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A Ética e O alienista: a beatitude e o riso

 

Participei de dois grupos de estudos. Um filosófico. Outro literário. O primeiro discutiu a Ética [1], de Baruch Espinoza. O segundo discutiu O alienista [2], de Machado de Assis. Fiz uma primeira leitura da Ética. Reli pelo Alienista. Li novamente a Ética. As leituras dissonantes sugeriram algumas aproximações.

 

Machado de Assis escreveu um soneto dedicado a Baruch Espinoza. O romancista imagina o filósofo “grave e solitário, sob o fundo de esquálida candeia”, com uma “ideia coruscante” na cabeça. Imagino Machado de Assis mais ou menos na mesma situação que Baruch Spinoza. A diferença é que, enquanto o filósofo parte de deus/natureza, passa pela mente para pensar como regular os afetos, superar a servidão e conquistar a liberdade/beatitude; o romancista usa a imaginação – no sentido romanesco e não no sentido espinozista – para recriar o mundo expondo os afetos mais escondidos e, assim, provocar o riso. Imaginar, para o filósofo, é considerar outros corpos “por meio das ideias das afecções” [3] do nosso próprio corpo. É um conhecimento limitado. Imaginar é o recurso mais precioso para um romancista, é imaginando que ele recria o mundo e os homens, inclusive desnudando e expondo os afetos mais inconfessáveis. Espinoza contrasta ideias adequadas e inadequadas em busca da beatitude, que é uma perfeição maior, uma “satisfação do ânimo” [4], um encontro da liberdade com a necessidade, uma espécie de alegria da razão que consiste em compreender e estar de acordo com a natureza das coisas e de si. É razoável pensar – e não está errado – que Machado de Assis escreveu uma obra irônica e cética para denunciar as misérias de seu tempo. Mas minha sensação é que, além disso, o “Bruxo do Cosme Velho” buscou o riso para se divertir e divertir expondo o que Espinoza definiria como ideias inadequadas e afetos tristes, que reduzem a capacidade de agir e conduzem a uma perfeição menor. Vale registrar, inicialmente, que o filósofo criticaria o divertimento do romancista. Espinoza aprova o riso alegre, sem excessos, o mesmo não se aplica à irrisão, ao escárnio, ao riso debochado, ou seja, não se aplica ao que Machado de Assis faz de melhor. A zombaria machadiana não combina com a beatitude espinozista. Em síntese. Espinoza: compreender para estar de acordo com a natureza das coisas e de si. Machado: compreender para se divertir com a natureza das coisas, dos homens e, por que não?, de si mesmo. Espinoza: beatitude. Machado: riso.   

 

Entre os afetos tristes, que reduzem a capacidade de ação conduzindo a uma perfeição menor, Espinoza incluiu o ódio, a aversão, o medo, o desespero, a decepção, a desconsideração, a inveja, a soberba, a ira, a vingança, a crueldade, o temor, a covardia, o pavor, a ambição, a gula, a avareza, a luxúria. Há outros afetos tristes, listei apenas os que estão mais presentes em Machado de Assis e no Alienista. Como seria um mundo dominado por ideias inadequadas e por afetos tristes? É onde entra Machado de Assis e O alienista, mas poderia ser Memórias Póstumas de Brás Cubas [5], Quincas Borba [6], Dom Casmurro [7], Esaú & Jacó [8], Memorial de Aires [9] e os contos [10] do “Bruxo do Cosme Velho”. Partindo da Ética de Espinoza, pode se dizer que a literatura machadiana é o reino das ideias inadequadas e dos afetos tristes. É difícil encontrar retidão moral e ações virtuosas nos personagens de Machado de Assis. No Alienista, por exemplo, há apenas a coerência da esposa do boticário Crispim Soares. Ela exige que o marido fique ao lado do amigo alienista, Simão Bacamarte, quando explode uma revolta contra as internações compulsórias. Além dela, há o vereador Galvão, que se posiciona contra uma lei corporativista que vedava o recolhimento de membros da Câmara. Como não poderia deixar de ser, a esposa do boticário e o vereador Galvão foram internados no “asilo dos alienados” [11] quando o alienista passou a acreditar que os normais eram desequilibrados.       

 

