava as estrelas. Nunca tinha visto o céu de São Paulo tão estrelado. Parecia que estava num pequeno povoado do interior. Ele queria falar sobre as estrelas, queria mostrá-las aos companheiros, mas não interrompia o sono deles. Não sabia ao certo o que dizer e não tinha certeza: via estrelas ou sonhava com o sertão? 





Publicado originalmente na Revista Aroeira

 MULHERES

 

Maria, das muitas que rolam pelo mundo.

Maria pobre. Não tem casa nem morada.

Vive como quer.

Tem seu mundo e suas vaidades.

(Cora Coralina)

           

I

Vila Bela é cercada por serras e cortada por rios. As águas escorrem pela mata, lambem as pedras, matam a sede dos bichos, formam o Rio Claro. Os verões são chuvosos. Os inversos são secos. Fauna e flora são fartas. O calor é espesso e paralisante. Nas horas mais quentes os homens, as mulheres e os animais se refugiam nas sombras. As chuvas são concentradas e volumosas, é quando o Rio Claro encorpa.

 

A agonia de Vila Bela começou com a fundação, pouco tempo depois que o primeiro bandeirante encontrou ouro no leito do Rio Claro. A notícia se espalhou rapidamente. Bandeiras já haviam se instalado em outros pontos do país. Segundo a crença da época, havia riqueza no interior do continente. Exploradores se valeram dos rios que correm para o interior e de antigas trilhas para chegar a Vila Bela.

 

Os povos nativos foram escravizados e dizimados. Fugitivos, aventureiros e religiosos não paravam de chegar a Vila Bela. Para garantir sua parte no butim, a coroa portuguesa enviou generais, superintendentes, ouvidores e juízes. A capela foi erguida, derrubada e transformada na igreja da matriz, posteriormente. Cadeia, câmara e pelourinho foram construídos. A cidade cresceu em volta do Rio Claro. As linhas retas das casas contrastam com as curvas percorridas pelas águas. Praças e pontes foram edificadas. Ruas foram dispostas em linha reta, ligavam os largos e os logradouros públicos, às vezes passando sobre pontes. A casa de fundição foi construída perto do quartel. Surgiram confrarias e irmandades, escritórios e fontes, casas de comércio e de prostituição.

 

Com o avanço da mineração, exploradores trouxeram homens escravizados para trabalhar nos garimpos. Eram forçados a perfurar as margens e britar as pedras dos rios, sob pena de serem açoitados no pelourinho. Os proprietários de escravos elegiam os oficiais municipais e davam ordens à força pública, que não hesitava em prender e torturar os povos nativos e os homens escravizados.

 

O Rio Claro foi violado, ficou turvo. Pedras foram reviradas. Bancos de areia foram escavados. Os homens abriram veios e picadas nas margens. Desviaram as águas. Barrancas foram cavoucadas. A autópsia do rio foi feita com peneiras, vasilhas, enxadas e unhas. Foi quando teve início o levante das águas. O Rio Claro era calmo e cristalino antes da chegada do garimpo, depois escureceu, ficou revolto e vingativo, engoliu homens e animais de estimação, invadiu o casario e as ruas, derrubou paredes e pontes, carregou móveis e utensílios domésticos.

 

II

No auge da mineração e ao lado do Rio Claro foi construído o Casarão. Ali moraram o Capitão-mor da Coroa Portuguesa e o Secretário do Governo da Capitânia, nomes másculos e maiúsculos. Há muitos quartos e muitas janelas, um porão, portas enormes e quintal vasto: com legumes, frutas, flores, pássaros e uma nascente. As águas do Rio Claro margeiam o quintal. No auge da mineração havia prataria e espelhos nas paredes do Casarão, na sala principal um grande relógio indicava a passagem do tempo e dos homens.

 

Antes de se matar tomando veneno, para não ser preso e enviado a Portugal por sonegação de impostos, um certo Joaquim Antunes teria enterrado barras de ouro no porão da casa. O boato sobrevive há séculos.

 

Também morreu na casa um homem negro escravizado, Manoel Nascimento. Fugiu do cativeiro, se refugiou no porão. Não se sabe com consentimento de quem. Foi encontrado e cercado. Não se rendeu. Abriu a própria barriga à faca, morreu com as vísceras nas mãos, como se as ofertasse aos perseguidores.

 

Tempos depois. O porão foi usado para castigar crianças mal comportadas. Elas temiam ficar sozinhas no cômodo pouco iluminado e frequentado por fantasmas.

