AS HISTÓRIAS REENCONTRADAS

 

Uma sensação estranha – que não compartilhei com ninguém – me acompanhou durante a infância: imaginava um rio atrás do meu quarto. Nunca entendi muito bem o porquê. Não havia sinais nem vestígios da presença do rio. Teria sonhado? Talvez. Ou então podia ser mais uma superstição infantil. Minha infância foi recheada de anjos, assombrações, espíritos, pecados, igrejas. Ocorre que, décadas depois, tive acesso a um mapa hidrográfico da cidade de São Paulo. Descobri que, na direção da janela do quarto em que cresci, na rua Gurupá, fica um dos braços canalizados do Água Preta.  Existe realmente um rio atrás do quarto em que cresci. Eu conhecia os cursos principais do Água Preta, mas não desconfiava que havia crescido bem perto de uma das nascentes canalizadas. Senti uma espécie de epifania ao ver o mapa hidrográfico de São Paulo. Foi a epifania do Água Preta. Por que passei a infância com a sensação estranha de que havia um rio atrás do meu quarto? Só há uma explicação. Cresci ouvindo histórias contadas por antigos moradores da Vila Anglo, pessoas que chegaram no bairro antes da canalização do Água Preta. Certamente alguém me contou sobre o rio que nascia na região. Deve ter dito que uma das nascentes era visível da janela do meu quarto. O impacto da história foi tão forte que nunca a esqueci, mesmo não lembrando quem a contou e nem quando. Imediatamente lembrei da história quando vi uma nascente do Água Preta na rua Gurupá, no mapa hidrográfico de São Paulo. Existe um rio canalizado ali. Imagino que a água nasce no pé de um barranco coberto por casas e sobrados, que corre por baixo deles até encontrar o rio Tietê, e depois o rio Paraná, e depois o rio da Prata, e depois o oceano Atlântico. Interessante pensar que a água que brota na rua em que cresci percorre boa parte da América do Sul antes de desaguar entre a Argentina e o Uruguai.

 

O avô do escritor Afonso Cruz [1] foi preso e torturado pela polícia política. O velho nunca comentava a história. Ocorre que, quase vinte anos após a morte do avô, o escritor teve acesso a um livro chamado Eles vieram de madrugada, de Manuela Câncio Reis. O livro foi encontrado na biblioteca do pai de Afonso Cruz, na folha de rosto havia uma dedicatória: “Para o meu neto, para que ele perceba um pouco daquilo que eu passei” [2]. Era como se o livro tivesse sido escrito do avô para o neto. Era uma espécie de leitura para o futuro. O menino precisava se tornar homem para conhecer aquela história. Afonso Cruz sentiu uma epifania. A voz que ouvia ao ler o livro era a do avô. Deve ter sido parecido com o que senti quando vi o mapa hidrográfico de São Paulo, com uma das nascentes do Água Preta localizada na rua em que cresci. A diferença é que não consigo identificar a fonte da história que ouvi quando menino. Quem sabe houve mais de um autor, o que tornaria tudo ainda mais interessante. Quem sabe o meu finado avô foi um dos coautores. São possibilidades. 

 

Na África se diz que quando morre um velho, desaparece uma biblioteca [3]. Tenho uma visão menos fatalista. As bibliotecas não desaparecem porque os livros se reagrupam e se oferecem para outros leitores. Também as histórias se reencontram e se recontam em outros tempos e contextos. A história do avô do escritor Afonso Cruz recontada a partir da dedicatória presente na folha de rosto de um livro. A história do rio que corre atrás do quarto em que cresci recontada no mapa hidrográfico elaborado, talvez, por pessoas que cresceram perto de mim e ouviram histórias parecidas.     

