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O TRADUTOR

 

Queria ser romancista, tornou-se tradutor. Queria conhecer o mundo, foi para uma cidadezinha do interior.

 

Aceitou a ideia de que passaria pela vida sem escrever um romance. Morreria sem fazer a única coisa capaz de justificar a existência: escrever romances – recriar o mundo e os homens com palavras. Passaria pela vida sem deixar nenhuma marca digna de nota, sem absolutamente nada de que pudesse se orgulhar. Mas ter que traduzir textos acadêmicos para sobreviver era constrangedor. Para os amigos – quando ainda tinha com quem conversar sobre literatura –, dizia que eram justamente as malditas traduções de textos acadêmicos que lhe travavam as possibilidades criativas. É mais fácil vencer um concurso de dança vestindo uma armadura do que escrever um romance tendo que ganhar a vida como tradutor. A metáfora era do tempo em que ainda nutria pretensões literárias. Afirmava que um abismo separa um texto acadêmico de um bom romance. Citava o filósofo das marteladas: quando olhamos para o abismo, o abismo olha para nós. Concluía dizendo que os artigos que traduzia eram o abismo. Comparem um Machado de Assis ou um Guimarães Rosa aos textos que vocês traduzem e revisam – costumava dizer a amigos e companheiros de profissão. Arrematava afirmando ser impossível escrever algo que preste depois de passar o dia traduzindo academesmices, ciência salame, encheção de linguiça, mais do mesmo, bobajadas que só servem para bater metas curriculares. Havia quem discordasse em nome do futuro do país, do progresso do conhecimento, da ciência e, sobretudo, como forma de dar sentido ao próprio trabalho. É desagradável pensar que se desperdiça a vida repetindo tarefas inúteis. Ele provocava lembrando que, pelo menos, não ficaria vinculado ao que definia como textículos acadêmicos, porque os nomes dos tradutores não costumam ser publicados.

 

Aceitou a ideia de que não conheceria o mundo e sequer sairia do Brasil. Mas passar o resto da vida numa cidadezinha esquecida no interior do país não era o melhor destino. Como ficou sem dinheiro no meio da primeira grande viagem que tentou fazer, precisou trabalhar. Retomou as traduções. Como a internet já havia chegado naquele fim de mundo, foi trabalhando e ficando. Era mais fácil sobreviver no interior com cerca de duzentos reais que ganhava por artigo traduzido, nos grandes centros o custo de vida era proibitivo para o tradutor. A cidadezinha tinha um quarteirão com casario do século XIX, do tempo da mineração, cercado por habitações precárias, resultantes do loteamento de antigas propriedades. Alugou um quarto num sobrado do século XIX e ficou. Dormia ali. Trabalhava ali. Traduzia ali. Colocou uma mesa e um computador no canto do quarto, ao lado da janela, por onde espiava a vida passar quando as palavras começavam a se embaralhar na tela do computador. Fazia as refeições na cozinha que dividia com outros inquilinos. Fazia as necessidades no banheiro que dividia com outros inquilinos. Dividia o sobrado com viajantes, prostitutas, traficantes e até aventureiros que acreditavam ainda haver ouro nos rios e minas da região.  Porque morava no velho sobrado com pessoas marginalizadas e praticamente não saía do quarto, havia quem desconfiasse que o tradutor fosse um fugitivo.

 

Ele não se importava, até se divertia com as suspeitas. O que irritava o tradutor era a labuta diária. Além do tempo desperdiçado traduzindo para o inglês, além do travamento literário provocado pela linguagem insossa dos artigos a serem vertidos, o tradutor se irritava com o contato mínimo que era forçado a manter com os clientes. Havia revistas científicas que contratavam empresas especializadas que quarteirizavam o serviço repassando textos a serem vertidos pelo tradutor. Havia os acadêmicos que demandavam traduções para publicar em revistas científicas internacionais. O tradutor preferia o autoritarismo mercantil das primeiras, que simplesmente informavam o tamanho do texto, o valor e o prazo. As empresas prescindiam do mandar sugerindo dos acadêmicos, que irritavam profundamente o tradutor. Sugiro que tenha atenção com os termos técnicos. Sugiro evitar expressões “aportuguesadas”. Sugiro não utilizar softwares de tradução. Sugiro consultar as instruções do periódico antes de iniciar o trabalho. Sugiro entregar até a data tal, ou antes se possível. Toda vez que recebia ordens em forma de sugestão lembrava-se de Bartebly, o escrevente do conto homônimo, que passou abruptamente da aceitação ao rechaço com um misterioso “eu preferiria não”. Poderia revisar o contrato x? Eu preferiria não. Poderia revisar a procuração y? Eu preferiria não. Mas revisar é parte do seu trabalho, Bartleby – argumentava o patrão, no conto. Ao que o escrevente foi do futuro do pretérito (eu preferiria não) para o presente do indicativo (eu prefiro não) seguido por um mutismo intransigente e definitivo. O tradutor sonhava com o que definia como o dia B – de Bartleby –, quando responderia “eu preferiria não” às empresas especializadas em tradução e, especialmente, aos acadêmicos.

 

O tradutor ficava puto quando os acadêmicos iniciavam solicitações adicionais com agradecimentos duvidosos. Agradeço a prontidão e a qualidade do trabalho, reenvio o artigo para revisão, fizemos correções na introdução, por favor, verifique e ajuste a versão para o inglês. E assim era obrigado a perder tempo com tarefas não remuneradas. Toda vez que recebia solicitações adicionais que começavam com agradecimentos duvidosos, ele lembrava da escritora Dorothy Parker, que definiu o sentimento de gratidão como “o atributo mais mesquinho e choramingueiro do mundo”. O tradutor se irritava profundamente com os agradecimentos forçados e interesseiros. Agradecemos o cuidado e a atenção com nosso artigo, por favor, poderia informar a previsão de entrega da versão para o inglês? Agradecemos o esclarecimento sobre o pagamento, é possível conceder um desconto?   

 

Foi num dia qualquer, no começo da tarde, mais precisamente. Pela manhã havia concluído a tradução de um artigo mal escrito e chatíssimo, cheio de frases longas, clichês e ideias banais. Quando leu o agradecimento pelo retorno imediato no início do e-mail, já imaginou que teria dores de cabeça. O professor doutor A pedia desculpas e informava que a versão enviada ao tradutor não havia sido revisada por um dos coautores, o professor doutor B. Assim sendo, o professor doutor A agradecia e sugeria que o tradutor revisasse e refizesse o trabalho com a maior brevidade possível, se atentando especialmente às alterações realizadas pelo professor doutor B na seção de métodos. Na mesma mensagem, o professor doutor A reuniu o que mais irritava o tradutor: uma ordem sugerida e um agradecimento duvidoso.