 

Na segunda metade do século XIX, o Casarão foi adquirido por um comerciante da região, Otávio Guimarães, que viveu no imóvel com a mulher e os quatro filhos. A caçula veio ao mundo quando a escravidão havia sido abolida. Foi a única que nasceu no Casarão. Já não existia ouro no Rio Claro e Vila Bela empobrecia rapidamente.

 

Com esgotamento da mineração, muitos proprietários deixaram a cidade, levando seus capitais e suas tropas de homens escravizados. Os povos nativos tiveram certo alívio. As águas do Rio Claro desturvaram e se acalmaram. Igrejas caíram. Casas imensas foram atravessadas por goteiras. Relógios enferrujaram. Espelhos quebraram. Quintais foram fatiados. Sem renda, famílias desmembraram terrenos, que foram vendidos e alugados. A cidade cresceu para trás. Mangueiras, jabuticabeiras, goiabeiras foram cortadas para dar lugar a pequenos cômodos no fundo dos sobrados, onde se instalaram ex-escravizados, em geral eram velhos e doentes, pessoas que não davam o retorno requerido pelos senhores de escravos e que não tinham condições para abandonar a cidade.

 

Os becos se reproduziram sem parar, como os ratos, atrás do casario. Na frente, ruas retilíneas e fachadas que ostentavam riqueza dos tempos da mineração, com janelas vastas e cortinas claras. No fundo, becos estreitos e curvos, com cômodos apertados e portas remendadas, legado da miséria escravista.

 

As casas de Vila Bela foram desenhadas com linhas retas. Os becos cresceram de forma anárquica, sinuosos como os rios, as serras e os ventos. Com o esgotamento do ouro, a economia regrediu. Casas de comércio e até de prostituição foram fechadas. As pessoas se alimentavam de pequenos animais, peixes e frutas das árvores que sobreviveram nos quintais dos sobrados, às vezes entre ruínas e cascalho.

 

Foi quando Otávio Guimarães dobrou a aposta nos negócios que herdara do pai. Na crise muitos perdem, mas alguns ganham – dizia. Os Guimarães enriqueceram vendendo para exploradores, aventureiros, religiosos e senhores de escravos. Comercializavam alimentos, roupas, animais e até ferramentas utilizadas nos garimpos. Chegaram em Vila Bela na primeira metade do século XVIII, com o esgotamento do ouro e a quebradeira que veio depois, Otávio Guimarães vislumbrou a possibilidade de ampliar os negócios. Não fatiou o quintal do Casarão nem alugou quartos. Aquela casa deveria ser, para sempre, a residência dos Guimarães. Tinha convicção de que prosperaria. Trouxe professores de arte e de francês para ensinar as crianças. Apoiou o partido liberal. Adquiriu comércios insolventes. Ampliou os negócios. Comprou e revendeu fazendas e imóveis.

 

III

Quando pequenos, os irmãos brincavam no quintal: corriam na terra, subiam nas mangueiras, escondiam-se nas sombras, refrescavam-se na nascente. A caçula, Laura Guimarães, era ensimesmada. Preferia desenhar e ler. Lia tudo que podia. Passava horas desenhando. Frequentava a biblioteca da cidade. Cedo registrou impressões num diário, que escondia no porão. Com 15 anos enviou um poema para um concurso literário. Quando o pai ficou sabendo, entrou em contato com a comissão organizadora e mandou retirar o trabalho da filha, que ameaçou fugir e ficou uma semana sem comer.

 

Crescidos, os filhos da família Guimarães seguiram caminhos previsíveis. O irmão ajudava o pai nos negócios. As irmãs namoravam homens de famílias razoavelmente abastadas. Laura Guimarães sabia o que o destino lhe reservava. Seria apresentada e casada com algum homem influente. Tinha asco dos bailes organizados pelo pai. Queria fugir. Mas não tinha sequer saído de Vila Bela. Ia, no máximo, do Casarão para as fazendas da família, nos finais de semana. Conhecia o mundo pelos livros, apenas. Não sabia ao certo o que queria. Sabia exatamente o que não queria. Não casaria com um vilabelense provinciano e ignorante.

 

Fernando Bretas advogava no Rio de Janeiro. Era um homem com futuro profissional. Representava os principais fazendeiros do país. Visitar clientes no interior era parte do negócio. Passava dias em trens e no lombo de cavalos. Demorou uma semana para chegar em Vila Bela. Foi recebido pessoalmente por Otávio Guimarães, que hospedou o visitante num dos quartos do Casarão. Fernando Bretas avaliou o preço e a documentação da fazenda que o comerciante Otávio Guimarães compraria do comendador Olegário Gomes.