Ler a Ética não é tarefa simples. A “meticulosa ordem geométrica” [12] da exposição não facilita para os leitores. É preciso ir e voltar. A sensação inicial é de não entender quase nada, especialmente na primeira parte, intitulada Deus. Isso porque o pensamento de Espinoza é muito diferente do que se pensava e do que ainda se pensa. A Ética gira em torno dos afetos, que são as “afecções do corpo” que aumentam ou diminuem a potência de agir: “quando podemos ser a causa adequada de alguma dessas afecções, por afeto compreendo, então, uma ação; em caso contrário, uma paixão” [13]. A ação aumenta a potência do ser. A paixão reduz a potência do ser. Quem sobrevive e prossegue na leitura da Ética percebe que as ideias vão se encaixando: “A nossa mente, algumas vezes, age; outras, na verdade, padece. Mais especificamente, à medida que tem ideias adequadas, ela necessariamente age; à medida que tem ideias inadequadas, ela necessariamente padece.” [14]. Eu tinha uma visão de Espinoza muito moldada pelas leituras que fiz de André Comte-Sponville [15]. O contato direto com a Ética foi interessante. Por exemplo, Comte-Sponville confere sentido “neutro” ao desespero, que “é o grau zero da esperança”, trata-se de não esperar absolutamente nada, para, dessa forma, evitar frustrações; Espinoza [16] confere sentido negativo ao desespero, que surge “da ideia de uma coisa futura ou passada da qual foi afastada toda causa de dúvida.” É que o primeiro, apesar de reconhecer a importância e a grandeza do segundo, vai por outros caminhos, aproxima-se de uma espécie de budismo, desconfia da esperança e dos desejos. Não é o que se lê na Ética. Para Espinoza [17], “o desejo é a própria essência do homem”, e “o desejo que surge da alegria é, em igualdade de circunstâncias, mais forte que o desejo que surge da tristeza.” O filósofo sustenta, na Ética, que não se trata de abolir os afetos, o que seria impossível; a questão é regulá-los por meio da razão, superando a servidão e conquistando a liberdade/beatitude. Uma metáfora relacionada à profissão de Espinoza: a razão é uma lente que permite enxergar os afetos. Servidão: submissão aos afetos. Liberdade: obedecer a si próprio, ser conduzido pela razão, regular os afetos, estar em acordo com a natureza das coisas e de si mesmo. Quem resiste e conclui a leitura da Ética experimenta uma espécie de alegria do entendimento, que consiste em acompanhar o filósofo na delimitação da impotência e da potência humana.

 

Reler O alienista entre as duas leituras que fiz da Ética foi um acaso interessante. Um bom encontro. Isso porque Machado de Assis explora, diverte e se diverte com a impotência humana, as ideias inadequadas e os afetos tristes. Para quem leu O alienista entre as duas leituras que fez da Ética fica parecendo que o romancista ilustra o que o filósofo definiu como submissão aos afetos (servidão). Vale registrar que O alienista começou a ser publicado como folhetim, em outubro de 1881, na revista A estação, que circulou entre 1879 e 1904. A estação tinha um suplemento literário e um caderno de moda, que era a tradução de uma revista alemã. Certamente não foi por acaso que Simão Bacamarte, o alienista, internou a própria esposa, Dona Evarista [18]: que padecia da moléstia “das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas”; que se propôs “a fazer um vestido para a imagem de Nossa Senhora da Matriz” e, pior, que passou um dia inteiro, a madrugada inclusive, absolutamente incapaz escolher “um colar de granada” ou “outro de safira” para usar no baile da Câmara Municipal. O que é isso senão caçoar dos leitores, especialmente das leitoras que acompanhavam a revista? Quantas leitoras padeciam da moléstia “das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas”? Quantas leitoras haviam se sentido absolutamente incapazes de escolher “um colar de granada” ou “outro de safira”? Quantas leitoras seriam internadas pelo alienista? Quantas leitoras da revista A estação se assemelhavam à Dona Evarista? Mas a zombaria do “Bruxo do Cosme Velho” não se limita à esposa do alienista e às leitoras da revista A estação.  Crispim Soares, boticário e amigo íntimo do alienista, não hesitou em se ausentar quando explodiu a revolta contra as internações, com medo e sem encontrar alternativas [19]: “declarou-se doente meteu-se na cama.” Pior, com medo de ser preso por ser cúmplice do alienista, Crispim Soares contrariou os conselhos da esposa e procurou os revoltosos e não o amigo. Em vez de ir à casa do alienista, o boticário foi até o palácio do governo apresentar “seus protestos de adesão” [20]. O boticário Crispim Soares é a encarnação de afetos tristes, como o medo, o temor e a covardia. Porfírio, barbeiro e líder da rebelião contra as internações, viu no levante a grande chance de materializar sua “ambição de governo” [21]: “pareceu-lhe então que, demolindo a Casa Verde e derrotando a influência do alienista, chegaria a apoderar-se da Câmara, dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguaí. Desde alguns anos que ele forcejava por ver seu nome incluído nos pelouros para o sorteio dos vereadores, mas era recusado por não ter uma posição compatível com tão grande cargo. A ocasião era agora ou nunca.” Pior, quando consegue tomar o poder, Porfírio não ordena nem a demolição da Casa Verde nem a prisão de Simão Bacamarte, o barbeiro se limita a visitar e negociar com o alienista. Porfírio é a encarnação da ambição, mais precisamente da “ambição de governo”. Quando o alienista mudou de ideia e passou a considerar que os normais eram desequilibrados, os vereadores da Câmara Municipal de Itaguaí legislaram e autorizaram o recolhimento dos cidadãos “que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais” [22], com a ressalva de que nenhum vereador poderia ser internado no “asilo dos alienados”. O medo foi o afeto triste que fisiologicamente governou os vereadores itaguaienses. Simão Bacamarte, o alienista que internou quase todos os cidadãos de Itaguaí, também era governado por afetos tristes, como a soberba (“fazer de si mesmo, por amor próprio, uma estimativa acima da justa” [23]) e a ambição (“desejo imoderado de glória” [24]).