 

Quis esmurrar a tela do computador e a cara do professor doutor A, que ele não conhecia pessoalmente, mas que passou a odiar com todas as forças. Se pudesse, pelo menos, agradecer e mandar sugerindo que o professor doutor A fosse à merda... Agradeço o alerta sobre a necessidade de revisar a tradução, especialmente a seção de métodos: sugiro que vá à merda! O problema era que aquele grupo de pesquisa sempre demandava versões para o inglês. Podia abrir mão daquelas traduções? Sobreviveria sem elas?

 

Contou os trocados que tinha na carteira, desligou o computador, bateu a porta do quarto e foi até o bar da esquina. Tomou uma cerveja aguada como a vida.


Publicado originalmente no Passa Palavra



 

O LEITOR CLANDESTINO

 

Sempre gostei de bibliotecas. Queria dominar todos os livros das bibliotecas. Aos poucos fui percebendo se tratar de um sonho impossível: porque há muito livros nas bibliotecas e porque há muitas bibliotecas no mundo (mesmo que dominasse uma, haveria outras tantas). Conheço apenas alguns autores, a posição de uns poucos livros nas prateleiras (porque costumo flertar com as obras antes de iniciar a leitura) e só. Nem pequenos nichos do conhecimento posso dizer que domino ou que dominarei. É que na leitura sou anarquista. Sou leitor e não pesquisador. Uma capa atrai. Um título intrigante idem. Um livro puxa o outro: sem governo, sem continuidade e quase sem método.

 

O ensaísta André Comte-Sponville [1] registrou que o estilo é tônico. Ler uma frase limpa, sólida e bem construída revigora como o ar puro. Concordo. Mas não é apenas o estilo que reconforta, às vezes é a própria leitura: forma e conteúdo, ter o livro nas mãos, folhear, grifar, anotar. O poeta Carlos Drummond de Andrade [2] contou que recebeu uma carta de um homem que tinha pensamentos suicidas, mas mudou de ideia depois de ler o poema José. Os versos expressavam exatamente o que o homem sentia, mas não conseguia pôr para fora. Quando descobriu que aqueles sentimentos estavam registrados no poema José, percebeu que não estava sozinho no mundo. Sentia o mesmo que o poeta. Abriu mão do suicídio. É nesse sentido que a leitura é tônica.  

 

Com o tempo passei a me reconhecer como um leitor: um leitor que às vezes escreve. A escrita é, para mim, uma forma de compartilhar o que li. Daí as inescapáveis citações, que devem aborrecer os leitores. Há textos tônicos sobre a leitura. Ricardo Piglia [3]. Alberto Mangel [4] [5] [6]. Um dos ensaios de Piglia discute Che Guevara como leitor, a sacada final é daquelas que só os grandes romancistas são capazes de formular. Na lousa da escolinha boliviana em que foi aprisionado antes de ser assassinado, Guevara leu uma frase e indicou uma correção para a professora local, Julia Cortés, que lhe havia entregado um prato de comida (ela foi a única que se solidarizou com o guerrilheiro). Falta o acento em “Yo se leer” – disse o Che. O revolucionário que havia sido capturado com livros, porque nunca se afastou da leitura, nem quando cercado por tropas inimigas, encerrava sua passagem pelo mundo com um digno e preciso “eu sei ler”. Naquele segundo mágico, o leitor reencontrou o guerrilheiro. Manguel registrou notas para a definição do leitor ideal, compartilho algumas: “Depois de fechar o livro, o leitor ideal sente que, se não tivesse lido, o mundo seria mais pobre” [...] “O leitor ideal julga o livro pela capa” [...] “Quando lê um livro de séculos atrás, o leitor ideal se sente imortal” [...] “O leitor ideal não tem uma nacionalidade precisa.” [...] “O leitor ideal não se preocupa com anacronismos, a verdade documentada, a exatidão histórica, a precisão topográfica. O leitor ideal não é um arqueólogo.” [...] “Um escritor nunca é seu próprio leitor ideal.” [...] “Pinochet, que proibiu D. Quixote por pensar que incitava a desobediência civil, foi o leitor ideal desse livro.”

 

As notas para a definição do leitor ideal, de Alberto Manguel, me fizeram pensar no leitor real em um país miserável em muitos sentidos, como o Brasil. Por aqui as pessoas consideram a leitura inútil e entediante, por isso costumam puxar conversa quando encontram alguém lendo. É como se fizessem um favor e uma caridade. Por aqui – se não se vive da exploração do trabalho alheio – a leitura é um ato de resistência, que se faz na clandestinidade, contra quase tudo e quase todos. É neste sentido que, partindo de Manguel, registro algumas notas sobre o leitor clandestino, que sou um pouco eu, mas não só (os leitores do Passa Palavra certamente podem ampliar e completar essas notas):

 

- Para o leitor clandestino, um dia sem leitura é um dia irremediavelmente perdido.

 

- O leitor clandestino frequenta pontos de troca de livros, principalmente os espaços que ficam em vias públicas e são discretos.

 

- O leitor clandestino prefere livros usados e com anotações.

 

- O leitor clandestino aprende a ignorar a poluição sonora para ler no transporte público.

 

- Quando está no transporte público e consegue viajar sentado, o leitor clandestino prioriza os livros maiores.

 

- Quando está no transporte público viajando em pé (maior parte do tempo), o leitor clandestino prioriza edições de bolso.

 

- O leitor clandestino nunca é visto sem mochila, porque sempre carrega livros.

 

- O leitor clandestino se alegra quando vê pessoas lendo, mas se consegue espiar as capas, costuma se frustrar por serem livros de autoajuda ou empreendedorismo.

 

- O leitor clandestino julga as pessoas pelos livros que leem e também pela falta de leituras.

 

- O leitor clandestino acha as leitoras atraentíssimas. Ele sonha em conhecer uma leitora de romances no transporte público para trocar impressões literárias e o que mais for possível.

 

- O leitor clandestino já viajou com leitoras de romances no transporte público, mas não percebeu a presença delas porque estava com a cara enfiada em um livro.

 

- O leitor clandestino é apaixonado por Emma Bovary e Ana Kareninna: em todos os sentidos.

 

- Para ler, o leitor clandestino acorda mais cedo que familiares e amigos.

 

- O leitor clandestino aluga filmes e paga canais fechados para a família se entreter enquanto ele lê.

 

- O leitor clandestino não é absolutamente contra o casamento e a família, mas teme e evita uma coisa e outra porque precisa de tempo livre.

 

- O leitor clandestino lê livros eletrônicos no escritório como se fossem contratos e procurações, como se estivesse trabalhando.

 

- Porque é obrigado a ler clandestinamente no escritório, o leitor clandestino usa edições impressas e eletrônicas. Estas no escritório, aquelas no transporte público.

 

- O leitor clandestino lê no escritório da mesma maneira que um estudante cola na escola: com tranquilidade, sereno, como se não estivesse acontecendo nada anormal.