 

Na primeira noite do advogado em Vila Bela, o comerciante mandou abater e assar uma leitoa. Fernando Bretas jantou com a família Guimarães. Para o dia seguinte, o patriarca designou dois cavalos e um funcionário para passear com o visitante pela região. Queria mostrar as riquezas e a opulência do lugar.

 

Mas não foram as serras, nem o casario colonial, nem o Rio Claro, nem as fazendas que chamaram a atenção do advogado. Ele disfarçava cada vez menos os olhares que direcionava para Laura Guimarães. Tentava evitar, mas não conseguia distrair os instintos. Ela não tinha 18 anos. Ele era homem feito. Mas quando ela acariciava as coxas para ajustar o vestido e sentar, ele não conseguia deixar de olhar fixamente. Imaginava os traços principais do corpo dela. Pensou em convidá-la para um passeio.

 

No início, os olhares de Fernando Bretas incomodaram Laura Guimarães. Mas acostumou-se. Ele a fixava como se fosse um caçador. Ela não correspondia aos olhares do advogado. Mas alisava os cabelos e acariciava as coxas para ajustar o vestido. Seduzir aquele homem se tornou, para ela, uma possibilidade. Era uma forma de se vingar de Vila Bela, do pai e dos bailes que aconteciam no Casarão.

 

Na única vez em que Laura Guimarães correspondeu aos olhares de Fernando Bretas, estavam no quintal do Casarão. Ele contemplava as árvores frutíferas. Ela passou e foi sentar-se no banco, a poucos metros dali. Olharam-se por segundos. Até que ela seguiu para o porão e ele foi atrás. Sem palavras, segurou-a pela cintura e a apertou contra a parede. Beijou-lhe a boca e o pescoço. Lambeu-lhe o rosto. Colocou a coxa entre as coxas dela, com força. Ela se desvencilhou e saiu.

 

O advogado ficou no Casarão mais alguns dias. Fernando Bretas e Laura Guimarães não voltaram a se tocar, nem trocaram palavras ou olhares. Ela evitava os olhos dele. Ele procurava os olhos dela. Seguia-a com o olhar. Insistia. Ela não retribuiu. Fernando Bretas fez a viagem de volta pensando na filha caçula da família Guimarães. Ela também pensava nele. Parecia corajoso e decidido. Pouco tempo depois, começaram a se corresponder. Fernando Bretas escrevia sobre fatos sucedidos na capital do país. Laura Guimarães escrevia sobre o tédio que sentia nos bailes que ocorriam no Casarão. Ele tinha ciúmes dos homens vilabelenses. Imaginava ela nos braços de outro. Sofria. Ela queria respirar novos ares. Imaginava a vida na cidade grande. Sonhava.    

 

As pequenas confissões avançaram para declarações de amor. Ele se comprometia a pedir a mão dela ao pai, formalmente. Viveriam no Rio de Janeiro, ou, talvez, em Vila Bela. Ele transferiria o escritório para a cidade. Ela não queria esperar nem contar com a complacência do pai. Se a amava de verdade, que a levasse para a capital do país. Ele via nela o esteio de fixação na vida adulta. A superação das aventuras fugazes. A realização. A maturidade. Os filhos. A família. Ela via nele a chance de se libertar de Vila Bela, do pai e dos bailes que aconteciam no Casarão. O novo a atraía.

 

Foi numa noite clara de primavera. Fernando Bretas esperou Laura Guimarães atrás do Casarão, num dos muitos becos de Vila Bela. No horário combinado, ela apanhou os poucos pertences que levaria, atravessou o quintal e encontrou com ele. Beijaram-se com pressa e ganharam o mundo. Atravessaram cidades e estradas antes de chegar ao Rio de Janeiro. Ela deixou uma carta, escreveu que conheceria outros lugares e que voltaria. A família e a cidade renegaram Laura Guimarães, que virou um nome proibido na região. O pai dizia preferir reencontrar a filha morta, antes enterrá-la do que recebê-la de volta. Mas estava certo de que, em breve, ela se arrependeria e voltaria.