 

Espinoza [25] diria que a alegria de Machado de Assis “não é sólida”. Isso porque o escárnio “é uma alegria que surge por imaginarmos que há algo que desprezamos na coisa que odiamos”. Explicação do filósofo: “à medida que desprezamos a coisa que odiamos, negamos a sua existência e, dessa maneira, alegramo-nos. Como, entretanto, por hipótese, o homem, ainda assim, odeia o objeto de seu escárnio, segue-se que essa alegria não é sólida.” Será? Rir talvez alivie o ódio e o desprezo, é um caminho por percorrer, uma ideia a desenvolver. Com a Ética na cabeça, precisando ler novamente o texto para melhor compreender o pensamento de Espinoza; reli e me diverti com O alienista. Mas não parei no riso e na alegria. O romancista colocou uma pulga atrás da minha orelha. Qual o espaço para o riso na Ética? Foi com essa pergunta na cabeça que reli o texto de Espinoza. O filósofo tolera e aprova o riso alegre, de contentamento, sem excessos [26]; o mesmo não se aplica ao escárnio, porque “quem compreendeu corretamente que tudo se segue da natureza divina e se faz segundo as leis e regras eternas da natureza, não encontrará, certamente, nada que seja digno de ódio, de riso ou de desprezo” [27]. Não poderia ser diferente. Para Espinoza, a beatitude é uma perfeição maior, uma “satisfação do ânimo” [28], uma alegria da razão que surge do encontro do ser com a existência, da liberdade com a necessidade. A ideia é interessante e sedutora. Mas tem um limite. A beatitude não deixa espaço para o escárnio e o riso contagiante – de desaprovação – que surge do desencontro do ser com a existência, do prazer de zombar de absolutamente tudo, inclusive de Deus, da natureza, dos homens e de si mesmo.  

 

Notas

[1] Baruch Espinoza. Ética. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.

 

[2] Machado de Assis. O alienista. Rio de Janeiro: Editora Três, 1972.

 

[3] Espinoza, op. cit., p. 74.

 

[4] Espinoza, op. cit., p. 233.

 

[5] Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 2016.

 

[6] Machado de Assis. Quincas Borba. São Paulo: Klick Editora, 1997.

 

[7] Machado de Assis. Dom Casmurro. São Paulo: Ática, 1971.

 

[8] Machado de Assis. Esaú e Jacó. São Paulo: Círculo do Livro, s.d.

 

[9] Machado de Assis. Memorial de Aires. São Paulo: Círculo do Livro, s.d.

 

[10] Machado de Assis. Contos essenciais. São Paulo: Martin Claret, 2019.

 

[11] Machado de Assis, 1972, op. cit., p. 238.

 

[12] Espinoza, op. cit., p. 168.

 

[13] Espinoza, op. cit., p. 98.

 

[14] Espinoza, op. cit., p. 99.

 

[15] André Comte-Sponville. Tratado do desespero e da beatitude. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

 

[16] Espinoza, op. cit., p. 144.

 

[17] Espinoza, op. cit., p. 168.

 

[18] Machado de Assis, 1972, op. cit., p. 233.

 

[19] Machado de Assis, 1972, op. cit., p. 227.

 

[20] Machado de Assis, 1972, op. cit., p. 228.

 

[21] Machado de Assis, 1972, op. cit., p. 220.

 

[22] Machado de Assis, 1972, op. cit., p. 238.

 

[23] Espinoza, op. cit., p. 146.

 

[24] Espinoza, op. cit., p. 150.

 

[25] Espinoza, op. cit., p. 143.

 

[26] Espinoza, op. cit., p. 186.

 

[27] Espinoza, op. cit., p. 189.

 

[28] Espinoza, op. cit., p. 233.


Publicado originalmente no Passa Palavra

 

O LEITOR CLANDESTINO

 

Sempre gostei de bibliotecas. Queria dominar todos os livros das bibliotecas. Aos poucos fui percebendo se tratar de um sonho impossível: porque há muito livros nas bibliotecas e porque há muitas bibliotecas no mundo (mesmo que dominasse uma, haveria outras tantas). Conheço apenas alguns autores, a posição de uns poucos livros nas prateleiras (porque costumo flertar com as obras antes de iniciar a leitura) e só. Nem pequenos nichos do conhecimento posso dizer que domino ou que dominarei. É que na leitura sou anarquista. Sou leitor e não pesquisador. Uma capa atrai. Um título intrigante idem. Um livro puxa o outro: sem governo, sem continuidade e quase sem método.

 

O ensaísta André Comte-Sponville [1] registrou que o estilo é tônico. Ler uma frase limpa, sólida e bem construída revigora como o ar puro. Concordo. Mas não é apenas o estilo que reconforta, às vezes é a própria leitura: forma e conteúdo, ter o livro nas mãos, folhear, grifar, anotar. O poeta Carlos Drummond de Andrade [2] contou que recebeu uma carta de um homem que tinha pensamentos suicidas, mas mudou de ideia depois de ler o poema José. Os versos expressavam exatamente o que o homem sentia, mas não conseguia pôr para fora. Quando descobriu que aqueles sentimentos estavam registrados no poema José, percebeu que não estava sozinho no mundo. Sentia o mesmo que o poeta. Abriu mão do suicídio. É nesse sentido que a leitura é tônica.  

