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ALBERT CAMUS E A ABSOLUTIZAÇÃO DO ABSURDO

    

Como se portar num mundo disparatado e privado de luzes? A vida e a obra do argelino Albert Camus é uma tentativa de responder esta questão, é uma busca da ética.


Da condição inóspita do mundo brota o absurdo. É preciso enfrentá-lo de frente. Camus propõe, primeiramente, que se encare o absurdo como ponto de partida e não de chegada. A questão por ser respondida neste texto é se esse ponto de partida (absurdo) é sólido ou se é também fugidio e contingente.

           

A contrapartida do absurdo é a revolta. Camus esboça a história da revolta ao longo dos tempos misturando o real e o mítico, o literário e o histórico. Um dos homens de destaque na história da revolta é Ivã Karamazov, personagem de Fiódor Dostoiévski. Ivã não submete deus ao julgamento da razão, mas ao da ética. É legítima uma criação que comporta o mal? Para homens como Ivã Karamazov e Albert Camus a respota é negativa. Uma criação que aceita o mal é inaceitável. Deus não passa pelo crivo ético. Este tema é recorrente em Camus, no romance A peste ele renasce no Dr. Rieux, que se recusa a aceitar uma criação que tortura as crianças.

           

Mas a exclusão de deus da equação tem implicações importantes, se não há um criador não há um projeto e uma justificativa para o mundo: os homens serão seres solitários e contingentes. A condição humana torna-se absurda. Como se comportar nestas condições?


Ao liquidar um homem, a morte inviabiliza suas pretensões de continuidade e suprime qualquer possibilidade de sentido. Como a morte é o limite, igualam-se os feitos mais nobres e seus opostos. Não há qualquer julgamento. Deus é retirado da equação e trocado pelo vazio. O desejo de ordenação das coisas choca-se com a realidade disforme. A geometria antieuclidiana do mundo rechaça a sede de síntese da sensibilidade humana. A única possibilidade de ordenação (Deus) está excluída. 

           

Segundo Camus: “Esse divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário, é que é propriamente o sentimento da absurdidade”. Confinado entre muros instransponíveis, o homem caminha em círculos, sem recurso possível. Privado das vias que levam para o transcendental, afastada toda e qualquer metafísica, o homem se encontra preso entre espessas paredes, sem saída. Daí o dilema, a pergunta filosófica fundamental pode implicar na resposta derradeira e na devolução do bilhete de entrada na vida, como sugeriu Ivã Karamazov. Dado o absurdo do real concreto experimentado, a auto-aniquilação e o suicídio ganham relevância. É preciso dizer sim ou não à vida. Para Camus o suicídio é a mais fundamental das questões filosóficas. Mas ele diz não ao auto-aniquilamento e afirma a vida absurda. A partir deste passo é preciso forjar uma ética coerente com o absurdo. É preciso caminhar com cuidado por sobre o telhado de vidro do mundo.

           

Suprimida a religião e o transcendental. Sendo a vida unicamente um em si, qualquer sentido ou ausência dele só poderá estar contido nela mesma. Entretanto, não é haver sentido para a vida que levará à negação do auto-aniquilamento, como no caso do próprio Camus. Alguém pode crer no sentido da vida e suicidar-se, ou não crer e continuar vivendo. Ivã Karamázov percebe e expressa essa sutileza: “Eu vivo, mesmo a despeito da lógica. Não creio na ordem universal, pois seja; mas amo os brotos tenros na primavera, o céu azul, amo certas pessoas sem saber por quê.”

           

Esta sutileza também percebida por Camus, por vezes lhe escapa, como quando afirma que “matar-se é de certo modo, como no melodrama, confessar. Confessar que se foi ultrapassado pela vida ou que não se tem como compreendê-la.” Ora, sendo o absurdo uma experiência sensitiva (é um sentimento e não um fato concreto), ele não pode ser absolutizado, trata-se de um enjôo ou desencanto, surge e se desmancha. Pode inclusive ser superado pelo sol mediterrâneo, pelos “brotos tenros na primavera” ou outras experiências. Sendo o contrário verdadeiro também, o sentimento do absurdo pode surgir em qualquer lugar, inclusive sob o sol mediterrâneo.

 

A sensibilidade aburda está na “nostalgia da unidade” e no “apetite de absoluto”. O homem camusiano é um desesperado incapaz de religar as luzes do mundo. Há um “divórcio entre o espírito que deseja e o mundo que ilude”. Mas se, com Ivã, a justificativa para negar o suicídio se encontra “nos brotos tenros na primavera, no céu azul, no amar certas pessoas sem saber por quê” e “a despeito da lógica”; significa que a razão deve aceitar seus limites e que é preciso fazer uso da poesia, da literatura, do teatro, para lidar com o absurdo. É por isso que Albert Camus é mais escritor do que filósofo. Suas definições são mais imagéticas do que categoriais. Sendo o absurdo uma experiência mais sensitiva do que racional, a literatura e a poesia são campos privilegiados para demarcá-lo.

           

Camus pinta o absurdo como um “desabar de cenários”, ou um “divórcio entre o homem e sua vida”. Na poesia semelhante sensibilidade surge através de outras imagens:

 

“Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

(Trecho do poema José – Carlos Drummond de Andrade)



“O recurso de se embriagar.
 O recurso da dança e do grito,
 o recurso da bola colorida,
 o recurso de Kant e da poesia,
 todos eles... e nenhum resolve.”

(Trecho do poema Passagem do Ano – Carlos Drummond de Andrade)


Em Carlos Drummond o absurdo brota da relação de homens que gritam para um mundo surdo, que lhes tortura. A chave na mão não é uma solução porque não existem portas. Todos os recursos são inúteis.

           

Enquanto os versos de Drummond constatam e verbalizam a absurdidade da vida no sentido camusiano; os de João Cabral manifestam o desejo de clareza, tentam negar o vago, o inconstante e o volúvel:

 

“O poema inquieta

o papel e a sala.

Ante a face sonhada

o vazio se cala”

(Trecho de Poema de desintoxicação – João Cabral de Melo Neto)

 

“O lápis, o esquadro, o papel;

o desenho, o projeto, o número:

o engenheiro pensa o mundo justo,

mundo que nenhum véu encobre.”

(Trecho do poema O engenheiro – João Cabral de Melo Neto)

 

“Procura a ordem

que vês na pedra:

nada se gasta

mas permanece.”

(Trecho do poema Pequena ode mineral – João Cabral de Melo Neto)

 

Drummond expressa a dor de um José abortado e repelido pelo mundo, Cabral mostra sua sede de síntese e permanência. São os dois lados da mesma face. O homem absurdo de Albert Camus deseja o mundo ordenado e “que nenhum véu encobre”, como na poesia de João Cabral; mas é um “eu todo retorcido”, como o José, de Carlos Drummond. 

           

A questão que surge é: um mundo coerente e ordenado seria capaz de destorcer os seres? Um casamento estável e monogâmico de um homem com sua vida seria reconciliador? São questões complexas. Mas a resposta é negativa. Um mundo coerente e ordenado tenderia a produzir uma humanidade paralítica, posto que sua coerência e ordenação seriam externas e idependentes dos homens. Na exata medida em que nega o humano espírito construtor, o casamento harmônico de um homem com sua vida é inviável, pela simples razão de que produziria um mundo enfadonho e entediante. Seja na arte ou no trabalho não alienado, é somente com a criação que os seres humanos podem se realizar. Qualquer coerência e ordenação impostas ao homem são alienantes e neste sentido opressivas.


O homem é essencialmente um ser que cria, inclusive quando forja sua própria destruição. O auto-aniquilamento é também produto do trabalho, tanto em seu conteúdo teórico quanto no operacional. A possibilidade de criação só é viável na vida, neste sentido, a vida é como um tango, sedutora na exata medida que fugidia, trágica na exata medida que necessária.


