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A GRANDE ADÚLTERA

 

Emma Bovary provoca paixões violentas, a favor e contra. A favor: o escritor Mario Vargas Llosa [1] e mais alguns. Contra: o Ministério Público Francês e o promotor Ernest Pinard, que levaram Gustave Flaubert para o banco dos réus por ofensa à moral e aos bons costumes. Componho o primeiro grupo. Foi paixão à primeira leitura. Talvez por saber, desde o início, que o destino dela seria trágico, e por constatar, a cada página, que ela não recuaria. Vale pontuar que Emma Bovary era grande leitora de romances, também ela sabia o destino reservado às adúlteras. Enfim. Sempre que posso, retorno ao romance de Flaubert. Costumo ler, também, o que encontro sobre a Madame.

 

Num sebo, procurando livros na seção de crítica literária, encontrei Os ovários de Mme. Bovary, de David Barash e Nanelle Barash [2]. Comprei, li e recomendo. São dez ensaios que analisam obras literárias com instrumental darwiniano. Os autores passam por Jane Austen, Shakespeare, Faulkner, Dostoievski, Joyce, Philip Roth, Flaubert e outros. Os ovários de Mme Bovary... Uma sacada provocativa, explicita a ideia que perpassa todos os ensaios: a biologia tem muito a dizer sobre o comportamento humano, seria “uma chave [...] que abre mais portas, dá acesso a mais lugares e lança mais luz do que qualquer de suas alternativas menos versáteis”. Os autores não se arriscam a ponto de afirmar que a biologia explica totalmente a literatura, sabem que os seres humanos são animais culturais, com imaginação e intelecto. Mas lembram, por outro lado, que não é por ter imaginação e intelecto que os homens deixam de ser animais. Se é assim, seria possível “encontrar raízes na biologia, o leito comum que todos os seres humanos compartilham com focas, alces, gorilas e grande parte do mundo animal”.

 

Por meio da Madame Bovary, de Flaubert, David Barash e Nanelle Barash discutem “a biologia do adultério”. Afirmam, por exemplo, que pesquisadores analisaram diversas espécies e perceberam que, em alguns casos, 70% das crias nascem de traições, ou seja, de relações extraconjugais. Emma Bovary, por exemplo, teria ouvido um sussurro darwiniano subliminar que lhe provocou comichão nos ovários, empurrando-a para a cama com Rodolphe e Léon. Os autores vão mais longe. Argumentam que a tendência à infidelidade da Madame Bovary aumentou quando o marido sofreu um revés profissional. No que ela se aproximaria das fêmeas de chapim-real, que geralmente são fiéis, mas às vezes traem os parceiros, especialmente quando eles fracassam socialmente. De acordo com os autores, a ausência de inclinação para a maternidade também pode ter aumentado a tendência à infidelidade de Emma Bovary, que pouco se preocupava com a filha.

 

É interessante reler a personagem de Flaubert a partir dos ovários. Mas, para mim, que sou do time dos apaixonados por ela, a interpretação biologizante pareceu insuficiente e até desrespeitosa com a adúltera, como se a rebaixasse. Onde David Barash e Nanelle Barash enxergam a “biologia do adultério”, vejo “a poesia do adultério”. Curiosamente, o promotor que acusou Flaubert concorda comigo. A expressão “poesia do adultério” é dele, que, além disso, definiu o romance como “uma pintura admirável sob o ponto de vista do talento, mas uma pintura execrável do ponto de vista moral.” [3] Detalhe. Vargas Llosa lembra que o promotor que acusou Flaubert por ofensa à moral e aos bons costumes escrevia, secretamente, versos pornográficos...

 

Emma Bovary era uma leitora incansável: “mesmo à mesa levava um livro e virava as páginas enquanto Charles comia e falava-lhe” [4]. Flaubert informa que, após a primeira traição, ela lembrou-se das heroínas dos livros que lera, aquela legião lírica de mulheres adúlteras tomou-lhe a memória de assalto, como irmãs que a seduziam. Realizou, então, o longo devaneio de juventude e se tornou uma mulher apaixonada. Além disso e ao mesmo tempo, sentiu-se vingada. Sofrera muito. Mas, finalmente, triunfava. O amor, por tanto tempo reprimido, “jorrava alegremente em alegre efervescência.” [5] Se é assim, por mais provocativa que seja a ideia, não dá para limitar Emma Bovary aos ovários.

 

Mais interessante do que explicar as paixões de Emma Bovary é pensar por que ela continua apaixonante um século e meio depois da publicação do romance. Como explicar o amor pela personagem de Flaubert? O que dizer da paixão dos leitores, como eu, por uma adúltera sem ovários, posto que é uma personagem? Será que, inconscientemente, gostaríamos de fazer amor com ela? Transmitir nosso material genético para a posteridade junto com ela?  Se fosse isso, ponto para o romancista, que teria irritado o Ministério Público, iludido a seleção natural e despertado a atração sexual dos leitores por uma personagem. Mas não é por aí. O instrumental da biologia é insuficiente para explicar por que amamos Emma Bovary. Ela apaixona devido à escrita de Flaubert [6], que recorta e reorganiza a realidade, reposicionando e revalorizando objetos (leques, buques, frascos de perfume) e partes do corpo humano (mãos, unhas, pulsos). O romancista humaniza as coisas e coisifica as pessoas, exceto a personagem principal, que se destaca. Mas não é só isso. Emma Bovary apaixona, sobretudo, por suas apologias e rechaços: sim para os livros, sim para os sonhos, sim para a imaginação, sim para o amor; não à filha, não ao marido, não ao casamento, não à monogamia e, seguindo por esse caminho, não ao patriarcado. Ela afirma e recusa ao mesmo tempo e com a mesma radicalidade. Morreu com um “riso atroz, frenético, desesperado.” [7] Acrescento: desespero libertador dos que não esperam absolutamente nada.