 

Com o tempo passei a me reconhecer como um leitor: um leitor que às vezes escreve. A escrita é, para mim, uma forma de compartilhar o que li. Daí as inescapáveis citações, que devem aborrecer os leitores. Há textos tônicos sobre a leitura. Ricardo Piglia [3]. Alberto Mangel [4] [5] [6]. Um dos ensaios de Piglia discute Che Guevara como leitor, a sacada final é daquelas que só os grandes romancistas são capazes de formular. Na lousa da escolinha boliviana em que foi aprisionado antes de ser assassinado, Guevara leu uma frase e indicou uma correção para a professora local, Julia Cortés, que lhe havia entregado um prato de comida (ela foi a única que se solidarizou com o guerrilheiro). Falta o acento em “Yo se leer” – disse o Che. O revolucionário que havia sido capturado com livros, porque nunca se afastou da leitura, nem quando cercado por tropas inimigas, encerrava sua passagem pelo mundo com um digno e preciso “eu sei ler”. Naquele segundo mágico, o leitor reencontrou o guerrilheiro. Manguel registrou notas para a definição do leitor ideal, compartilho algumas: “Depois de fechar o livro, o leitor ideal sente que, se não tivesse lido, o mundo seria mais pobre” [...] “O leitor ideal julga o livro pela capa” [...] “Quando lê um livro de séculos atrás, o leitor ideal se sente imortal” [...] “O leitor ideal não tem uma nacionalidade precisa.” [...] “O leitor ideal não se preocupa com anacronismos, a verdade documentada, a exatidão histórica, a precisão topográfica. O leitor ideal não é um arqueólogo.” [...] “Um escritor nunca é seu próprio leitor ideal.” [...] “Pinochet, que proibiu D. Quixote por pensar que incitava a desobediência civil, foi o leitor ideal desse livro.”

 

As notas para a definição do leitor ideal, de Alberto Manguel, me fizeram pensar no leitor real em um país miserável em muitos sentidos, como o Brasil. Por aqui as pessoas consideram a leitura inútil e entediante, por isso costumam puxar conversa quando encontram alguém lendo. É como se fizessem um favor e uma caridade. Por aqui – se não se vive da exploração do trabalho alheio – a leitura é um ato de resistência, que se faz na clandestinidade, contra quase tudo e quase todos. É neste sentido que, partindo de Manguel, registro algumas notas sobre o leitor clandestino, que sou um pouco eu, mas não só (os leitores do Passa Palavra certamente podem ampliar e completar essas notas):

 

- Para o leitor clandestino, um dia sem leitura é um dia irremediavelmente perdido.

 

- O leitor clandestino frequenta pontos de troca de livros, principalmente os espaços que ficam em vias públicas e são discretos.

 

- O leitor clandestino prefere livros usados e com anotações.

 

- O leitor clandestino aprende a ignorar a poluição sonora para ler no transporte público.

 

- Quando está no transporte público e consegue viajar sentado, o leitor clandestino prioriza os livros maiores.

 

- Quando está no transporte público viajando em pé (maior parte do tempo), o leitor clandestino prioriza edições de bolso.

 

- O leitor clandestino nunca é visto sem mochila, porque sempre carrega livros.

 

- O leitor clandestino se alegra quando vê pessoas lendo, mas se consegue espiar as capas, costuma se frustrar por serem livros de autoajuda ou empreendedorismo.

 

- O leitor clandestino julga as pessoas pelos livros que leem e também pela falta de leituras.

 

- O leitor clandestino acha as leitoras atraentíssimas. Ele sonha em conhecer uma leitora de romances no transporte público para trocar impressões literárias e o que mais for possível.

 

- O leitor clandestino já viajou com leitoras de romances no transporte público, mas não percebeu a presença delas porque estava com a cara enfiada em um livro.

 

- O leitor clandestino é apaixonado por Emma Bovary e Ana Kareninna: em todos os sentidos.

 

- Para ler, o leitor clandestino acorda mais cedo que familiares e amigos.

 

- O leitor clandestino aluga filmes e paga canais fechados para a família se entreter enquanto ele lê.

 

- O leitor clandestino não é absolutamente contra o casamento e a família, mas teme e evita uma coisa e outra porque precisa de tempo livre.

 

- O leitor clandestino lê livros eletrônicos no escritório como se fossem contratos e procurações, como se estivesse trabalhando.

 

- Porque é obrigado a ler clandestinamente no escritório, o leitor clandestino usa edições impressas e eletrônicas. Estas no escritório, aquelas no transporte público.

 

- O leitor clandestino lê no escritório da mesma maneira que um estudante cola na escola: com tranquilidade, sereno, como se não estivesse acontecendo nada anormal.

 

- O leitor clandestino não arrisca abrir um livro impresso no escritório, só quando cai a energia ou os sistemas operacionais.

 

- O grande pesadelo do leitor clandestino é o chefe lhe interromper a leitura clandestina no meio de um parágrafo. É quando ele tem vontade de pegar um livro de capa dura para bater no chefe.