No processo de criação forjam-se e alteram-se os sentidos, tudo a partir da experiência sensorial. Sendo assim, a sensibilidade absurda não é exatamente uma “doença do espírito”, como quer Camus; trata-se, mais precisamente de um resfriado ou alergia. E aqui não se enxergue ironia e sarcamos, mas sim uma tentativa de melhorar a definição. Resfriados e alergias vêm e vão com maior frequência, a sensação absurdo também. Essa dimensão parece escapar de Camus quando ele exagera nas cores do absurdo.

           

Não há suicídios filosóficos ou baseados na idéia de que a vida não tem sentido porque o próprio sentimento do absurdo é inconstante, vai e vem. Se não fosse assim, o José do poema se mataria. Mas como explica Drummond:

 

“outros dias virão

e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.”

(Trecho do poema Passagem do Ano – Carlos Drummond de Andrade)


José sabe disso. Depois outros divórcios e desabamentos extinguirão o fogo da vida, que reacenderá, apagará e assim sucessivamente. Matar-se não é afirmar a impossibilidade de compreender a vida, como quer Camus. Matar-se é afirmar a impossibilidade de viver a vida num momento específico, é abrir mão de buscar "novas coxas e ventres", entre outras coisas.


Procurar uma ética imanente e coerente com a singularidade e a contigência da vida é louvável, nesse sentido a obra camusiana é grande e estes apontamentos não lhe desdizem em nada, não lhe alteram nenhuma conclusão. Por outro lado, absolutizar uma sensibilidade (absurdo) também fortuita é um exagero. Para haver divórcios entre homens e suas vidas é preciso que haja uniões. Para haver desabamentos de cenários é preciso que estes estivessem de pé. Esse momento de positividade, inverso da sensação de absurdo, é que às vezes escapa de Camus.

 

HERMAN MELVILLE E AS PERSONIFICAÇÕES DA BUROCRACIA

 

Herman Melville foi bancário, vendedor, professor, agricultor, marinheiro, palestrante, fiscal da alfândega e escritor. Embarcou como camareiro de um navio que seguia para Liverpool. Atravessou oceanos num baleeiro.  Desertou e morou com nativos da Polinésia Francesa. Embarcou novamente. Dessa vez num navio comercial australiano. Participou de um motim a bordo, foi preso e fugiu da cadeia.  Também escreveu contos, poemas e romances.

 

Li apenas três livros de Herman Melville: Moby Dick ou a baleia [1]; Bartleby, o escrevente [2]; Billy Budd, marinheiro [3]. Pouco. Mas suficiente para perceber a grandeza do escritor estadunidense. Moby Dick (1851): o obstinado Capitão Ahab persegue uma baleia branca mar adentro. Bartleby (1853): um escrevente contratado por um escritório de advocacia, em Wall Street, passa misteriosamente a recusar todas as ordens respondendo “preferiria não”. Billy Budd, marinheiro (1891): um belo jovem é recrutado para trabalhar num navio de guerra, acusado injustamente de participação num motim, acaba cometendo um crime, mas sem deixar de acatar incondicionalmente todas as ordens recebidas. De Mobby Dick a Billy Budd, passando por Bartleby, se vai do mar ao mar, com um escritório no meio do caminho, mas sempre com o trabalho como pano de fundo.

 

Albert Camus [4] definiu Herman Melville como o Homero do Pacífico. Gilles Deleuze [5] discutiu a radicalidade da “fórmula” de Bartleby – eu preferiria não/I would prefer not to –, que confronta a linguagem com o silêncio. A propósito, Deleuze lembra também que Bartleby anuncia o longo silêncio de Melville, rompido apenas por alguns poemas e, no final da vida, pelo romance Billy Budd.

 

Bartleby é um escrevente. Sabemos já no título do conto. Billy Budd é um marinheiro. Sabemos já no título do romance. A presença do trabalho nos textos é explícita, mas costuma ser ignorada pela crítica [6]. Bartleby é a tese com “eu preferiria não”. Billy Bud é a antítese com “eu preferiria sim”, que ele não diz, mas pratica.  O escrevente recusa num escritório em Wall Street. O marinheiro aceita num navio de guerra. É como se, com Billy Budd, Melville invertesse a fórmula “eu preferiria não/I would prefer not to”. O advogado que é chefe de Bartleby sente compaixão pelo escrevente, o que não o impede de demitir e enxotar o funcionário. Ele faz uma série de propostas para o escrevente: exercer outro ofício (vendedor ou atendente), viajar pela Europa acompanhando jovens cavalheiros e até morar sob o mesmo teto, desde que deixe de atrapalhar no escritório. O capitão Vere, responsável pelo navio de guerra em que trabalhou Billy Budd, sabia que o marinheiro não estava envolvido em nenhum motim, o que não o impediu de exigir a pena capital ao tribunal de guerra que julgou o subordinado. “Firmemente inspirado pela lei e pelo dever”, o capitão Vere se dirige aos membros do tribunal que julgou o marinheiro: “Mas lhes suplico, meus amigos, para que não me interpretem mal. Meus sentimentos por esse infeliz rapaz é o mesmo que o de vocês. Se ele conhecesse nossos corações, tenho certeza de que sua natureza generosa o faria até mesmo sentir pena de nossa situação, subordinados que somos a injunções militares tão pesadas.”

 

Marx [7] notou que o capitalista apenas personifica o capital: “sua alma é a alma do capital”. Melville não definiu o que são personificações da burocracia, nem sequer usou a expressão, mas deixou dois exemplos: o advogado chefe de Bartleby e o capitão Vere. Se é possível encontrar personificações da burocracia nos textos de Melville, é porque há grande concentração delas no mundo do trabalho, que é retratado com maestria pelo escritor estadunidense. Se a alma do capitalista é alma do capital, a alma do burocrata é a alma da burocracia. Não importa quão esclarecido, humano, piedoso e compassivo seja o burocrata, sua alma será sempre a alma da burocracia. Personificações da burocracia são absolutamente incapazes de dizer “eu preferiria não” para ordens que venham de cima, sejam quais forem. Uma personificação da burocracia não hesita em demitir um subordinado ou açoitá-lo em praça pública, no máximo criará justificativas para injustificável. O advogado patrão de Bartleby sente compaixão pelo escrevente, mas não deixa de atuar no interesse do escritório. O capitão Vere era um homem esclarecido, mas não deixa de exigir a pena capital para o marinheiro, em nome da “lei e do dever”. Labirintos do trabalho: a tese de Bartleby e a antítese de Billy Budd conduzem ao mesmo fim. Para piorar, não nos enganemos: como há personificações da burocracia no mundo real.

 

Os nomes nos títulos dos livros somados à radicalidade das apologias e dos rechaços empurram o foco para Bartleby e Billy Budd. Alguns chegam a procurar, candidamente, os personagens no mundo real. Žižek [8] viu Bartleby como um precursor do movimento Occupy Wall Street... Mas, se não há Bartlebys nem Billy Budds no mundo real, as personificações da burocracia, como os chefes de ambos, estão em todos os cantos: das multinacionais ao serviço público, das universidades ao trabalho precarizado, das igrejas aos partidos de esquerda. As almas das personificações da burocracia são as almas da burocracia.  As justificativas são diversas – ordens superiores, a lei, o dever, não posso fazer nada, está fora da minha alçada, sinto muito –, mas as práticas pouco variam: atuam em nome da burocracia e para resguardar interesses rasteiros. O capelão que acompanhou Billy Budd antes da execução também estava ciente de que o marinheiro não participou de nenhum motim, mas se calou: intervir “teria sido uma audaciosa violação dos limites de sua função” – justificou. Espécie de princípio fundamental das personificações da burocracia: jamais contrariar ordem superiores! O capitão Vere afirma, contra o marinheiro, que “a Lei do Motim, filha da guerra, imita a mãe. A intenção ou a ausência de intenção de Budd não vem ao caso.” O advogado chefe de Bartleby e narrador do conto homônimo conclui dizendo: “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” O capitão Vere morreu murmurando palavras incompreensíveis para o enfermeiro que o atendia: “Billy Budd, Billy Budd.” São indícios de remorsos do advogado e do capitão, que não os absolvem, apenas reforçam que ambos atuaram como personificações da burocracia. Provocação de Melville, as últimas palavras de Billy Budd são: “Deus abençoe o capitão Vere!” O que atesta e reafirma a fórmula do marinheiro: “eu preferiria sim” – incondicionalmente. 