 

Tenho 46 anos. Idade difícil em que precisamos ganhar a vida, mesmo sabendo que estamos perdendo. Temos pouco tempo para ouvir histórias e não temos muitas histórias para contar. Certamente porque uma coisa é inseparável da outra. Como ensinou Eduardo Galeano, para saber falar, saber escutar [4]. Quem não sabe ou não tem tempo para escutar, terá dificuldade para falar, ou dirá banalidades, como as que dominam as redes sociais. Pode ser uma espécie de crise da meia idade ou, quem sabe, algo mais sério, um sinal de esgarçamento das coisas como as conhecemos. Fico pensando: que criança cresce, atualmente, ouvindo histórias dos mais velhos? Que histórias contarão as crianças formadas pelos vídeos do TikTok? Se as histórias não morriam, se eram reencontradas e recontadas, como as bibliotecas se reagrupam e se oferecem para outros leitores: a morte está sendo inventada no tempo presente. A morte será quando não tivermos tempo para ouvir histórias. A morte será quando não tivermos histórias para contar.  

 

Notas

[1] Afonso Cruz. O vício dos livros. Porto Alegre: Dublinense, 2024.

[2] Ibid., p. 89.

[3] Ibid., p. 86.

[4] Esse e outros ensinamentos podem ser conferidos no documentário Eduardo Galeano Vagamundo


Publicado originalmente no Passa Palavra




 

MAS TEM O MACHADO DE ASSIS

 

Eu cursava faculdade de economia. Estava mais ou menos na metade do curso. Momento em que o pessoal da turma começava a substituir as camisetas e as bermudas por roupas sociais, porque iniciavam estágios em bancos e grandes empresas. Tenho contato com poucos ex-colegas. Imagino que, atualmente, a maioria tenha perdido a ilusão no futuro e na carreira, o que não anula a fascinação daqueles primeiros dias vestindo roupas sociais. Nada mais fascinante – para um estudante de ciências econômicas – do que vestir roupas sociais. Eu não tinha grandes esperanças: trabalhava há algum tempo, não era estagiário, usava calças jeans e camisetas, lia muitos livros comprados em sebos e poucos manuais de economia. As roupas sociais, a carreira e o futuro não me fascinavam. Mas havia um professor que me intrigava. Vou chamá-lo de L. Não acredito que meus ex-colegas de turma leiam os textos que escrevo, mas, mesmo assim, vou dificultar a identificação porque se trata de uma história baseada em fatos reais. O professor L talvez tenha sido vitimado pela reforma da previdência, pode ter perdido o emprego em empresa multinacional, talvez esteja ganhando a vida exclusivamente com o dinheiro das aulas de microeconomia. Daí a importância de preservar a identidade. L explicava os comportamentos e as preferências dos consumidores e das empresas, dava exemplos citando mercados específicos. Meus colegas de turma quase aplaudiam. Era quando o professor L humildemente erguia o livro texto de microeconomia, batia o indicador na capa e dizia “está tudo aqui”. Só que de vez em quando ele emendava um “mas tem o Machado de Assis”. Às vezes ele dizia “mas tem o Machado de Assis” no meio da explicação sobre o comportamento dos agentes econômicos, sem se preocupar em conectar uma coisa com a outra, como se fosse um desabafo. Eu não entendia quase nada de microeconomia, mas entendia perfeitamente o que o professor L queria dizer com aquele “mas tem o Machado de Assis”. Era um protesto contra as simplificações. Era um alerta sobre o horizonte bancário. Era a teoria do medalhão virada do avesso. Era um grito desesperado de um leitor. Era um narrador machadiano intervindo na história. Nada mais deliciosamente existencial do que aquele “mas tem o Machado de Assis”.