 

Emma foi uma leitora que teve contato, pelos romances, com uma legião lírica de adúlteras. Ela certamente conhecia o destino reservado às senhoras que amam fora do casamento. Que seja difícil, quase impossível, amar dentro do casamento, não alivia a condenação dela e das demais. O destino de Emma Bovary é parecido com o de Ana Karenina e tantas que as precederam. Mas ela não se intimidou. Vargas Llosa [8]: “Emma quer gozar, não se conforma em reprimir em si essa profunda exigência sensual que Charles não consegue satisfazer porque nem sabe que existe.” Se é assim, a personagem de Flaubert pode ser considerada uma espécie de feminista avant la lettre. Além disso, ela foi liquidada por um agiota e pelo patriarcado, mas não costuma contar com a simpatia nem dos setores progressistas. Provavelmente porque sua recusa é demasiadamente radical: rebelou-se contra a maternidade (“como essa criança é feia” – murmurou ao lado da filha, que dormia), arruinou as finanças familiares, amou fora do casamento (“sem remorsos, sem inquietude, sem desassossego”) [9].

 

Mas a leitora incansável devia morrer porque ousou ser ousada. Seus amantes seguiram suas vidas normalmente. A poligamia lhes era permitida. Eles dormem enquanto o corpo dela é velado: “Rodolphe, que para distrair-se andara o dia todo, dormia tranquilamente em seu castelo; e León, lá em Rouen dormia também.” [10] Ela se despede da vida. Eles não se despedem dela.

 

A palavra adultério vem do latim adulterĭum, no sentido de traição, mas também como mudança e alteração. Na terceira parte do romance A insustentável leveza do ser, intitulada As palavras incompreendidas, Milan Kundera [11] discute a traição a partir da pintora Sabina, que é legitima integrante da legião lírica de mulheres adúlteras, uma espécie Madame Bovary da Boêmia: “A traição. Desde nossa infância, papai e o professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber. Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo do que partir para o desconhecido.” Contra Emma Bovary joga a moral cristã a ensinar que a carne não vale, que sexo é pecado, que a mulher deve ser submissa, que é preciso se arrepender. Ela trava um combate desigual contra a culpa, a submissão, o arrependimento e a repressão sexual. Que Emma tenha traído o marido porque sentiu comichão nos ovários é apenas uma parte da história. É preciso lembrar que ela foi uma leitora que disse não, que não cabia numa sociedade provinciana ao lado de um homem medíocre. Por tudo isso, vejo Emma Bovary para além dos ovários: é a grande adúltera no melhor sentido da palavra – como mudança e alteração, como quem sai da ordem e parte para o desconhecido. Evoé, Madame Bovary! 

 

Notas

[1] Mario Vargas Llosa. A orgia perpétua – Flaubert e Madame Bovary. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

[2] David P. Barash e Nanelle R. Barash. Os ovários de Mme. Bovary – um olhar darwiniano sobre literatura. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.

[3] As palavras do promotor que acusou Flaubert foram citadas por Vargas Llosa, na edição referenciada na nota 1.

[4] Gustave Flaubert. Madame Bovary. Porto Alegre: L&PM, 2016.

[5] O trecho entre aspas está no romance de Flaubert, na edição referenciada na nota anterior.

[6] Emma Bovary: a condenação perpétua

[7] O trecho está no romance de Flaubert, na edição referenciada na nota 4.

[8] O trecho está no livro referenciado na nota 1.

[9] Os trechos entre aspas estão no romance de Flaubert, na edição referenciada na nota 4.

[10] O trecho entre aspas está no romance de Flaubert, na edição referenciada na nota 4.

[11] Milan Kundera. A insustentável leveza do ser. São Paulo: Companhia das letras, 2008. 


Publicado originalmente no Passa Palavra

 O AMOR E OUTRAS MERCADORIAS


Soube por uma matéria da BBC que surgiu – em inglês, como sempre – uma nova palavra para se usar nas relações amorosas: hardballing. Significa “jogar pesado”. Teria a ver com os encontros por meio de sites e aplicativos e estaria sendo usada pela Geração Z, que são pessoas com menos de 30 anos. A ideia é expor intenções e expectativas antes do primeiro encontro, para evitar desgastes e perda de tempo. A mesma matéria informa sobre outra palavra proveniente do inglês e surgida no ambiente dos relacionamentos virtuais: ghosting. Significa que uma pessoa cortou relações sem explicar o porquê, causando incômodo.