 

Jorge Luis Borges [9] afirmou que “Kafka projeta sobre Bartleby uma curiosa luz posterior.” Acrescento que o inverso é verdadeiro – Bartleby projeta uma curiosa luz antecipatória sobre Kafka – e o mesmo se aplica a Billy Budd. A explicação é a presença do trabalho nos textos. Só que Melville é direto e explícito, enquanto Kafka é indireto e implícito. Ambos se completam. O escritor tcheco faz uso literário e genial do idioma da burocracia: sobressai o absurdo e as personificações da burocracia se esquivam atrás de normas e portarias, como se fossem engrenagens incapazes de intervir sobre os acontecimentos. Melville faz uso apenas circunstancial da linguagem burocrática, resultado: expõe a cumplicidade sem véus das personificações da burocracia. A burocracia pode ser absurda, mas ela tem seus cúmplices. O caso Billy Budd, por exemplo, teria ocorrido em momento “complicado”, após motins duramente reprimidos e contestação da autoridade naval, o que exigiria prudência e rigor de homens como o capitão Vere – segundo o próprio... É a tal cumplicidade sem véus das personificações da burocracia: a justificativa para o injustificável. O fato é que o capitão Vere atua na defesa da posição que ocupa e, como não poderia deixar de ser, da burocracia. Um marinheiro terminar enforcado é só um detalhe, ainda que inconveniente, uma parte do jogo a que o capitão é incapaz de se opor por covardia e, sobretudo, por interesse próprio.

 

Camus [10] registrou que Melville “não escreveu senão o mesmo livro indefinidamente recomeçado.” Acrescento: Melville pode ter escrito o mesmo livro indefinidamente recomeçado, mas com variações. Se é assim, a recusa de Bartleby e a apologia de Billy Budd se completam e servem, sobretudo, para desmascarar as personificações da burocracia, que diferem na forma, mas não no conteúdo. Ainda e por fim, registrei dois exemplos de personificações da burocracia nos textos de Melville, fecho com um contraexemplo, para contrastar e problematizar. O obstinado capitão Ahab perseguiu impiedosamente a baleia branca. Mas sua alma não era alma da burocracia. Ele caçou uma baleia e não um cargo na burocracia. O capitão Ahab seguia, sobretudo, a lei do coração, por mais violenta e irracional que fosse. Alguém pode argumentar que ele foi terrível, quase uma personificação do mal. Ao que eu perguntaria, mas o “cruel” capitão Ahab faria com um de seus homens o que o esclarecido capitão Vere fez com Billy Budd? Moral da história: as personificações da burocracia podem ser tão perigosas quanto os homens mais terríveis e, para piorar e encerrar: é difícil encontrar Ahabs no mundo real, mas as personificações da burocracia estão em todos os cantos.

 

Notas

[1] Herman Melville. Moby Dick ou a baleia. Editora 34: São Paulo, 2019.

 

[2] Herman Melville. Bartleby, o escrevente. Grua livros: São Paulo, 2014.

 

[3] Herman Melville. Billy Budd, marinheiro. Porto Alegre: L&PM, 2010.

 

[4] Albert Camus. Herman Melville. In: Camus, A. A inteligência e o cadafalso. Rio de Janeiro: Record, 2018, p. 25 – 30.

 

[5] Gilles Deleuze. Bartleby, ou a fórmula. In: Deleuze, G. Crítica e clínica. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 91 – 117.

 

[6] Bartleby: insegurança, adoecimento e morte de um trabalhador.

 

[7] Karl Marx. O capital – Livro I. São Paulo: Boitempo, 2014.

 

[8] Slavoj Žižek. O ano em que sonhamos perigosamente. Boitempo: São Paulo, 2011

 

[9] Jorge Luis Borges. Bartleby, o escrivão de Herman Melville. Acesso em 09 de jul. 2023 

 

[10] O trecho seguinte, entre aspas, está no texto referenciado na nota 4.


Publicado originalmente no Passa Palavra

 GREGOR SAMSA: A INSEGURANÇA E ADOECIMENTO DE UM TRABALHADOR


I

A história é conhecida. No final da vida, aos 40 anos... Franz Kafka pediu para que Max Brod queimasse-lhe os textos não terminados. O amigo não obedeceu e divulgou os escritos inéditos. Pouco tempo depois da morte de Kafka, em 1924, foram publicados O processo (1925), O castelo (1926) e outros. Fosse Max Brod um personagem kafkiano, como tantos que cumprem obstinadamente qualquer ordem, os textos teriam desaparecido para sempre.


A história também é conhecida, mas pouco associada aos contos e romances escritos por Kafka. Em 1908, já formado em direito, o escritor ingressou no Instituto de Seguros contra Acidentes do Trabalho do Reino da Boêmia. A atuação não se restringia a questões jurídicas, Kafka compunha o “departamento técnico”: visitava fábricas, construções, pedreiras, serrarias. Classificava o “nível de periculosidade” das indústrias e “se ocupava diariamente com as consequências de graves acidentes de trabalho”1. Acompanhou batalhas jurídicas travadas contra empresas e as consequências de acidentes para os trabalhadores: “Membros mutilados por serras ou bobinas de corda, escalpelamentos por rodas de transmissão, queimaduras, envenenamentos e cauterizações.”1 Kafka conheceu o mundo do trabalho por dentro. Em 1909, o escritor enviou uma carta a Max Brod em que relatava:

 

Pois o que eu tenho que fazer! Nos meus quatro distritos [...] como bêbadas as pessoas despencam dos andaimes para dentro das máquinas, todas as vigas tombam, todas as rampas se soltam, todas as escadas escorregam, o que se alcança para cima, desaba para baixo, o que se alcança para baixo, causa a própria queda. E se tem dores de cabeça das jovens nas fábricas de porcelana, que incessantemente se lançam sobre as escadas carregando torres de louça.2


A metamorfose é formada por três capítulos. Foi publicada em 1915. A novela não estava, portanto, entre as obras que deveriam ser queimadas, foi concluída pelo autor em vida, na época em que trabalhava no Instituto de Seguros contra Acidentes do Trabalho do Reino da Boêmia. Kafka às vezes não dá nomes aos personagens, mas costuma indicar-lhes as profissões: o oficial (Na colônia penal), os ajudantes (O castelo), o jejuador (Um artista da fome). Ainda que não seja o único, A metamorfose é um dos textos kafkianos em que o trabalho é central, principalmente no primeiro capítulo. Certa manhã, o caixeiro viajante Gregor Samsa desperta de sonhos intranquilos e se percebe transformado em inseto. A partir do segundo capítulo, o narrador explora a relação entre a família e Gregor, que continua ouvindo, mas vai aos poucos perdendo a fala. Impossível não pensar em Bartleby, o escriturário, de Herman Melville, que começa a repetir “preferiria não” e vai perdendo a fala dentro de um escritório em Wall Street. Bartleby se refugiava atrás de um biombo. Gregor Samsa, já transformado em inseto, se refugiava debaixo de um sofá. Bartleby é um Gregor Samsa que recusou o trabalho. Gregor Samsa é um Bartleby incapaz de dizer “preferiria não” ao chefe e à empresa.