 

- O leitor clandestino sabe que a palavra escritório tem a ver com escrita. Scriptorim era a oficina em que se produziam e reproduziam livros. Se é assim, ler no escritório é uma questão de coerência.

 

- O leitor clandestino está convencido de que Bartleby [7] era um grande leitor e não um simples escrevente.

 

- O leitor clandestino defende que o patrão de Bartleby interrompeu uma leitura clandestina do escrevente naquele escritório de Wall Street, seria essa a origem da fórmula “eu preferiria não”.

 

- O leitor clandestino sustenta que os filósofos não entenderam a fórmula de Bartleby porque nunca precisaram ler clandestinamente nem trabalhar, muito menos num escritório.

 

- O leitor clandestino suspeita que Bartleby disse “eu preferiria não” porque não podia dizer “me deixe ler em paz”.

 

- O leitor clandestino desconfia de escritores e poetas que comentam e explicam a própria obra. Apenas e tão somente os textos devem falar.

 

- Porque é obrigado a usar diversas edições e traduções, o leitor clandestino compara trechos e sabe valorizar o trabalho dos tradutores.

 

- Textos escritos de uma só vez, sem tópicos e divisões, dificultam a vida do leitor clandestino, que precisa se alternar entre edições impressas e eletrônicas.  

 

- O sonho do leitor clandestino é ter um cômodo silencioso e confortável para organizar uma biblioteca.

 

- O leitor clandestino é progressista. Às vezes até se aproxima de partidos e organizações socialistas. Mas ele aprecia mais as conversas literárias que ocorrem em bares, após as reuniões, do que as falas cronometradas sobre a conjuntura.

 

- As amizades do leitor clandestino giram em torno de livros.

 

- O leitor clandestino é discreto e pouco fala de si próprio. A única forma de conhecer minimamente um leitor clandestino é ler as anotações que ele faz a lápis nos livros que lê.

 

- Conta-se que um leitor clandestino quase apanhou no transporte público. Lia o Quixote e ria. Um passageiro se irritou e foi tomar satisfação. O leitor clandestino contou as aventuras do cavaleiro da Triste Figura. Riram e ficaram amigos.

 

- Conta-se que um leitor clandestino leu todos os volumes de ‘O Capital num escritório, numa edição eletrônica, como se o texto de Marx fosse o trabalho diário: apesar dos que dizem que O Capital não é um livro para trabalhadores.

 

Mas há quem dê marteladas nos leitores. Nietzsche [8] zomba dos “doutos” que nada mais fazem do que misturar livros, perdendo completamente a faculdade de pensar por conta própria. Se não se empanturram de livros, não pensam: “o douto emprega a sua força em dizer ‘sim’ ou ‘não’, em criticar o que já foi pensado por outros; quanto a ele, todavia, não pensa mais.” O filósofo define os doutos como decadentes. Chocava-lhe haver quem, de manhã – “quando o espírito reflui em leveza, ao despertar das energias” – se pusesse a ler: “Para mim, isto é um vício!” Nietzche encarava a leitura como uma “recreação”, um hábito que o afastava de si próprio: “Nas épocas em que eu trabalhava muito não se viam livros ao redor de mim: esquivar-me-ia bem de permitir a outrem de falar ou de pensar em minha presença. E ler, seria dizer precisamente isto...” Montaigne [9] não dá marteladas nos leitores, como Nietzsche, mas tampouco se empolga com eles, como eu. Para Montaigne a leitura é um consolo na velhice e na solidão, suaviza o peso do ócio enfadonho, livra de companhias que aborrecem, distrai de ideias inoportunas e até suaviza algumas dores. Pensando em Nietzche e Montaigne, registro mais três notas sobre o leitor clandestino:

 

- O leitor clandestino pode até ser um viciado em livros, mas não é um “douto” que lê para escrever artigos e bater metas acadêmicas. O leitor clandestino lê por paixão.

 

- O leitor clandestino lê para viver e não para matar o tempo. A grande luta do leitor clandestino é por tempo livre para a leitura.

 

- Leio, logo existo – diria o leitor clandestino, se fosse menos afeito ao silêncio; quiçá arrematasse com uma provocação –: quem lê para matar o tempo deveria considerar seriamente a possibilidade de se matar.

 

Enfim, se tive acesso às sacadas de Comte-Sponville, Drummond, Piglia e Manguel; se tive acesso às críticas de Nietzsche e Montaigne foi porque me dispus a ler na clandestinidade ou de manhã cedo, “quando o espírito reflui em leveza, ao despertar das energias”. Que outros falem em minha presença – inclusive os filósofos –, especialmente por escrito. Nietzsche provavelmente diria que meu leitor clandestino é um decadente viciado em livros, que lê muito e pensa pouco. Pode ser. Mas para pensar é preciso imaginar. Não há pensamento sem imaginação, assim como não há imaginação sem leitura. Por essas e outras que ler pode até ser um vício, mas não é apenas recreação e divertimento.    

 

Notas

[1] André Comte-Sponville. Do corpo. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

 

[2] A fala do poeta está em alguma das entrevistas disponíveis na net, mas não encontrei o link.

