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Eu vinha triste e vi uma gaiola
pendurada na parede:
o canarinho saltava
de poleiro em poleiro.

Eu vinha triste e vi uma viatura
levando um homem algemado:
os olhos dele cantavam mágoas.

Eu ia triste para o escritório:
como um canarinho algemado.
O LIBERTÁRIO

Torcer ponteiros,
achatar relógios,
libertar as horas.
Amassar o tempo,
rechear o tempo,
meter a dor no tempo.
Viver. Viver.
Abolir o pecado,
revogar o paraíso,
anular a criação
e criar.
Engolir o sentido,
vomitar o sentido
e abandoná-lo.
No caos geral: viver.
Implodir barragens,
afogar o latifúndio.
Multiplicar a libido,
alongar a libido.
Apanhar a borra dos desejos
e tingir as coisas.
Sabotar o não,
tocar fogo no não.
Entre nada e tudo,
entre a chama e o tédio:
dinamitar a propriedade privada,
explodir a vida presente
e viver.



A FLOR E O SONHO

beija-flor
beija-pele
beijo à flor da pele

à flor da pele
pede crase
pede toque
pé de fruta

a pele da flor
pede pão
pede sol
pé de trigo

a flor de pele
pede sumo
pede seiva
pé de sonho


CAMPOS AMARELOS
(Para Sérgio Ferreira Pinto Júnior)

Cemitério de pobre tem poucas flores,
tem poucas cores,
tem túmulos parcos.

O sal da terra tempera a carne
dos corpos mortos
pregados no solo.

Cruz de pobre tem muita madeira,
muito tijolo,
muito cupim.

Cemitério de pobre tem tanto Silva,
tem tanta bala,
tem tanta dor.





SEXTETO DA FIDELIDADE

era tão fiel
mas tão fiel
que era fiel
até na punheta
que só batia
pra esposa
com o corpo cansado
e a marmita vazia
contra o capital
e a mais-valia
a exploração
e a carestia
entre o pó
e a poesia
o operário
parou a maquinaria


Canção para uma menina
QUE NASCEU NA PRIMAVERA

(Primeiro movimento: chuva)
Água escorre pelas escadas,
pelas calhas, pelas nuvens:
música das águas.

(Segundo movimento: sol e chuva)
O telhado brilha, a planta sua.
Gotas de luz, brisa vegetal:
dança das substâncias.

(Terceiro movimento: sol depois da chuva)
O pássaro canta, o cão espreguiça
e a garotinha corre pela grama:
na direção do arco-íris.



DOM CATURRO
(para Anna Capitolina Bovary)

Se o amor é o mar,
eu sou o náufrago.

Por isso
me parto,
me perco,
me afogo,
me mutilo,
me quebro,
me estropio.

Se o amor é o mar,
eu sou o náufrago.

Por isso
me jogo,
me atiro,
me arremesso,
me desembesto
na água salgada:
voluptuosamente!



RECEITA DE POEMA

Doure palavras cruas,
na gordura quente,
com cebola, alho, tomate.

Tempere a vida,
esta pasta informe,
compacta e branca.

Adicione cores:
verde maritaca,
amarelo canário-da-terra,
vermelho tiê-sangue,
preto black bloc.

Adicione cheiros:
gás lacrimogêneo,
perfume primaveril,
fragrância úmida de sexo humano.

Adicione imagens:
mãe amamentando,
homens se beijando,
pedra atirada na polícia.

Combine o timbre ritmado de cachoeira
ao gorjeio de ave silvestre e
ao borbulhar de assembleia operária.

Junte tudo num tacho de barro,
com água corrente de fonte,
e entorne com vigor proletário.



AQUELAS HORAS NO ARAÇÁ

Acontece quando os passarinhos estão escondidos,
antes de apontar o dia,
nos momentos em que as nuvens realçam a lua.

Os mortos saltam dos monumentos funerários
(também chamados jazigos)
Escolhem-se as esquadras
e rola a bola.
É o recreio dos finados,
a hora mais feliz.

Os dias se reduzem à espera
e à escolha dos esquemas
e posicionamentos.

As escolas se apresentam.
A retranca italiana é briosa
e joga no bote.
A ginga brasileira dribla as sepulturas,
dança e encanta.
Os platinos são elegantes,
avançam tabelando a bola nas árvores.

