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No ano de 12.022 os mitos serão terríveis. Sísifo, a montanha e a pedra serão esquecidos. Sísifo deixará, finalmente, de rolar a pedra montanha acima.

No ano de 12.022 um mito dará conta de uma geração que viveu curvada sobre aparelhos eletrônicos, que carregavam nas mãos. Quando tentavam espiar as pessoas, os bichos, as montanhas e até as pedras no meio do caminho; recebiam mensagens, e se mantinham curvados sobre os aparelhos: como gado no pasto.

Sísifo, do alto da montanha, podia, pelo menos: espiar a vista.


LAMENTO PAULISTANO

Dos quatrocentos e sessenta e cinco anos de São Paulo, vivi quarenta e me lembro dos últimos trinta e poucos.
          
O Morro da Forca já tinha sido transformado em Praça da Liberdade. Já havia milhares de homens e mulheres morando nas calçadas e praças, debaixo de pontes e viadutos. Carrego uma imagem da infância: homens dormindo em camas de papelão, no pé das portas fechadas das igrejas. Esta fotografia absurda continua exposta na Catedral da Sé, na Igreja Nossa Senhora de Fátima e tantas outras.

Os rios já estavam mortos e os córregos canalizados. Alguns milhões de seres humanos e nenhum peixe. As bandeirinhas coloridas de Volpi: garrafas de plástico boiando no Tietê e no Pinheiros. Assassinaram o Tamanduateí, o rio do tamanduá verdadeiro, lembro-me de ter ouvido um senhor contar que pescava no Tamanduateí com o guarda-chuva. Pintura surreal, tempo da delicadeza em extinção.

O mosaico de garrafas de plástico boiando nos rios mortos de São Paulo pinta um quadro pós-moderno, de inigualável feiura, como a fileira de luzes dos autos imóveis. Os veículos se movimentam no ritmo das águas paradas e mortas dos rios da cidade.

Nada acontece no meu coração de asfalto quando cruzo a Ipiranga com a São João. A cara de São Paulo é o pixo, a cidade tem a cara pixada. Pixo: produto de exportação. Pixo: estética da barbárie, idioma intraduzível de São Paulo. Pixo: grito dos córregos enterrados e da juventude assassinada pela polícia. Meu coração bate em todo pixo, para o bem e para o mal. Meu coração rabiscado. Meu coração asfaltado. Meu coração paulistano.
           
Havia e há muitas pipas, ou papagaios, ou quadrados. Onde encontram brechas na fiação, moleques empinam seus brinquedos de voar e sumir.
           
A garoa virou tempestade de verão e seca de inverno: enchente e secura.

Espiando por entre os prédios, ainda se vê a Serra da Cantareira, parede viva ao norte da cidade. Demorei para reparar na Cantareira. Talvez porque o verde escapa da visão adaptada às escalas de cinza. São Paulo tem cor de asfalto.
           
Havia hortas nos quintais. O manjericão do molho de tomate do almoço do domingo vinha do quintal da nona. Os primos e tios vinham das suas casas. Todos se juntavam para a refeição com molho e macarrão feitos à mão. Até que os almoços de domingo se transferiram para as steak houses e os molhos foram enlatados, com claro prejuízo gastronômico e humanísticos. O piso cobriu os jardins. Os muros subiram e foram pixados.
           
Nos bairros como o meu se ouvia pelas ruas o espetaculoso falar dos italianos. Até que aqueles imigrantes tardios (da segunda metade do século XX) começaram a morrer – meia centena de anos depois da chegada – e a língua calou-se com eles. Em bairros como o Paraíso e Ana Rosa se viam e se veem grupos de japoneses. Em todos os cantos da cidade se encontrava e ainda se encontra uma multidão de nordestinos, dos quais sequer se reconhece a naturalidade, são todos agrupados no coletivo “baiano”, ainda que sejam paraibanos, piauienses, sergipanos e por aí vai. Latino-americanos de cabelos escuros, especialmente bolivianos, estão cada vez mais presentes, seus cabelos desbotam nas tecelagens do Brás e do Bom Retiro.
           