 

- O leitor clandestino não arrisca abrir um livro impresso no escritório, só quando cai a energia ou os sistemas operacionais.

 

- O grande pesadelo do leitor clandestino é o chefe lhe interromper a leitura clandestina no meio de um parágrafo. É quando ele tem vontade de pegar um livro de capa dura para bater no chefe.

 

- O leitor clandestino sabe que a palavra escritório tem a ver com escrita. Scriptorim era a oficina em que se produziam e reproduziam livros. Se é assim, ler no escritório é uma questão de coerência.

 

- O leitor clandestino está convencido de que Bartleby [7] era um grande leitor e não um simples escrevente.

 

- O leitor clandestino defende que o patrão de Bartleby interrompeu uma leitura clandestina do escrevente naquele escritório de Wall Street, seria essa a origem da fórmula “eu preferiria não”.

 

- O leitor clandestino sustenta que os filósofos não entenderam a fórmula de Bartleby porque nunca precisaram ler clandestinamente nem trabalhar, muito menos num escritório.

 

- O leitor clandestino suspeita que Bartleby disse “eu preferiria não” porque não podia dizer “me deixe ler em paz”.

 

- O leitor clandestino desconfia de escritores e poetas que comentam e explicam a própria obra. Apenas e tão somente os textos devem falar.

 

- Porque é obrigado a usar diversas edições e traduções, o leitor clandestino compara trechos e sabe valorizar o trabalho dos tradutores.

 

- Textos escritos de uma só vez, sem tópicos e divisões, dificultam a vida do leitor clandestino, que precisa se alternar entre edições impressas e eletrônicas.  

 

- O sonho do leitor clandestino é ter um cômodo silencioso e confortável para organizar uma biblioteca.

 

- O leitor clandestino é progressista. Às vezes até se aproxima de partidos e organizações socialistas. Mas ele aprecia mais as conversas literárias que ocorrem em bares, após as reuniões, do que as falas cronometradas sobre a conjuntura.

 

- As amizades do leitor clandestino giram em torno de livros.

 

- O leitor clandestino é discreto e pouco fala de si próprio. A única forma de conhecer minimamente um leitor clandestino é ler as anotações que ele faz a lápis nos livros que lê.

 

- Conta-se que um leitor clandestino quase apanhou no transporte público. Lia o Quixote e ria. Um passageiro se irritou e foi tomar satisfação. O leitor clandestino contou as aventuras do cavaleiro da Triste Figura. Riram e ficaram amigos.

 

- Conta-se que um leitor clandestino leu todos os volumes de ‘O Capital num escritório, numa edição eletrônica, como se o texto de Marx fosse o trabalho diário: apesar dos que dizem que O Capital não é um livro para trabalhadores.

 

Mas há quem dê marteladas nos leitores. Nietzsche [8] zomba dos “doutos” que nada mais fazem do que misturar livros, perdendo completamente a faculdade de pensar por conta própria. Se não se empanturram de livros, não pensam: “o douto emprega a sua força em dizer ‘sim’ ou ‘não’, em criticar o que já foi pensado por outros; quanto a ele, todavia, não pensa mais.” O filósofo define os doutos como decadentes. Chocava-lhe haver quem, de manhã – “quando o espírito reflui em leveza, ao despertar das energias” – se pusesse a ler: “Para mim, isto é um vício!” Nietzche encarava a leitura como uma “recreação”, um hábito que o afastava de si próprio: “Nas épocas em que eu trabalhava muito não se viam livros ao redor de mim: esquivar-me-ia bem de permitir a outrem de falar ou de pensar em minha presença. E ler, seria dizer precisamente isto...” Montaigne [9] não dá marteladas nos leitores, como Nietzsche, mas tampouco se empolga com eles, como eu. Para Montaigne a leitura é um consolo na velhice e na solidão, suaviza o peso do ócio enfadonho, livra de companhias que aborrecem, distrai de ideias inoportunas e até suaviza algumas dores. Pensando em Nietzche e Montaigne, registro mais três notas sobre o leitor clandestino:

 

- O leitor clandestino pode até ser um viciado em livros, mas não é um “douto” que lê para escrever artigos e bater metas acadêmicas. O leitor clandestino lê por paixão.

 

- O leitor clandestino lê para viver e não para matar o tempo. A grande luta do leitor clandestino é por tempo livre para a leitura.

 

- Leio, logo existo – diria o leitor clandestino, se fosse menos afeito ao silêncio; quiçá arrematasse com uma provocação –: quem lê para matar o tempo deveria considerar seriamente a possibilidade de se matar.

 

Enfim, se tive acesso às sacadas de Comte-Sponville, Drummond, Piglia e Manguel; se tive acesso às críticas de Nietzsche e Montaigne foi porque me dispus a ler na clandestinidade ou de manhã cedo, “quando o espírito reflui em leveza, ao despertar das energias”. Que outros falem em minha presença – inclusive os filósofos –, especialmente por escrito. Nietzsche provavelmente diria que meu leitor clandestino é um decadente viciado em livros, que lê muito e pensa pouco. Pode ser. Mas para pensar é preciso imaginar. Não há pensamento sem imaginação, assim como não há imaginação sem leitura. Por essas e outras que ler pode até ser um vício, mas não é apenas recreação e divertimento.    

 

Notas

[1] André Comte-Sponville. Do corpo. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

 

[2] A fala do poeta está em alguma das entrevistas disponíveis na net, mas não encontrei o link.

 

[3] Ricardo Piglia. Ernesto Guevara, rastros de leitura. In: Ricardo Piglia. O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

[4] Alberto Manguel. Encaixotando minha biblioteca: uma elegia e dez digressões. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

 

[5] Alberto Manguel. O leitor como metáfora: o viajante, a torre e a traça. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2017.

 

[6] Alberto Manguel. Notas para uma definição do leitor ideal. In: Alberto Manguel. Notas para uma definição do leitor ideal. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020. p. 163 – 166.

 

[7] Herman Melville. Bartleby, o escrevente. Grua livros: São Paulo, 2014.

 

[8] Friedrich Nietzsche. Ecce homo. [S.l.] Edições de ouro. Coleção Universidade. [s.d]. p. 59 e 71.

 

[9] Michel de Montaigne. Sobre três relações. In: Michael de Montaigne. Os ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


Publicado originalmente no Passa Palavra


 

HERMAN MELVILLE E AS PERSONIFICAÇÕES DA BUROCRACIA

 

Herman Melville foi bancário, vendedor, professor, agricultor, marinheiro, palestrante, fiscal da alfândega e escritor. Embarcou como camareiro de um navio que seguia para Liverpool. Atravessou oceanos num baleeiro.  Desertou e morou com nativos da Polinésia Francesa. Embarcou novamente. Dessa vez num navio comercial australiano. Participou de um motim a bordo, foi preso e fugiu da cadeia.  Também escreveu contos, poemas e romances.