Prevalece a alegria
e poucos problemas,
salvo alguma vidraça quebrada.

Mas um moço chora,
e acompanha tudo com movimentos de pescoço.
É o menino Jesus,
crucificado sobre um sepulcro,
cristo não pode jogar.




FILHO


Meu filho que não veio
voa no vento

e suga o seio da noite,
em estado de ausência.

Procuro seu corpo,
que some no vácuo,

dissolvendo-se:
hipotético-dedutivo.

Meu filho que não veio
jaz no campo das possibilidades.



CONTINGÊNCIA DO PAULISTANO
para Carlos Drummond de Andrade

Oitenta por cento de borracha no chão.
Noventa por cento de fumaça no ar.
Cem por cento de concreto no cidadão.

Cimento sobre os córregos,
carros sobre avenidas,
viadutos sobre todos os outros
e gente abaixo destes.

No meio do caminho tinha um corpo,
tinha um corpo no meio do caminho.
Mas o homem atrás do terno passa apressado,
nem ligando.

É preciso abrir caminho,
a locomotiva vai passar,
precisa passar,
o carro precisa passar,
o edifício precisa subir.
São Paulo não pode parar.

Helicópteros entre as construções.
Gente entre carros.
Carros entre carros
(uma pessoa em cada carro)

Meu Deus! Pra que tanto carro?







KAIS -1

Estes parágrafos são o fechamento da série (Kais)  que publiquei. A série contém: 1 pequeno ensaio sobre a poética do haikai (prelúdio), 5 fotos, 5 haikais de minha autoria e 5 versões/traduções do haikai da rã, escrito por Bashô em 1686, e retrabalhados por poetas e tradutores de lá para cá. Todas as versões/traduções foram selecionadas na Revista Brasileira de Haicai - Caqui. Estes parágrafos nascidos como epílogo têm um quê de prelúdio, e se a explicação contraria o espírito do haikai, o movimento o caracteriza: partir, chegar, partir para chegar, chegar para partir, sempre.    

Haikai: movimento fotografado, poema curto que fotografa o movimento, em geral demarcando as estações do ano: folhas caindo, andorinhas dançando, o salto de uma rã e até um caramujo escalando o Monte Fuji. É o tal kigo (ki = estação, go = palavra), que demarca as estações com palavras. Nos haikais desta série: férias de verão, folhas secas, manhã de primavera. 

Como publiquei 5 haikais de minha autoria, resolvi selecionar 5 traduções/versões para o haikai da rã, de Bashô, porque dois dos meus poemas fazem referência ao mestre japonês, então, para homenagear e para contextualizar, selecionei 5 traduções/versões. Foi quando o espírito do haikai se impôs, como se o pequeno poema nascido no Japão fosse uma unidade inquebrantável, como se nem as palavras e nem sequer a ordem das palavras pudessem ser alteradas. Forçado a escolher, fiquei com os haikais mais enxutos e mais minimalistas, deixando de fora poetas como Caetano Veloso, Décio Pignatari, Estrela Ruiz Leminski, Guilherme de Almeida, Haroldo de Campos, Olga Savary, João Guimarães Rosa e até Manoel de Barros. 

Relendo a Antologia da Rã fiquei pensando se, na versão/tradução de Leminski, a rã salta dentro da lagoa ou se salta o som da água. Também fiquei pensando se o meu “sua rã salta dentro da gente” saiu a partir de “uma rã mergulha dentro de si”, de Jorge Braga, porque quando escrevi já tinha lido a antologia. Em outros carnavais aprendi que alguns versos nossos podem ser de terceiros: como um gato do vizinho caminhando no nosso quintal, como rãs saltando dentro da gente. Enfim, o certo é que as duas rãs em questão vêm de Bashô. Então, tranquilo. Quem quiser receber a série completa, em PDF, basta solicitar por e-mail enviando mensagem para jancenek68@gmail.com  

Espero que gostem. 