Na hora do almoço e do jantar, o perfume dos temperos escapava das panelas para as janelas e destas para as ruas. Caminhar pelas calçadas nessas horas era uma jornada aromática, às vezes ainda é, apesar do avanço das fast foods. O inglês de empresários e executivos tenta substituir o italiano e o português dos imigrantes.

Trocaram-se as praças de brincar pelas de alimentação, dos shoppings. Os campos de futebol de várzea viraram prédios, ou condomínios fechados, ou igrejas evangélicas. Os videogames substituíram as peladas. Adeus futebol jogado na rua, com chinelos demarcando as metas.

Aqui o capitalismo chegou com força, transformando tudo em mercadoria, inclusive as desgraças, sempre tão lucrativas para a mídia sensacionalista.

São Paulo segue sendo construída e demolida pelo capital: soterrada pelo entulho e asfixiada pela fumaça. A cidade é cinza e chamuscada.

O amor por São Paulo é estranho e se manifesta pelo avesso, está justamente no ataque à cidade, como nos pixos. São Paulo agride seus habitantes, que agridem a cidade, como nesta crônica. Quem sabe um dia a cidade e seus habitantes – a cidade e seus rios – possam se reencontrar.

São Paulo é um lixão cheio de tijolos, carros, latas, garrafas, ratos, baratas, urubus, indigentes, ossos e sonhos. São Paulo é grande e não cabe no coração, em todos os sentidos. São Paulo: 465 anos de solidão!   

São Paulo: selva de pedras às vezes coloridas, com a Serra da Cantareira ao fundo

   
São Paulo/Vila Anglo: viela sobre o Córrego da Água Preta

São Paulo/Vila Pompéia: um escadão sobre o que, provavelmente, era uma das nascentes do Córrego da Água Preta.
São Paulo/Centro: pixo: estética da barbárie



“MÍDIA, REALIDADE, SOCIEDADE HIPÓCRITA”

Sempre que alguém atira contra pessoas indefesas em escolas, creches ou igrejas, lembro de um dos primeiros casos desse tipo, talvez aquele que inaugurou a prática no país. Novembro de 1999, um estudante de medicina entrou numa sala de cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, para assistir o filme Clube da Luta. Durante a sessão o estudante levantou e foi ao banheiro, onde teria disparado pela primeira vez no espelho, destruindo a imagem de si próprio, o que certamente diz alguma coisa, mais foi pouco comentado; daí voltou, atirou para o alto e, por fim, nas pessoas presentes. Resultado: 3 mortos, 5 feridos, 1 preso.

Mas não é o fato em si que me vem à cabeça quando algum imbecil mata pessoas e se suicida, ou é preso, o que me vem à cabeça é o bilhete encontrado no lixo do atirador do Morumbi Shopping, onde se lia "mídia, realidade, sociedade hipócrita".

As propostas que surgem depois dos massacres são previsíveis e, provavelmente, ensaiadas em conjunto com a indústria bélica, porque por aqui se repete o padrão observado nos EUA: armar professores e funcionários, liberar o porte de armas de fogo, instalar detectores de metais nas escolas e nos shoppings, acompanhar as redes sociais para identificar psicopatas, colocar uma viatura em cada esquina... Mais e mais armas, como se as armas não tivessem nada a ver com as matanças... Mais e mais repressão, como se esta não tivesse nada a ver com a violência, e sem questionar por que é preciso ampliar cada vez mais a repressão. É onde me lembro daquele bilhete: "mídia, realidade, sociedade hipócrita". Ora, ora, mais armas? Mas é justamente o que querem os assassinos, em geral aficionados por morte, por armas e por ideias de extrema direita. Ora, ora, armar professores e funcionários? Mas eles não têm sequer recursos básicos para trabalhar.