 

Li apenas três livros de Herman Melville: Moby Dick ou a baleia [1]; Bartleby, o escrevente [2]; Billy Budd, marinheiro [3]. Pouco. Mas suficiente para perceber a grandeza do escritor estadunidense. Moby Dick (1851): o obstinado Capitão Ahab persegue uma baleia branca mar adentro. Bartleby (1853): um escrevente contratado por um escritório de advocacia, em Wall Street, passa misteriosamente a recusar todas as ordens respondendo “preferiria não”. Billy Budd, marinheiro (1891): um belo jovem é recrutado para trabalhar num navio de guerra, acusado injustamente de participação num motim, acaba cometendo um crime, mas sem deixar de acatar incondicionalmente todas as ordens recebidas. De Mobby Dick a Billy Budd, passando por Bartleby, se vai do mar ao mar, com um escritório no meio do caminho, mas sempre com o trabalho como pano de fundo.

 

Albert Camus [4] definiu Herman Melville como o Homero do Pacífico. Gilles Deleuze [5] discutiu a radicalidade da “fórmula” de Bartleby – eu preferiria não/I would prefer not to –, que confronta a linguagem com o silêncio. A propósito, Deleuze lembra também que Bartleby anuncia o longo silêncio de Melville, rompido apenas por alguns poemas e, no final da vida, pelo romance Billy Budd.

 

Bartleby é um escrevente. Sabemos já no título do conto. Billy Budd é um marinheiro. Sabemos já no título do romance. A presença do trabalho nos textos é explícita, mas costuma ser ignorada pela crítica [6]. Bartleby é a tese com “eu preferiria não”. Billy Bud é a antítese com “eu preferiria sim”, que ele não diz, mas pratica.  O escrevente recusa num escritório em Wall Street. O marinheiro aceita num navio de guerra. É como se, com Billy Budd, Melville invertesse a fórmula “eu preferiria não/I would prefer not to”. O advogado que é chefe de Bartleby sente compaixão pelo escrevente, o que não o impede de demitir e enxotar o funcionário. Ele faz uma série de propostas para o escrevente: exercer outro ofício (vendedor ou atendente), viajar pela Europa acompanhando jovens cavalheiros e até morar sob o mesmo teto, desde que deixe de atrapalhar no escritório. O capitão Vere, responsável pelo navio de guerra em que trabalhou Billy Budd, sabia que o marinheiro não estava envolvido em nenhum motim, o que não o impediu de exigir a pena capital ao tribunal de guerra que julgou o subordinado. “Firmemente inspirado pela lei e pelo dever”, o capitão Vere se dirige aos membros do tribunal que julgou o marinheiro: “Mas lhes suplico, meus amigos, para que não me interpretem mal. Meus sentimentos por esse infeliz rapaz é o mesmo que o de vocês. Se ele conhecesse nossos corações, tenho certeza de que sua natureza generosa o faria até mesmo sentir pena de nossa situação, subordinados que somos a injunções militares tão pesadas.”

 

Marx [7] notou que o capitalista apenas personifica o capital: “sua alma é a alma do capital”. Melville não definiu o que são personificações da burocracia, nem sequer usou a expressão, mas deixou dois exemplos: o advogado chefe de Bartleby e o capitão Vere. Se é possível encontrar personificações da burocracia nos textos de Melville, é porque há grande concentração delas no mundo do trabalho, que é retratado com maestria pelo escritor estadunidense. Se a alma do capitalista é alma do capital, a alma do burocrata é a alma da burocracia. Não importa quão esclarecido, humano, piedoso e compassivo seja o burocrata, sua alma será sempre a alma da burocracia. Personificações da burocracia são absolutamente incapazes de dizer “eu preferiria não” para ordens que venham de cima, sejam quais forem. Uma personificação da burocracia não hesita em demitir um subordinado ou açoitá-lo em praça pública, no máximo criará justificativas para injustificável. O advogado patrão de Bartleby sente compaixão pelo escrevente, mas não deixa de atuar no interesse do escritório. O capitão Vere era um homem esclarecido, mas não deixa de exigir a pena capital para o marinheiro, em nome da “lei e do dever”. Labirintos do trabalho: a tese de Bartleby e a antítese de Billy Budd conduzem ao mesmo fim. Para piorar, não nos enganemos: como há personificações da burocracia no mundo real.

 

Os nomes nos títulos dos livros somados à radicalidade das apologias e dos rechaços empurram o foco para Bartleby e Billy Budd. Alguns chegam a procurar, candidamente, os personagens no mundo real. Žižek [8] viu Bartleby como um precursor do movimento Occupy Wall Street... Mas, se não há Bartlebys nem Billy Budds no mundo real, as personificações da burocracia, como os chefes de ambos, estão em todos os cantos: das multinacionais ao serviço público, das universidades ao trabalho precarizado, das igrejas aos partidos de esquerda. As almas das personificações da burocracia são as almas da burocracia.  As justificativas são diversas – ordens superiores, a lei, o dever, não posso fazer nada, está fora da minha alçada, sinto muito –, mas as práticas pouco variam: atuam em nome da burocracia e para resguardar interesses rasteiros. O capelão que acompanhou Billy Budd antes da execução também estava ciente de que o marinheiro não participou de nenhum motim, mas se calou: intervir “teria sido uma audaciosa violação dos limites de sua função” – justificou. Espécie de princípio fundamental das personificações da burocracia: jamais contrariar ordem superiores! O capitão Vere afirma, contra o marinheiro, que “a Lei do Motim, filha da guerra, imita a mãe. A intenção ou a ausência de intenção de Budd não vem ao caso.” O advogado chefe de Bartleby e narrador do conto homônimo conclui dizendo: “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” O capitão Vere morreu murmurando palavras incompreensíveis para o enfermeiro que o atendia: “Billy Budd, Billy Budd.” São indícios de remorsos do advogado e do capitão, que não os absolvem, apenas reforçam que ambos atuaram como personificações da burocracia. Provocação de Melville, as últimas palavras de Billy Budd são: “Deus abençoe o capitão Vere!” O que atesta e reafirma a fórmula do marinheiro: “eu preferiria sim” – incondicionalmente. 