 

Fernando Bretas rapidamente se deu conta de que não conhecia alguns hábitos de Laura Guimarães. Manias que ele não imaginava e que não haviam sido informadas nas cartas que trocaram. Ela pedia livros e jornais. Instalou um ateliê num dos cômodos da casa. Passava as tardes e as noites pintando. Ele não se incomodava e se orgulhava do talento da mulher. Até que Laura Guimarães passou a fazer contatos e a freqüentar grupos de artistas. Não raro era a única mulher nas rodas e nos cafés. Há uma foto antiga, com poetas da época, em que ela é a única mulher, aparece ao fundo, como se fosse alguma desavisada que tivesse se metido no retrato por engano, atrapalhando um registro que ficaria para a posteridade.

 

A situação começou a incomodar Fernando Bretas. Liberalismo tem limites – pensava. Uma mulher pintar vá lá, mas frequentar grupos de artistas e receber homens em casa... Refletiu e decidiu. Conversaria com ela. Mediu as palavras. Deu tempo ao tempo. Procurou-a. Depois de rememorar tudo que tinham vivido, desde o encontro em Vila Bela até a chegada no Rio de Janeiro, projetou o que teriam pela frente, especialmente as viagens e os filhos que fariam. Enfatizou o quanto a amava. Mas ela precisava mudar. Porque não caía bem uma mulher passar mais tempo no ateliê do que com o marido. Ela ouviu. Não respondeu. Nem mudou de atitude. Pelo contrário, dobrou a aposta, naquela época vendeu seus primeiros quadros.

 

Fernando Bretas ficou indignado. Refletiu e decidiu. Aquilo não podia continuar. Conversaria novamente com a mulher. Calibrou as palavras e as idéias. Falou sobre tudo o que tinham vivido e que viveriam, as viagens e os filhos que fariam. Explicou que não tinha nada contra e até admirava os quadros que ela pintava, apesar de serem um tanto sombrios. Mas ter uma mulher pintora, que frequentava grupos de artistas e vendia quadros atrapalharia a carreira dele. Como fariam para se manter caso os negócios dele fossem prejudicados. Ela ouviu. Ele se irritou e sintetizou a mensagem em uma frase: “Ou a pintura ou eu!”

 

Laura Guimarães não respondeu com palavras nem imediatamente. Vendeu os trabalhos que havia concluído. Contou as economias. Fez contatos. Embarcou para a Europa. Ficou um mês e meio no navio. Passava o tempo lendo, desenhando e esboçando os trabalhos que realizaria quando se estabelecesse.

 

Numa manhã de verão. Fernando Bretas beijou Laura Guimarães e foi para o escritório. Quando voltou, a casa estava limpa e organizada, mas sem os pertences da mulher. Desesperou-se. Procurou os amigos dela. Mas não recebeu notícias. Foi a delegacias e hospitais. Mas não a encontrou. Só havia uma possibilidade. Laura Guimarães teria voltado para Vila Bela. Sem querer e sem alternativas, escreveu para o pai dela. Foi a primeira notícia que a família recebeu da filha. Mas ela não tinha voltado para Vila Bela.

 

Em Paris, Laura Guimarães seguiu o roteiro previsto. Instalou o ateliê, se aproximou dos grupos de artistas e pintou. Os quadros chamaram a atenção do público especializado. Ela pintava quase sempre com tons de preto e vermelho. Pequenas cidades pretas cortadas por rios vermelhos. Mulheres pretas lavando roupas vermelhas. Becos pretos com crianças vermelhas. Céu preto com pássaros vermelhos. Lixeiras pretas reviradas e percorridas por ratos vermelhos.

 

Rapidamente se estabeleceu. Vendeu quadros e alugou um ateliê maior. Participou das rodas de artistas, da boemia e dos movimentos da época. Escreveu manifestos e colunas de jornal. Conheceu os cinco continentes. Expôs em muitas cidades, inclusive algumas brasileiras. Recusou todos os convites para expor em Vila Bela. Quando perguntavam sobre a cidade natal dela, dizia que era do mundo. Residiu em Paris, Londres, Barcelona, Milão e Berlim. Morou com escritores e intelectuais. Nos jornais era descrita como a pintora triste dos trópicos.

 

Fernando Bretas escrevia para a Laura Guimarães sempre que lhe descobria o paradeiro. Parabenizava a mulher pelo sucesso. Elogiava os trabalhos dela... Dizia que estava arrependido...  Aceitaria ela como ela era... Organizaria uma exposição com trabalhos dela... Teriam filhos... Pedia desculpas... Que voltasse logo... Queria visitá-la... Ela nunca respondeu. Fernando Bretas e a família Guimarães recebiam notícias dela pelos jornais, apenas. Otávio Guimarães morreu por aquela época, mas enquanto viveu, quando lhe mostravam reportagens e matérias sobre a filha, dizia que não conhecia aquela mulher.