Como o tempo e o esquecimento as perguntas que realmente importam deixam de ser elaboradas. O que seria um caso para sociólogos, psiquiatras, historiadores, psicanalistas, professores, estudantes, pais e a sociedade em geral, tende a se reduzir meramente a um caso de polícia.

Por que alguém é tão covarde a ponto de impor sua decisão de morte a quem não tem nada a ver? Por que a sociedade tem gerado cada vez mais indivíduos doentes? Quem não enfrenta seus fantasmas está condenado a ser atormentado por eles. A vontade desmedida de aparecer leva a se fazer qualquer coisa, inclusive matar e se matar: mídia, realidade, sociedade podre! É possível argumentar que, se as razões dos matadores fossem debatidas publicamente, mais gente mataria e se mataria. Mas isso só depõe contra a sociedade e seus fundamentos, que são frágeis como um doente terminal a quem não se informa sequer o diagnóstico. Enquanto isso, outros assassinos virão e, como raios, levarão a morte às escolas, ao metrô, às igrejas, aos shoppings centers, às entrevistas de emprego e até para as ceias de natal.

Numa conjuntura em que o entreguismo dá a linha e alinha o país aos USA, "das nove às seis", como um cachorro de madame, é sintomático que o Brasil tenha importado os matadores suicidas e, principalmente, os papagaios dos piratas da indústria bélica. Enquanto isso a geração pós-Coca-cola vai alterando os versos da canção: "Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial, mas agora chegou a nossa vez, vamos cuspir de volta o lixo" em cima de nós mesmos.

BREVIÁRIO DA INFÂMIA: A INFÂMIA EM SEIS ATOS

1º) Funcionário de empresa contratada pela Prefeitura de SP é filmado esguichando água num morador de rua. Trata-se de ação com a cara de pau higienista do Prefeito João Doria. A mesma da cara de pau de quem havia dito que tal prática não existia. A mesma cara de pau de quem havia dito que cumpriria o mandato até o fim.

2º) Em greve contra a reforma da previdência, que reduzirá salários e dificultará aposentadorias, professores de SP vão à chamada “casa do povo” para pressionar seus carrascos (parlamentares), são surrados e enxotados pela GCM de Doria e pela PM de Alckmin. As imagens de professoras e professores feridos giram o país.

3º) Juízes fazem greve para garantir recebimento do chamado auxílio-moradia, benefício escuso que possibilita ganhos acima do teto constitucional. Trata-se de ação imoral praticada pelos que aplicam leis criadas pela burguesia para manter a dominação burguesa e que, por isso, têm direito a benefícios escusos, como o tal auxílio-moradia, que é maior que o salário médio dos professores. A “luta” dos juízes pelo auxílio-moradia é um exemplo de que há coisas que podem ser legais e imorais ao mesmo tempo, como a escravidão nos primeiros séculos da história do Brasil.

4º) Com toda pinta de execução praticada por agentes do Estado, é assinada, no RJ, a vereadora Marielle Franco e o motorista que a conduzia, Anderson Gomes. A execução comove o mundo e divide o Brasil: há brasileiros que denunciam e protestam, há brasileiros que tentam justificar o assassinato.

5º) Assustados com a repercussão do assassinato da vereadora Marielle Franco, a turba de defensores do status quo parte para o segundo atentado contra a vereadora, inventam e propagam uma série de mentiras com a intenção de justificar o assassinato. Agem, na prática, como despachantes da barbárie. São cumplices do assassinato e da barbárie.

6º) Assustada com a repercussão do assassinato da vereadora Marielle Franco, a mídia empresarial tenta passar um pano para si própria, como se não tivesse passado anos defendendo discursos de ódio, sensacionalistas e de endurecimento da repressão. Como se o assassinato da vereadora não tivesse nada a ver com a intervenção militar em curso no RJ, intervenção que a mídia empresarial apoia e que a vereadora morta criticava.   