 

Jorge Luis Borges [9] afirmou que “Kafka projeta sobre Bartleby uma curiosa luz posterior.” Acrescento que o inverso é verdadeiro – Bartleby projeta uma curiosa luz antecipatória sobre Kafka – e o mesmo se aplica a Billy Budd. A explicação é a presença do trabalho nos textos. Só que Melville é direto e explícito, enquanto Kafka é indireto e implícito. Ambos se completam. O escritor tcheco faz uso literário e genial do idioma da burocracia: sobressai o absurdo e as personificações da burocracia se esquivam atrás de normas e portarias, como se fossem engrenagens incapazes de intervir sobre os acontecimentos. Melville faz uso apenas circunstancial da linguagem burocrática, resultado: expõe a cumplicidade sem véus das personificações da burocracia. A burocracia pode ser absurda, mas ela tem seus cúmplices. O caso Billy Budd, por exemplo, teria ocorrido em momento “complicado”, após motins duramente reprimidos e contestação da autoridade naval, o que exigiria prudência e rigor de homens como o capitão Vere – segundo o próprio... É a tal cumplicidade sem véus das personificações da burocracia: a justificativa para o injustificável. O fato é que o capitão Vere atua na defesa da posição que ocupa e, como não poderia deixar de ser, da burocracia. Um marinheiro terminar enforcado é só um detalhe, ainda que inconveniente, uma parte do jogo a que o capitão é incapaz de se opor por covardia e, sobretudo, por interesse próprio.

 

Camus [10] registrou que Melville “não escreveu senão o mesmo livro indefinidamente recomeçado.” Acrescento: Melville pode ter escrito o mesmo livro indefinidamente recomeçado, mas com variações. Se é assim, a recusa de Bartleby e a apologia de Billy Budd se completam e servem, sobretudo, para desmascarar as personificações da burocracia, que diferem na forma, mas não no conteúdo. Ainda e por fim, registrei dois exemplos de personificações da burocracia nos textos de Melville, fecho com um contraexemplo, para contrastar e problematizar. O obstinado capitão Ahab perseguiu impiedosamente a baleia branca. Mas sua alma não era alma da burocracia. Ele caçou uma baleia e não um cargo na burocracia. O capitão Ahab seguia, sobretudo, a lei do coração, por mais violenta e irracional que fosse. Alguém pode argumentar que ele foi terrível, quase uma personificação do mal. Ao que eu perguntaria, mas o “cruel” capitão Ahab faria com um de seus homens o que o esclarecido capitão Vere fez com Billy Budd? Moral da história: as personificações da burocracia podem ser tão perigosas quanto os homens mais terríveis e, para piorar e encerrar: é difícil encontrar Ahabs no mundo real, mas as personificações da burocracia estão em todos os cantos.

 

Notas

[1] Herman Melville. Moby Dick ou a baleia. Editora 34: São Paulo, 2019.

 

[2] Herman Melville. Bartleby, o escrevente. Grua livros: São Paulo, 2014.

 

[3] Herman Melville. Billy Budd, marinheiro. Porto Alegre: L&PM, 2010.

 

[4] Albert Camus. Herman Melville. In: Camus, A. A inteligência e o cadafalso. Rio de Janeiro: Record, 2018, p. 25 – 30.

 

[5] Gilles Deleuze. Bartleby, ou a fórmula. In: Deleuze, G. Crítica e clínica. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 91 – 117.

 

[6] Bartleby: insegurança, adoecimento e morte de um trabalhador.

 

[7] Karl Marx. O capital – Livro I. São Paulo: Boitempo, 2014.

 

[8] Slavoj Žižek. O ano em que sonhamos perigosamente. Boitempo: São Paulo, 2011

 

[9] Jorge Luis Borges. Bartleby, o escrivão de Herman Melville. Acesso em 09 de jul. 2023 

 

[10] O trecho seguinte, entre aspas, está no texto referenciado na nota 4.


Publicado originalmente no Passa Palavra

 

A LONGA VIAGEM DE BELCHIOR

 

Belchior (1946-2017) foi um compositor de Música Popular Brasileira (MPB). Nasceu em Sobral, no Ceará. O avô tocava sax e flauta. A mãe cantava na igreja. Tinha tios seresteiros. Ainda menino se apresentava como cantador repentista. Frequentou o Seminário dos Capuchinhos. Foi programador de rádio. Mudou-se para Fortaleza. Participou de festivais de música, se aproximou de outros artistas. Chegou a cursar quatro anos de medicina, mas abandou a universidade. Foi para o Rio de Janeiro e, depois, São Paulo. Viajou de carona num avião do Correio Aéreo Nacional, espécie de prenúncio do que viria depois na obra e na própria vida do artista. Ganhou o IV Festival Universitário da MPB com a canção Na hora do almoço. Criou um estilo próprio em que cabia sua voz peculiar. Teve canções gravadas por Elis Regina e deslanchou. Wilson Simonal, Lenny Andrade, Roberto Carlos, Vanusa, Fagner, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Ivan Lins, Zé Ramalho, João Bosco, Margareth Menezes, Ney Matogrosso e outros também gravaram canções de Belchior. Fez sucesso principalmente nos anos 1970, com os álbuns Alucinação (1976), Coração selvagem (1977), Todos os sentidos (1978), Era uma vez o homem e seu tempo (1979). Além de músico, foi poeta, pintor, desenhista e leitor de mão cheia. Estudou caligrafia. Dominava vários idiomas. Foi da poesia para a música. Fazia citações eruditas nas canções. Dizia ser um compositor brasileiro nascido no Nordeste que prezava mais suas raízes humanas – que eram amplas, estavam em todos os lugares e em movimento – que suas raízes regionais e folclóricas. 

 

Mais ou menos quando completou 60 anos, Belchior iniciou um movimento inusitado. Foi aos poucos cortando os laços que o prendiam à família, aos amigos, ao passado e à própria música. Separou-se e foi morar num flat com uma artista plástica. Viajaram e se hospedaram em hotéis saindo sem pagar. Moraram de favor em casas de fãs. Passaram um natal numa rádio abandonada. Ficaram por um tempo num mosteiro. Chegaram a morar com o Movimento dos Pequenos Agricultores e em uma comunidade alternativa. Belchior parou de fazer shows. Também parou de pagar pensões e outras despesas. Teve a conta bancária bloqueada e mandados de prisão decretados. Perdeu carros e outros bens. Passou uma noite debaixo de uma ponte. Sofreu com o sensacionalismo midiático. Foi caçado e forçado a dar entrevista para o principal canal de televisão brasileiro. Perambulou entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul. Morreu vitimado por um rompimento na aorta. Tinha 70 anos. A longa e última viagem de Belchior foi reconstituída e contada no livro Viver é melhor que sonhar, de Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti [1].   

 

O sumiço de Belchior intrigou muita gente. Há vários palpites explicativos. Desde que aspirava à santidade até que foi manipulado pela mulher que o acompanhou. Os autores de Viver é melhor que sonhar entrevistaram mais de 150 pessoas que foram próximas ou que estiveram com Belchior nos últimos anos do artista. Não conseguiram chegar a uma resposta sobre o sumiço. Mas deixaram uma pista interessante que resolvi seguir. A longa viagem do artista poderia ser uma possibilidade contida em algumas canções, como, por exemplo, Comentários a respeito de John.