 

A matéria e as palavras em inglês me fizeram pensar num verso que acreditava ser de Drummond: “o amor e outras mercadorias”. Achava que, com esse verso, o poeta de Itabira encerrava um poema com a ironia que lhe é peculiar. Mas qual? Seria mesmo de Drummond? Não identifiquei nem na internet nem na coleção completa do poeta itabirano. Mas pedi ajuda e uma amiga resolveu a questão, trata-se do poema Aurora [1]:

 

[...]

Como é maravilhoso o amor

(o amor e outros produtos).

Dançai meus irmãos!

A morte virá depois

como um sacramento.

 

O verso não está no final do poema nem é exatamente como eu lembrava. Mas a ironia drummondiana está ali igualando o amor a uma mercadoria, como se as relações de produção se confundissem com as relações amorosas, que é o que o ocorre no tempo presente. O que é hardballing senão um critério de produtividade aplicado ao amor, para evitar “perda de tempo”?

 

Um amigo poeta, algumas décadas anterior à Geração Z, contou-me sobre um encontro que tivera por meio de um aplicativo. Passada a tensão inicial. Alguns goles de cerveja depois, a conversa fluiu e estava agradável. Foi quando a interlocutora começou a alternar sorrisos simpáticos com perguntas sérias, que pareciam extraídas de um questionário semiestruturado, talvez validado em sites de relacionamento. Eram questões sobre família, trabalho e futuro. Era como se ele estivesse sendo entrevistado sem ter sido informado e sem ter assinado termo de consentimento. Por fim, ela afirmou perguntando: “acho que você não viveu todas as aventuras que gostaria de ter vivido.” Ao que ele, que é leitor do Quixote, respondeu que aquela seria a grande aventura da vida dele, como se ela fosse uma Dulcineia del Toboso finalmente encontrada. Desconfio que meu amigo foi reprovado exatamente naquele momento. Dom Quixote e aventuras não combinam com relacionamentos baseados em critérios de produtividade. Voltaram a se encontrar. A conversa foi agradável. Mas depois ela desapareceu. O que o meu amigo poeta definiu como a “arte da fuga” foi na verdade um gosthing. A palavra ainda não existia, mas o que foi aquele desaparecimento súbito senão um gosthing?

 

Antigamente se discutia se amor à primeira vista existia ou não. Atualmente os critérios de produtividade são capazes de matar o amor antes do primeiro encontro. Eu já imaginava que pessoas da tal Geração Z nunca brincaram na rua nem empinaram pipa. Mas pensar que as novas gerações estão desaprendendo a flertar é uma ideia atroz. “Que século, meu Deus!” – diria Drummond [2].  Até um romancista liberal, como Mario Vargas Llossa [3], sabe que o erotismo representa um momento elevado da civilização e é um dos seus componentes determinantes: “trazido a público, vulgarizado, degrada-se e eclipsa-se, não realiza a desanimalização e a humanização espiritual e artística da atividade sexual que outrora possibilitou.” O que pensar de uma civilização que exclui o erotismo, que obriga as pessoas a exporem intenções e expectativas antes do primeiro encontro? Como se intenções e expectativas não se construíssem aos poucos, dia após dia. Como se intenções e expectativas não variassem de caso a caso e com o tempo. Por mais assustador que possa parecer para a tal Geração Z, sim, há pessoas que desaparecem e não voltamos a ver, com outras se constrói “apenas” uma aventura amorosa, em alguns casos se forma uma amizade para sempre e, não raro, tudo se mistura numa mesma história. “O amor é imprevisível”, e não é apenas na cidade de São Paulo, como na canção [4]. Ou, para usar novamente o bardo de Itabira [5]:

 

Carlos, sossegue, o amor

é isso que você está vendo:

hoje beija, amanhã não beija,

depois de amanhã é domingo

e segunda-feira ninguém sabe

o que será.

[...]

 

O amor se constrói à meia-luz, numa penumbra suave, como num fim de tarde ou num começo de manhã. A iluminação excessiva – a ponto de eliminar completamente o mistério – nada resolve, antes atrapalha. Junichiro Tanizaki afirmou “que a beleza inexiste sem sombra.” [6]. Creio que o mesmo vale para o amor. No final do poema Não se mate, que citei acima, Drummond concorda comigo:

 

[...]

O amor no escuro, não, no claro

é sempre triste, meu filho Carlos,

mas não diga nada a ninguém,

ninguém sabe nem saberá.

 

Quando penso nas pessoas se relacionando por sites e aplicativos, exigindo que intenções e expectativas sejam explicitadas antes do primeiro encontro, lembro das formigas que correm apressadas pelas paredes. Elas se cruzam, param brevemente, se encaram e seguem em direções opostas, sem perder tempo.

 

Notas

[1] O poema Aurora abre o livro Brejo das almas, que é o segundo publicado por Carlos Drummond de Andrade.

[2] O verso de Drummond está no poema Edifício Esplendor, que compõe o livro José.

[3] Trecho citado está no ensaio A civilização do espetáculo, que compõe o livro homônimo.

[4] Verso da canção Lá vou eu, que é de Luiz Sérgio Carlini e Rita Lee e foi interpretada também por Zélia Duncan: “Na cidade de São Paulo/ O amor é imprevisível como você/ E eu/ E o céu”

[5] O trecho de Drummond está no início do poema Não se mate, que compõe o livro Brejo das almas.