II

A fórmula foi repetida no romance O processo, o drama começa ao despertar. Na mesma frase, logo no início da novela A metamorfose, o narrador informa que Gregor Samsa teve “sonhos intranquilos e está na cama metamorfoseado num inseto monstruoso”3. Na sequência, ficamos sabendo que as numerosas pernas do inseto, lastimavelmente finas, tremulavam ao alcance de seus olhos. Não há nenhuma indicação sobre a causa da metamorfose, mas no terceiro parágrafo, logo após Gregor perguntar “o que aconteceu comigo?”, somos informados que Samsa é um caixeiro-viajante e, apesar de ter se transformado num “inseto monstruoso”, ainda conserva a fala, é o próprio que diz:

 

Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia – viajando. A excitação comercial é muito maior que na própria sede da firma e, além disso, me é imposta essa canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso.

 

Refletindo sobre as mazelas do trabalho, Gregor Samsa reclama dos problemas relacionados ao sono numa profissão em que é obrigado a viajar constantemente.  Na sequência ficamos sabendo, pela boca do “inseto monstruoso”, que Gregor tem um chefe exigente e capaz de demiti-lo pelo menor deslize. Depois somos informados que a família Samsa (pais e irmã) é sustentada pelo caixeiro-viajante, que, por essa razão, teme perder o emprego. Além disso, o pai de Gregor tem uma dívida pecuniária com o chefe do filho, o que o pressiona a continuar trabalhando: “Se não me contivesse por causa dos meus pais, teria pedido demissão há muito tempo; teria me postado diante do chefe e dito o que penso do fundo do coração.”3

 

Como não consegue se levantar da cama, Gregor pensa em faltar ao trabalho alegando problemas de saúde, mas desiste porque nunca havia ficado doente em cinco anos de serviço. Além disso, “o chefe viria com o médico do seguro de saúde, censuraria os pais por causa do filho preguiçoso e cercearia todas as objeções apoiado no médico, para quem só existem pessoas inteiramente sadias, mas refratárias ao trabalho.”3 O médico é um exemplo de personagem sem nome e com profissão, ele tomaria partido da empresa e cumpriria obstinadamente qualquer ordem. A medicina do trabalho é uma especialidade que surgiu como exigência das empresas para baratear custos, é comum encontrar médicos do trabalho mais preocupados com os lucros do capital do que com a saúde dos funcionários. Kafka conhecia o mundo do trabalho, a referência ao “médico do seguro de saúde” não é à toa.

           

Ainda sem conseguir sair do quarto, Samsa nota alterações na própria voz, mas acredita tratar-se do prenúncio “de um severo resfriado, moléstia profissional do caixeiro-viajante”3. Moléstia profissional...

 

Passam-se algumas páginas, mas ainda estamos nas primeiras horas daquela manhã, Gregor escuta batidas na porta do apartamento, do quarto ouve as primeiras palavras e identifica o visitante, é o gerente. Neste ponto, o narrador pergunta:

 

Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita? Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos? Não havia, pois, entre eles nenhum homem leal e dedicado que, embora deixando de aproveitar algumas horas da manhã em prol da firma, tenha ficado louco de remorso e literalmente impossibilitado de abandonar a cama? 

 

A mãe de Gregor recebe o gerente dizendo que o filho não estava bem e que ainda não havia saído do quarto, segundo ela, Samsa não tem outra coisa na cabeça a não ser o trabalho. O gerente responde: “Esperemos que não seja nada grave. Embora por outro lado eu tenha de dizer que nós, homens do comércio, feliz ou infelizmente – como se quiser – precisamos muitas vezes, por considerações de ordem comercial, simplesmente superar um ligeiro mal-estar.”3 A referência ao trabalho é tão explícita quanto a pressão do gerente, que assedia o funcionário diante da família Samsa.

 

Transformado num inseto, Gregor não consegue se levantar e abrir a porta, mas continua ouvindo e falando. O estranhamento, em Kafka, brota de contrastes desse tipo. O gerente eleva o tom de voz e se dirige a Gregor: “O senhor se entrincheira no seu quarto, responde somente sim ou não, causa preocupações sérias e desnecessárias aos seus pais e descura – para mencionar isso apenas de passagem – seus deveres funcionais.”3 Cresce o estranhamento: de um lado, um homem transformado num “inseto monstruoso” tentando se levantar e ir para o trabalho; do outro lado, um gerente preocupado com o negócio. Diante da situação absurda, as ações e reações são normais, os personagens respondem com atitudes comuns, naturaliza-se o estranhamento. O gerente diz a Gregor: “O chefe em verdade me insinuou esta manhã uma possível explicação para as suas omissões – ela dizia respeito aos pagamentos à vista que recentemente lhe foram confiados.”3 O superior sugere que o subordinado poderia ter roubado uma quantia que lhe havia sido confiada, ou seja, a honestidade do caixeiro-viajante é questionada, apesar dele ser um funcionário exemplar.

           

Gregor pede que seus pais sejam poupados, afinal, não havia motivos para as censuras. Ele se refere ao mal-estar: “Por que não comuniquei à firma? Mas sempre se pensa que se vai superar a doença sem ficar em casa.”3 Ele resistiu enquanto pôde, como Bartleby. O caixeiro-viajante suplica: “senhor gerente, o senhor está vendo que não sou teimoso e que gosto de trabalhar, viajar é fatigante, mas não poderia viver sem viajar.”3 Gregor Samsa mostra que vestia a camisa da empresa. Na sequência, ele suplica: “Tenho por outro lado de cuidar dos meus pais e da minha irmã. Estou num aperto, mas sairei dele trabalhando. Não me torne, porém, as coisas mais difíceis do que já são.”3


III

A presença ambígua do trabalho na literatura não foi inaugurada por Kafka. Trinta anos antes do nascimento do escritor tcheco, Herman Melville publicou o conto Bartleby, o escriturário. Como os personagens kafkianos, o passado de Bartleby é desconhecido, sabe-se, apenas, que ele foi contratado para trabalhar num escritório em Wall Street. Aos poucos, o escriturário passa a repetir a frase “preferiria não” quando o chefe lhe pede para elaborar ou revisar documentos. Depois cai num mutismo quase total. Bartleby definha dentro do escritório4, praticamente perde a fala, como Gregor Samsa. Mas, em geral, ensaístas, filósofos e acadêmicos não relacionam o caso Bartleby ao trabalho5, o mesmo acontece com a novela A metamorfose.


Walter Benjamin registrou que “o mundo das chancelarias e dos arquivos, das salas mofadas, escuras, decadentes, é o mundo de Kafka.”6 Vale destacar que, dentro das chancelarias, entre os arquivos, nas salas mofadas, laboram homens invisíveis, como Bartleby e os personagens kafkianos. Albert Camus notou uma cumplicidade secreta unindo o lógico e o cotidiano ao trágico: “Eis aí por que Samsa, o herói de A metamorfose, é um caixeiro-viajante. Eis aí por que a única coisa que o aborrece na singular aventura que faz dele um inseto repugnante é que seu patrão ficará descontente com sua ausência.”7 Onde Camus enxerga o “cotidiano”, vejo o “trabalho”, é o que sugere todo o primeiro capítulo, com os parágrafos se alternando para relatar as mazelas da metamorfose e do ofício de caixeiro-viajante. A história de Gregor Samsa seria diferente se ele fosse porteiro, segurança ou funcionário público.