 

[3] Ricardo Piglia. Ernesto Guevara, rastros de leitura. In: Ricardo Piglia. O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

 

[4] Alberto Manguel. Encaixotando minha biblioteca: uma elegia e dez digressões. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

 

[5] Alberto Manguel. O leitor como metáfora: o viajante, a torre e a traça. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2017.

 

[6] Alberto Manguel. Notas para uma definição do leitor ideal. In: Alberto Manguel. Notas para uma definição do leitor ideal. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020. p. 163 – 166.

 

[7] Herman Melville. Bartleby, o escrevente. Grua livros: São Paulo, 2014.

 

[8] Friedrich Nietzsche. Ecce homo. [S.l.] Edições de ouro. Coleção Universidade. [s.d]. p. 59 e 71.

 

[9] Michel de Montaigne. Sobre três relações. In: Michael de Montaigne. Os ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


Publicado originalmente no Passa Palavra


 PESO OU LEVEZA?

 

I

Creio que a maioria dos leitores escolheria, facilmente, o leve e não o pesado. É compreensível, afinal, estamos na “civilização da leveza” [1]. Mas exploremos, de passagem, a contradição pesado-leve, acredito que ela tem algo a nos dizer.

 

A insustentável leveza do ser é um romance misterioso de Milan Kundera. A cada releitura, surgem novas possibilidades, como se o texto estivesse em constante reconstrução. É, provavelmente, uma das características dos clássicos. Numa leitura rápida e superficial, o leitor pode se limitar às relações amorosas. Talvez seja o que ajuda a explicar o fato do livro ter se tornado um best seller. Mas nas releituras, quando ocorrem, aparecem outras possibilidades interpretativas: a Primavera de Praga, aquele “segundo soberbo” da humanidade [2]; a dimensão existencial do kitsch, reflexão que, creio, só poderia ser realizada num romance; o eterno retorno; a contradição pesado-leve, que, de acordo com o romancista [3], “é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições”.

 

Antes de explorar como a leveza e o peso aparecem nas vidas dos personagens, no contexto da Primavera de Praga, Kundera passa por Nietzsche (“o eterno retorno é o mais pesado dos fardos”) [4], Parmênides (“o leve é positivo, o pesado é negativo”) e Beethoven (“só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa”). No romance, a pintora Sabina tende para a leveza, enquanto o cirurgião Tomas tende para o peso. Sabina foge quando os tanques russos invadem Praga; posteriormente abandona o amante, Franz, exatamente quando ele resolve abrir mão do casamento para viver exclusivamente com ela. Tomas é um libertino casado, tortura a companheira, Tereza, com várias traições; foge de Praga com Tereza após a invasão russa, mas retorna e acaba transformado em limpador de vidros. Às vezes a leveza é insuportável para Sabina. Às vezes o peso é reconfortante para Tomas. Se é assim, o que escolher? Peso ou leveza?

 

II

Peso tem a ver com valor, gravidade, engajamento, atração e amor. Sim, arrisco dizer que peso tem a ver com amor. Existe amor leve? Se estão colocados o valor, a gravidade, o engajamento, a atração e o amor; o peso está no campo da moral e da ética. A força que atrai os corpos para baixo se chamar gravidade nos diz alguma coisa. Se o peso orbita no campo da moral e da ética, tem a ver com a pergunta-chave de ambas: “o que devo fazer?” Posso fazer o bem porque é bom para mim, como um comerciante que não trapaceia por saber que ganhará clientes sendo justo. Posso fazer o bem ainda que não seja bom para mim, mas porque é justo. Posso fazer o bem por amor, por amar o justo inclusive contra mim, se necessário. Aqui entramos no campo da ética: fazer o que é bom e justo por amor [5]. Estamos no quarteto de Beethoven citado no romance A insustentável leveza do ser: “Muss es sein? Es muss sein! Es muss sein! (Tem de ser assim? Tem de ser! Tem de ser!)”. O fardo do peso tem a ver com a escolha. “A decisão gravemente medida” – nos termos de Milan Kundera. Quem quiser eliminar o sofrimento pode tentar excluir a escolha do campo das possibilidades. Não estaria distante do budismo e outras sabedorias. Quem não deseja não sofre. Mas lembremos: “só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.”

 

Leveza tem a ver com vazio, indiferença, desengajamento, ausência de atração e de amor. Não é contrário de atração e amor. É o contrário de peso. Não é repulsa e ódio. É ausência de tudo isso: nem atração, nem repulsa, nem amor, nem ódio.  Quem não ama e não odeia é livre (leve) para escolher ou até para ignorar os termos em questão. Tanto faz. É flutuar livre do valor e da gravidade. É possível? Talvez em espasmos de tempo e de vida. Por isso a leveza é insustentável, mas também insuportável. É libertar-se das escolhas por indiferença. Se é assim, a leveza não orbita no campo da moral e da ética. Ou, para ser mais razoável, a leveza é, em alguma medida, livre da moral e da ética. A pergunta-chave de ambas – “o que devo fazer?” – não se impõe, porque tanto faz. Nesta perspectiva, o quarteto de Beethoven passaria a ser: “Tem de ser assim? Tanto faz! Tanto faz!” Leveza absoluta: colocar sinal de igual entre todas as coisas. Certamente ninguém foi tão longe, mas alguns se aproximaram. É um estado de espírito praticamente sem retorno, porque não sobra nada: nem placas, nem caminhos, nem saídas, nem possibilidades. Se a leveza é o contrário do peso, se o peso tem a ver com gravidade, leveza tem a ver com frivolidade. Invertendo a sentença kunderiana: só é frívolo aquilo que não é necessário, não tem valor aquilo que não pesa.