 

IV

Quando pequenos, brincavam nos becos de Vila Bela: entre lampiões, prostitutas, malandros e animais de estimação. Ele era poucos anos mais velho que ela. Ambos descendiam das mulheres e dos homens escravizados e trazidos para Vila Bela no tempo do ouro. José da Silva foi pedreiro e, aos vinte e cinco anos, tornou-se soldado da força pública. Maria Imaculada bordava, nunca abandonou o ofício.

 

Ele se considerava um exemplo de que o trabalho enobrece o homem, de que quem acredita sempre alcança, de que a ordem é fundamental e, sobretudo, de que Deus é bom. Dizia, sempre, que o importante era amar o próximo, a solidariedade, a pátria, o bem, a família, o trabalho, a ordem e Deus. Eram os conselhos que dava aos garotos quando se tornou soldado. Havia mães que pediam para José da Silva orientar os filhos. O soldado Silva contava sua história de menino pobre do beco que conseguiu progredir, também falava dos homens de fibra que haviam fundado Vila Bela, que encontraram ouro, que catequizaram os índios, que expulsaram vagabundos, que construíram igrejas e capelas.

 

Maria Imaculada passava o tempo bordando. José da Silva às vezes encontrava com ela nas ruas, praças e becos de Vila Bela. Interessou-se pela discrição dela. Primeiro puxou conversa. Depois ofereceu doces que comprava especialmente para ela. Até que tomou coragem e convidou-a para conhecer um lugar especial.

 

No dia seguinte caminharam pela estrada e entraram numa trilha discreta e estreita. Alguns metros à frente havia quedas d’água e piscinas naturais. Maria Imaculada não suspeitava que, um pouco acima de Vila Bela, o Rio Claro formava paisagens tão deslumbrantes. José da Silva conhecia bem o local, nadava e caçava naquela região. Contemplaram o cair da tarde, o pôr o do sol e se tocaram pela primeira vez.

 

Casaram tempos depois. José da Silva usou as economias de que dispunha para comprar uma pequena casa que ele próprio reformou. Maria Imaculada seguiu bordando panos de prato, toalhas e peças do vestuário. De manhã cedo, antes que ele saísse para o trabalho, ela já estava bordando. Ele fazia rondas por ruas, largos, praças e nas margens do Rio Claro; parava para tomar água e café nos bares da cidade; conversava com os comerciantes, farmacêuticos e doceiras. Ela passava linha e agulha pelo tecido e reproduzia cenas naturais: águas correndo entre pedras, pássaros no céu, animais domésticos, campos floridos, fruteiras. Às vezes usava a tesoura para desmanchar horas de trabalho. Às vezes apanhava pequenos objetos para decorar vestidos e blusas. Pedras, botões, grampos, moedas e até sementes secas podiam compor os bordados dela. Tirava o sustento das peças que bordava. Comprava tecido e linha. Vendia panos de prato, toalhas e peças do vestuário. Andava com uma sacola, carregava tecidos, linhas, agulhas, tesouras e bordados. Quase não conversava com as pessoas. Parecia falar com os tecidos.

 

Problemas não demoraram a aparecer. José da Silva estava convencido de que a mulher não devia frequentar o mercado municipal, o comércio, as ruas e os becos da cidade desacompanhada. Não convinha. Não precisavam de dinheiro. O salário como soldado e a renda dos bicos que fazia eram suficientes para se manterem, não era muito, mas bastava, não precisavam se humilhar. A sacola que ela carregava pelas ruas irritava profundamente o marido. Parecia uma retirante fugindo da seca, uma morta de fome, uma mendiga e não uma dona de casa simples, mas digna. Maria Imaculada não respondeu nem contestou o marido, mas não acatou as ordens dele. A vida seguiu. Antes que ele levantasse da cama, ela já estava trabalhando, bordava de domingo a domingo.

 

Os desgastes eram diários. Ele gritava. Ela se recolhia. Não retrucava e não se convencia a abandonar o ofício. Um dia José da Silva exigiu que Maria Imaculada o respeitasse: “pararia ou não com os bordados?” Como ela ficou em silêncio, ele agarrou a mulher pelo vestido. Como ela insistiu no silêncio, ele deu-lhe um tapa no rosto. Foi o primeiro. O som nauseabundo percorreu o cômodo. Ela se recolheu. Ele saiu e tomou um porre. A partir daquele dia o álcool e as agressões se tornaram comuns.