Kafka reclamava que o emprego no Instituto de Seguros contra Acidentes do Trabalho roubava-lhe o tempo necessário para escrever, mas teria escrito A metamorfose se não conhecesse e vivenciasse as mazelas do mundo do trabalho? A pergunta é válida para outros textos atravessados por questões laborais, como O processo, O castelo, Um artista da fome, A construção.


Na novela A metamorfose, mas não só, Kafka narra um acontecimento extraordinário com linguagem cartorial. É a grande sacada do escritor tcheco. Gregor Samsa age normalmente, apesar do absurdo. Também o narrador age normalmente, conta a história como se redigisse uma ata de reunião de condomínio, o que aumenta o estranhamento. O absurdo está naturalizado e não causa espanto. O narrador não se espanta com a metamorfose, assim como os leitores não se espantam com as mazelas laborais do caixeiro-viajante.


A excepcionalidade da metamorfose, somada à técnica refinada de Kafka, embaralha a imaginação dos leitores. Mas reparando bem, a transformação do caixeiro-viajante num “inseto monstruoso” tem relação com o trabalho, o que depõe contra o modo de produção capitalista.


Notas


1 Santos, T. B. dos. Tecnologia e Franz Kafka: experiências profissionais e sua relevância na ficção. Rev. Let., São Paulo, v.50, n.2, p.307-325, jul./dez.2010.


2 Carta citada no artigo acima, p. 309.


3 Kafka, F. A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


4 Para uma leitura do conto de Herman Melville a partir do trabalho, ver Bartleby: insegurança, doença e morte de um trabalhador, https://passapalavra.info/2019/05/126590/


5 Para uma leitura da novela a partir do campo da Saúde Mental e Trabalho, ver A metamorfose e o campo da saúde mental de trabalhadores: uma análise bakthiniana, https://doi.org/10.1590/1413-81232020259.28652018


6 Benjamin, W. Franz Kafka. A propósito do décimo aniversário de sua morte. In. Benjamin, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.


7 Camus, A. O mito de Sisífo. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.


Publicado originalmente no Passa Palavra


AINDA AQUELA PEDRA


Na Rússia há longas extensões em que se vê apenas neve, de trem é possível percorrer centenas de quilômetros sem ver absolutamente nada que não seja neve. É a brancura do vazio, ou as “impurezas do branco” – para usar uma expressão de Carlos Drummond de Andrade. Naquelas terras brancas é uma enorme alegria quando se avista algo que não seja neve. Forçado a sair da Rússia, Trotsky cruzou as longas terras brancas num trem, foi quando entendeu por que na região havia povos que cultuavam e veneravam pedras: ao longo de centenas de quilômetros, quando muito, se vê uma pedra no meio da neve.1,2 Fico pensando como seria a reação daqueles povos se lessem No meio do caminho, ou Poema da pedra, que é como ficou conhecido (o apelido é sintomático, atesta a popularidade alcançada):

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

É intrigante imaginar a impressão que o poema causaria num russo das terras brancas. O sujeito jamais se esqueceria daquele acontecimento na vida de suas retinas tão fatigadas, ou, talvez, congeladas. Por outro lado, se nas terras brancas da Rússia o poema soaria como sagrado, nas terras tropicais do Brasil o poema causou escândalo: era uma profanação das sagradas tradições da poesia, da língua de Camões e da inteligência nacional. “Erro crasso de português”3: trocou havia por tinha... Elogio da feiura... Retorno à idade da pedra...

Nas terras brancas da Rússia quase não há pedras no meio do caminho, pelo menos no sentido topográfico, por lá o poema ganharia ares de revelação. No Brasil há infinitas pedras no meio do caminho, em todos os sentidos, e o poema expressa cansaço e tédio. Numa entrevista concedida em 1954, Drummond afirma e pergunta: “É chateação o que estava sentindo. Queria dar a sensação de monotonia, não sentiu essa sensação?” 4 É uma vereda que permite percorrer o poema, mas certamente não é a única, porque, como notou Camus5, as grandes obras e os sentimentos profundos sempre expressam mais do que têm consciência. É por isso que os grandes escritores não só refletem, mas expandem o real. Depois de Drummond, “chateação” e “monotonia” viraram pedras no meio do caminho.

No meio do caminho é uma pedra no meio do caminho da poesia brasileira, provocou reações apaixonadas a favor e contra. Aquela pedra passou a compor o ecossistema da língua portuguesa. Drummond: “sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais.”6

Escrito no meio da década de 1920, No meio do caminho foi publicado pela primeira vez em 1928, na capa Revista de Antropofagia7, mostrando que Alcântara Machado, Raul Bopp e outros modernistas perceberam imediatamente a força do poema. Em 1930, No meio do caminho foi republicado no primeiro livro de Drummond, Alguma Poesia, que um crítico8 definiu como um título inexato, já que não havia ali nenhuma poesia.

No meio da década de 1930, Drummond se tornou chefe de gabinete do Ministério da Educação, foi quando apanharam a pedra do poema para atirar no poeta. Como podia ocupar cargo tão importante o maluco que escreveu o Poema da pedra? Era como se Drummond fosse uma pedra no meio do caminho. E não pararam nem na pedra nem no meio do caminho. Como podia ocupar cargo tão importante um sujeito que escreveu “Oh! Sejamos pornográficos (docemente pornográficos)”?9 Constatação: o moralismo não é novidade.

Drummond recolheu, guardou e organizou comentários e críticas ao Poema da pedra. Em 1967, publicou Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema. Os títulos de algumas seções do livro dão ideia da celeuma causada pelo poema: “Reação pelo ridículo”, “Muita gente irritada”, “Crítica pessoal”, “Das incompreensões”, “Popularidade, mesmo negativa”. Vingança sublime: o tempo. Drummond reuniu e publicou todo material que recolheu, inclusive trocas de autoria (houve quem dissesse que o No meio do caminho era de Manuel Bandeira). Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema é um golpe de aikido, usa a força dos críticos contra os próprios. Leitura saborosa. Alguns trechos:

- Mário de Andrade (1925): “O ‘No meio do caminho’ é formidável. É o mais forte exemplo que conheço, mais bem frisado, mais psicológico de cansaço intelectual.”

- Mário de Andrade (1926): “Acho isto formidável. Me irrita e me ilumina. É símbolo.”

- Alcântara Machado: (1928): “Mas estupenda mesmo é a pedra que está no meio do caminho. Vamos sentar nela?”

- Murilo Mendes (1930): “No meio do caminho é o tipo de poema no meio da cabeça da gente. Nunca me esquecerei. Não sai.”

- Moacir Andrade (1934): “O Sr. Carlos Drummond de Andrade não tem necessidade de ingerir uma droga violenta para sutilizar-se. O esforço dele é no sentido de inventar outra droga que o torne visível. Ainda não conseguiu.”

- Goudin da Fonseca (1938): “O Sr. Carlos Drummond é difícil. Por mais que esprema o cérebro, não sai nada. Vê uma pedra no meio do caminho e fica repetindo a coisa feito papagaio [...] E não houve uma alma caridosa que pegasse nessa pedra e lhe esborrachasse o crânio com ela!”

- Oswaldo Orico (1939): “em matéria de poesia, longe de avançarmos, voltamos à idade da pedra.”

- Pedro Vergara (1943): “Aquele ‘tinha uma pedra’ é a coisa mais desesperadamente humana e angustiada que se possa imaginar; deve-se dizer mesmo que poucos poetas, em nosso país, terão conseguido fisgar, como ele, a simplicidade, por uma forma tão direta e tão à flor da pele.”

- Agripino Grieco (1944): “Em poesia, não faz Drummond outra coisa senão atrapalhar as autoridades, como quando nos aconselha a sermos pornográficos, ele que trabalha numa repartição frequentadíssima por mestres e estudantes, ou quando se insurge contra a pedra no caminho, sugerindo que as estradas de Itabira ou do Rio são mal calçadas, para desgosto de duas prefeituras.”

