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KAIS -1

Estes parágrafos são o fechamento da série (Kais)  que publiquei. A série contém: 1 pequeno ensaio sobre a poética do haikai (prelúdio), 5 fotos, 5 haikais de minha autoria e 5 versões/traduções do haikai da rã, escrito por Bashô em 1686, e retrabalhados por poetas e tradutores de lá para cá. Todas as versões/traduções foram selecionadas na Revista Brasileira de Haicai - Caqui. Estes parágrafos nascidos como epílogo têm um quê de prelúdio, e se a explicação contraria o espírito do haikai, o movimento o caracteriza: partir, chegar, partir para chegar, chegar para partir, sempre.    

Haikai: movimento fotografado, poema curto que fotografa o movimento, em geral demarcando as estações do ano: folhas caindo, andorinhas dançando, o salto de uma rã e até um caramujo escalando o Monte Fuji. É o tal kigo (ki = estação, go = palavra), que demarca as estações com palavras. Nos haikais desta série: férias de verão, folhas secas, manhã de primavera. 

Como publiquei 5 haikais de minha autoria, resolvi selecionar 5 traduções/versões para o haikai da rã, de Bashô, porque dois dos meus poemas fazem referência ao mestre japonês, então, para homenagear e para contextualizar, selecionei 5 traduções/versões. Foi quando o espírito do haikai se impôs, como se o pequeno poema nascido no Japão fosse uma unidade inquebrantável, como se nem as palavras e nem sequer a ordem das palavras pudessem ser alteradas. Forçado a escolher, fiquei com os haikais mais enxutos e mais minimalistas, deixando de fora poetas como Caetano Veloso, Décio Pignatari, Estrela Ruiz Leminski, Guilherme de Almeida, Haroldo de Campos, Olga Savary, João Guimarães Rosa e até Manoel de Barros. 

Relendo a Antologia da Rã fiquei pensando se, na versão/tradução de Leminski, a rã salta dentro da lagoa ou se salta o som da água. Também fiquei pensando se o meu “sua rã salta dentro da gente” saiu a partir de “uma rã mergulha dentro de si”, de Jorge Braga, porque quando escrevi já tinha lido a antologia. Em outros carnavais aprendi que alguns versos nossos podem ser de terceiros: como um gato do vizinho caminhando no nosso quintal, como rãs saltando dentro da gente. Enfim, o certo é que as duas rãs em questão vêm de Bashô. Então, tranquilo. Quem quiser receber a série completa, em PDF, basta solicitar por e-mail enviando mensagem para jancenek68@gmail.com  

Espero que gostem. 


KAIS 1

Para Marx, os cientistas seriam desnecessários se houvesse correspondência imediata entre a aparência e a essência das coisas. O mesmo vale para arte, se o belo se oferecesse de imediato, os artistas seriam desnecessários. É, talvez, no haikai que esta verdade se coloca com mais força.

Nascido no Japão há mais de três séculos, o haikai é um poema curto que capta sutilezas do mundo: rã mergulhando no lago, caramujo escalando o Monte Fuji, gritos brancos dos patos no mar escuro. Para Octavio Paz, o haikai é o instante reconquistado.

É talvez por isso que o haikai conquistou não só instante, mas o Ocidente. Condenado a andar sempre na mesma direção e sem olhar para os lados, o homem ocidental priva-se das sutilezas do mundo. Isso para não falar dos homens contemporâneos, que vivem debruçados sobre telefones celulares, como gado pastando. O barulho dos motores sufocou o canto dos pássaros, os edifícios bloquearam o horizonte, a fumaça dos escapamentos substituiu os perfumes dos jardins, rios e córregos foram canalizados. Se é assim e contra a sua vontade, o haikai ganha ares de resistência, mas esta não é a essência daquele. 

Escrever haikais é fotografar o movimento: neblina cobrindo a serra, borboleta ziguezagueando, chuva tocando a terra seca. Sempre e sempre o movimento: primavera - verão - outono - inverno; menino - homem - velho; vento - nuvens - chuva - sol; vida - morte; e assim sucessivamente. A beleza que vem da leveza da transformação. Exemplo. Hattori Tohô (1657-1730)¹:

O ar tremeluz –
A areia sobre o rochedo
Vai caindo aos poucos.

Sinal dos tempos: há mais “poetas” do que leitores de poesia. É a grafomania: a mania de escrever livros. O pior não deve acontecer, mas se um dia a poesia vier a óbito, a causa da morte será a existência de milhões de “poetas” e nenhum leitor de poesia. E poetas está entre aspas porque não há poeta que não seja leitor de poesia. É preciso viver para a poesia – diria Drummond –, e isso significa inclusive e principalmente: ler poesia – acrescento eu.  