 

III

No cotidiano peso e leveza não têm o sentido que esbocei. Fala-se em deixar a vida mais leve, em geral quer dizer se livrar de obrigações desimportantes e desnecessárias. Fosse só isso, seria simples de escolher e praticar, como quando liberamos memória inútil dos aparelhos celulares. Estaríamos no campo tranquilo da organização das agendas pessoais, e não no pedregoso campo da moral e da ética.

 

Na fórmula que pode ser extraída do romance de Milan Kundera, a leveza é insustentável porque, no limite, se torna insuportável [6]. É a fronteira que pintora Sabina atravessou algumas vezes, experimentando a insuportável leveza do ser. Gilles Lipovetsky ajuda pensar por que a leveza é insustentável e pode se tornar insuportável: “Quando ultrapassa um determinado limite, a leveza frívola torna-se entediante e repetitiva: leveza em excesso mata a leveza. E como não destacar os fracassos da civilização do leve em relação à felicidade? A leveza é bela e desejável, mas não poderia ser estabelecida como princípio supremo.”

 

Para Milan Kundera [7], a arte do romance é uma “sabedoria da incerteza”, joga luz sobre “a relatividade essencial das coisas humanas” e, exatamente por essa razão, não raro se choca com o “desejo, inato e indomável, de julgar antes de compreender, que funda religiões e ideologias.” Além disso, para o escritor tcheco, o romance é também jogo e brincadeira, e Milan Kundera, assim como Machado de Assis, gosta de pregar peças nos leitores. Certa vez me envolvi em uma longa polêmica com um amigo filósofo [8], sete textos para cada um, em discussão a contradição pesado-leve presente no romance A insustentável leveza do ser. Eu tendendo para o engajamento (peso), ele para a indiferença (leveza). Com o avançar da polêmica, fui percebendo que Kundera não toma partido nem pela leveza nem pelo peso. A ambiguidade e o mistério da contradição pesado-leve estão na pergunta que induz a escolher um dos pólos. Se, com Lipovetsky, “a leveza não pode ser estabelecida como princípio supremo”; o mesmo vale para o peso. São as peças que os grandes romancistas pregam nos leitores, ou, como registrei na polêmica com meu amigo filósofo, são as “cascas de banana” deixadas deliberadamente no meio do caminho, para escorregarmos.

 

A pintora Sabina é leve nos relacionamentos, abandona o amante exatamente quando ele pretende assumi-la como esposa. Mas ela certamente não é leve na arte, nos quadros trava combate contra o kitsch produzido pelo regime. Palavras dela: “meu inimigo não é o comunismo, meu inimigo é o kitsch.” O cirurgião Tomas sente o peso da repressão ao não se retratar sobre um texto que havia publicado num jornal, quando sugeriu que os gestores do regime, assim como Édipo, deviam furar os olhos. Mas, forçado a abandonar a medicina, que amava, e transformado em limpador de vidros, ele segue a vida de libertino, experimenta a doçura da leveza se relacionando com as donas das casas que limpava. Palavras dele: “só uma relação isenta de sentimentalismo, em que nenhum dos parceiros se arrogue direitos sobre a vida e a liberdade do outro, pode trazer felicidade para ambos.” Sabina ser a amante que “melhor compreendia” Tomas sugere que leve e pesado não podem ser separados.      

 

Também na arte pesado e leve não podem ser separados. Ainda que predominem provisoriamente ideais estéticos relacionados ao que é leve ou pesado, uns não podem ser totalmente separados dos outros. Por mais leve que seja a obra (delicada, refinada, suave, doce, elegante), o trabalho do artista é pesado, envolve valor, gravidade, engajamento, atração, amor. Sem isso não se produz nada que sobreviva ao tempo [9].

 

Então, voltemos à pergunta inicial: peso ou leveza? Nem um nem outra! Um e outra! Baltasar Gracián [10] escreveu, em 1647, uma formula que ajuda a resolver a questão: “não levar em conta o que não conta.”

 

Se é assim, a melhor forma de responder a pergunta inicial é: peso (engajamento) com o que conta, leveza (indiferença) com o que não conta. Indiferença em relação às promessas metafísicas das religiões e mercadológicas do capital. Engajamento no amor, na amizade, na arte e na política.


 Notas

 

[1] Lipovetsky, Gilles. Da leveza. Barueri: Amaralys, 2016.

 

Todos as citações de Lipovetsky estão na obra Da leveza.