[6] A sacada de Junichiro Tanizaki está no ensaio Em louvor da sombra. 


Publicado originalmente no Passa Palavra


 A CORAGEM CONTRA O PURITANISMO: O MANIFESTO DAS FRANCESAS

 

A seção Fragrantes Delitos do Passa Palavra promoveu debates interessantes sobre questões de gênero, ver Cancelamento (5), Mais feminista que eu, Medo maior. Entre os comentários apareceram sacadas como, por exemplo: Fernando Paz: “Continuo carregando a certeza de que sexo sem fantasia é fricção!” e John: “que triste seria se a vida se resumisse à literalidade”. A leitura dos Fragrantes Delitos e dos comentários me fez lembrar do Manifesto das cem francesas contra o puritanismo, que continua atual.

 

Cinquenta anos depois dos levantes de 1968, no início de 2018, veio a público o manifesto das francesas contra o puritanismo. Foi um texto corajoso que atuou efetivamente como manifesto: arriscando, denunciando, desnudando, incomodando, irritando, ironizando, polemizando, provocando e, sobretudo, obrigando a pensar. O que contrasta com as insossas e irrelevantes notas de repúdio que pipocam por aí. As signatárias foram atacadas por todos os lados, seriam: burguesas, libertinas, defensoras reincidentes de pedófilos, apologistas do estupro e por aí vai. Mas é característico do puritanismo deslegitimar moralmente os interlocutores para inviabilizar o argumento, ou seja, a reação pós-manifesto era previsível.

 

Denúncias contra assédios cresciam, chegando, inclusive, a atingir figurões de Hollywood. Problematizando o movimento #metoo, as cem intelectuais francesas defenderam, para espanto geral, que “a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar.” Partindo do filósofo Ruwen Ogien, que “defendia uma liberdade de ofender indispensável à criação artística”, as signatárias do manifesto defenderam, perigosamente, a “liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual”. Em tempos moralistas e puritanos, parece escandaloso, mas é difícil flertar sem se arriscar, em alguma medida, a importunar. O manifesto fala dos homens cujo “único erro foi ter tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falar sobre coisas ‘íntimas’ em um jantar profissional ou ter mandado mensagens com conotação sexual a uma mulher cuja atração não era recíproca.” A questão, nos termos do manifesto, é “não confundir paquera desajeitada com agressão sexual.” Mas como? Onde termina uma coisa e começa a outra? Em que ponto a liberdade se transforma em agressão? São os riscos que correm as signatárias; são, também, questões delicadas que precisam ser resolvidas.  

 

Mas, por outro lado, a crítica contida no manifesto é certeira: a “febre para mandar os ‘porcos’ ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a conquistar sua autonomia, serve na verdade aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que acreditam, em nome de uma concepção substancial do bem e da moral vitoriana que os envolve, que as mulheres são seres ‘à parte’, crianças com rosto de adultos, que pedem para ser protegidas.”

 

O crescimento das denúncias colocou o problema em discussão, o que é importante; mas, ao mesmo tempo, o princípio da presunção de inocência e o direito ao contraditório e à ampla defesa foram praticamente abolidos. Curiosamente, no Brasil, enquanto se discutia se a justiça burguesa, com seus limites evidentes, podia prender condenados julgados em segunda instância, os tribunais da internet igualavam acusar a condenar, acolher a vítima com punir o suposto agressor, sem julgamento e sem direito ao contraditório e à ampla defesa. O que é um tremendo retrocesso civilizatório. A simples utilização do adjetivo “suposto” podia render acusações de cumplicidade com o machismo e os machistas.

 

Como denunciaram as francesas, se prevalecer, o puritanismo vai posicionar a mulher na condição de eterna vítima e o homem como agressor contumaz, o que ajuda a explicar por que a simples utilização do adjetivo “suposto” incomoda. É que as condenações já estão prédeterminadas. Ganha quem quer a abolição da liberdade sexual e a imposição da moral cristã. À mulher será permitido responder sim ou não, sem nunca tomar a iniciativa ou se colocar de maneira ativa. Ao homem será permitida a “liberdade” dos bordéis, das zonas de tolerância, do sexo pago, da pornografia e nada mais. Ou seja, é a sociedade patriarcal se reposicionando.

 

Alguns setores do puritanismo lutam para ressignificar o pecado original: em vez de provar o fruto da árvore do conhecimento, ser homem heterossexual. Em alguns grupos de esquerda dominados pelo puritanismo já é assim, e coitado daquele (homem heterossexual) que não se arrepender dos próprios “privilégios”. O risco é o combate ao esquerdomacho produzir o esquerdomocho.

 

O manifesto das francesas criticou um projeto de lei sueco que tentava impor aos amantes o consentimento expressamente notificado, as signatárias sugerem que falta pouco para exigirem que os casais tenham que informar, previamente, as práticas sexuais que aceitam e que recusam. Não duvido que, em breve, declarações prévias de consentimento sexual sejam exigidas e compartilhadas em grupos dominados pelo puritanismo. Por isso é prudente pontuar que o amor e, sobretudo, o erotismo fogem dos cartórios, da formalidade, do comércio e das declarações prévias de consentimento.