 

José da Silva tomava um trago e ia para casa ralhar com a mulher, ou invertia a ordem das ações sem alterar o conteúdo das mesmas. Álcool e agressões. Agressões, álcool, mais agressões. Os gritos e os tapas se sucediam. Um dia foi da bodeguinha do beco para casa totalmente embriagado. Tropeçou nas pedras do calçamento. Apoiou-se nos muros. Maria dormia. O homem chacoalhou a mulher. Ela pararia com aqueles bordados ou não? Virou e puxou Maria para si. Rasgou-lhe a roupa. Segurou-lhe os braços sobre a cabeça, pressionados contra a cama. Deitou-se sobre ela. Colocou as coxas entre as coxas dela. Apertou-lhe o pescoço. Bateu no rosto dela. Até que se virou para o lado e dormiu.

 

Maria Imaculada se lavou com a pouca água disponível. Recolheu os pertences que podia carregar e partiu. Caminhou sem destino pelos becos da cidade e pela margem do Rio Claro. Andou até amanhecer.

 

V

Otávio Guimarães já estava morto. A filha caçula morava na Europa. Os negócios da família tinham sido vendidos. Por falta de comprador, o Casarão ainda pertencia aos irmãos Guimarães. Mas os cômodos estavam alugados para homens, mulheres e até famílias. Maria Imaculada encontrou abrigo na casa centenária. Como não havia quartos disponíveis, alugou o porão e passou a viver ali. Rapidamente se estabeleceu. Decorou as paredes com pedras, grampos, moedas e bordados. Passava os dias bordando no quintal, à sombra das árvores frutíferas, perto da nascente.

 

José tentou obrigar Maria a voltar. Não conseguiu. Quando ele se embriagava e ameaçava levar a mulher à força, os moradores do Casarão o colocavam para correr. Ele dizia que traria a tropa para prender aquele bando de vagabundos, e que a mulher não ficaria naquele chiqueiro. Mas não concretizou a ameaça.

 

Laura Guimarães estava farta das vanguardas e das cidades européias, a amigos escrevia contando que voltaria ao Brasil. Houve inclusive quem se oferecesse para hospedá-la. A ninguém ocorreu que a pintora pudesse voltar para Vila Bela. O que ela faria naquele fim de mundo? Na cidadezinha abandonada no umbigo do país? Mas foi exatamente o que ela fez.

 

Despediu-se dos amigos que conheceu em mais de quatro décadas de vida na Europa, doou a maioria dos pertences e rumou para Vila Bela. Hospedou-se no único hotel da cidade. A princípio não sabia se seria apenas uma visita casual ou um retorno definitivo. Reencontrou os irmãos. Conheceu os sobrinhos. Trocou as rodas de amigos nos cafés da Europa pelas rodas de sobrinhos nos quintais de Vila Bela. Reviu o Casarão e pensou que podia voltar para lá. Reformaria o imóvel. Cuidaria do jardim. Instalaria o ateliê, uma biblioteca e receberia os amigos.

 

Laura Guimarães informou aos irmãos que pretendia comprar o Casarão. Topavam vendê-lo? Pagaria a parte de cada um e se mudaria para lá. O comprador que não havia aparecido após o falecimento de Otávio Guimarães, surgiu tempos depois, e era justamente a filha que o patriarca não reconhecia. Ela ofereceu dinheiro a mais, cada irmão recebeu praticamente o valor da casa e não a porcentagem a que tinha direito. Era uma forma de ajudar e começar a repassar aos sobrinhos os recursos que ficariam com eles após a morte dela.

 

Os locatários foram notificados e tiveram o devido tempo para deixar o Casarão. Só Maria Imaculada ignorou a notificação oficial e continuou residindo no porão. Procurada pelo advogado e informada sobre a situação, indagada se era o caso de adotar medidas judiciais ou arrancar a mulher à força, Laura Guimarães optou por ir ao Casarão. 

 

Abriu as portas duplas e enormes. A luz entrou com ela. Há tempos não pisava no Casarão. Atravessou o corredor e os cômodos. Estavam deteriorados. Não havia nem quadros nem espelhos nas paredes. Da cozinha avistou Maria bordando no quintal. Aquela mulher parecia saída de um quadro da pintora. Desceu os poucos degraus e foi até ela. Apresentou-se. Perguntou o nome da outra e o que fazia. Trocaram poucas palavras. Laura Guimarães explicou que voltaria a morar na casa e que Maria Imaculada devia se mudar. Havia sido informada? Maria se afastou e continuou bordando. Laura observou os dedos ágeis deslizando entre a linha e a agulha. Refletiu. Disse que se mudaria, mas que a bordadeira podia continuar por lá até achar um local para morar.