O título de um livro de Jorge Luis Borges ajuda a amarrar os fatos: História Universal da Infâmia. São seis atos para a história universal da infâmia. Infâmia de João Doria, infâmia da GCM de João Doria, infâmia da PM de Geraldo Alckmin, infâmia dos juízes e juízas em “luta” por auxílio-moradia, infâmia dos assassinos de Marielle e Anderson, infâmia dos que tentam justificar os assassinatos de Marielle e Anderson e, ressalte-se: infâmia da mídia empresarial: que apoia infâmias como a política privatista e higienista de João Doria, que apoia infâmias como a intervenção militar no RJ, que combate com infâmias a greve dos professores; mas que tira o corpo fora quando um funcionário joga água no morador de rua, que tira o corpo fora quando a polícia massacra professores, que tira o corpo fora quando assassinam a vereadora que combatia a intervenção militar. Nada mais infame do que a mídia empresarial tentando se afastar das responsabilidades por suas narrativas infames. Anos de promoção do medo, do ódio e da ignorância pelo discurso infame da mídia empresarial geraram uma geração de infames: eles estão no sofá da sala, assistindo a novela das nove; eles estão nas empresas multinacionais, tramando golpes de Estado; eles estão fardados, planejando chacinas; eles estão nos tribunais, “julgando”; eles estão parados no trânsito praguejando contra carroceiros e ciclistas; eles estão na internet comentando notícias que não leram; eles perderam a vergonha de ser infames. A infâmia enraizou-se, é preciso cortar as raízes da infâmia!

Crianças brincando na nascente do Córrego da Água Preta. Pompéia, São Paulo, Brasil. No meio da crise de abastecimento de água, no meio da selva de prédios. 29.03.2015.












A linha 4 amarela do Metrô de SP é privada

A linha 4 amarela do Metrô de SP é privada. Empresas privadas são mais eficientes que as públicas. Nunca esqueçamos disso! A linha 4 amarela do Metrô de SP é privada. Empresas privadas são mais eficientes que as públicas. Nunca esqueçamos disso. A linha 4 amarela do Metrô de SP é privada. Empresas privadas são mais eficientes que as públicas. Nunca esqueçamos disso.

Um grito

Edvard Munch: O grito.
Semana passada foi divulgado um vídeo em que policiais de SP xingam dois homens baleados: um está algemado no chão, outro agoniza caído e espuma pela boca. As frases dos policiais são: “Estrebucha, filha da puta, estrebucha, vai...”; “Por que que esse não morreu ainda?”; “Deu sorte, heim meu...!”; “Não morreu o filha da puta?” e “Tomara que você morra no caminho.”


Tirando a imagem, nada de novo. A média mortos pela PM de SP no último ano foi de 1,85 por dia. No período que vai de janeiro de 1998 a setembro de 2009, a polícia do RJ matou 10.261 pessoas, média de 2,4 mortos por dia.

Metendo o dedo na ferida. A questão é: quem chancela a violência policial? O Estado? Sim. Os capitalistas? Sim. Só estes? Não.

O anonimato possibilitado pela Internet é revelador. Até onde meu estômago permitiu, li alguns dos milhares de comentários relacionados ao vídeo. A conclusão é inequívoca. A maioria apóia incondicionalmente a atitude dos policiais.

A questão é: o que fazemos quando temos total poder sobre terceiros? Considerando os comentários peçonhentos, a situação dos baleados seria muito pior se algum dos internéticos fosse PM. Ou seja, a violência policial é socialmente legitimada. Essa é a questão. O policial é somente quem puxa gatilho; quem mata é deus, a família, a propriedade privada e toda a sociedade.

Penso em Quixote. Tripudiar de um inimigo indefeso e agonizante? Onde ficam as leis do bom combate? Fosse contra quem fosse em qualquer situação é uma covardia. A ética não tem duas medidas. Como queria Lukács, Quixote realmente lutava contra dois tempos: contra “a cavalaria medieval” e contra “a baixeza prosaica da sociedade burguesa”.