 

[2] Milan Kundera define a Primavera de Praga como um “segundo soberbo” no belo ensaio Sobre as duas grandes primaveras e os Škvorecký, ver: Kundera, Milan. Um encontro. Companhia das Letras: São Paulo, 2013. Reproduzo o parágrafo completo:

 

“Ah, os queridos anos 1960. Eu gostava de dizer, então, cinicamente: o regime político ideal é uma ditadura em decomposição; o aparelho opressivo funciona de maneira cada vez mais defeituosa, mas está sempre ali para estimular o espírito crítico e zombeteiro. No verão de 1967, irritados com o congresso corajoso da União dos Escritores e achando que o atrevimento tinha ido longe demais, os chefes do Estado tentaram endurecer sua política. Mas o espírito crítico havia contaminado até o comitê central que, em janeiro de 1968, decidiu que o presidente seria um desconhecido: Alexander Dubcek. A Primavera de Praga começou: hilário, o país recusou o estilo de vida imposto pela Rússia; as fronteiras do Estado foram abertas e todas as organizações sociais (sindicatos, federações, associações), originalmente destinadas a transmitir ao povo a vontade do partido, tornaram-se independentes e se transformaram em instrumentos inesperados de uma democracia inesperada. Nasceu um sistema (sem nenhum projeto preestabelecido, quase por acaso) que foi verdadeiramente sem precedentes: uma economia 100% nacionalizada, uma agricultura nas mãos das cooperativas, nada de pessoas muito ricas, nada de pessoas muito pobres, o ensino e a medicina gratuitos, mas também: o fim do poder da polícia secreta, o fim das perseguições políticas, a liberdade de escrever sem censura e, a partir daí, o desabrochar da literatura, da arte, do pensamento, das revistas. Eu ignoro quais eram as perspectivas de futuro desse sistema; na situação geopolítica de então, certamente nulas; mas numa outra situação geopolítica? Quem pode saber... Em todo caso, esse segundo durante o qual esse sistema existiu, esse segundo foi soberbo.”

 

[3] Kundera, Milan. A insustentável leveza do ser. Companhia de Bolso: São Paulo, 2011.

 

[4] Por coincidência ou não, assim como no romance de Milan Kundera, Gilles Lipovetsky cita Nietzsche no primeiro parágrafo do livro que escreveu sobre a leveza: “É bom o que é leve; tudo o que é divino se move com pés delicados.”

 

[5] A reflexão sobre as diferenças entre moral e ética, além da sacada de pensar esta última como o bem que se faz por amor ao justo está em: Comte-Sponville, André. O capitalismo é moral? Martins Fontes: São Paulo, 2005.

 

[6] Milan Kundera escreveu A insustentável leveza do ser originalmente em francês, L’insoutenable légèreté de l’être. Por alguma razão difícil de entender, o adjetivo insustentável foi traduzido como insuportável no espanhol, no inglês e até no tcheco, respectivamente: La insoportable levedad del ser, The unbearable lightness of being e Nesnesitelná lehkost bytí. Salvo um possível engano meu, difícil entender a opção por insuportável no espanhol, no inglês e no tcheco, ainda mais sabendo que Kundera acompanha o trabalho dos tradutores. Se a leveza é insustentável, trata-se de um ideal que pode ser buscado, mas difícil de ser mantido sem ultrapassar limites perigosos. Se a leveza é insuportável, a ambiguidade e o mistério da contradição pesado-leve estariam resolvidos no título do romance.  

 

[7] Sobre a arte do romance como uma “sabedoria da incerteza”, ver: Kundera, Milan. A arte do romance. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

 

Há, em Kundera, algo demasiadamente atraente: ele consegue incomodar a direita e a esquerda (estalinistas, leninista e trotskista com certeza). É um princípio do romancista tcheco: escrever contra todos! Num dos ensaios de Milan Kundera, não lembro exatamente qual, mas aproveito para recomendar todos, ele conta uma história. Já exilado, um jornalista lhe pergunta com insistência, você é de direita ou de esquerda?, ao que o escritor responde sempre da mesma forma: sou romancista! É quando a “sabedoria da incerteza”, própria da arte do romance, se choca com “desejo, inato e indomável, de julgar” – e simplificar, acrescento – “antes de compreender.”

 

[8] Para acessar os textos da polêmica clique aqui.

 

[9] Um exemplo e um juízo de valor sobre o peso da criação artística, cito o trecho completo, está em: Sabato, Ernesto. O escritor e seus fantasmas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982:

 

“A condição mais preciosa do criador. O fanatismo. Tem de ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se à sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.”

 

[10] Gracián, Baltasar. A arte da prudência. Porto Alegre: L&PM Editores, 2018.

 

Reproduzo o parágrafo resumido na fórmula “não levar em conta o que não conta”:

 

“Enquanto alguns não se importam com nada, outros se importam com tudo. Falam de seus afazeres como se fossem ministros, tomam tudo ao pé da letra e a tudo atribuem características misteriosas. Poucas dessas coisas aborrecidas merecem o nosso cuidado e tomar a peito o que se deve desprezar é insensatez. Muitas coisas que se acreditava serem valiosas nunca chegam a mostrar valor e outras que pareciam nada valer frutificaram como efeito do trabalho aplicado. No início é fácil levar tudo a termo, mas depois não. Muitas vezes o remédio provoca a doença; assim, deixar passar não é a pior das regras.”

 

Publicado originalmente no Passa Palavra