5 VERSÕES/TRADUÇÕES PARA 1 HAIKAI DE BASHÔ

Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água.
(Cecília Meirelles – Escolha o seu sonho, 1974)

O velho tanque -
Uma rã mergulha,
Barulho de água.
(Paulo Franchetti e Elza Doi – Haikai, 1990)

velha lagoa
o sapo salta
o som da água
(Paulo Leminski - Matsuo Bashô: A Lágrima do Peixe, 1983)

O velho tanque
uma rã mergulha
dentro de si.
(Jorge de Souza Braga – O gosto solitário do orvalho, 1986)

Nem grilo, grito, ou galope;
No silêncio imenso
Só uma rã mergulha - plóóp!
(Millôr Fernandes - Hai-kais, 1986)



KAIS 1

Para Marx, os cientistas seriam desnecessários se houvesse correspondência imediata entre a aparência e a essência das coisas. O mesmo vale para arte, se o belo se oferecesse de imediato, os artistas seriam desnecessários. É, talvez, no haikai que esta verdade se coloca com mais força.

Nascido no Japão há mais de três séculos, o haikai é um poema curto que capta sutilezas do mundo: rã mergulhando no lago, caramujo escalando o Monte Fuji, gritos brancos dos patos no mar escuro. Para Octavio Paz, o haikai é o instante reconquistado.

É talvez por isso que o haikai conquistou não só instante, mas o Ocidente. Condenado a andar sempre na mesma direção e sem olhar para os lados, o homem ocidental priva-se das sutilezas do mundo. Isso para não falar dos homens contemporâneos, que vivem debruçados sobre telefones celulares, como gado pastando. O barulho dos motores sufocou o canto dos pássaros, os edifícios bloquearam o horizonte, a fumaça dos escapamentos substituiu os perfumes dos jardins, rios e córregos foram canalizados. Se é assim e contra a sua vontade, o haikai ganha ares de resistência, mas esta não é a essência daquele. 

Escrever haikais é fotografar o movimento: neblina cobrindo a serra, borboleta ziguezagueando, chuva tocando a terra seca. Sempre e sempre o movimento: primavera - verão - outono - inverno; menino - homem - velho; vento - nuvens - chuva - sol; vida - morte; e assim sucessivamente. A beleza que vem da leveza da transformação. Exemplo. Hattori Tohô (1657-1730)¹:

O ar tremeluz –
A areia sobre o rochedo
Vai caindo aos poucos.

Sinal dos tempos: há mais “poetas” do que leitores de poesia. É a grafomania: a mania de escrever livros. O pior não deve acontecer, mas se um dia a poesia vier a óbito, a causa da morte será a existência de milhões de “poetas” e nenhum leitor de poesia. E poetas está entre aspas porque não há poeta que não seja leitor de poesia. É preciso viver para a poesia – diria Drummond –, e isso significa inclusive e principalmente: ler poesia – acrescento eu.  

Nada mais avesso à essência do haikai do que a vontade de aparecer característica do tempo presente: grafomania, fotos fazendo biquinho, corpos rasurados por tatuagens. Tudo demasiadamente igual: mercadorias disputando espaço nas gôndolas. Contra a vontade de aparecer a arte de desaparecer? Mirek no Livro do Riso e do Esquecimento, de Milan Kundera? O Dr. Pasavento no romance homônimo de Enrique Vila-Matas?

Não para o haikai, que não quer nem aparecer nem desaparecer, quer se integrar: pé na terra, brisa no rosto, música do vento, viver e morrer. Escrever haikais é se refrescar numa nascente: não é o cais de que se parte, é o cais revelado entre o nevoeiro, descoberto na longa viagem, para onde se retorna, sempre. Os escritores costumam ir do conto ao romance, do menor ao maior; os poetas costumam ir do poema ao haikai, do maior para o menor. Não para desaparecer, mas para se integrar.

Desconfio dos poetas que não foram seduzidos pelo haikai. Talvez porque queiram mais aparecer do que se integrar. Talvez porque não sejam leitores de poesia. A questão não é se adequar a regras pré-estabelecida: métrica, rima e por aí vai. A questão é a precária possibilidade de fotografar o movimento com palavras: a pulsação da terra e a brisa da manhã, o perfume dos jardins e o mistério da noite, o curso dos dias e das estações, o tempo e sua passagem, a música do vento e a dança das águas, ondas quebrando no cais, a vida e a morte.         

NOTAS

1 Este e outro haicais podem ser encontrados em: Portal NippoBrasil