- Oscar Queiroz (1948): “pretende desmoralizar e anular as nossas sagradas tradições artísticas, o que me parece caso de cadeia, porque não é justo nem admissível a impunidade de tão monstruosos crimes!”

- José Condé (1952): “Por causa daquela ‘pedra no meio do caminho’ recebeu ele telefonemas, desaforos e até ameaças... Houve quem lhe sugerisse prender a tal pedra no pescoço e atirar-se ao mar.”

No meio do caminho é composto por dez versos circulares, que giram em volta das retinas fatigadas do poeta, como se uma pedra orbitasse por ali. Se repetem os versos 1, 4 e 10; 2 e 9; 3 e 8. Como o antepenúltimo repete o terceiro, e o penúltimo é igual ao segundo, e o último repete o primeiro: o poema gira em círculos, aumentando a sensação de cansaço. São sessenta e uma palavras: “tinha”, “uma”, “pedra” aparecem sete vezes; “no”, “meio”, “do”, “caminho” aprecem seis vezes; “nunca”, “me”, “esquecerei” aparecem duas vezes; apenas dez palavras não se repetem. A repetição dos versos e das palavras reforça a sensação de cansaço.

Dizem que os amigos riam quando Kafka lia seus textos. Desconfio que os modernistas riram enquanto liam No meio do caminho. É, talvez, o que explica o comentário de Alcântara Machado10, que queria sentar na pedra e era editor da Revista de Antropofagia, que publicou o poema na primeira página. Já os adoradores das sagradas tradições da poesia não riram, mas fizeram rir. É o que dá levar absolutamente a sério o que não é sério.

Antes de conhecer a entrevista citada acima, parecia-me que Drummond escreveu No meio do caminho para irritar os leitores, como se quisesse transferir a irritação que sentia para se divertir com a irritação dos outros. Sabendo que o poeta escreveu por chateação e para passar a sensação de monotonia, minha interpretação inicial cai parcialmente: não era uma brincadeira, mas provocou, irritou e divertiu.

Curiosamente, o comentário que mais me espantou não está em Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema. Na primeira vez que estive no museu Casa de Drummond, em Itabira, o vigia me contou que entre aquele sobrado e o grupo escolar frequentado pelo poeta havia uma pedra: “no meio da rua tinha uma pedra.” Uma pedra no meio de uma rua de uma “cidadezinha qualquer”11 teria provocado tamanha celeuma? Fato é que, se a tal pedra realmente existiu, as análises mirabolantes se tornam ainda mais engraçadas. Seria só uma pedra qualquer no meio de uma rua qualquer de uma “cidadezinha qualquer”... Considerando que Drummond não era um aluno dos mais aplicados, uma pedra no meio da rua poderia ser uma boa desculpa para matar aula. A hipótese do vigia era tão atraente que passei a ver a tal pedra entre a casa do poeta e o grupo escolar, no meio da Rua Major Laje, em Itabira, Minas Gerais, na altura do número 300. Era como se a pedra estivesse lá desde tempos imemoriais. Infelizmente, quando voltei a Itabira não reencontrei o vigia, e constatei que não havia nenhuma pedra no meio da rua, o que não significa que ela não tenha estado ali nas primeiras décadas do século XX, afinal, se havia “noventa por cento de ferro nas calçadas”, por que não haveria nas ruas? Seja como for, lembro de ter perguntado se o vigia tinha noção da transcendentalidade da hipótese da “pedra no meio da rua”. Ele sorriu. E eu desconfio que levei absolutamente a sério o que não era sério...

A tal pedra entre a casa do poeta e o grupo escolar provavelmente foi uma criação do vigia para suportar a chateação e a monotonia do trabalho. Drummond publicou Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema para se divertir com a ingenuidade dos críticos. O vigia provavelmente inventou aquela pedra para se divertir com a ingenuidade dos que visitam o museu. Mas, por outro lado, ainda que a pedra do vigia seja só um gracejo, é verdade que havia muitas pedras no meio dos caminhos itabiranos. Itabira, por sinal e na versão mais aceita, é uma palavra de origem tupi que significa pedra que brilha. Ou, como completa Drummond na lateral esquerda de Pedra natal: “pedra luzente/ pedra empinada/ pedra pontuada/ pedra falante/ pedra pesante por toda vida”.

Da sacada do sobrado em que vivia o menino Carlos Drummond de Andrade, no começo do século XX, e de diversos pontos de Itabira, se via o pico do Cauê: a pedra “luzente, empinada e pontuda” que se destacava no horizonte; a pedra que, “toda de ferro”, fascinava o menino. O sobrado da família Andrade virou o museu Casa de Drummond, onde trabalhava o vigia da pedra, cento e dez anos depois do nascimento do poeta. O pico do Cauê já tinha virado pó.

A primeira referência de Drummond ao pico aparece no poema Itabira, presente em Alguma poesia (1930):

Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.

Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável.

Tutu Caramujo12 na porta da venda me faz pensar no vigia na porta do museu Casa de Drummond. O primeiro anunciando a “derrota incomparável”. O segundo se divertindo com a ingenuidade dos visitantes. No tempo de Tutu Caramujo, estrangeiros compravam terras a preço de banana, itabiranos vendiam lebre por gato. Desenhava-se a “derrota incomparável”. Havia minério de ferro no meio das pedras. No tempo do vigia, turistas visitavam a Casa de Drummond, de onde já não se via o pico do Cauê, que havia sido britado “em bilhões de lascas”. Como a “derrota incomparável” era fato consumado, só restava rir. O vigia zombeteiro é o Tutu Caramujo do século XXI.  

Drummond se define como um “eu todo retorcido”. Itabira virou uma cidade toda retorcida. A mineração recortou serras e aplainou morros. José Miguel Wisnik esteve na cidade para um festival de inverno, foi quando notou a presença marcante da mineração na obra drummondiana, e escreveu Maquinação do mundo – Drummond e a mineração. Wisnik: “o impacto do lugar faz ler e reler a poesia de Drummond de uma perspectiva diferente daquela a que estamos acostumados. Fui à cidade portando o universo itabirano que encontro nos poemas, e me deparei com a conformação trágica desse lugar corroído, cifra esquisita da negatividade da própria obra, realimentando o fermento interno ao texto, que o leva a crescer sempre mais” [...] “há no ar a sensação de que um crime não nomeado, ligado à fatalidade de um ‘destino mineral’, foi cometido a céu aberto.”

Exemplos para dar materialidade à “sensação de que um crime não nomeado foi cometido a céu aberto”: a) "Este câncer que atingiu a nossa cidade vai deixar três enormes crateras na superfície de suas terras, as águas podres e ácidas, o clima aleatório e fétido, e alguns milhares de indivíduos tentando reviver o que poderíamos chamar de Prostituta do Capitalismo Selvagem."13 b) Itabira é uma cidade cercada por depósitos de rejeitos com volumes que, somados, são 33 vezes maiores do que a barragem da Vale que se rompeu em Brumadinho.14 c) A fazenda do Pontal – que pertenceu à família Andrade – foi transformada em depósito de rejeitos da Companhia Vale do Rio do Doce; a sede da propriedade foi desmontada e remontada pela Companhia, e virou museu. Se, como quer Milan Kundera, o kitsch é “a negação absoluta da merda”, o museu Fazenda do Pontal é absolutamente kitsch. Há uma personagem de Kundera que combate o kitsch, mas como o ideal estético na Tchecoslováquia era o realismo socialista e, por tabela, o kitsch, Sabina precisava driblar a censura, não podia pintar exatamente como queria. Ela explica o significado de seus quadros da seguinte forma: “na frente, a mentira inteligível; por trás, a verdade incompreensível.”15 Como os olhares focam a frente, a verdade se insinua por trás, driblando a censura. A sede da fazenda do Pontal remontada – pela Vale – é exatamente a mesma em que cresceu o menino Carlos Drummond de Andrade, mas quem espia pelas janelas vê o depósito de rejeitos que cobriu a propriedade original: na frente, a mentira necessária; por trás, a verdade inconfessável.16, 17