 

Estradas, viagens e rupturas perpassam a música de Belchior. Um certo “meter o pé na estrada like a Rolling Stone”, como na canção Velha roupa colorida.  Talvez seja, inclusive, a principal linha de força na poética do bardo. Com um detalhe sugerido pelos acontecimentos posteriores: o que poderia parecer certo escapismo juvenil era, na verdade, um projeto, quase uma ética, como se a vida estivesse sempre em outro lugar. Não se tratava apenas da legítima necessidade de respirar num país bloqueado por uma ditadura empresarial-militar, era uma profunda necessidade existencial. Exemplificando com as canções do compositor. Mucuripe: “Vida, vento, vela, leva-me daqui”. Paralelas: “Dentro do carro, sobre o trevo a 100 por hora/ Oh, meu amor!/ Só tens agora os carinhos do motor”.  Comentário a respeito de John: “Saia do meu caminho/ Eu prefiro andar sozinho/ Deixem que eu decida a minha vida”. Tudo outra vez: “Há muito, muito tempo que eu estou longe de casa” [...] “Sentado à beira do caminho pra pedir carona/ Tenho falado à mulher companheira/ Quem sabe lá no trópico a vida esteja a mil” [...] “E um cara que transava a noite no Danúbio Azul/ Me disse que faz sol na América do Sul/ E nossas irmãs nos esperam no coração do Brasil” [...] “E eu vou viver as coisas novas que também são boas/ O amor, humor das praças cheias de pessoas”. Coração selvagem: “Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente/ Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente/ Sim, já é outra viagem/ E o meu coração selvagem tem essa pressa de viver” [...] “Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão/ O meu som e a minha fúria e essa pressa de viver/ E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza/ E arriscar tudo de novo com paixão/ Andar caminho errado pela simples alegria de ser” [...] “Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo”.

 

Dá para seguir a viagem pelos versos do bardo. Divina comédia humana: “Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não/ Eu canto”. Teria interrompido a carreira por não encontrar maneiras de dizer não? Belchior chegou a afirmar que associava a liberdade à possibilidade de dizer não [2]. Velha roupa colorida: “Você não sente nem vê/ Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/ Que uma nova mudança em breve vai acontecer”. A rima implícita faz a palavra amigo, no segundo verso, sugerir comigo na sequência. Como se a mudança fosse acontecer com o poeta.  Brincando com a vida: “Vida, eu não aceito, não! A tua paz/ Porque meu coração é delinquente, juvenil/ Suicida, sensível demais” [...] “A vertigem, o abismo, me atrai/ É esta a minha brincadeira”. O que foi a longa viagem do bardo senão uma busca pelo abismo e uma brincadeira com a vida? Princesa do meu lugar: “Se me der vontade de ir embora/ Vida adentro, mundo a fora/ Meu amor, não vai chorar”. Espécie de alerta prévio do que viria tempos depois. O mesmo acontecendo na canção Passeio: “Nesse cimento, meu pensamento e meu sentimento/ Só têm o momento de fugir no disco voador”.

 

Se não for viagem minha, há uma coerência intrigante entre as canções de Belchior e o sumiço dele. A obra joga luz sobre a longa viagem do artista e o inverso é verdadeiro. Muito se falou contra a última mulher do compositor, que o teria isolado da família, dos amigos e da própria carreira. Pode ser. É uma possibilidade. Mas, pelas canções, percebe-se que o artista precisava de uma companheira para cair na estrada com ele, para ganhar “esse mundo de meu Deus”, como na canção Galos, noites e quintais. Ou, como em Coração selvagem, precisava de uma mulher que lhe compreendesse a solidão, o som, a fúria e a pressa de viver. Uma companheira capaz de deixar a certeza de lado e arriscar com paixão, andando caminho errado pela simples alegria de ser.

 

Os autores de Viver é melhor que sonhar estabelecem paralelos literários para pensar o sumiço de Belchior. Citam a fuga de Tolstói, aos 82 anos [3]. Como Hans Castorp, que foi ficando no sanatório por vontade própria, Belchior ia ficando nas casas de fãs e amigos que o abrigavam [4]. O desaparecimento teria sido tão inexplicável quanto o aparecimento do corvo no quarto, sempre a repetir “nunca mais” [5]. Eu, pelo meu lado, vi na longa viagem de Belchior um “preferiria não” à la Bartleby [6]. Repetidas vezes pessoas próximas tentaram convencer o bardo a tocar, arrecadar dinheiro e melhorar sua situação. Todas as vezes ele deu um jeito de recusar, como Bartleby, o funcionário que respondia “preferiria não” quando o chefe lhe dava ordens. Um fã e amigo que esteve com Belchior nos últimos anos do compositor afirmou: “Ele não queria mais voltar e não voltaria sob hipótese nenhuma. Ainda assim, alimentava-se desses sonhos.” [7]   

 

Mais um paralelo literário por minha conta e risco. Ricardo Piglia escreveu um livro saboroso intitulado O último leitor [8]. Vai de Kafka a Joyce passando por Emma Bovary, Ana Karenina e Ernesto Che Guevara. O último leitor, para Piglia, é justamente o revolucionário argentino: “Guevara é o último leitor porque já estamos diante do homem prático em estado puro, diante do homem de ação.” A conclusão do ensaio sobre Che Guevara é uma daquelas sacadas que só os grandes romancistas são capazes de formular [9]. Mas voltando. Enxerguei um paralelo entre Che e Belchior pela afirmação da identidade latino-americana e porque ambos foram grandes leitores que ficaram quase sem nada, mas nunca sem livros. Che carregava livros quando foi capturado na Bolívia. Belchior jamais se distanciou dos livros, passou os últimos anos lendo, trabalhou numa tradução popular para a Divina Comédia. Outra aproximação possível é pelas viagens. Diz Piglia sobre o jovem Ernesto Guevara, que ainda não era o Che: “Escrever e viajar, encontrar uma nova maneira de fazer literatura, um novo jeito de narrar a experiência.” O mesmo estava posto para Belchior. Como possibilidade nas canções. Como fato consumado e conquistado nos últimos anos de vida. Com a peculiaridade de que o compositor alterou a ordem natural das coisas. Muitos jovens latino-americanos, como Ernesto Guevara, caíram na estrada nos anos 1950, 1960 e 1970. Belchior fez o mesmo décadas depois, nos últimos anos de sua vida, já no século XXI.

 

Se estradas, viagens e rupturas estão nos versos de Belchior; se são uma das principais linhas de força das canções: o sumiço dos últimos anos foi um posfácio radical e coerente para uma obra que sobreviverá. Belchior não ficou em casa contando vil metal. Certamente a longa viagem confundiu fãs, preocupou amigos e magoou familiares. Mas era uma possibilidade contida na obra do compositor. O artista devia estar farto de cantar as mesmas canções para o mesmo público. Preferiu viver os versos na estrada, com outras pessoas, em uma longa viagem: para realizar possibilidades contidas na música, porque viver é melhor que cantar.

