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Sobre colaboradores e colaboracionistas (pequeno léxico do mundo corporativo)


Oswaldo Guayasamín: Las manos del terror


Capital: máquina de extrair mais valia. Dono da máquina de extrair mais valia: patrão. Patrão: o mesmo que proprietário, ou capitalista, aquele que come o pão sem o suor do próprio rosto. Estado: máquina totalmente sujeita à autoridade do capital. Cidadão: personificação do capital, se patrão; engrenagem do capital, se peão. Peão: aquele que anda a pé, ou de busão, ou em automóvel financiado em 48 parcelas. Peão: aquele que é forçado a labutar por e pelo patrão, aquele que come o pão que patrão amassou. Capital: aquilo que acarreta a morte, pena capital. Mais valia: riqueza produzida pelo peão e apropriada pelo patrão. Gestão: ato de gerir, ter gerência sobre, administrar, governar. Recursos: bens materiais, dinheiro, haveres, patrimônio, meios pecuniários. Empresa: negócio, empreendimento, sociedade organizada para extração do suor do rosto alheio. Departamento de recursos humanos: seção de uma empresa responsável pela gestão dos colaboradores. Colaborador: nome dado pelos patrões para os seus peões, palavra incorporada pelo jargão empresarial após a reestruturação ideológica. Colaborador: aquele que é gerido, que não tem gerência sobre si próprio, que é administrado, que é governado e que diz assim seja. Colaborador: aquele que colabora voluntariamente. Servo: aquele que não é livre, que não pertence a si mesmo. Peão do Estado: servidor, servidor público. Peão da iniciativa privada: servidor, servidor privado.

Aquele que não labora: patrão. Aquele que não co-labora: patrão. Labora pelo patrão voluntariamente: colaborador. Colabora e ora pelo patrão: colab-orador. Colaborador: ora para o capital, reza pelo patrão. Ação de colaborar voluntariamente: colaboração. Aquele que é forçado laborar para o patrão: servidor público ou servidor privado. Colabora com ação: colaboracionista. Colabora com nazista: colaboracionista. Colabora com fascista: colaboracionista. Colabora com o patrão: colaborador. Servidor público ou servidor privado que colabora voluntariamente com o patrão: colaboracionista, ou colaborador.

Colaborador. Colaboracionista. Colaborador. Colaboracionista. Colaborador. Colaboracionista. Colaborador. Colaboracionista. Colaborador. Colaboracionista.

JC

Confaburlando

Claude Oscar Monet:
A ponte de Waterloo (1903)
Um escritor pouco anterior ao nosso tempo registrou que só há um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Quem se mata afirma que a vida não vale a pena, e o contrário é verdadeiro. Do ponto de vista do indivíduo isolado é isso.
As coisas se complicam quando uns julgam os outros. O suicídio não costuma ser endossado: um “era isso mesmo que ele devia fazer” dito ao lado do caixão do morto. Em alguma medida, matar-se é condenar toda a vida, impondo um julgamento duro: viver não vale a pena. Nenhuma religião suporta esta crítica. Quem abre mão da vida recusa o criador, que não pode aceitar tamanha rebeldia. Não há remissão para o suicida. A ditadura da criação se impõe sobre a criatura. Desnecessário dizer que, se o criador legitimasse a autodestruição, o gesto definitivo perderia seu caráter subversivo, se inscreveria na ordem.
Imagino um filho enforcado na residência familiar, o cadáver suspenso é uma condenação coletiva. Todos ficarão marcados pelo ferro e pelo fogo do questionamento: “o que houve? Por que ele fez isso?” O morto leva consigo parte família. Criador e família não encaram o auto-extermínio de um filho da mesma maneira; a segunda se condena, o primeiro condena o filho.
Se a vida de um homem pudesse ser representada por um gráfico, ele se mataria quando a linha da felicidade fosse ultrapassada pelo sofrimento. Mas sabemos que a vida é escrita com linhas tortas, felicidade e sofrimento se alternando no tempo. O peso da decisão decorre da irrevogabilidade do gesto definitivo.
Num mundo essencialmente provisório, os gestos definitivos são carregados de beleza exatamente pelo contraste que estabelecem. Quem galopa voluntariamente no lombo da morte toma as rédeas do destino. Fixa um valor na negação que estabelece.
Se desarmado de metafísicas e reivindicações, o suicídio é um tapa na cara dos vivos. Ato afirmativo na destruição. Salto do topo do arco-íris, tão belo quanto provocativo.
JC

Confabulindo...

Ilustração de Zenilton
de Jesus Gayoso Miranda

  

Fim e começo. Rio e mar. Limite e horizonte. Passado, presente, futuro. Nem passado, nem presente, nem futuro. Amálgama. Encontro de forma e conteúdo. Não pode ser efêmero o que não é mensurável. O coito é o mais transcendente dos atos. Funde o sujeito no objeto e este naquele. Uterinamente. Prescinde das palavras. Estabelece comunicação pela pele, pela boca, pelo hálito, pelo sexo, pelos pêlos. Urubu se diluindo na noite escura. Fusão da parte no todo. Dissolução do todo na parte.


O poema nasce da interrupção do coito do homem com a vida. Do sentido ejaculado fora da realidade. Rio canalizado. Elo rompido. O poeta é um garimpeiro. Escava o absurdo em busca da unidade, e fracassa. Quer a comunicação total, mas está contido pelas palavras.