 

Mario Vargas Llosa [1] afirma que o erotismo representa um momento elevado da civilização e é um dos seus componentes determinantes: “para saber até que ponto é primitiva uma comunidade ou quanto ela avançou em seu processo civilizador nada é tão útil como perscrutar seus segredos de alcova”. Em outro ensaio, Vargas Llosa [2] coloca o erotismo como contrapartida ou desacato à norma, um desafio aos costumes estabelecidos: “trazido a público, vulgarizado, degrada-se e eclipsa-se, não realiza a desanimalização e a humanização espiritual e artística da atividade sexual que outrora possibilitou.”

 

Por fim, vale lembrar que a palavra libertino tem o sentido de desacato e desafio a Deus e à religião em nome da liberdade. Já o puritanismo é sempre um combate contra a liberdade: uma tentativa de conter, conservar, enquadrar, limitar e, no limite, eliminar. Daí a atualidade e a coragem do manifesto das francesas, que é uma defesa do amor, do erotismo e do corpo, apesar dos riscos. 

 

Notas

 

[1] As ideias e o trecho citado estão no ensaio O desaparecimento do erotismo, que compõe o livro A civilização do espetáculo.

 

[2] As ideias e o trecho citado estão no ensaio A civilização do espetáculo, que compõe o livro homônimo. 


Publicado originalmente no Passa Palavra

 SOBRE O ROMANCE


Entre 1967 e 1968, com quase 70 anos e praticamente cego, o escritor argentino Jorge Luis Borges proferiu palestras sobre literatura em Harvard. Posteriormente, as palestras foram transcritas e reunidas no livro Esse ofício do verso. São textos saborosos. A memória e a erudição de Borges impressionam. Ele cita e comenta textos e versos de cabeça. Coloca-se mais como leitor do que escritor. Deixa a impressão de que poucos leram tanto quanto ele. Discute tradução, metáforas, música das palavras. Diz que os poetas deveriam ser anônimos, porque ele próprio às vezes descobria que estava apenas citando, involuntariamente, em seus escritos, palavras lidas em outros autores. Confessa ter enganado amigos atribuindo metáforas a antigos persas e nórdicos, porque ninguém as aceitaria e diria que eram um “primor” se soubesse que tinham sido elaboradas por um “reles contemporâneo”. Questão interessante e polêmica é concepção de Borges sobre o romance. Ele afirma que foi principalmente por preguiça que nunca escreveu um romance, mas não só. Diz nunca ter lido um romance sem sentir “certo fastio”, o que teria a ver com o “recheio” das obras. Para Borges, bons contos – por exemplo, de Henry James e Rudyard Kipling – são tão complexos e mais prazerosos do que longos romances. Para o escritor argentino, o romance estava em declínio e tendia a desaparecer, apesar dos experimentos interessantes como o deslocamento temporal e a possibilidade da história ser contada por personagens diferentes.  Borges se coloca a favor da épica, não somente por uma suposta superioridade do verso sobre a prosa, mas porque no futuro contar uma história se reencontraria com o canto, reabilitando os poetas. Borges se incomodava porque nos romances prevalece a “aniquilação de um homem” e a “degradação do caráter”, enquanto na épica os heróis eram exemplos para os demais.  

 

Marx não escreveu especificamente sobre estética, mas em vários textos registrou ideias que permitem pensar a arte a partir do materialismo histórico. Ao tomar contato com o argumento de Borges, segundo o qual o contar uma história se reencontraria com o canto, reabilitando a épica, lembrei de alguns trechos em que Marx diz mais ou menos o contrário. Estão na Contribuição à crítica da Economia Política. Marx pergunta se Aquiles é compatível com a pólvora, se as musas não desaparecem diante da régua do tipógrafo, assim como haviam desaparecido as condições necessárias para a poesia épica. Mais à frente, no mesmo texto, afirma que a dificuldade não está em relacionar a arte ao desenvolvimento social, questão mais difícil é pensar por que obras antigas proporcionam prazer estético, além de conterem, sob certos aspectos, o valor de normas e modelos inalcançáveis (penso, por exemplo, em Borges atribuindo metáforas a antigos persas e nórdicos, porque ninguém as aceitaria se soubesse que tinham sido elaboradas por um “reles contemporâneo”). Marx prossegue citando os gregos: “Por que a infância histórica da humanidade, ali onde alcançou o seu mais belo florescimento, numa etapa de desenvolvimento para sempre encerrada, não haveria de exercer um eterno fascínio?” O encanto da arte grega não estaria em contradição com o débil desenvolvimento da sociedade em que floresceu, era, antes, o produto de condições sociais “insuficientemente maduras”, que não retornariam e que eram as únicas que poderiam ter gerado aquele encantamento.      

 

Voltemos ao romance. Iniciemos com uma definição. Milan Kundera[1] entende o romance como “a grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência.” Borges afirma que o “recheio” dos romances causava-lhe “certo fastio”. A questão é que bons romances não precisam ser recheados, antes pelo contrário. Sabe-se, com Juan Rulfo e Graciliano Ramos, que escrever, inclusive e talvez principalmente no caso dos romances, tem muito mais a ver com cortar e enxugar do que com rechear. Rulfo[2]: “No começo, você deve escrever levado pelo vento, até sentir que está voando. A partir daí, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. É só seguir o voo. Quando você achar que chegou aonde queria chegar é que começa o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito.” Graciliano[3]: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa.” Se é assim, bons romances formam uma totalidade orgânica, inseparável e irredutível, que prescinde de recheios.