Como Quixote assistiria um vídeo tão catingoso? O que pensaria dos comentadores sapateando sobre um quase cadáver? Estes responderiam: mas e se fosse a sua família, e se fosse com você, e se, e se...  Rebato: a estupidez mais covarde se esconde atrás da conjunção condicional se!

Roliudeanamente, cérebros bipolares dividem o mundo em dois grupos: cidadãos de bem (comentadores, suas famílias, contribuintes) e ladrões (todos aqueles que ameaçam a paz dos shopping centers, quiçá até este que escreve. Tomara!). A burrice bipolar exclui qualquer coisa que escape da equação cidadãos de bem x ladrões. Classes sociais, cor da pele, consumismo são sumariamente excluídos. E vale tudo, inclusive sapatear sobre o corpo de um homem que agoniza.

A poesia naufraga. Mundo siliconado: cosméticos clareiam dentes, viagras levantam picas, barragens assassinam rios, medicamentos psiquiátricos sustentam os cidadãos de bem. Aurora das mercadorias e dos critérios quantitativos.

Capitalismo é igual a guerras, assassinatos, destruição ambiental, burrice bipolar, calmantes, medicamentos antidepressivos e covardia. Enojado, fico pensando que é o mundo que estrebucha e que morre no caminho. Alegro-me. O capitalismo e suas guerras, sua ignorância, sua destruição do meio ambiente estão liquidando este acaso horroroso chamado humanidade. Evoé!

JC

Sem título

Quebra de rotina. Inspeção veicular. Saída do trabalho, mínima libertação, no meio da sexta-feira. Frio com sol, dia luzente, inverno no planalto paulista. Um rosto familiar na fila de espera, mas não o identifico. Aniversário da ex-mulher. Desatam-se os pensamentos. “Vida: conjunto de possibilidades não realizadas: amor desencontrado, sexo que não fiz.” Mas o letreiro do motel me lembra do sexo que fiz ali, há onze anos. Sexta-feira tem aroma de sexo. Legião Urbana no rádio do carro, canção depressiva. Refeição em casa com vinho cabernet sauvignon, pequena dose alcoólica em horário comercial, subversão insignificante, das que o capital tolera. Apartamento por limpar, piso branco malhado pela sujeira, marcas de sapato, vidros engordurados, interruptores manchados. Faxina adiada para o próximo semestre, pouco importa. Louça da semana, pouco importa. Descanso na sacada. Último gole. Último suspiro de liberdade. Retorno para a repartição. Crachá no peito. Sorriso implantado no rosto. Tédio vespertino. Homem etiquetado. Me calo. E escrevo.  

JC
“MÍDIA, REALIDADE, SOCIEDADE HIPÓCRITA”

Em dois dos três bilhetes encontrados pela polícia no apartamento de Mateus da Costa Meira, o matador do MorumbiShopping, lia-se a mesma mensagem: “Mídia, realidade, sociedade hipócrita”. No terceiro, lia-se: “Isso é efeito da droga. Eu não sou assim”. Além disso, descobriu-se que Mateus possuía um distúrbio persecutório (mania de perseguição), e que já havia permanecido internado em uma clínica psiquiátrica.

Até aqui tudo bem! Dos males o menor! Para a alegria da classe média, o caso de Mateus é isolado, e apesar do susto os shoppings ainda podem ser considerados seguros. Não é fácil, mas combatendo as drogas e o comércio de armas, tratando os loucos, melhorando a qualidade da TV... Há uma luz no fim do túnel!

Os otimistas pararão por aqui. Apontadas as causas e as soluções do problema eles poderão dormir tranquilos. Contudo, e se continuássemos a refletir? E se considerássemos a mensagem “Mídia, realidade, sociedade hipócrita”? E se lembrássemos que o próprio Mateus é filho da classe média, e que ele tinha “tudo para dar certo”?