 

Milan Kundera [1] divide a história do romance em três tempos. O Primeiro Tempo vai até o final do século XVIII; tem Rabelais, Cervantes, Sterne e Diderot como referências; e caracteriza-se por: “1) a liberdade eufórica da composição; 2) a vizinhança constante das histórias libertinas e das reflexões filosóficas; 3) o caráter não sério, irônico, paródico, chocante dessas mesmas reflexões.” [2] O Segundo Tempo prevaleceu durante o século XIX; tem Balzac, Stendhal, Zola e outros como referências; e caracteriza-se pela verossimilhança, a realidade é descrita com exatidão e detalhes, o romance se torna um documento histórico. O Terceiro Tempo começa no século XX; tem Kafka, Musil, Broch e Gombrowicz como referências iniciais, continuando com Sabato, Fuentes e outros; as características do Terceiro Tempo são: retorno à estética dos primeiros romancistas, utilização da reflexão ensaística, liberdade de composição, digressões, renúncia à verossimilhança e ao realismo psicológico, retomada do não-sério e do jogo [3]. Kundera dá um exemplo interessante para diferenciar os três tempos do romance: Sancho Pança tem cento e três dentes quebrados durante suas aventuras com Dom Quixote. O espírito zombeteiro e não-sério que predomina no livro de Cervantes teria se tornado incompreensível no Segundo Tempo do Romance devido ao “imperativo da verossimilhança” [4], ninguém teria cento e três dentes quebrados num romance de Zola. Para Kundera, os grandes romancistas do Terceiro Tempo teriam retomado e reinventado o espírito zombeteiro e não-sério a la Rabelais, Cervantes, Sterne e Diderot.

 

A divisão “toda pessoal” [5] da história do romance formulada por Milan Kundera se torna ainda mais interessante quando bardo tcheco agrega a música à reflexão sobre os três tempos, ver, por exemplo, a defesa de Stravinski contra a Adorno no texto A escandalosa beleza do mal, presente nos Testamentos Traídos [6]. Mas voltemos ao romance. Durante algum tempo tive vontade de escrever uma carta para Milan Kundera. A carta que nunca redigi teria como título a frase do professor L: Mas tem o Machado de Assis. Como Kundera encaixaria o “Bruxo do Cosme Velho” nos três tempos do romance? Machado é uma pedra no meio do caminho. Os livros didáticos registram que o “Bruxo do Cosme Velho” inaugurou o realismo no Brasil com a publicação das Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881. Só que a história, narrada por um “defunto autor”, tem muito mais a ver com o Primeiro Tempo do Romance, com o espírito zombeteiro e não-sério, do que com o realismo e a verossimilhança. O próprio Machado [7] registrou no início das Memórias Póstumas ter escrito com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, adotando “a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre”, com algumas “rabugens de pessimismo”. Por “forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre” entenda-se a profissão de fé do “Bruxo do Cosme Velho” nos princípios estéticos dos primeiros romancistas, ou, utilizando as palavras de Kundera [8] sobre os compositores modernos para escrita machadiana: “uma inimitável felicidade do ser, felicidade que se manifesta pela irresponsabilidade eufórica da imaginação, pelo prazer de inventar, de surpreender, até de chocar pela invenção.” É essa felicidade da criação, esse prazer de inventar, que autorizam um “defunto autor” a contar sua história e permitem que um escudeiro tenha cento e três dentes quebrados. Ou, para dar um exemplo do Terceiro Tempo do Romance, é essa felicidade da criação, esse prazer de inventar, que autorizaram o romancista Juan Goytisolo a conceder cerca de duzentos anos de vida a Marx, para que ele estivesse vivo em Londres, acompanhasse pela televisão e comentasse o fim do socialismo dito real [9]. São os “sortilégios do narrador que inventa”, que “se deixa levar por suas fantasias e por seus excessos” [10].