 

Pensando em Madame Bovary, parece-me que a potência estética pode estar justamente no que algum desavisado[4] talvez chamasse de “recheio” do romance, mas que é inseparável do texto. Histórias sobre adultérios são comuns. Mas em Madame Bovary são misturadas “imagens voluptuosas a elementos sagrados”, produzindo uma espécie de “poesia do adultério” – as palavras entre aspas são do promotor que levou Flaubert para o banco dos réus por ter escrito o romance[5]. Há uma passagem saborosa com a tal “poesia do adultério”, que enfurece os moralistas, é quando Emma Bovary se encontra com o amante numa igreja:

 

"León, a passos lentos, caminhava rente à parede. Nunca a vida lhe parecera tão boa. Ela chegaria dentro de pouco tempo, adorável, agitada, espiando atrás de si os olhares que a seguiam – e com seu vestido de folhos, seu lornhão dourado, suas botinas finas, com toda a elegância que ele ainda não saboreava e com a inefável sedução da virtude que sucumbe. A igreja, como uma gigantesca alcova, disporia-se em torno dela; as abóbodas inclinariam-se para recolher na sombra a confissão de seu amor; os vitrais resplandeceriam para iluminar seu rosto e os incensórios queimariam para que ela aparecesse como um anjo, no vapor dos perfumes."

 

A acusação formal contra Flaubert atesta a força do romance. Fazer dois amantes se encontrarem numa igreja, como se fosse uma alcova preparada especialmente para o casal... Falar da “inefável sedução da virtude que sucumbe” dentro de uma igreja... Seria possível ir tão longe em um conto ou em um poema? Que outra arte, senão o romance, permitiria uma provocação tão iconoclasta? Intimado pelo tribunal a dizer em quem se baseou para criar a grande adúltera, Flaubert respondeu “Emma Bovary sou eu”. Em certo sentido, era mesmo, frequentaram os mesmos ambientes, leram os mesmos livros, sentiram o mesmo tédio, que, diga-se de passagem, o escritor propositalmente faz o leitor experimentar ao passar pelo que algum desavisado talvez definisse como o “recheio” do romance.

 

Se o tempo presente é de homens partidos, como escreveu Drummond, é difícil imaginar que contar e cantar uma história possam se reconciliar, como quer Borges. A “aniquilação de um homem” e a “degradação do caráter”, que incomodam o escritor argentino, não estão no romance, estão na realidade, que enlouqueceu Dom Quixote, aniquilou Anna Karenina, metamorfoseou Gregor Samsa[6].

 

Enquanto existir capitalismo, entendido como um modo de produção que desenvolve as forças produtivas da sociedade contrapondo-as aos indivíduos, o romance seguirá existindo como campo privilegiado de expressão, como possibilidade de recriar a vida e a sociedade. Haverá sempre alguém disposto a explorar algum aspecto da existência e, para isso, o romance é a ferramenta mais apropriada, inclusive porque nele é possível integrar a poesia, a filosofia e outros saberes. Não há arte melhor equipada para captar o estranhamento produzido pela separação dos produtores em relação aos meios de produção. Ou, como nos termos de Milan Kundera[7]: “na época da divisão excessiva do trabalho, da especialização desenfreada, o romance é um dos últimos lugares onde o homem ainda pode guardar relações com a vida em seu conjunto.” Se é assim, não é coincidência o romance ter se desenvolvido paralelamente ao capitalismo: enquanto este promove uma intensa divisão do trabalho e dos saberes, aquele resiste quase como uma última trincheira.

 

Vou mais além e fecho com uma intuição. Mesmo a possível superação do capitalismo não significa necessariamente a superação do romance, entendida como reencontro do contar com o canto, reabilitação dos poetas ou como queiram chamar e definir. Consigo imaginar a superação do capitalismo. Tenho dificuldade para imaginar a superação do romance.

 

Notas

[1] A definição citada está no livro A arte do romance, no ensaio Sessenta e três palavras.

 

[2] A citação de Juan Rulfo está na nota do tradutor, Eric Nepomuceno, numa edição de bolso (BestBolso) do romance Pedro Páramo.

 

[3] A comparação da escrita com o ofício das lavadeiras de Alagoas foi feita por Graciliano Ramos numa entrevista concedida em 1948.

 

[4] Não sei se Borges iria tão longe a ponto de criticar o “recheio” de Madame Bovary. Sendo assim, o “desavisado” não se refere ao escritor argentino.

 

[5] Boas sacadas sobre a escrita de Flaubert, como a que reproduzi, estão no livro A orgia perpétua, de Mario Vargas Llosa. Sobre a grande adúltera, relida depois de ler Llosa, escrevi Emma Bovary: a condenação perpétua.  

 

[6] Para uma leitura sobre a relação trabalho e saúde em A metamorfose, de Franz Kafka, ver Gregor Samsa: insegurança e adoecimento de um trabalhador.

 

[7] O trecho citado está no livro A arte do romance, no ensaio Anotações inspiradas por Os sonâmbulos. 