 

Notas

[1] Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti. Viver é melhor que sonhar – os últimos anos de Belchior. Rio de Janeiro: Sonora Editora, 2021. 

[2] A entrevista em que o artista associa a liberdade à possibilidade de dizer não está no documentário Belchior – Apenas um coração selvagem, de Camilo Cavalcanti e Natália Dias.

[3] Tolstói abandonou a família no final de 1910. Fugiu de trem. Morreu de pneumonia poucos dias depois da partida.

[4] Referência ao romance A montanha mágica, de Thomas Mann.

[5] Referência ao poema O corvo, de Edgar Allan Poe.

[6] Referência ao conto Bartleby, o escrevente, de Herman Melville.

[7] O depoimento está no livro citado na primeira nota.

[8] Ricardo Piglia. O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

[9] Trecho final do ensaio Ernesto Guevara, rastros de leitura, de Ricardo Piglia. 


Publicado originalmente no Passa Palavra

 GREGOR SAMSA: A INSEGURANÇA E ADOECIMENTO DE UM TRABALHADOR


I

A história é conhecida. No final da vida, aos 40 anos... Franz Kafka pediu para que Max Brod queimasse-lhe os textos não terminados. O amigo não obedeceu e divulgou os escritos inéditos. Pouco tempo depois da morte de Kafka, em 1924, foram publicados O processo (1925), O castelo (1926) e outros. Fosse Max Brod um personagem kafkiano, como tantos que cumprem obstinadamente qualquer ordem, os textos teriam desaparecido para sempre.


A história também é conhecida, mas pouco associada aos contos e romances escritos por Kafka. Em 1908, já formado em direito, o escritor ingressou no Instituto de Seguros contra Acidentes do Trabalho do Reino da Boêmia. A atuação não se restringia a questões jurídicas, Kafka compunha o “departamento técnico”: visitava fábricas, construções, pedreiras, serrarias. Classificava o “nível de periculosidade” das indústrias e “se ocupava diariamente com as consequências de graves acidentes de trabalho”1. Acompanhou batalhas jurídicas travadas contra empresas e as consequências de acidentes para os trabalhadores: “Membros mutilados por serras ou bobinas de corda, escalpelamentos por rodas de transmissão, queimaduras, envenenamentos e cauterizações.”1 Kafka conheceu o mundo do trabalho por dentro. Em 1909, o escritor enviou uma carta a Max Brod em que relatava:

 

Pois o que eu tenho que fazer! Nos meus quatro distritos [...] como bêbadas as pessoas despencam dos andaimes para dentro das máquinas, todas as vigas tombam, todas as rampas se soltam, todas as escadas escorregam, o que se alcança para cima, desaba para baixo, o que se alcança para baixo, causa a própria queda. E se tem dores de cabeça das jovens nas fábricas de porcelana, que incessantemente se lançam sobre as escadas carregando torres de louça.2


A metamorfose é formada por três capítulos. Foi publicada em 1915. A novela não estava, portanto, entre as obras que deveriam ser queimadas, foi concluída pelo autor em vida, na época em que trabalhava no Instituto de Seguros contra Acidentes do Trabalho do Reino da Boêmia. Kafka às vezes não dá nomes aos personagens, mas costuma indicar-lhes as profissões: o oficial (Na colônia penal), os ajudantes (O castelo), o jejuador (Um artista da fome). Ainda que não seja o único, A metamorfose é um dos textos kafkianos em que o trabalho é central, principalmente no primeiro capítulo. Certa manhã, o caixeiro viajante Gregor Samsa desperta de sonhos intranquilos e se percebe transformado em inseto. A partir do segundo capítulo, o narrador explora a relação entre a família e Gregor, que continua ouvindo, mas vai aos poucos perdendo a fala. Impossível não pensar em Bartleby, o escriturário, de Herman Melville, que começa a repetir “preferiria não” e vai perdendo a fala dentro de um escritório em Wall Street. Bartleby se refugiava atrás de um biombo. Gregor Samsa, já transformado em inseto, se refugiava debaixo de um sofá. Bartleby é um Gregor Samsa que recusou o trabalho. Gregor Samsa é um Bartleby incapaz de dizer “preferiria não” ao chefe e à empresa.


II

A fórmula foi repetida no romance O processo, o drama começa ao despertar. Na mesma frase, logo no início da novela A metamorfose, o narrador informa que Gregor Samsa teve “sonhos intranquilos e está na cama metamorfoseado num inseto monstruoso”3. Na sequência, ficamos sabendo que as numerosas pernas do inseto, lastimavelmente finas, tremulavam ao alcance de seus olhos. Não há nenhuma indicação sobre a causa da metamorfose, mas no terceiro parágrafo, logo após Gregor perguntar “o que aconteceu comigo?”, somos informados que Samsa é um caixeiro-viajante e, apesar de ter se transformado num “inseto monstruoso”, ainda conserva a fala, é o próprio que diz:

 

Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia – viajando. A excitação comercial é muito maior que na própria sede da firma e, além disso, me é imposta essa canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso.

 

Refletindo sobre as mazelas do trabalho, Gregor Samsa reclama dos problemas relacionados ao sono numa profissão em que é obrigado a viajar constantemente.  Na sequência ficamos sabendo, pela boca do “inseto monstruoso”, que Gregor tem um chefe exigente e capaz de demiti-lo pelo menor deslize. Depois somos informados que a família Samsa (pais e irmã) é sustentada pelo caixeiro-viajante, que, por essa razão, teme perder o emprego. Além disso, o pai de Gregor tem uma dívida pecuniária com o chefe do filho, o que o pressiona a continuar trabalhando: “Se não me contivesse por causa dos meus pais, teria pedido demissão há muito tempo; teria me postado diante do chefe e dito o que penso do fundo do coração.”3

 

Como não consegue se levantar da cama, Gregor pensa em faltar ao trabalho alegando problemas de saúde, mas desiste porque nunca havia ficado doente em cinco anos de serviço. Além disso, “o chefe viria com o médico do seguro de saúde, censuraria os pais por causa do filho preguiçoso e cercearia todas as objeções apoiado no médico, para quem só existem pessoas inteiramente sadias, mas refratárias ao trabalho.”3 O médico é um exemplo de personagem sem nome e com profissão, ele tomaria partido da empresa e cumpriria obstinadamente qualquer ordem. A medicina do trabalho é uma especialidade que surgiu como exigência das empresas para baratear custos, é comum encontrar médicos do trabalho mais preocupados com os lucros do capital do que com a saúde dos funcionários. Kafka conhecia o mundo do trabalho, a referência ao “médico do seguro de saúde” não é à toa.

           

Ainda sem conseguir sair do quarto, Samsa nota alterações na própria voz, mas acredita tratar-se do prenúncio “de um severo resfriado, moléstia profissional do caixeiro-viajante”3. Moléstia profissional...