 

Desisti de escrever uma carta perguntando a Kundera como encaixar o “Bruxo do Cosme Velho” nos três tempos do romance quando encontrei um texto de Carlos Fuentes intitulado O milagre de Machado de Assis [11]. Fuentes foi grande amigo de Kundera, que incluiu o escritor mexicano entre os grandes romancistas, além dedicar-lhe uma bela carta aberta parabenizando-o pela obra e pelos setenta anos de idade [12]. No texto O milagre de Machado de Assis, Fuentes cita Kundera e, creio, registra o que o tcheco diria sobre o brasileiro. Isso porque Fuentes parte dos ensaios de Kundera para pensar os romances do “Bruxo do Cosme Velho”. Se eu escrevesse uma carta a Kundera intitulada Mas tem o Machado de Assis, a resposta poderia ser E tem o Carlos Fuentes, sugiro que leia o texto dele publicado na Folha de São Paulo em 01 de outubro de 2000. O que Kundera define como Primeiro Tempo do Romance, Fuentes define como Tradição de La Mancha. O que Kundera define como Segundo Tempo do Romance, Fuentes define como Tradição de Waterloo. Fuentes: “A tradição de Waterloo afirma-se como realidade. A tradição de La Mancha sabe-se ficção e, mais ainda, celebra-se como ficção. Waterloo oferece fatias de vida. La Mancha não tem outra vida afora a do seu texto, feito à medida em que é escrito e é lido. Waterloo surge do contexto social. La Mancha descende de outros livros. Waterloo lê o mundo. La Mancha é lida pelo mundo. Waterloo é séria. La Mancha é ridícula. Waterloo baseia-se na experiência: diz o que já sabemos. La Mancha baseia-se na inexperiência: diz o que ignoramos. Os atores de Waterloo são personagens reais. Os de La Mancha, leitores ideais.” Fuentes dá um exemplo interessante para diferenciar as tradições La Mancha e Waterloo: Dom Quixote; Tristam Shandy; Jacques, o Fatalista; e Brás Cubas sabem que são personagens.

 

Tanto para Kundera quanto para Fuentes, um grande romance só é possível dentro de alguma tradição. Fuentes: “não há criação sem tradição que a nutra, assim como não há tradição sem criação que a renove”. Para Carlos Fuentes, o milagre de Machado de Assis ocorreu porque o escritor brasileiro é um legítimo herdeiro de Cervantes. A tradição de La Mancha não foi totalmente suplantada pelo realismo, ela reapareceu no Rio de Janeiro com um homem negro, pobre, autodidata, epilético, míope, que aprendeu francês numa padaria. Fuentes destaca, e isso aumenta o milagre de Machado de Assis, que não existia “uma grande tradição novelesca, nem brasileira nem portuguesa.” O “Bruxo do Cosme Velho” nutriu, renovou e revigorou a arte do romance com “a pena da galhofa, a tinta da melancolia e as rabugens de pessimismo”. Ao espírito zombeteiro e não sério dos primeiros romancistas (“pena da galhofa”), Machado agregou o banzo e o ceticismo do Brasil escravista (“tinta da melancolia e rabugens de pessimismo”). O Brasil não era, não é e provavelmente nunca será um país sério. O “Bruxo do Cosme Velho” sabia que não dá para levar a sério o que não é sério. Se é assim, melhor enfrentar a melancolia e o pessimismo com a galhofa. Machado inaugurou uma espécie de sabedoria da desconfiança e do riso, que coloca todas as certezas e todos os valores sob suspeita. Se nada pode ser levado a sério, melhor rir e desconfiar de tudo, exceto, talvez, da arte e do romance. Eis o ensinamento do “Bruxo do Cosme Velho”.

 

Kundera lamentou a guinada realista que interrompeu o Primeiro Tempo do Romance. Mas tem o Machado de Assis. Fuentes lembra que o convite ao jogo e ao sonho reapareceram no romance com o “Bruxo do Cosme Velho”, no Rio de Janeiro, no século retrasado. Mas não é só isso, Machado de Assis retomou e revigorou a estética dos primeiros romancistas, não tropeçou na verossimilhança, antecipou muito do que fariam os escritores do século XX, escreveu com espírito zombeteiro e irônico, permitiu-se ampla liberdade de criação, colocou todas as certezas e valores sob suspeita, fez uso de digressões e da reflexão ensaística sempre com a “pena da galhofa”. Se é tudo isso – e realmente é – dá para registrar, usando os termos de Carlos Fuentes e Milan Kundera, que Machado de Assis é um milagre porque é uma ponte que atravessa e interliga os três tempos do romance.