No poema América, uma rua começa em Itabira e vai dar em qualquer lugar da Terra. Na primeira metade do século XX, ruas de muitas partes da Terra deram em Itabira. Tudo em nome do minério de ferro, matéria-prima fundamental para a indústria capitalista. Foi quando Tutu Caramujo previu a “derrota incomparável”. Alguns, os ingênuos, pensaram que faziam ótimos negócios vendendo terras, não perceberam que trocavam lebre por gato. As primeiras mineradoras eram estrangeiras e houve intensa disputa para garantir o controle nacional sobre o recurso estratégico. Quando veio a Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas negociou a criação da Companhia Vale do Rio Doce, que seria nacional, mas se comprometia a alimentar a indústria bélica dos aliados (principalmente EUA e Inglaterra). Wisnik: “o ‘sono rancoroso dos minérios’ será acordado para ir à guerra em 1942”. A transformação foi tamanha que a cidade de Itabira chegou a se chamar Getúlio Vargas. Rubem Braga sugeriu que Drummond alterasse os últimos versos de Confidência do itabirano para: “Getúlio Vargas é só uma foto na parede.”18

Com a criação da Companhia Vale do Rio Doce cresceu a exploração e a destruição de Itabira. Drummmond combateu a Vale com “palavras, intuições, símbolos e outras armas”. Em 1970, a empresa respondeu com uma campanha publicitária em que afirmava “Há uma pedra no caminho do desenvolvimento brasileiro”, embaixo da frase havia uma pedra. A referência ao poeta é inequívoca, a peça publicitária registra: “Nosso caminho sempre esteve cheio de pedras. Mas essa tem um significado todo particular. Com ela, alcançamos esta semana a marca de 20 milhões de toneladas de minério de ferro exportadas. Mais 2,5 milhões que todo o ano passado” [...] “Somos especialistas em transformar pedras em lucros para a nação. É de mais pedras como essa que o Brasil precisa.” A página de jornal com o anúncio foi guardada por Drummond.

Em 1983, no jornal O cometa itabirano, Drummond publicou Lira itabirana, poema que fala de sua cidade natal, mas parece antecipar crimes que seriam cometidos posteriormente (a destruição do Distrito de Bento Rodrigues e do Rio Doce pela Samarco, empresa controlada pela BHP Billiton e pela Vale S.A.19; e a destruição de Brumadinho e do Rio Paraopeba pela mesma Vale S.A.):

I
O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II
Entre estatais

E multinacionais,
Quantos ais!

III
A dívida interna.

A dívida externa
A dívida eterna.

IV
Quantas toneladas exportamos

De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Em 1948, o poeta retornou a Itabira para visitar a mãe, que estava gravemente doente, foi a penúltima vez que esteve na cidade. A profanação dos morros e rios crescia, e certamente não passou despercebida. Itabira era e não era apenas uma foto na parede. O poeta não retornou fisicamente à cidade, mas Drummond jamais se distanciou de Itabira, como se a cidade fosse uma foto viva, dentro dele. O melhor exemplo são os poemas que remetem à infância e foram escritos, em geral, quando o poeta já havia passado dos sessenta anos. Tais poemas estão agrupados nas séries Boitempo, alguns foram expostos em placas de ferro nos locais de Itabira a que se referem, formando o Museu de Território Caminhos Drummondianos20. Enquanto lembranças brotavam, a mineradora destruía a cidade: a Vale perfurava o pico do Cauê como um dentista perfura um dente cariado. Drummond sabia que suas lembranças eram apenas fotografias na parede da memória. Em A montanha pulverizada, o poeta se imagina voltando à casa em que morou, subindo as escadas e espiando o horizonte:

Chego à sacada e vejo minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.

Era coisa dos índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é sua vista e contemplá-la.

De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na infância.

Esta manhã acordo e
não a encontro.
Britada em bilhões de lascas
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões
no trem-monstro de 5 locomotivas
– o trem maior do mundo, tomem nota –
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo e na paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.

A partir do poema acima e parafraseando Mário Quintana, é possível dizer que não importa que a tenham demolido, a gente continua morando na cidade em que nasceu. A montanha pulverizada prova que Drummond nunca saiu de Itabira, assim como a cidade nunca saiu dele. Por uma ironia do destino, A montanha pulverizada não pode compor o Museu de Território Caminhos Drummondianos, porque a montanha virou pó e a placa de ferro precisaria levitar no horizonte, como um quadro sem moldura, fixado no ar, sobre um imenso buraco. Parênteses inevitáveis: a serra era dos índios, os Andrades a tomaram... Drummond sendo Drummond: tocar fogo em tudo, inclusive em si próprio e na própria família.

O tema mineração foi retomado em O maior trem do mundo, publicado em 1984, no jornal O cometa itabirano. Drummond resiste. Era como se cada pedra arrancada da cidade fosse um osso arrancado do poeta, que lutou como um javali.

O maior trem do mundo
leva minha terra
para a Alemanha
leva minha terra
para o Canadá
leva minha terra
 para o Japão.

O maior trem do mundo
puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
engatadas geminadas desembestadas
leva meu tempo, minha infância, minha vida
triturada em 163 vagões de minério e destruição.

O maior trem do mundo
transporta a coisa mínima do mundo,
meu coração itabirano.

Lá vai o trem maior do mundo
vai serpenteando vai sumindo
e um dia, eu sei, não voltará
pois nem terra nem coração existem mais.

Água escorre das pedras cortadas e arrancadas do meio do caminho para a passagem do “maior trem do mundo”, que leva o “coração itabirano”. Os eucaliptos nos morros denunciam a presença de interesses mercantis. As explosões das mineradoras calaram os sinos das igrejas. Drummond era vizinho da Igreja do Rosário, como notou Wisnik, é, talvez, o que explica a presença marcante dos sinos na obra do poeta. A Igreja do Rosário desmoronou em 1970, provavelmente devido às explosões da Vale. Virou esgoto o riacho onde o menino Carlos tomava banho e sonhava apalpar “irreveladas” formas femininas (desconfio que a Água Santa só não foi totalmente canalizada porque o poeta dedicou-lhe o poema O banho, e o local passou a compor o Museu de Território Caminhos Drummondianos, seria terrível colocar uma placa de ferro com os versos sobre um riacho enterrado). Enfim, realizou-se a profecia de Tutu Caramujo: confirmou-se a “derrota incomparável”.

O grande símbolo da “derrota incomparável” é certamente o pico do Cauê, que o menino Carlos avistava da sacada, e desapareceu como o “Coqueiro de Batistinha”: “De manhã cedo, pois cedo/ começa o rodar mineiro,/ passando por lá não vejo/ nem retrato de coqueiro./ A Prefeitura cortou?/ Ou o raio o siderou,/ o caterpilar levou?”. O pico do Cauê – pedra brilhante que atingia 1300 metros de altitude, “britada em bilhões de lascas”, “a TNT aplainado” – virou um imenso buraco21. Wisnik: “o fim do pico é o fim da picada”. O assassinato do pico do Cauê é um crime comparável aos assassinatos dos rios Doce e Paraopeba.