 

Passam-se algumas páginas, mas ainda estamos nas primeiras horas daquela manhã, Gregor escuta batidas na porta do apartamento, do quarto ouve as primeiras palavras e identifica o visitante, é o gerente. Neste ponto, o narrador pergunta:

 

Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita? Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos? Não havia, pois, entre eles nenhum homem leal e dedicado que, embora deixando de aproveitar algumas horas da manhã em prol da firma, tenha ficado louco de remorso e literalmente impossibilitado de abandonar a cama? 

 

A mãe de Gregor recebe o gerente dizendo que o filho não estava bem e que ainda não havia saído do quarto, segundo ela, Samsa não tem outra coisa na cabeça a não ser o trabalho. O gerente responde: “Esperemos que não seja nada grave. Embora por outro lado eu tenha de dizer que nós, homens do comércio, feliz ou infelizmente – como se quiser – precisamos muitas vezes, por considerações de ordem comercial, simplesmente superar um ligeiro mal-estar.”3 A referência ao trabalho é tão explícita quanto a pressão do gerente, que assedia o funcionário diante da família Samsa.

 

Transformado num inseto, Gregor não consegue se levantar e abrir a porta, mas continua ouvindo e falando. O estranhamento, em Kafka, brota de contrastes desse tipo. O gerente eleva o tom de voz e se dirige a Gregor: “O senhor se entrincheira no seu quarto, responde somente sim ou não, causa preocupações sérias e desnecessárias aos seus pais e descura – para mencionar isso apenas de passagem – seus deveres funcionais.”3 Cresce o estranhamento: de um lado, um homem transformado num “inseto monstruoso” tentando se levantar e ir para o trabalho; do outro lado, um gerente preocupado com o negócio. Diante da situação absurda, as ações e reações são normais, os personagens respondem com atitudes comuns, naturaliza-se o estranhamento. O gerente diz a Gregor: “O chefe em verdade me insinuou esta manhã uma possível explicação para as suas omissões – ela dizia respeito aos pagamentos à vista que recentemente lhe foram confiados.”3 O superior sugere que o subordinado poderia ter roubado uma quantia que lhe havia sido confiada, ou seja, a honestidade do caixeiro-viajante é questionada, apesar dele ser um funcionário exemplar.

           

Gregor pede que seus pais sejam poupados, afinal, não havia motivos para as censuras. Ele se refere ao mal-estar: “Por que não comuniquei à firma? Mas sempre se pensa que se vai superar a doença sem ficar em casa.”3 Ele resistiu enquanto pôde, como Bartleby. O caixeiro-viajante suplica: “senhor gerente, o senhor está vendo que não sou teimoso e que gosto de trabalhar, viajar é fatigante, mas não poderia viver sem viajar.”3 Gregor Samsa mostra que vestia a camisa da empresa. Na sequência, ele suplica: “Tenho por outro lado de cuidar dos meus pais e da minha irmã. Estou num aperto, mas sairei dele trabalhando. Não me torne, porém, as coisas mais difíceis do que já são.”3


III

A presença ambígua do trabalho na literatura não foi inaugurada por Kafka. Trinta anos antes do nascimento do escritor tcheco, Herman Melville publicou o conto Bartleby, o escriturário. Como os personagens kafkianos, o passado de Bartleby é desconhecido, sabe-se, apenas, que ele foi contratado para trabalhar num escritório em Wall Street. Aos poucos, o escriturário passa a repetir a frase “preferiria não” quando o chefe lhe pede para elaborar ou revisar documentos. Depois cai num mutismo quase total. Bartleby definha dentro do escritório4, praticamente perde a fala, como Gregor Samsa. Mas, em geral, ensaístas, filósofos e acadêmicos não relacionam o caso Bartleby ao trabalho5, o mesmo acontece com a novela A metamorfose.


Walter Benjamin registrou que “o mundo das chancelarias e dos arquivos, das salas mofadas, escuras, decadentes, é o mundo de Kafka.”6 Vale destacar que, dentro das chancelarias, entre os arquivos, nas salas mofadas, laboram homens invisíveis, como Bartleby e os personagens kafkianos. Albert Camus notou uma cumplicidade secreta unindo o lógico e o cotidiano ao trágico: “Eis aí por que Samsa, o herói de A metamorfose, é um caixeiro-viajante. Eis aí por que a única coisa que o aborrece na singular aventura que faz dele um inseto repugnante é que seu patrão ficará descontente com sua ausência.”7 Onde Camus enxerga o “cotidiano”, vejo o “trabalho”, é o que sugere todo o primeiro capítulo, com os parágrafos se alternando para relatar as mazelas da metamorfose e do ofício de caixeiro-viajante. A história de Gregor Samsa seria diferente se ele fosse porteiro, segurança ou funcionário público.


Kafka reclamava que o emprego no Instituto de Seguros contra Acidentes do Trabalho roubava-lhe o tempo necessário para escrever, mas teria escrito A metamorfose se não conhecesse e vivenciasse as mazelas do mundo do trabalho? A pergunta é válida para outros textos atravessados por questões laborais, como O processo, O castelo, Um artista da fome, A construção.


Na novela A metamorfose, mas não só, Kafka narra um acontecimento extraordinário com linguagem cartorial. É a grande sacada do escritor tcheco. Gregor Samsa age normalmente, apesar do absurdo. Também o narrador age normalmente, conta a história como se redigisse uma ata de reunião de condomínio, o que aumenta o estranhamento. O absurdo está naturalizado e não causa espanto. O narrador não se espanta com a metamorfose, assim como os leitores não se espantam com as mazelas laborais do caixeiro-viajante.


A excepcionalidade da metamorfose, somada à técnica refinada de Kafka, embaralha a imaginação dos leitores. Mas reparando bem, a transformação do caixeiro-viajante num “inseto monstruoso” tem relação com o trabalho, o que depõe contra o modo de produção capitalista.


Notas


1 Santos, T. B. dos. Tecnologia e Franz Kafka: experiências profissionais e sua relevância na ficção. Rev. Let., São Paulo, v.50, n.2, p.307-325, jul./dez.2010.


2 Carta citada no artigo acima, p. 309.


3 Kafka, F. A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


4 Para uma leitura do conto de Herman Melville a partir do trabalho, ver Bartleby: insegurança, doença e morte de um trabalhador, https://passapalavra.info/2019/05/126590/


5 Para uma leitura da novela a partir do campo da Saúde Mental e Trabalho, ver A metamorfose e o campo da saúde mental de trabalhadores: uma análise bakthiniana, https://doi.org/10.1590/1413-81232020259.28652018


6 Benjamin, W. Franz Kafka. A propósito do décimo aniversário de sua morte. In. Benjamin, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.


7 Camus, A. O mito de Sisífo. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.


Publicado originalmente no Passa Palavra