 

Maria Imaculada encontrou José da Silva pela última vez na entrada de serviço do Casarão. Ela voltava do mercado municipal. Ele se embriagava e esperava. Quando Maria passou, José foi atrás. Abordou-a perto do portão. Ela gritou. Ele puxou-a para si. Disse qualquer coisa. Ela tentou se desvencilhar. Caiu gritando. Ele apertou-lhe o pescoço. Chacoalhava-lhe a cabeça. Gritava. Laura Guimarães ouviu e correu. Xingou o homem. Ordenou que fosse embora. Ele obedeceu. Laura socorreu Maria. Limpou os cortes e fez curativos. Preparou uma refeição e convidou a bordadeira para dormir num dos quartos do Casarão. Maria preferiu passar a noite no porão. A pintora não se opôs, mas pediu que a outra passasse a utilizar a entrada principal da casa sempre que quisesse. Não precisava entrar e sair pelos fundos.

 

José da Silva morreu tempos depois, diziam que de desgosto e de cachaça. Mais de desgosto do que de cachaça. Houve quem culpasse a ex-mulher, porque os problemas dele haviam começado quando ela saiu de casa. Um homem tão bom... Tão querido... Por quê? Onde já se viu? Maria viveu por mais tempo, não guardou mágoa do ex-marido nem dos que a acusavam de tê-lo matado. Apenas sentiu-se livre da presença ameaçadora daquele homem.

 

Laura Guimarães instalou o ateliê e a biblioteca no Casarão. Recebia intelectuais, estudantes, professores universitários, críticos de arte, curiosos e diletantes que convergiram para Vila Bela, todos interessados em conhecer a “pintora triste dos trópicos”. Também recebia os sobrinhos e os irmãos. Apesar das ordens dos pais para que evitassem a bordadeira, as crianças brincavam no quintal, em volta de Maria. Laura Guimarães servia café, bolos e doces feitos com as frutas da região.

 

Não foi tranquilo o retorno da pintora para Vila Bela. O passado dela ainda era conhecido. Havia fugido. Não casou na igreja. Abandonou o marido pouco tempo depois de fugir com ele. Havia magoado e desonrado o pai. Diziam não haver valor nas cenas pobres pintadas em tons de preto e vermelho. Um artista devia retratar o belo, e não a feiúra do mundo. A natureza, e não os becos. Animais formosos, e não ratos e urubus. Havia também quem garantisse que os homens que visitavam Laura Guimarães eram amantes dela. Outros sustentavam que a pintora era amante da bordadeira. Por que razão alguém manteria aquela maluca morando no porão? Os boatos corriam pelos becos, como as crianças e os animais de estimação.   

 

Maria Imaculada quase não conversava, as poucas palavras que dizia eram genéricas. Vendia bordados ou trocava-os por outros produtos. Às vezes prescindia totalmente das palavras, os comerciantes e clientes a conheciam e faziam negócio sem muita conversa. Foi, sobretudo, bordadeira. Dialogava com os tecidos, escrevia com a agulha e a linha. Passava horas sentada nas margens do Rio Claro ou no quintal do Casarão. Bordava nas sombras. Quando a noite descia subtraindo a luz e impedindo o trabalho, Maria desfrutava o sono dos justos, no porão. De manhã, quando os primeiros raios de sol penetravam pela abertura da parede, ela despertava. Ia até a nascente, lavava o rosto, bebia água e bordava.

 

Laura Guimarães e Maria Imaculada se aproximaram aos poucos. Quem visitava a pintora às vezes comprava produtos da bordadeira, que ajudava como podia. Incluiu na rotina a compra de tintas e outros materiais, dava recados e entregava a correspondência da pintora no correio. Quando Maria circulava pela cidade era comum ser cercada por crianças que se divertiam caçoando dela. Davam as mãos e formavam rodas entorno da bordadeira, sempre tinham versinhos, rimas e melodias que inventavam para irritá-la:

 

Maria louquinha

Pega bicho-de-pé

Pra comer com farinha

 

[...]

 

Marcha Maria

Cabeça de bordado

Se não marchar direito

Apanha do soldado

 

As crianças caminhavam ao lado de Maria Imaculada. Cantavam e marchavam como se fossem militares, balançavam os braços esticados. Ela não se incomodava, até se divertia com as brincadeiras. Mas quando algum moleque abusado lhe atrapalhava a passagem ou tentava mexer na sacola, ela reagia. Apanhava pedras, mirava com cuidado e atirava para não acertar. Era incapaz de machucar quem quer que fosse.