 

Notas

 

[1] Milan Kundera. Os testamentos traídos. Rio de Janeiro: Nova Fronteria, 1994.

 

[2] Kundera, 1994, op cit., p. 71.

 

[3] Kundera, 1994, op cit., p. 67.

 

[4] Kundera, 1994, op cit., p. 54.

 

[5] Milan Kundera. Um encontro. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 97.

 

[6] Kundera, 1994, op cit., p. 82-83.

 

[7] Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2016. p. 53

 

[8] Kundera, 1994, op cit., p. 80.

 

[9] Juan Goytisolo. A saga dos Marx. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

 

[10] Kundera, 1994, op cit., p. 54.

 

[11] Carlos Fuentes. O milagre de Machado de Assis. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0110200003.htm

 

[12] Milan Kundera, 2013, op cit., p. 75-78. 


Publicado originalmente no Passa Palavra

 

POEMINHAS ECOLÓGICOS

 

1

velha lagoa

sapos babosos

abraço tântrico

 

2

velha lagoa

abraço dos sapos

é primavera

 

3

o tempo parou

na velha lagoa

abraço dos sapos

 

4

velha perereca

subindo pela parede

solidão úmida

 

5

velha lagoa

uma rã salta

sobre a outra

 

6

velha lagoa

rã sobre rã

som sensual

 

7

rãs na lagoa

uma sobre a outra

olhinhos felizes

 

8

rã no gramado

saltando, saltando

Bashô revisitado

 

9

velho Bashô

sua rã salta

dentro da gente


Publicados originalmente no Passa Palavra

O SERVIDOR PÚBLICO

 