Publicado originalmente no Passa Palavra 


EMMA BOVARY: A CONDENAÇÃO PERPÉTUA


“Lembrou-se então das heroínas dos livros que lera, e toda aquela legião lírica de mulheres adúlteras começou a cantar-lhe na memória, com vozes de irmãs que a seduziam. Tornava-se ela mesma agora parte autêntica dessas imaginações e realizava o longo devaneio da sua juventude, enquadrando-se naquele tipo de mulher apaixonada que tanto invejara. Além disso, Emma sentia uma satisfação de vingança. Já sofrera bastante! Mas agora triunfava, e o amor, por tanto tempo reprimido, jorrava livremente em alegre efervescência. Saboreava-o sem remorsos, sem inquietude, sem desassossego. O dia seguinte passou-se numa nova doçura. Fizeram juramentos um ao outro. Rodolphe interrompia-a com os seus beijos; ela pedia-lhe, fixando-lhe as pálpebras semicerradas, que a chamasse mais uma vez pelo nome e lhe repetisse que a amava.” (Gustave Flaubert – Madame Bovary)


Emma Bovary provoca paixões violentas, contra e a favor. Uma minoria a favor: como o escritor Mario Vargas Llosa. Uma maioria contra: como o Ministério Público francês e o promotor Ernest Pinard.


Por que Emma Bovary incomoda tanto? Quando li o romance pela primeira vez, senti uma forte identificação com a madame, não era paixão pela mulher: pelos pés, pelo cabelo, pelo corpo... Era consentimento (sentimento compartilhado) com um ser que se rebela e combate contra tudo e contra todos; apesar de tudo e de todos, combate; inconscientemente ou não, combate; com ou sem razão, combate. Luta inglória, egoísta, quixotesca, absurda, sem futuro e sem remissão: luta insana e insustentável, luta de uma mulher contra toda a sociedade. "Acostumada à calma, atraía-se, inversamente, pelos aspectos acidentados. Gostava do mar apenas pelas tempestades e da vegetação apenas quando esta se encontrava dispersa em ruínas." Emma é uma negação inexpugnável. Daí a minha identificação. Emma exige posicionamentos, diz não!


“O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua” – escreveu Flaubert em carta citada por Vargas Llossa no livro A orgia perpétua, que esquadrinha Madame Bovary, poro por poro. Além da prosa inteligente e temperada, Llosa se diz apaixonado por Emma, sua identificação é parecida com a que sinto, é puro consentimento (sentimento compartilhado). Exemplificando com palavras do escritor peruano: 1) “Porque sua fantasia e seu corpo, seus sonhos e apetites, se sentem oprimidos pela sociedade é que Emma sofre, é adúltera, mente, rouba e, finalmente, se suicida. Sua derrota não prova que ela estava errada [...], mas simplesmente que a luta era desigual: Emma estava sozinha”. 2) “As ambições que levam Emma a pecar e morrer são aquelas que a religião e a moral ocidentais combateram mais barbaramente ao longo de sua história. Emma quer gozar, não se conforma em reprimir em si essa profunda exigência sensual que Charles não consegue satisfazer porque nem sabe que existe”. 3) “A rebeldia de Emma nasce dessa convicção, raiz de todos os seus atos: não me resigno a meu destino, a duvidosa compensação do além não me importa, quero que minha vida se realize plena e totalmente aqui e agora.” 4) “A história de Emma é uma rebelião cega, tenaz e desesperada contra a violência social que sufoca o direito ao prazer e à realização de seus desejos.”


A questão se esboçou, para mim, quando manifestei meu apresso e ouvi comentários depreciativos contra Emma Bovary, inclusive de pessoas progressistas. Exemplo: “fazer tudo que se quer é imaturidade e não coragem” – escreveu uma amiga, e eu fiquei pensando no inverso, abrir mão de tudo que se quer é um ato corajoso? Se Emma Bovary foi vítima do capital e do patriarcado, por que nenhuma manifestação de apoio? Um somos todas Emma Bovary! Ou: Emma Bovary, presente! Apoio crítico à Emma Bovary! Respeitamos a luta, mas não concordamos com o método de luta! Por que o silêncio rompido por comentários depreciativos quando as pessoas são forçadas a se manifestar? Por que tanta revolta contra a mulher e nenhuma revolta contra o comerciante que a arruinou? Por que tanta revolta contra a adúltera e nenhuma revolta contra os amantes dela? Minha hipótese: a negação de Emma é radical demais, não deixa brechas, é inaceitável e irreconciliável. Ela recusa a família e a maternidade, o casamento e o patriarcado. No limite, recusa a sociedade estabelecida. Como se fosse pouco, ama fora do casamento (se é que é possível amar dentro do casamento), Emma é adúltera “sem remorsos, sem inquietude, sem desassossego”.  Daí a condenação perpétua. Emma Bovary é um tapa na cara dos moralistas, dos carolas e dos hipócritas.