Por fim aquela pedra. Voltemos àquela pedra. Ainda aquela pedra. Se reescrevesse No meio do caminho depois da destruição do pico do Cauê, o poeta talvez registrasse: no meio do caminho tinha um buraco/ tinha um buraco no meio do caminho/ tinha um buraco... Lido nas terras brancas da Rússia, onde é preciso percorrer centenas de quilômetros para se avistar uma pedra no meio da neve, No meio do caminho ganharia ares de revelação. Lido depois do assassinato do pico do Cauê, o poema também ganha ares revelação. Tinha uma pedra no meio do caminho, não tem mais. É uma pergunta possível, não é a solução retrospectiva, mas e se a pedra do poema fosse o pico do Cauê? E se aquela pedra conjugada no passado fosse uma denúncia para o futuro? Aquele “tinha”. Aquele “acontecimento” gravado em “retinas tão fatigadas”. Aquela pedra no horizonte. A pedra extraída. A pedra transformada em um imenso buraco. Drummond anunciando a “derrota incomparável”, como Tutu Caramujo. E se aquela pedra fosse o pico do Cauê? E se o pico do Cauê fosse aquela pedra?


NOTAS:


1. Sugestão: para não prejudicar a fluência, as notas podem ser lidas depois do texto.

2. A reflexão sobre Trotsky, a neve e os povos que cultuam pedras está no romance O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura.

3. “Erro crasso” de avaliação: para a Folha da Manhã No meio do caminho não passava de um “erro crasso” de português. Citado em Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema.

4. O poeta revela que o Poema da pedra tem a ver com “chateação” e “monotonia” em entrevista a Amélia Carmen Machado: Conversa com Carlos Drummond de Andrade, Diário de Minas, 1954. Entrevista citada na apresentação de Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema.

5. Albert Camus (O mito de Sísifo): “Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que têm consciência de dizer”.

6. Ao definir No meio do caminho como um poema insignificante em si, mas que apesar disso dividiu o país em duas categorias mentais, Drummond sugere que se levou demasiadamente a sério o que não era sério. Emendo: daí a graça de ler as críticas ao poema anos depois. O poeta provavelmente previa o efeito cômico. Foi sua vingança sublime. A citação sobre as “duas categorias mentais” está em Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema.

7. Capa da Revista de Antropofagia, julho de 1928, primeira publicação do Poema da pedra.


8. O crítico que sugeriu não haver nenhuma poesia em Alguma poesia é Medeiros de Albuquerque, que escreveu no Jornal do Comércio em junho de 1930. Moral da história: sacadas e jogos de palavras aparentemente inteligentes podem virar pedras na vidraça dos autores. Albuquerque é citado em Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema. Golpe de aikido drummondiano.

9. Os versos “Oh! Sejamos pornográficos/ (docemente pornográficos)” abrem o poema Em face dos últimos acontecimentos, publicado em Brejo das Almas (1934). Foi Agripino Grieco quem sugeriu que não poderia ser chefe de gabinete alguém que escreve “Oh! Sejamos pornográficos/ (docemente pornográficos)”. O Jornal, 1944. A crítica é parecida com a dos que, décadas de depois, atacam exposições de arte: em uns e outros a moral cristã a ensinar que a carne não vale. Moralismo é, em geral, pregar uma moral que não é seguida por seus defensores. Grieco é citado em Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema.

10. É, provavelmente, de Alcântara Machado a sacada de publicar No meio do caminho na capa da Revista de Antropofagia. O escritor é citado em Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema.

11. Cidadezinha qualquer é o poema em que tudo vai devagar e a vida é besta, é, em boa medida, Itabira das primeiras décadas do século XX: com alguns poucos milhares de habitantes que iam devagar, como os cães, os burros e o tempo. Itabira era só mais uma cidadezinha do interior do Brasil. Tudo se alterou com a descoberta de riquezas minerais. Homens, mulheres e empresas multinacionais correram para a cidade, que acelerou. Vale lembrar e completar: aceleração e crescimento dominados pelas mineradoras, que destruíram serras e picos. O poeta preferiu evitar a visão dos morros e rios profanados, Itabira tornou-se “apenas uma foto na parede”, mas como doía. No meio do caminho causou um rebuliço nacional. Confidência do Itabirano causou um rebuliço na cidade natal do poeta, por lá ainda há os que desconfiam de Drummond devido a tal “fotografia na parede”: “Tive ouro, tive gado, tive fazendas./ Hoje sou funcionário público./ Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói”. Curiosamente – aos 30 anos, pouco tempo depois de ter deixado a cidade e antes de ser um poeta reconhecido –, Drummond, na crônica Vila de Utopia, explicita seu amor pela cidade natal: "Todos cantam sua terra, mas eu não quis cantar a minha. Preferi dizer palavras que não são de louvor mas que traem a silenciosa estima do indivíduo, no fundo, eternamente municipal e infenso à grande comunhão urbana. Ainda assim fui itabirano, gente que quase não fala bem de sua terra, embora proíba expressamente aos outros falarem mal dela. Maneira indireta e disfarçada de querer bem, legítima como todas as maneiras." Desconfio que Drummond evitou visitar Itabira porque amava a cidade que conheceu antes de ser retorcida pelas mineradoras. 

12. Além de comerciante, Tutu Caramujo foi prefeito de Itabira. Politicamente era adversário dos Andrades. Tutu Caramujo era monarquista. Os Andrades eram republicanos.

13. Texto escrito em 1980 por Fernando Duarte Gonçalves para o jornal O cometa itabirano: Itabira, a prostituta do capitalismo selvagem. Disponível em: http://www.viladeutopia.com.br/itabira-a-prostituta-do-capitalismo-selvagem/
14. A matéria sobre os depósitos de rejeito que cercam Itabira foi escrita para a BBC Brasil por Rafael Barifouse. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47220855

15. A citação sobre o kitsch e a personagem Sabina estão no romance A insustentável leveza do ser. Kundera dá dimensão existencial ao kitsch, por este atalho curto, chega na frente. Reflexões sobre o kitsch podem ser encontradas em outros romances e ensaios de Milan Kundera, por exemplo: O livro do riso e do esquecimento e A arte do romance.

16. A fazenda do Pontal é, provavelmente, o cenário do poema Infância, que é o segundo de Alguma Poesia (1930). Drummond conclui assim: “E eu não sabia que minha história/ era mais bonita que a de Robinson Crusoé.” Acrescento: e não sabia que o “mato sem-fim da fazenda” seria coberto por rejeitos da mineração.

17. Primeira foto: depósito de rejeitos visto pela janela do museu Fazenda do Pontal (2019). Segunda foto: na frente o palco, atrás os morros recortados de Itabira (2018).



18. Quando Itabira passou a se chamar Getúlio Vargas, Rubem Braga sugeriu que Drummond alterasse o nome da cidade nos últimos versos de Confidência do itabirano. Ficaria: “Getúlio Vargas é só uma foto na parede.” Anedota relatada em Maquinação do mundo – Drummond e a mineração, de José Miguel Wisnik.

19. Sacada de José Miguel Wisnik: com a privatização, a Vale primeiro retirou o Rio Doce do nome, depois o matou. 

20. Exemplo de placa do Museu de Território Caminhos Drummondianos. Poema O criador, publicado em Boitempo I (1968). A referência é a José, irmão de Drummond que teria inspirado também o famoso poema de mesmo nome. No hotel central de Itabira é possível ver uma foto do início do século XX, o “subversivo” José aparece sem camisa (ser fotografado sem camisa era um ato subversivo no começo do século passado). Placa de ferro localizada ao lado do museu Casa de Drummond, a referência é ao jardim da propriedade:


21. Pico do Cauê antes e depois da chegada da Vale do Rio Doce. Na primeira foto a vista da rua em que morou o menino Carlos, a tal rua em que havia uma pedra, segundo o vigia do museu Casa de Drummond. Na segunda foto o pico transformado um imenso buraco.

https://www.flickr.com/photos/achmg/5033334357

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(Texto publicado originalmente no Passa Palavra)