Despertou. Desceu da cama e calçou os chinelos que posicionava sempre no mesmo local. Tudo tinha seu lugar. Das roupas à escova de dente, das cuecas aos documentos pessoais, das ferramentas aos medicamentos. Era-lhe simplesmente insuportável não encontrar uma coisa ou encontrá-la fora do lugar. O servidor público odiava mudanças, bagunças e desorganizações. Caminhou até o banheiro. O dia não estava totalmente claro, a luz não havia penetrado na casa. Mas conhecia bem o caminho e seguiu sem dificuldade. Era capaz de percorrer todos os cômodos de olhos fechados. Isso por uma única razão: cada coisa tinha o seu lugar, que ele conhecia, mantinha e administrava. Assim era. Assim devia ser. Acendeu a luz do banheiro. Fechou a porta. Despiu-se. Deixou o chinelo perto do box. Dobrou o pijama e posicionou as peças sobre o gabinete. Depositou a cueca no roupeiro. Abriu a torneira. Deixou a água correr e lavou as mãos. Molhou os braços. Lavou o rosto. Penteou os cabelos. Não fez a barba. Era feriado. Não trabalharia. 28 de outubro: dia do servidor público, dia dele. Apanhou creme dental, escovou os dentes. Aliviou-se. O intestino do servidor público era tão pontual quanto o próprio servidor público. Limpou-se. Entrou no box. Abriu a torneira do chuveiro. Tomou banho frio. O contato com a água gelada era revigorante, dava-lhe força para ganhar mais um dia. Secou o corpo e se cobriu com a toalha. Retornou ao quarto. Vestiu-se. Beijou a esposa e a aliança. Sempre beijava a esposa e a aliança, nessa ordem. Celebrava diariamente a união, o casamento e a família. Voltou ao banheiro. Depositou a toalha de banho no roupeiro. Penteou novamente os cabelos. Desceu a escada sem fazer barulho. Conhecia a altura de cada degrau. Foi até a cozinha. Tomou um copo de água fresca. Espiou o relógio de parede. Estava ligeiramente adiantado, provavelmente porque não havia feito a barba. Devia ter se barbeado. A ordem natural dos acontecimentos precisava ser mantida e respeitada. Era segunda-feira: um homem deve fazer a barba diariamente, ainda mais um servidor público, porque tudo tem seu lugar e seu tempo. Foi até a sala. Abriu a cortina e a janela. Sentou-se no sofá. Correu os dedos pela barba por fazer. Irritou-se. Esperou. Sairia no horário exato para comprar os pães. Um servidor público deve ser pontual como os passarinhos, os galos e os grilos. Se a natureza não fosse precisa, o mundo seria caótico. Retornou da padaria e colocou os pães sobre a mesa. Lavou as mãos com detergente, na pia da cozinha. Complementou a higiene com álcool gel. Apanhou pratos e talheres no armário. Apanhou alimentos na geladeira. Montou a mesa para o café da manhã enquanto ouvia ruídos no andar de cima da casa. Alegrou-se. Eram os primeiros movimentos da esposa e das filhas. Estavam acordadas. Aquela família cumpria o horário naturalmente. Os despertadores eram prescindíveis. Passou o café. Atravessou a sala de jantar e a sala de estar. Apanhou o controle remoto da televisão. O servidor público gostava de tomar café da manhã com a família acompanhando o telejornal. Assim se atualizavam e começavam bem o dia. Mas hesitou. Era 28 de outubro. Os telejornais costumavam criticar o serviço público e os servidores públicos. Ganhavam muito. Trabalhavam pouco. Não discordava totalmente das críticas. Com certeza havia colegas complicados. Havia vagabundos que não gostavam de trabalhar e prejudicavam a imagem das instituições. Mas ele não. Esposa e filhas se posicionaram para tomar café da manhã. Ele aguardava na mesa, em silêncio. Recebeu cumprimentos. Era o dia dele. Faltava apenas o telejornal. Devia ser o feriado – pensaram elas. O servidor público se alegrou ao ver as filhas devidamente uniformizadas para mais um dia letivo. Elas se alimentaram, levantaram, recolheram e lavaram pratos e talheres. O servidor público guardou os alimentos que sobraram. As filhas escovaram os dentes, pentearam os cabelos, apanharam o material escolar, pediram para o pai acompanhá-las até a escola. Insistiram. Mas ele preferiu não ir. Beijou as meninas e a esposa e ficou em casa.

 