A história é famosa, Madame Bovary arrastou Flaubert para o banco dos réus por “ofensa à moral pública é à religião”. Intimado a dizer em quem se baseou para criar a personagem, Gustave Flaubert teria respondido “Emma Bovary sou eu”. Na acusação o Ministério Público e o promotor Ernest Pinard. Na defesa o advogado e ex-ministro Jules Sénard. Curiosamente os nomes de ambos terminam “ard”, e não é apenas os nomes que rimam. A batalha foi travada para se saber se o romance de Flaubert é ou não imoral. Para a promotoria era um romance imoral porque Emma não se arrepende, o destino atroz não a redime: ela morre “não porque é adúltera, mas porque o quis”. Fico pensando o que fariam com Emma Bovary se ela fosse capturada viva... Linchamento? Pena de morte por adultério? Esquartejamento público? Para a defesa era um romance moral porque a “assustadora expiação final” serviria para desautorizar o adultério. É certo que, se a defesa ousasse se contrapor frontalmente ao moralismo da acusação, Flaubert seria condenado. Tivesse o autor registrado sua verdadeira convicção no processo, e não em carta a um primo, o desfecho seria diferente: “Eu te confessarei, de resto, que tudo isso me é perfeitamente indiferente. A moral da Arte consiste em sua própria beleza, e eu estimo acima de tudo o estilo, e em seguida o Verdadeiro”.


Questão interessante levantada por Vargas Llosa é o promotor Pinard ser autor secreto de versos pornográficos. Velho moralismo? Pregar uma moral conjugada apenas para os outros, na segunda pessoa do plural, o que vale para vós não vale para nós? Ou inveja da escrita revolucionária de Flaubert? Escrita que o próprio promotor reconhece: “uma pintura admirável sob o ponto de vista do talento, mas uma pintura execrável do ponto de vista moral.”


Como notou Vargas Llosa, a escrita de Flaubert é revolucionária porque secciona e reorganiza a realidade, reposiciona e revaloriza objetos (leques, buques, frascos de perfume) e partes do corpo humano (mãos, unhas, pulsos), ou seja, humaniza objetos (recriados por palavras e frases gregárias), coisifica pessoas (retalhadas por palavras e frases cortantes). “Enquanto em Madame Bovary as coisas se espiritualizam e se animam, acentua-se a materialidade dos homens.” O resultado é um quadro complexo formado por pessoas e coisas em igualdade de importância e valor. Um trecho destacado por Vargas Llossa ressalta a técnica de Flaubert: 


“Na fila de mulheres sentadas, os leques pintados se agitavam, os buquês semiencobriam os sorrisos, e os frascos de perfume com tampa de ouro volteavam nas mãos entreabertas, cujas luvas brancas marcavam o formato das unhas e apertavam a carne nos pulsos. Os enfeites de renda, os broches de diamante, as pulseiras de medalhão tremeluziam nos corpetes, cintilavam nos peitos, tilintavam nos braços nus. As cabeleiras, bem coladas na testa e torcidas na nuca, tinham, em coroas, em cachos ou em ramos, miosótis, jasmins, flores de romã, espigas, centáureas. Pacíficas em seus lugares, as mães carrancudas usavam turbantes vermelhos.”


Curioso notar que, a acusação contra Madame Bovary, além da ausência total de arrependimento da adúltera, menciona a mistura de “imagens voluptuosas a elementos sagrados”, ou seja, é a escrita de Flaubert que incomoda o Ministério Público. A forma determina o conteúdo e o inverso é verdadeiro, dialeticamente. Ao pintar imagens voluptuosas e elementos sagrados com o mesmo brilhantismo e no mesmo quadro, o romancista igualou umas e outros, daí a raiva dos moralistas, como o promotor que vê no romance a “poesia do adultério”, mas secretamente escreve versos pornográficos. Desconfio que, mesmo que seguisse o conselho de Drummond e tentasse ser "docemente pornográfico", o promotor jamais seria capaz de transformar igrejas em gigantescas alcovas, como na escrita de Flaubert:


"León, a passos lentos, caminhava rente à parede. Nunca a vida lhe parecera tão boa. Ela chegaria dentro de pouco tempo, adorável, agitada, espiando atrás de si os olhares que a seguiam – e com seu vestido de folhos, seu lornhão dourado, suas botinas finas, com toda a elegância que ele ainda não saboreava e com a inefável sedução da virtude que sucumbe. A igreja, como uma gigantesca alcova, disporia-se em torno dela; as abóbodas inclinariam-se para recolher na sombra a confissão de seu amor; os vitrais resplandeceriam para iluminar seu rosto e os incensórios queimariam para que ela aparecesse como um anjo, no vapor dos perfumes."


Por fim a pergunta inicial. Por que Emma Bovary incomoda tanto? A resposta passa pela negação radical dela e pela escrita de Flaubert, como no trecho acima. Num quadro mecânico em que os objetos são personificados e os homens são coisificados, em igualdade de condições e de status, Emma Bovary se destaca, ela é demasiadamente humana num mundo absolutamente desumanizado: realiza desejos; frustra-se; tenta novamente; ama fora do casamento (“sem remorsos, sem inquietude, sem desassossego”); se rebela contra a condição de esposa e de mãe (“como essa criança é feia” – murmurou no leito, ao lado da filha que dormia); e, sobretudo: as coisas se submetem a ela, como a igreja, as abóbodas, os vitrais e os incensórios, no trecho citado acima. Quem vai “dominar essa mulher”? – pergunta o promotor Pinard em sua peça de acusação. A reposta é nada nem ninguém: nem o tempo, nem os tribunais, nem os moralistas, nem a condenação perpétua.