Nada mais avesso à essência do haikai do que a vontade de aparecer característica do tempo presente: grafomania, fotos fazendo biquinho, corpos rasurados por tatuagens. Tudo demasiadamente igual: mercadorias disputando espaço nas gôndolas. Contra a vontade de aparecer a arte de desaparecer? Mirek no Livro do Riso e do Esquecimento, de Milan Kundera? O Dr. Pasavento no romance homônimo de Enrique Vila-Matas?

Não para o haikai, que não quer nem aparecer nem desaparecer, quer se integrar: pé na terra, brisa no rosto, música do vento, viver e morrer. Escrever haikais é se refrescar numa nascente: não é o cais de que se parte, é o cais revelado entre o nevoeiro, descoberto na longa viagem, para onde se retorna, sempre. Os escritores costumam ir do conto ao romance, do menor ao maior; os poetas costumam ir do poema ao haikai, do maior para o menor. Não para desaparecer, mas para se integrar.

Desconfio dos poetas que não foram seduzidos pelo haikai. Talvez porque queiram mais aparecer do que se integrar. Talvez porque não sejam leitores de poesia. A questão não é se adequar a regras pré-estabelecida: métrica, rima e por aí vai. A questão é a precária possibilidade de fotografar o movimento com palavras: a pulsação da terra e a brisa da manhã, o perfume dos jardins e o mistério da noite, o curso dos dias e das estações, o tempo e sua passagem, a música do vento e a dança das águas, ondas quebrando no cais, a vida e a morte.         

NOTAS

1 Este e outro haicais podem ser encontrados em: Portal NippoBrasil



DIALÉTICA SINTÉTICA DA POÉTICA DRUMMONDIANA

Em sua procura da poesia, Drummond registra: “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”. O complemento é: “Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”

Deslocamento intrigante. A poesia não está no que pensas e sentes, mas sim em como expressas o que pensas e sentes, depende das palavras utilizadas. Questionamento inevitável. Sentimentos banais expressos com palavras e construções inusitadas podem compor poemas que “esperam ser escritos”? Talvez. Pode ser o caso da pedra no meio do caminho.

Voltando. Poemas podem nascer de parto normal: de acontecimentos, fatos e imagens. Mas as carnes e os ossos do poema são as palavras. Se estas não forem apropriadas, o poema será burocrático ou cartorial.

O poeta, com suas palavras e demais recursos, fecunda os acontecimentos, fatos e imagens. Nem a poesia pode prescindir do real, nem este é em si poético. A beleza do real é mais direta, com menos mediações.

Expressar algo em versos é poesia, ainda que não seja boa poesia, se não fosse assim não existiriam poemas ruins. Então, bom poeta é aquele que faz mediações (e não média) com as palavras.

A poesia não está em sentimentos, ideias, fatos e acontecimentos. A poesia está na forma de expressar sentimentos, ideias, fatos e acontecimentos. Forma pode ser conteúdo: palavras e construções que guiem por becos desconhecidos, uma pedra marchando para o meio do caminho.

Há poemas paridos a partir de palavras colhidas no reino das palavras. Pode ser tempo, fogo, ferro ou qualquer outra (as mais espessas, as minerais são preferíveis, diria João Cabral). Grávido de palavras, o poeta dá o poema à luz, ou à escuridão, que o importante é dar. A palavra é sempre a pedra no meio do caminho. Com a palavra pedra no meio do caminho, o poeta escreveu o poema No Meio do Caminho.

Por exemplo. Drummond apanha a palavra flor, que é portadora de forte carga poética e simbólica. Relaciona flor com outras palavras: concreto, asfalto, polícia e tráfego, que são suas antíteses. Trabalha como um artesão ou um jardineiro, modela palavras como se fossem vasos, ou plantas no vaso. O manuseio vai revelando sentidos ocultos que existem apenas como possibilidade e inquietação. O resultado final não é planejado com a antecedência e a precisão do artesão ou do jardineiro. Poesia é quando as palavras oferecem a outra face, que “cada uma tem mil faces secretas sobre a face neutra”.

Com Drummond, a flor nasce na rua, e ilude a polícia. É feia, antiparnasiana, mas é uma flor, e rompe o asfalto. O belo não está na flor, “sua cor não se percebe, suas pétalas não se abrem.” Como queria Mário de Andrade, o belo está na deformação do real: na flor furando o asfalto. Efeito que nasce do atrito das palavras, como o fogo nasce do atrito de gravetos. O poeta bate a flor no asfalto, até rompê-lo. O poema é anárquico, sem governo: uma explosão de possibilidades e inquietações. O poeta fecunda o real com seu material genético: precariamente, sem esperança e sem opção.


Postas no papel e atritadas as palavras percorrem veredas improváveis, fogem do controle, escapam como bicho solto na natureza. O sentido do poema não está colocado com antecedência e às vezes ultrapassa o próprio autor, se não fosse assim, seria inútil, mais do mesmo. O sentido do poema não está colocado definitivamente, que o tempo e a vida presente são a matéria do poeta, e as palavras “rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.” A poética drummondiana é anarquia e atrito.