No início de 2002 morreu na prisão Fernando Dutra Pinto, o sequestrador que raptou Patrícia Abravanel, a filha de Silvio Santos, e depois voltou à casa do apresentador mantendo-o como refém. Fernando, ao contrário de Mateus, era filho de uma família humilde da periferia de São Paulo, manejava bem armas de fogo e não apresentava nenhum distúrbio.

Ousado e inteligente, Fernando, ao invadir a mansão de Sílvio Santos, protagonizou um daqueles raros momentos em que a realidade supera a ficção, como nos ataques de 11 de setembro. Coerente com os ensinamentos do velho Silvio, o sequestrador “topou tudo por dinheiro”, apostou a vida e a “liberdade”. Perdeu tudo. Cercado pela polícia acabou preso e depois morto de forma misteriosa. Mas por alguns momentos a criação submeteu o criador, e o velho apresentador, acostumado a explorar a intimidade e as desgraças da vida, acabou tendo seu drama transmitido para todo o país, proporcionando entretenimento de qualidade (para os padrões do SBT) ao ser vitimado pela idéia de topar tudo por dinheiro levada às últimas consequências.

O que chama a atenção em ambos os casos é o novo: balas que saem da tela e sequestrador que volta ao local do crime. Contudo, as semelhanças param por ai. Enquanto Fernando era um profissional da violência, Mateus, por outro lado, parecia querer devolver uma violência sofrida. Ele dizia-se perseguido por vozes, teria atirado na platéia da sala de cinema por ter visto seus perseguidores nela. A questão é saber o que diziam as tais vozes. Seria: Onde você mora? Vem sempre aqui? Onde você trabalha? Onde você estuda?

O terrorismo individual, como o praticado por Mateus, costuma acontecer nos locais em que a pessoa sente-se mal. Nos Estados Unidos aconteceram casos em escolas e também em escritórios. O assassino parece querer vingar-se de um Mundo frio e indiferente; é como se ele gritasse: “Olhem, eu estive aqui por tanto tempo e ninguém me deu atenção. Morri aqui dia após dia e ninguém viu. Agora todos pagarão”. O assassino não reivindica nem dinheiro nem nada, apenas vingança. Diferentemente de Fernando que reivindicava os benefícios oferecidos pela civilização inacessíveis a jovens de periferia como ele.

A lição dessa história toda é que raios caem duas vezes no mesmo local, como caíram no jardim da família Abravanel. Da mesma forma outros matadores como Mateus aparecerão mundo afora, e como raios trarão a morte, resta saber se em cinemas, dinâmicas de grupo, academias de musculação ou em praias. Em geral os matadores serão jovens de classe média que sentem na carne o peso do distanciamento entre as possibilidades pessoais e as exigências estéticas, profissionais, culturais etc. Quanto às carreiras de sequestrador, assaltante, entre outras a serem criadas, as vagas estão abertas aos mais ousados que queiram grana; para os menos corajosos, que sejam pagodeiros ou então jogadores de futebol.

De resto, saber se Mateus premeditou o crime ou não é coisa menor, depois de praticado o ato isso nada altera. Preocupante é saber que o rapaz (Mateus) que é maluco esteve tanto tempo entre os “normais” e ninguém o notou. Quanto a saber se os filmes, principalmente os de hollywood, influenciam ou não ações violentas, como disse Contardo Calligaris: “Se o cinema não influência nosso comportamento, quem o faz: os tratados de ética do século 17?” Na verdade a influência do cinema pode ser sentida menos na ação de Mateus e mais na comoção após o ocorrido, já que se fossem milhares de “soldados inimigos”, “terroristas”, ou mesmo civis mortos em uma terra distante tudo bem, o problema é quando morrem pessoas inocentes que nos filmes são sempre salvas no final.