 

VI

Laura Guimarães deixou para os sobrinhos o dinheiro que ganhou vendendo quadros. Mas registrou no testamento que o Casarão devia ficar para Maria Imaculada. A bordadeira sobreviveu à pintora. Abria e limpava o quartos, o ateliê e a biblioteca. Tirava o pó e deixava o sol entrar. Seguiu morando no porão.  

 

A prefeitura de Vila Bela precisou esperar a morte de Maria Imaculada para transformar o Casarão no Museu Laura Guimarães. Obras da pintora foram adquiridas e doadas para compor o acervo. Foi montado um espaço com as cartas que recebeu e enviou, críticas recolhidas nos jornais, biografia, fotos raras do tempo que passou na Europa e da família Guimarães, o patriarca inclusive. A biblioteca foi aberta ao público. No quintal, um café divide espaço com as árvores frutíferas e disputa a atenção de quem visita o local. Vende bebidas, salgados e produtos feitos pelas doceiras da região. O fogão à lenha e os tachos de cobre foram mantidos no Casarão. Cadeiras antigas e até uma réplica da mala que foi usada na fuga da pintora podem ser observadas num dos espaços do museu. No porão foram expostos bordados e a sacola que pertenceu a Maria Imaculada.

 

O Museu Laura Guimarães organiza mostras de cinema e saraus que acontecem no auditório e no quintal, entre as árvores frutíferas, a nascente e o café. Também organiza visitas guiadas pelos becos que inspiraram a pintora, e até caminhadas pelas rotas percorridas por Maria Imaculada. Uma pequena loja foi instalada perto do café, vende artesanatos vilabelenses. Nas escolas da região são realizados concursos para escolher crianças que são treinadas para guiar os turistas pelo museu, contando a história da pintora, da cidade e do Casarão.

 

Intelectuais, estudantes, professores, curiosos e diletantes, que iam à Vila Bela para visitar a pintora; passaram a ir à cidade para visitar o Museu Laura Guimarães. Um ensaísta escreveu sobre Maria Imaculada, a quem definiu como a mulher do subsolo. Artesãos, doceiras e comerciantes se beneficiaram com a criação do museu. Vila Bela tinha o casario dos tempos da mineração, é cercada por serras e banhada por águas cristalinas. Faltava uma atração cultural para firmar a cidade como destino turístico. O Museu Laura Guimarães resolveu o problema. Vila Bela virou marca de café e de cervejas artesanais.

 

Maria Imaculada e Laura Guimarães não foram totalmente aceitas pelos vilabelenses, nem depois de mortas, mas passaram a ser toleradas. A pintora e a bordadeira viraram imãs de geladeira, chaveiros e até bonecas de pano que turistas adquirem como recordação de Vila Bela. O local em que Maria dormia foi sinalizado com uma boneca de pano. No quintal, perto do café, foi colocada uma escultura que representa a pintora.      


 VII

Laura Guimarães e Maria Imaculada trocavam poucas palavras, se comunicavam por olhares. Mas naquela tarde foi diferente. Quando a bordadeira atravessou o Casarão, a pintora pediu um favor. Queria acompanhá-la pela cidade. Maria assentiu balançando a cabeça. Laura agradeceu.

 

No dia seguinte saíram cedo. Passaram na Rua do Comércio e no Correio. No caminho para o Mercado Municipal, encontraram um grupo de crianças. A pintora encarou uma por uma, e naquele dia elas não fizeram chacota com a bordadeira. No meio da manhã, pararam na casa de uma cliente para entregar bordados. Conversaram e beberam café. Ao sair, Maria perguntou se Laura queria conhecer um lugar especial.

 

Percorreram a avenida que leva à estrada. Caminharam mais um pouco. O sol estava forte. Entraram por uma trilha discreta e estreita. A sombra das árvores refrescou as mulheres. Poucos metros à frente encontraram quedas d’água e piscinas naturais. Laura Guimarães não suspeitava que, um pouco acima de Vila Bela, o Rio Claro formava paisagens tão deslumbrantes. Perguntou se Maria Imaculada conhecia o local há muito tempo. A bordadeira assentiu balançando a cabeça. Banharam-se. Contemplaram o cair da tarde e o pôr do sol. Retornaram no começo da noite. Tinham os cabelos molhados.         







Publicado originalmente na Revista Aroeira