O servidor público se sentiu sozinho. Não estava vestido para o trabalho. Não havia cortado a barba. Não assistira o telejornal. Sequer havia acompanhado as meninas. Devia ter ido com elas. Por que não foi com elas até o colégio? Devia ter feito a barba para acompanhar as filhas. Seria um dia perdido. Ocorreu-lhe que o feriado de 28 de outubro era, na verdade, uma pequena vitória da esquerda e dos esquerdistas do sindicato: que não respeitavam as instituições, que não tinham fé, que queriam destruir as famílias, que não faziam a barba, que não gostavam de trabalhar, que se recusavam a servir a Deus. O servidor público tinha ódio da esquerda e dos esquerdistas do sindicato. Quando havia assembleias sindicais na porta da repartição, ele contornava e entrava por trás para evitar contato com aquela gente. Eram vagabundos que não trabalhavam. Assembleias sindicais eram frequentadas por gente que não gostava de trabalhar. Ele amava o próprio trabalho. Todos deviam amar o que faziam. As coisas são o que devem ser. É preciso amar as coisas como elas são. Os “colegas” esquerdistas passariam o 28 de outubro se embriagando, se empanturrando, fazendo orgias, bagunçando, conspirando. Os vagabundos do sindicato passariam o 28 de outubro planejando greves e paralisações. Aquela gente se achava grande coisa. Mas não conseguiam nem cumprir horário. Pegavam mais atestados médicos do que processos para encaminhar. Ocorreu-lhe que não apenas o 28 de outubro, todos os feriados – com exceção dos religiosos – eram vitórias da esquerda. Precisava combater aquela gente. Devia se vestir, ir até a repartição e trabalhar ainda mais do que já trabalhava. Seria um tapa na cara daquela gente. Um servidor público de verdade deveria comemorar o seu dia trabalhando. Um servidor público deveria comemorar o seu dia servindo a Deus e ao país. Simples assim. Nada mais importante do que servir! Quem não vive para servir não serve para viver – repetiu para si mesmo o que ouvia do pastor, gostava do jogo de palavras. Pena não ter solicitado autorização para entrar na repartição e trabalhar no feriado. Não trabalharia para não contrariar as normas. Só por isso. Um servidor público deve respeitar as leis, as instituições e, sobretudo, as normas. O servidor público deve acreditar nas leis, nas instituições e, sobretudo, nas normas. Os esquerdistas vagabundos que descumpriam as leis, as instituições e as normas. E ninguém fazia nada. Os esquerdistas vagabundos que desmoralizavam as leis, as instituições e as normas. E ninguém fazia nada. Os esquerdistas vagabundos não acreditavam nem nas leis, nem nas instituições e nem nas normas. E ninguém fazia nada. Quem começa duvidando das leis, das instituições e das normas acaba duvidando de Deus, da família e do país. Eram uns pecadores, uns bêbados, uns drogados. Vermes que não sabiam administrar nem as próprias casas, mas queriam administrar as instituições públicas, o país e o mundo. Vermes sem família, que é a base de tudo. Chifrudos. Pervertidos. Veados. Fechou as mãos. Apertou os dedos. Beijou a aliança. Queria socar os esquerdistas. Se os patriotas tivessem, pelo menos, um líder com coragem para fazer o que era necessário, aquela gente seria eliminada. O ex-presidente fraquejou e não fez o que deveria ter feito. Se não dava para eliminar todos os esquerdistas, poderia começar expulsando-os do serviço público. Não era fácil, ele mesmo já havia feito denúncias anônimas na Corregedoria, na Comissão de Ética e no Ministério Público. Os vermes de esquerda prejudicavam a imagem das instituições públicas, não trabalhavam e ninguém fazia nada. É que aquela gente era influente. Por isso o ex-presidente não conseguiu fazer tudo que deveria ter feito. O serviço público deve ser para quem quer servir ao país, como um crente serve a Deus. O trabalho dignifica o homem. Aqueles bandidos queriam desmoralizar o Estado e as instituições públicas. Queriam ensinar putaria nas escolas. Queriam fechar as igrejas e destruir as famílias. Sempre que podia, o servidor público enchia o peito de ar e de orgulho para repetir seu bordão: a família é a base de tudo! Dizer isso na repartição era, para ele, como dar um soco na cara dos esquerdistas. Aqueles vagabundos se achavam grande coisa. Eram apenas bandidos que defendiam bandidos. Não gostam da polícia. Criticam a polícia. Quando um policial se defende e mata um bandido, fazem barulho. Quando os bandidos ferem ou até matam algum policial, ficam calados. Canalhas. Hipócritas. Enquanto ele estava preocupado com o país e com os vermes de esquerda, os vermes de esquerda certamente estavam dormindo e descansando para mais um dia de bebedeiras, orgias, bagunças, conspirações. Acordariam para tramar greves e conspirações. Irritou-se ainda mais. Mas o servidor público iria à forra no dia seguinte. Quando os vermes de esquerda chegassem na repartição com álcool saindo pelos poros, ele já estaria trabalhando. Trabalharia cada vez mais. Trabalharia pelas instituições, pela família, pelo país, por Deus.  O servidor público se considerava um privilegiado. Fora abençoado com a possibilidade de servir duplamente: servia a Deus e servia ao país. Tivesse que escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa, o servidor público escolheria o verbo servir! 


Publicado originalmente no Passa Palavra